22.10.17

A carteira que o sábado levou

Perdi minha carteira pela madrugada do sábado (ou para a madrugada, vá lá), e me peguei pensando que para além da dor de cabeça de correr atrás de todas aquelas pequenezas que não valem nada para quem porventura tenha tirado ela da minha bolsa – carteira de motorista, do plano o santo VR --, o que me dói mais é perder o repositório sentimental que andava comigo para cima e para baixo pela cidade. Não tenho nenhum argumento para justificar o porquê de ainda ter a carteirinha da UFRGS junto com tickets de trem de algum passado mochileiro. Mas era bom saber que aquele banco de fotos 3x4 sofríveis de um eu de 14, 17, 23 anos e por aí vai, as moedas de outros países que, em tese, um dia eu iria guardar num lugar decente que ficavam atrapalhando o troco do busão, um que outro trecho de livro copiado às pressas para resistir à fugacidade da memória e até uma pedrinha bonita, que, bem, era uma pedrinha bonita, estavam ali. Fico até com pena do ladrão. Tudo isso e míseros 2 golpinhos. Deve ter ficado mais decepcionado que eu (e, sim, era desaconselhavelmente bem mais pesada o que uma carteira deveria ser).

4.10.17

Terminei Grande Sertão - Veredas

Embora o sertão nunca termine.
E agora, o que fazer quando a gente encerra um dos melhores se não o melhor livro que já leu?

28.9.17

30 anos e autora publicada

O bacana de ser jornalista é ganhar um espécie de salvo-conduto para sair por aí escrevendo as histórias dos outros. Mas a verdade verdadeira é que só entrei nessa porque gostava demais era de ler as histórias todas, de ficção ou não, que me acompanharam desde pequena.

Fico mais tímida de entrar nessa sem essa desculpa, mas junto com a década nova (oi 30 :)) setembro inugurou também o ter pela primeira vez um conto conto publicado. 

Foi aquele texto, tia Virgínia, que já saiu por aqui.

Fica aqui o link pra essa revista bonita, a Escriva, com mais umas quantas histórias boas de ler de um punhado de gente arricando também umas linhas próprias. Como lembrou uma amiga, perfeitas ou não, só vivem as histórias que deixam as gavetas.

27.9.17

Viver é perigoso

Estava num barco, parte de um longo caminho de volta à rotina, ocupada em guardar na memória o rio com cara de mar cercado de manguezais que me separava do continente, quando um homem decidiu me contar a história da sua vida - ignorando minha cara de paisagem. Embasbacada com a paisagem, no caso. Amor, desamor, amor. Tinha um passaporte tinindo de novo na guaica para uma viagem para a Itália com a agora ex-namorada de lá que já não ia mais fazer e um coração partido após ser abandonado no meio de uma ilha. Justificou-se. "É que eu vi você sentada sozinha lendo e rindo, esperando o barco." Pensei com meus botões, sozinha quem cara pálida, se estávamos eu e Riobaldo em pleno sertão? "Viver é perigoso", respondi à guisa de consolo e voltei para as Gerais.

7.8.17

Rotinas


Aos poucos os dias vão ganhando contorno de rotina. E a rotina, tão maldita, tem sua beleza.
O acordar, passar o café também para o amigo enquanto esquenta a água do chá. Ler o jornal (ainda que não mais no papel) comentando amenidades, seriedades, todo o rol de assuntos que brotam na gente pela manhã.
Chegar à redação perto da hora do almoço sempre correndo, porque o quase atraso também ficou rotineiro. "Bom dia, pessoal, bom dia". As 8h, 9h, 10h frente ao PC e o quiçá mais aparecer.
A volta para casa de ônibus, às vezes metro. O mercado apressado. A falta da Kafi. Algum filme, um livro, a rede. O sono que leva até a cama para recomeçar amanhã tudo de novo.

31.7.17

Grande Sertão Veredas: a leitura

Fato é. A vida é curta, o tempo ruge, os 30 se aproximam com velocidade e nunca li Grande Sertão Veredas.
O livro me olha da estante faz anos. Folheio, começo, começo outro livro qualquer e a vida segue deixando Riobaldo e Diadorim para depois.
Como é bom traçar objetivos, venho por meio desta me lançar o desafio pessoal de terminal a turma de neologismos de Guimarães Rosa até o final do ano. Ou não me chamo Joaquina.
Quem viver, verá (ou me lerá reclamando por aqui).

