19.11.16

A novela das passagens versão 2016

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

18.11.16

Quanto tempo é tempo?

Pra esquecer alguém, tocar em frente, começar uma história nova.
Mal faz duas semanas que Kafi, a gata com quem dividi apartamento pelo último ano e meio, trocou as Laranjeiras por um novo lar sem varanda mas com terraço na Tijuca. Ainda chego em casa procurando por ela, estranhando não ser acordada pelo seu miado de ‘deu, tu já dormiu demais, é hora de me alimentar’ nem cruzar/tropeçar em seu corpinho peludo pelo corredor.
Me consolava – e isso é errado, eu sei -, pensar numa Kafi com os olhos fixos na porta, achando que estava em um passeio mais longo que o normal, contando o tempo para voltar. Quem sabe assim ela não acabava voltando mesmo?
Mas eis que dona Ana avisa contente – em parte pelo alívio de já não ter quilos de pelos para aspirar pela casa, em parte por não ser na barriga dela que o bicho dormia longas siestas, ciumento dos livros que ousavam chamar mais atenção que o seu ronronado -, que Kafi ‘leva a vida que pediu a deus’, pulando de telhado em telhado e exercitando o lado selvagem que deixou marcas tanto nos meus braços quanto nas visitas desavidas que teimavam em confundi-la com uma gata qualquer.
Duas semanas, e viramos, eu, Daniel e Júnior, história.

17.11.16

Sobre Jonas e outros 8.000 e tantos

'No dia 1º de novembro um grupo de moradores da favela Chapéu Mangueira, na praia do Leme, na zona sul do Rio de Janeiro, desceu o morro arrastando num lençol ensanguentado o jovem Jonas, 20, baleado durante um tiroteio entre criminosos e policiais militares. Eles tentaram colocar Jonas no banco de trás de um carro de polícia; os policiais, assustados, arrancaram em alta velocidade, deixando-o caído no asfalto, a poucos metros da orla. Desesperados, os moradores atiraram pedras contra um ônibus que passava por ali até pará-lo, carregaram o jovem para dentro do coletivo e o levaram até o hospital municipal Rocha Faria, no bairro vizinho de Botafogo. Pouco depois de chegar a unidade, Jonas, baleado na cabeça, não resistiu aos ferimentos e morreu.'

Matéria inteirinha, acá.

16.11.16

A tal da menção honrosa




Começo do mês quebrei protocolos e tietei com gosto o Zuenir Ventura durante a entrega do prêmio Patrícia Acioli de direitos humanos. Tão legal quanto a plaquinha ali com a menção honrosa que vou levar pra dona Marlei no natal foi conhecer um dos jornalistas que leio e admiro desde antes mesmo pensar em pagar o aluguel e viver a vida escrevendo as histórias dos outros. 

A matéria que rendeu a tal da menção honrosa fala justo do aumento desproporcional de mortes de civis por policiais em são Gonçalo após o assassinato da juíza. E vida longa ao jornalismo nosso de todos os dias!

15.11.16

Aniversariantes novembrinos

Novembro calha de vir coalhada de aniversários de amigos do peito/irmãos/camaradas. Alguns deles com um dos melhores fatores para desenhos despretenciosos: barbas!
Algumas, no caso do Kauê, até com trancinhas.



Fica aqui o meu parabéns a canetinha, rabiscado entre um e outro intervalo do plantão. E viva o Rod e o nosso amigo K.!

9.11.16

The Trump Day

Sobre 2016, só consigo pensar que ainda temos 50 dias pela frente e Alah only knows o que pode acontecer ainda.

4.11.16

Vai ter natal, sim senhora

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

29.10.16

O que o subúrbio carioca quer?

Eleição aí, tal e coisa, coisa e tal, ado, ado, cada um na sua pracinha, mas fato é que quem vai decidir esse pleito é o pedaço da cidade que costuma escapar aos jornais. Mas o que o subúrbio carioca quer? 




(Fernando Maia/UOL)

Ao longo dos trilhos de trem que cortam ao meio o Rio de Janeiro a partir da Central do Brasil, no centro, até as bordas da capital fluminense, corre uma cidade que foge do cartão postal e que será, junto aos seus mais de 4,1 milhões de moradores –cerca de 65,5% da população do município, de acordo com o Instituto Pereira Passos--, o fiel da balança destas eleições.