24.7.17

Desassossego


Tem um trecho de um livro para-crianças-e-ainda-mais-para-adultos do Valter Hugo Mãe em que a narradora, uma menina, diz, “sofro de um problema de desassossego. Não sei estar sossegada”. 

Nesses dias que me vem um banzo não sei bem de ontem – pelo futuro, pelo passado? A ansiedade como modo de vida --, a frase fica pairando em mim. Estar sossegada, pois. Não sou capaz.


3.7.17

Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato
(Ana Martins Marques, in "O livro das semelhanças")

8.3.17

A Val e o desapego

Fica aqui meu pequeno agradecimento a Val que impede que a minha mesa na redação se torne um iglu de papel e jornal (e que, de quebra, me lembra da efemeridade do papel impresso, do que escrevi hoje e será ignorado amanhã ou mais tardar semana que vem, da vida). Toda a manhã, suspeito que propositalmente antes de eu trazer meu corpinho para o trabalho, ela confisca as folhas do que vê como passado e, em troca, deixa um amontoado de novas velhas notícias fresquinho, num exercício que com frequência me obrigada a um rancoroso desapego. Afinal, por que raios eu ia querer consultar uma reportagem da semana retrasada?

22.2.17

Fast food à moda antiga

Sento pra bater uma matéria, tomar um café e filar alguma internet. Por indicação do Mauro, acabamos na Leiteira Carioca. O cardápio tem mingau e não tem vergonha de oferecê-lo mesmo com o relógio marcando 16h. Na parede, um quadro com uma página de jornal já amarelada lembra glórias passadas. A manchete: 'Lanches rápidos, e a vida segue'.

25.1.17

Sobre 2016, para 2017

2016 quase fazendo a curva e uma alvorada mineira pra deixar saudade

Faz uns anos que uns dias antes da virada ou um que outro depois, sento por aqui, faço algum balanço do ano que passou e na medida das expectativas, que também variam com as viradas de folhinha no calendário, traço planos.

Eis que chegamos a 2016, ou ao fim dele, e a minha necessidade de que esse ano terminasse era tão grande que estava mais fácil ficar agachada debaixo da cama gritando ‘vem disco voador’ em posição fetal do que querer refletir sobre o que passou.

Então borá traças estas linhas antes que se encerre também o primeiro mês do ano.

Para ser justa, até tentei um ano novo no fim de julho, com direito a espumante e tudo, para ver se o tal do 2016 B vinha mais leve, má che, como diria a minha colônia querida, o ano seguiu – e tomo a liberdade de colocar de usar o plural aqui -, nos patrolando.

A imagem que me vem à mente quando penso nos últimos doze meses, embalada pelo calor e leveza desses primeiros 25 dias de 2017 -- ainda tão coalhados de notícias terríveis quanto seu antecessor --, é a de lutar, com mais ou menos forças, para não submergir. E ainda assim engolir água para caramba e passar boa parte do tempo desnorteada.

Em 2016, penso, envelheci.

Os cabelos brancos, antes raros, se não abundantes, ganharam espaço cativo. Lado esquerdo do cocoruto, meiuca da cabeça, ainda escondidos por uma boa porção de mechas castanho-alouradas-despentedas, mas ali, à espreita.

Tento lembrar de 2015. Não sou capaz. Tudo me parece tão, mas tão longe. Quantos anos vivemos nesses 366 malfadados dias?

Claro, a situação se agrava por conta da síndrome de Estocolmo que é o jornalismo, que nos obriga não apenas a ser testemunha dos fatos, mas a narrá-los, enxerta-los de informações não necessariamente necessárias, e agarrar com força, ainda que muitas vezes sem fôlego, a próxima tragédia.

Ainda assim, acho que o caos foi geral. Como bem disse a Caro, entre janeiro e dezembro ‘a bruxa estava solta’. E tudo leva a crer que só terminamos a mala onda que nos trouxe até aqui em 2018.

Encerrei esse turbilhão no meio do mato, cercada de amigos, acordando e dormindo com uma represa de águas claras e mornas a poucos passos -- me pareceu a versão mais agradável do tal ficar em posição fetal esperando o fim. E foi bom. Se não apagou 2016, resetou boa parte da amargura que me tomava (sdds MG).

(Até escrevi uma carta de intenções, sem grandes ambições, para ver se, de alguma forma, eu procurar ser uma pessoa melhor para o ano que vem aí ao invés de apenas esperar que ele não seja tão dramático ajuda um pouquinho.)