O subúrbio carioca, que inclui a zona norte e parte da zona oeste, tem memórias e queixas comuns: transporte, saneamento básico, lazer, segurança pública e saúde são questões longe de serem resolvidas.

"São as áreas da cidade que mais demandam direitos públicos", diz o historiador e professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Rafael Santos.

O próprio conceito de subúrbio, diz Santos, passa por uma disputa de representação --recentemente, um vereador apresentou um projeto de lei propondo transformar a região da Barra da Tijuca e do Recreio em "zona oeste-sul", dessassociando-a do restante da região oeste. "A cidade é mutante, as nomenclaturas que estabelecemos são políticas", diz.

Lar da Portela, dos bate-bolas, do viaduto de Madureira e de outras tantas manifestações culturais tipicamente cariocas, essa região esquecida é, de acordo com seus moradores, deixada de lado entre as prioridades da cidade, voltadas mais para a zona sul e o centro. Mas o que o subúrbio carioca quer?

A matéria inteira, bonita, com os trilhos passando e o lindo vídeo da Taís Vilela, acá.

28.10.16

Nível de transmissão de pensamento entre irmãos

Termino um livro, surto com o livro, resolvo que coisas como comprar comida e lavar roupa são menos importantes que ler o livro, e penso, 'caramba, CARAMBA, preciso levar esse livro pra Caroline ler na próxima vez que eu for pra casa'. Dois dias depois, Bianchi Jr. telefona. "Tu PRECISA ler o livro que eu terminei de ler agora!". O que são 2 mil quilômetros pra quem nasceu do mesmo umbigo, ein?

19.10.16

Os 30 da Cris


Formato presente post it (ou, o começo da nova década que vai longe).
E fica também como desejo geral para os amigos, antes, durante e depois dos famigerados 30.

13.10.16

O verão que não vem

O calor, o calorzão, aquela sensação de que o Saara deve ser mais fresquinho que o verão carioca traz de brinde zero me fazem falta. Agora a leveza das noites de verão, poxa, dessas ai eu tô saudosa.

21.9.16

Metas literárias

Acabo de acrescentar o Budapeste, do Chico, aos livros lidos, e sacar que será difícil bater a meta dos dois por mês. Mas,né, nós não vamos colocar uma meta. Nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta.

15.9.16

América latina carioca

E tem esses dias em que o centro do Rio é também a América Latina inteira. Como quando sobe o cheiro das goiabas vendidas em carrinhos de mão, cortadas ao meio num ziquezague cuidadoso, e cruza com o cheiro de bolo de milho, de aipim, do pastel chinês da esquina, da poeira, do lixo, do suor e do calor de fim de inverno que faria ruborizar setembros mais ao sul. E passa uma negra linda, e grande, e gorda, de cabelo comprido trançado com fios roxos, calça estampada, tomara que caia e tatuagem do Piu Piu no ombro, e solta uma gargalhada larga e cutuca um apontador de jogo do bixo sentado num banquinho no resto de sombra que foge junto com os últimos minutos da manhã. E “que lindos são seus olhos”, grita um menino que distribui panfletos que prefere não entregar. “Melhor não, não são para moças”. E os alto-falantes ecoam praça afora o som de flautas tocadas por índios equatorianos fantasiados de indios americanos enquanto um morador de rua assiste confortavelmente sentado no chão um show de pagode qualquer que passa por acaso numa banca de jornal, que de jornal já quase não tem nada, ao lado de um vendedor mais interessando em brincar com os arremedos de pipa que oferece do que com os clientes em si. E podia ser Salvador, Cartagena, Havana, mas é só a Uruguaiana, é só a Carioca.

12.9.16

29 quase primaveras

Passo uma boa hora e meia remando uma água com gás e lendo preguiçosamente trechos da pilha de livros que recolhi com gosto pela livraria. Decido pelo bem dos meus fundos levar só um e pergunto pra moça do caixa se há desconto para aniversariantes. Ela diz, sem graça, que não e começa a embalar com capricho o livro para presente. Digo que não precisa, ela retruca. “Mas esse não é um presente de você para você mesma?”. 

31.8.16

E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladímir Maiakóvski
*Citado pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de despedida nesta triste, triste, quarta-feira de cinzas da democracia em mais um agosto que entrada para a história marcado de luto.

9.8.16

O transporte carioca e as suas peculiaridades

O ônibus pode tanto te ignorar no ponto fazendo polichinelo pra garantir espaço no campo visual do motorista quanto estacionar fora dele e esperar tranquilamente a sinaleira abrir pra ti embarcar (para o rancor dos outros passageiros).

Sabe q eu tava aqui elaborando uma teoria sobre a relação busão/motora/passageiro. A questão, acredito, é ver os motoristas apenas como meros condutores de um veículo a serviço público. O motorista de ônibus no Rio não é um simples motora, ele é o piloto (como tu bem pontuou, Carol), o dono da bola. Uma vez ao volante, não se prende a questão pueris como respeitar regras de trânsito ou mesmo o trajeto da linha. Rola quase uma transcendência. a gente se entrega por livre e espontânea vontade as decisões dessa pessoa, que podem tanto passar por cantar Kid Abelha a plenos pulmões (imagina isso em Porto, SP?), quanto 'dar um dez' pra fazer um lanche e bater um papo numa esquina qualquer enuqanto geral espera pacientemente (o que não deixa de ser libertador nesses tempos decisões all the time). Já corri atrás de ônibus e bati boca por conta da velocidade e de velhinhos deixados a ver navios no ponto, já vi passageiro reclamar aos berros que o motorista estava querendo agradar a chefia ao parar em todos os pontos e andar de acordo com o permitido pela lei, mas também já vi o cara parar pra me embarcar por trás em outra linha no meio do caminho quando comentei que tinha pegado o ônibus errado e me liberar a catraca numa manhã atrasada em que deixei a cabeça e a carteira em casa. Por essas e por outras que nenhum lugar é capaz de igualar essa cidade.
"É a função do poeta: nomear o inominável, apontar as fraudes, tomar partido, despertar discussões, dar forma ao mundo e impedir que adormeça" (Salman Rushdie)

20.7.16

No consultório, um velhinho gaiato me deseja “bom castigo”, frente ao atraso de uma hora e lá vai pancada que me aguardava. Na pauta, um homem mostra as mãos machucadas, com os nós sangrando. Diz que o dono do morro fez questão de lhe dar uma lição depois que o companheiro foi reclamar que eles haviam brigado. Na redação, ligo pra uma fonte, para confirmar uma entrevista. Ela diz que não pode falar, insisto. “Não posso falar agora, uma amiga acaba de falecer na minha frente.” É um mundo cão. Um cotidiano cão. E a gente já nem tem grito pra prender.

27.6.16

Sabedoria do velhinho acupunturista que me deixou com um terceiro olho em formato de agulha no meio da testa:

“Na vida, a gente se preocupa com um dia por vez. Hoje você se preocupa com hoje. Amanhã com amanhã."

18.6.16

As histórias do pai

Meu pai, meu herói, meu maior leitor (junto com a sra Dona Marlei e minhas tias), veio feliz comentar a história do seu Geraldo, o taxista (estão todos pura revolução digital desde que um tablet entrou porta adentro lá de casa). Animado, disse que eu tinha era que escrever sobre a minha infância com Bianchi jr. e lembrou dois, três casos que ganharam estrelinha no anedotário familiar. Como a vez que atravessamos a cidade com o alarme do carro ligado, abrindo caminho entre as movimentadas avenidas de Caxias do Sul, porque chegar na escola no horário era mais importante que qualquer conserto, ou o fim de tarde em que eu quis ver o pôr-do-sol nas montanhas de uma cidade vizinha e, ao voltar, a luz da camionete sumiu, nos fazendo correr as curvas da BR-116 no escuro, só com o pisca-alerta ligado, grudando em cada carro que aparecia para aproveitar os faróis alheios e assustando os motoristas que cortavam o país mais pro Chuí que por Oiapoque. “Ainda sento pra escrever um livro só com as tuas histórias, pai”, retruquei. “As nossas”, ele contestou. O que boa parte de vocês aí não sabem é que eu me chamo Paula Bianchi por conta do Paulo Bianchi e que só sou eu porque cresci com ele ao meu lado.   