Não há como pedir que 2017 venha assim, facinho e sem ondas – viesse também, talvez me entediasse --, e tampouco é assim que as coisas se desenham, então peço apenas que pelos próximos 11 meses eu tenha a serenidade e a força necessárias para encarar as ondas que aparecerem, mergulhar fundo antes da rebentação e sair nadando, não cuspindo água e quase me afogando, dessa história toda.

Alguma matemática

O plano era passar 2016 tendo ao menos mais 24 livros na lista dos lidos. Posto que 2016 foi, bem, 2016 -- como lidar com esse ano? Como entendê-lo? Como viver depois dele -, terminamos em 18. Matemáticas a parte, me incomoda não ter riscado os dois por mês a que me propus, mas, já citei 2016?, também não ficamos em recuperação.
Pra esse ano, a gente não vai traçar meta. Mas quando chegar na meta, dobra a meta.

20.1.17

Tia Virgínia

E tinham as histórias da família, contadas quase como lendas, nos momentos de descontração e chimarrão. Serviam para rir e também pontuar algum desafeto, temperado pelos laços de sangue que tão bem explicavam os Bianchi.

A tia Virginia, contava o pai, começava a enlouquecer “assim que as folhas começavam a cair”. Por um tempo, deu para ligar lá para casa duas, três vezes por dia. Eram telefonemas longos, azar de quem os atendesse, em que passava 40 minutos, uma hora, discorrendo sobre as dores reais e imaginárias que sentia e fofocando de parentes distantes que entravam e saiam do léxico familiar assim que ela desligava.

A ordem era dizer sempre que o pai não estava ou estava no banho ou não podia falar. Foi também por conta dela que a casa ganhou uma bina, evitando o desconforto de ter que espera-la cansar de falar ou desconversar para cortar a ligação.

Uma vez, num rompante de impaciência e sinceridade após um longo inverno de ligações indigestas, minha irmã disse que não queria falar com ela pois ela só sabia falar mal dos outros. A velha, revoltada, espalhou pelo bairro que havia sido destratada e foi com seus 80 e tantos anos até a padaria da mãe reclamar pessoalmente.

Diz o pai que a tia Virginia passou meia vida dormindo com um facão debaixo do travesseiro para espantar o marido, que tinha como o capeta. Para falar bem a verdade, lembro do homem apenas como um velho mirrado cheirando a mijo, como tantos outros velhos, e das paredes bege daquela casa que eu odiava visitar e que parecia nos consumir tal qual um buraco negro conforme as horas passavam e o café da tarde se tornava jantar.

E havia também as noites em que tia Virginia decidia que estava morrendo. No começo, ligava para os quatro filhos que acudiam apavorados para encontrar a mãe sadia e indignada com a demora na cozinha da casa, que tinha como principal decoração um enorme quadro já meio esverdeado pelo tempo com um Jesus Cristo caucasiano, de ar bondoso e olhos azuis.

Com o tempo, eles também pararam de atender e ela deu para chamar a ambulância do plano de saúde. Ligava e já ia logo para a cozinha. Recebia os médicos com a mesa posta, com todas as gostosuras que seu passado de descendente de italianos e mãe de quatro marmanjos a fizeram aprender, e o café quentinho.

“Tão tarde, vocês devem estar com fome”, dizia aos jovens médicos. Um parente do outro lado da família que trabalhou um tempo como plantonista na madrugada dizia que ele e os colegas adoravam atender os chamados da velha, que já associavam a mesa farta e ao lanche, quase um recreio durante o trabalho.

Passou o tempo, deixei a Serra e perdi parte das histórias – com poucos dias em casa, é difícil que o pai escolha comentar justo sobre essa tia tão peculiar. Mas ao menos duas vezes por ano a mãe conta que eles estão indo ao hospital ou a casa dela fazer uma visita, porque parece que agora é sério, a velha está para morrer.