17.6.16

Era uma vez, Laranjeiras

“Você não era nem nascida e eu já morava nesse prédio”, diz o taxista, saudoso, logo que entro no carro, em frente de casa. Pergunto quando ele morou por aqui, ele diz que lá por 1986, 7. Faço algum comentário do tipo, ‘poxa, quase 30 anos’ e reclamo que falta um bar e um mercadinho. Ele lembra que tinha um boteco do outro lado da calçada. Volto para as minhas anotações pré-pauta, ele manobra. Seguimos umas quadras em silêncio. Já quase fora de Laranjeiras ele continua. “Vi o 492 e corri para pegar a corrida. Uma vez por ano cai alguma coisa pra cá ou pra rua.” Comento que é mesmo um lugar muito legal, ele diz que hoje vive em Olaria, na zona norte. Pergunto por que ele deixou o bairro. “Porque ela foi embora”. Fico eu em silêncio dessa vez. “Foi fazer doutorado em Londres. A gente era noivo. Consegui um emprego com um amigo em Lisboa. De trem a gente se arranja, né? Uma semana antes de mudar para lá, meu amigo bateu na minha porta dizendo que tinha brigado com o sócio e que ia ficar de vez no Brasil. Eu sem falar inglês não era capaz nem de trabalhar de garçom na Inglaterra... Ficamos namorando por carta, por telefone. Naquele tempo não tinha a facilidade de comunicação que tem hoje. A minha conta vinha que era um livro. Até que o amor não aguentou. Ela casou com um belga. Eu arrumei uma companheira. É duro um amor dar conta de tanto tempo, tanta distância.” A corrida se encaminha para o fim, pergunto o nome dele. Geraldo. Preencho o voucher e agradeço, ele sorri e me deseja um bom dia e boa sorte. 

16.6.16

Com vocês, Sílvia Pérez

Deixa eu agradecer aqui a Portugal e aos amigos que fiz por lá por terem me apresentado essa espanhola sensacional. E viva o alantejo e suas estrelas sem fim.

When I was a child
I thought I'd
when I were thirty I could be a men
with a family and a dog at home
It was a dream
I am to say child but worse
I'm a dog with no home



15.6.16

Sobre Borges

Pra não deixar de marcar aqui os 30 anos e um dia da morte do grande Jorge Luis Borges.


E um bônus track com áudios inéditos dele aqui, num especial do Clarín.

14.6.16

Precisamos falar sobre a cultura do estupro

Cabou que o fim de maio foi marcado pela notícia terrível de um estupro coletivo aqui no Rio de Janeiro envolvendo uma menina de 16 anos. A parte todo o horror da coisa, cresceu pelas redes, jornais e afins um debate até então mais restrito a grupos feministas: a necessidade de falar da cultura de estupro. Contribuindo pro debate, toquei com umas amigas um Mangiare e rabisquei uma matéria em cima de uma conversa com duas pesquisadoras que manjam muito mais do que eu do assunto. Para nã deixar isso passar em branco também aqui pelo Palim, segue o link, no esquema de sempre.

Análise: sociedade não se vê em cultura do estupro, mas condena mulher por sexo


  • Manifestantes se reúnem na avenida Paulista, em São Paulo, e participam do ato "Por todas Elas", contra a cultura do estupro e a violência praticada contra as mulheres

O delegado que pergunta para a vítima de estupro se ela tinha o hábito de praticar "sexo em grupo", como ocorreu no caso da adolescente de 16 anos estuprada noRio de Janeiro, e a pessoa que lê uma notícia de abuso e pensa que a vítima "pediu para isso acontecer" ao tomar determinadas decisões fazem, para a antropóloga Alba Zaluar, parte de uma mesma cultura que culpa a mulher por fazer sexo.
"Quando você pergunta se a pessoa fazia sexo grupal é o mesmo que perguntar: 'você é uma piranha?'", diz Alba, referindo-se à conduta do delegado Alessandro Thiers, titular da DRCI (Delegacia de Repressão aos Crimes de Informação), afastado no domingo (29) da investigação do caso de estupro coletivo. "Tem toda uma condenação moral para as mulheres que dão, o que não existe para os homens", afirma.

25.4.16

Escrevo na varanda, fim da tarde. Kafi deitada na cesta ao lado, o céu a mudar de tom devagarinho. A favela se enche de luzes. O calor dá uma trégua de leve. É uma vida temporária - não sei quanto tempo eu duro no Rio, duramos nós três no apê -, é uma vida boa.