17.1.17

Sobre Sísifo nos anos 10

"se [Sísifo] vivesse agora, saberia demais a respeito da pedra, da montanha e de si mesmo para se entregar eternamente ao absurdo de sua tarefa”. “Saberia demais sobre a tarefa em si. Teria a ciência e a tecnologia. Teria a história dos últimos dois mil anos e a nuvem de informação. Teria a superpopulação de Sísifos, o multiverso dos Sísifos. Se fosse uma cria de nosso tempo, Sísifo leria O mito de Sísifo. Chegaria ao ponto em que não entenderia mais nada, nem mesmo a liberdade que conseguira encontrar em seu castigo.
O que ele pensaria se seu heroísmo absurdo aparecesse na forma de zonas coloridas em imagens de ressonância magnética do cérebro, feitas em laboratórios de neurociência? O que restaria de sua rebeldia em meio a considerações sobre gasto calórico e explicações evolucionistas para juízo moral do ser humano? Nem nos deuses ele poderia seguir acreditando”.
Trecho do Meia noite e vinte, do Daniel Galera

11.1.17

Passando rapidinho só pra guardar uma citação que ganhei de um amigo, do Julio Ramón Ribeyro

"A única maneira de continuar vivendo é manter serena a corda de nosso espírito, tenso o arco, apontando em direção ao futuro".

3.1.17

Zuck e os likes

Passei uma semana no meio do mato, longe de sinal de telefone e, principalmente, da internet. As mensagens pingavam volta e meia, quando calhava de entrar algum fiozinho de sinal no telefone durante os passeios. Resultado: livros lidos, horas conversando com amigos, grandes momentos, poucos registros -- teria lido, conversado e tido grandes momentos com internet também, mas admito que eles seriam permeados por outros tantos rolando a barrinha das redes mais por um (mau) hábito do que qualquer outra coisa. Abro o e-mail hoje, numa daquelas abas separadas das mensagens principais, o Facebook, saudoso dos meus likes e horas de ócio, me avisa, ‘fulano curtiu isso, ciclano aquilo, não sei quem atualizou não sei o que’. E eu com isso, Zuck? 

E vamos de Chico César, que reflete sobre isso melhor que eu nessa doçura de canção.

26.12.16

Para 2017

Conheci um dos meus melhores amigos na fila do RU, como ele bem me lembrou na dedicatória do seu primeiro livro (pausa pro jábá: Senho Gelado e outras histórias, do @igornatusch lançado agora em dezembro, disponível no site da Cultura e nas livrarias mais bacanas de Porto Alegre. Que orgulho desse guri, tche!). Nesses tempos de hiperconexão, provavelmente teria passado a meia hora que me separava da querida bandeja de feijão e arroz a R$ 1,30 surfando aleatoriamente pela internet e pelas redes sociais ao invés de decidir dar oi ao simpático moço de barba ruiva e camiseta de metaleiro que compartilhava comigo a fome e a espera nas inevitáveis filas que acompanhavam nossos almoços naqueles tempos de dureza estudantil. Daí que o meu desejo pra esse 2017  -- que encerro meu ano, graças a Alah, hoje, com o fim do plantão, alegria, alegria –, além de que sejam 365 dias mais leves, é que a gente consiga passar mais tempo juntos, rindo e conversando a distância de um abraço, do que na telinha do celular. E saiba ter a delicadeza de olhar mais o que há de bom no mundo e nos outros, que quantos Igors pra vida toda a gente não perde nessas correrias loucas que acompanham nossa rotina atualmente. 

22.12.16

Estou lendo um livro que é de contos e não é – a narrativa é toda a mesma, ocorre mais ou menos no mesmo espaço, mas o narrador não se preocupa em explicar as mudanças de tempo ou de histórias ou mesmo em explicar qualquer coisa --, que me subiu uma vontade de escrever. Penso com meus botões que ele não segue regra nenhuma; os botões respondem, ‘quem liga para as regras se o texto é bom?’. Vejo textos por toda a minha Caxias do Sul que visitei numa folga prolongada que ganhou contornos de natal antecipado. A mãe chama para fazer qualquer coisa. Deixo para escrever depois. Depois vira nunca mais. 