18.4.16

17 de abril de 2016

Domingo de sol em Copacabana. Família brasileira unida. Pais, filhos e avós de verde amarelo, com a bandeira do Brasil nas costas e a camisa da seleção. Cerveja e caipirinha correndo soltas. Teve até quem trouxesse cadeiras de praia para não perder um minuto da votação em Brasília transmitida em três telões instalados à beira-mar. Passa um ambulante com um adesivo da CUT no isopor, alguém com uma camisa do Vem pra rua começa a xingá-lo, até que o homem, constrangido, arranca o adesivo. O baile segue. Cada vez que uma deputada se posicionava contra o impeachment, o povo urrava, “vadia”, “filha da puta”. Quando era um deputado que dizia não, os xingamentos mudavam um pouco. “Traidor”, “vagabundo”. As crianças gritando junto, imitando os pais. Outro ambulante passa, diz algo sobre vermelho, não consigo ouvir. Cinco homens com a camisa da CBF correm atrás dele e começam a chutá-lo. Ele cai no chão, tenta se defender. A alguns passos de distância, um PM come um milho, sem se mover. Corro até ele, pergunto se não vai fazer nada. O policial diz que o ambulante “merece” e dá mais uma dentada no milho. Cai a noite. Um certo deputado justifica o voto citando o coronel Ustra, apontado pelo Ministério Público Federal como torturador do DOI-CODI. A multidão entra em êxtase. Entrevisto uma senhora de idade, que veio ao ato com as duas netas. Ela sorri. “Estou aqui pelo Brasil."

7.4.16

Diário de uma pitangueira

Está brava plantinha nasceu em Caxias do Sul e depois de viajar de ônibus até Porto Alegre e de avião até o Rio de Janeiro fixou residência na varanda cá do apê no mui valoroso bairro das Laranjeiras. Essas duas folhas mais novinhas já podem se dizer cariocas e o plano é que a moça cresça e apareça, incrementando os planos de lar-pomar. Próximos capítulos neste mesmo batblog em god only knows que bathorário.

Um choro e um cheiro pelos 20 anos

Uma vez, em algum lugar da Bolívia, sentei para jantar com um fotógrafo brasileiro e um escritor chileno que conheci nas andanças dessa que foi minha primeira grande viagem solita. Tinha 21, 22 (?) anos, toda aquela sede de mundo, e prôpus um brinde a estarmos ali juntos, até hoje uma das minhas formas favoritas de celebrar encontros. Estávamos num local muito simples, mas com uma comida sensacional, conhecido como ‘agachados’ ou algo assim, por ser em tese frequentado às escondidas pela aristocracia local da imponente Santa Cruz de la Sierra. O fotógrafo parou meu brinde no meio e corrigiu, “Vamos brindar a tua juventude”. O escritor concordou. “O que eu não daria para ter 20 anos e todas as possibilidades pela frente outra vez”. E o brinde engatou numa série de casos dos dois correndo a América Latina com direito até a uma filha gaúcha do chileno no meio da história. À época, eu ri e não dei muita bola. Esses dias lembrei dessa história e a frase bateu. Vejo E lá se vão os 20 anos fazendo a curva.

29.3.16

As aspas, o contexto e o detalhe

Desde a faculdade, sempre me diverti com essa análise de conteúdo informal entre o que nós, como jornalistas, acabamos publicando. Tem muita coisa que é pura coincidência, muita coisa escrita em cima do laço do fechamento e muita coisa que é detalhe mas não é tão detalhe assim. 

Atrás de declarações da ministra Carmem Lúcia me deparei com duas matérias diferentes sobre uma mesma fala dela em um evento público na semana passada. Em uma delas, a ministra era categórica já no título: “impeachment não é golpe”. Na outra, também no título, ela dizia, “impeachment não é golpe se a Constituição for respeitada”.

Olha a aspa completa da Carmem, quando questionada sobre declarações da presidente feitas também na semana passada: "Não ouvi [o discurso], mas tenho certeza que a presidente deve ter dito que, se não se cumprir a Constituição, poderia haver algum problema. Não acredito que ela tenha dito que impeachment é golpe porque ele é previsto na Constituição. O que não pode acontecer é que não se observe as regras constitucionais.”


Num texto essa aspa toda aparece já no segundo parágrafo. Noutro, no pé -- jargão pra fim da matéria. Os dois estão corretos e tal, mas o amigo contexto. Bem, esse fica no detalhe.

25.3.16

Colagens de aniversário

Você aí sabem que eu bem curto rabiscar - na adolescência, passava horas fazendo colagens mil no computador e anualmente me divertia inventando papéis de parede de aniversário pra miss Bianchi Jr. Posto que mais do que crise o que pega é fim do mês e há muitos amigos arianos no mundo, ontem parei uns minutos pra desejar parabéns para uma amiga com alguns traços. Fica aqui um pedaço do desenho e desejos gerais porque acho que ele ficou bacana e tamo aí vivendo.