21.12.16

Cenas de verão

Combino com amigos de ir à praia após o trabalho. Biquini na bolsa, o Leme vira aterro. Alguém traz uma bola, jogo basquete pela primeira vez desde o colégio com um estranho que conhecemos na quadra. Meia hora de correria depois, migramos atrás de uma partida de vôlei que nunca começou. Vou descalça pela pista de corrida apreciando a temperatura do asfalto. Algum termômetro no caminho marca 38º. A conversa gira tem torno do clássico diferenças entre cariocas e o resto do mundo. “O bom e o ruim do Rio é que a cidade parece uma pracinha, todos se encontram o tempo todo”. Cruzo com um conhecido que se desculpa pelo suor e desacelera a corrida para um abraço. “Quando alguém diz vamos fazer algo na sexta significa ‘foi bom te ver, a gente se cruza por aí’.” Sentamos na areia. Entrar ou não entrar no mar da baía de Guanabara? Um barraqueiro animado aparece e em pouco tempo minha canga é cercada por uma mesinha, cadeiras e latões de cerveja devidamente acomodados em camisinhas de isopor. O sol cai aos poucos. Chegam amigos de amigos, a mesa aumenta. O fundo é o pão de açúcar. De esguelha, por entre prédios, é possível ver o Cristo. Deixo os amigos e caminho de volta até a minha bicicleta pela areia. Me distraio com os caras que passam correndo por mim e me pego olhando por mais tempo para um deles. Ele para para me cumprimentar; outro conhecido. Desvio de um casal de namorados que escuta música alta, bato os pés na grama para colocar as alpargatas, destranco com calma o cadeado da bicicleta. Um ambulante ao lado quebra um coco para dar de beber ao cachorro. Atravesso a avenida e tomo o rumo de casa. Quase 22h, a rua borbulha de gente, os termômetros seguem namorando os 40º. Verão, enfim.

***
(mais verão. Tomo um banho, me preparo para quebrar um ovo e miro a frigideira. Falta luz. Aos poucos os olhos se acostumam e o breu diminui. Respiro a escuridão e o quase silêncio. Termino o jantar com a lanterna do celular. Da varanda, escuto os burburinhos de reclamação dos vizinhos e vejo pontos de luz intermitentes de uma que outra lanterna. Parte da fiação do poste em frente ao prédio pegou fogo, avisa uma amiga que mora na mesma rua pelo Whatsapp. Melhor ficar sem água ou sem luz? Deito na rede e começo a ler com o que me resta de bateria no telefone. A luz volta, a vizinhança comemora como se fosse um gol. Devia ter entrado na água.)

19.12.16

Cenas serranas

A mãe e a Caro descascam, com carinho, um punhado de physalis recém colhidos que serão mergulhados no chocolate para acompanhar, em algumas horas, o café da tarde. Eu e o pai somos instados a ajudar e tentamos, sem muito jeito, seguir a risca as instruções de dobrar para cima e torcer as folhas já secas dessa frutinha amarela e de nome estranho que a minha memória associa mais a noites dançando em Bogotá, onde faz às vezes de amendoim nos bares, que à serra gaúcha. Desço com o pai na lavoura; cruzamos com pêssegos, peras, romãs, goiabas, abacates, um pé de jabuticaba que “insiste em não jabuticabar”, e uma pitangueira com três pombas rolas - duas pequenas e uma maior -, escondidas por entre os galhos. “Estão tomando lições de vôo”, diz o pai. Chegamos ao tal do physalis, um arbusto baixo, que de longe lembra um tomateiro selvagem e que um senhor contratado para roçar o terreno tomou por mato uns meses atrás. Pergunto como uma planta que ousa ter até ph no nome chegou ao nosso quintal. Ele remexe com delicadeza a terra ao redor, levanta alguns galhos para mostrar os casulos que guardam os frutos, e responde. “Foram os passarinhos.”

19.11.16

A novela das passagens versão 2016

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

18.11.16

Quanto tempo é tempo?

Pra esquecer alguém, tocar em frente, começar uma história nova.
Mal faz duas semanas que Kafi, a gata com quem dividi apartamento pelo último ano e meio, trocou as Laranjeiras por um novo lar sem varanda mas com terraço na Tijuca. Ainda chego em casa procurando por ela, estranhando não ser acordada pelo seu miado de ‘deu, tu já dormiu demais, é hora de me alimentar’ nem cruzar/tropeçar em seu corpinho peludo pelo corredor.
Me consolava – e isso é errado, eu sei -, pensar numa Kafi com os olhos fixos na porta, achando que estava em um passeio mais longo que o normal, contando o tempo para voltar. Quem sabe assim ela não acabava voltando mesmo?
Mas eis que dona Ana avisa contente – em parte pelo alívio de já não ter quilos de pelos para aspirar pela casa, em parte por não ser na barriga dela que o bicho dormia longas siestas, ciumento dos livros que ousavam chamar mais atenção que o seu ronronado -, que Kafi ‘leva a vida que pediu a deus’, pulando de telhado em telhado e exercitando o lado selvagem que deixou marcas tanto nos meus braços quanto nas visitas desavidas que teimavam em confundi-la com uma gata qualquer.
Duas semanas, e viramos, eu, Daniel e Júnior, história.

17.11.16

Sobre Jonas e outros 8.000 e tantos

'No dia 1º de novembro um grupo de moradores da favela Chapéu Mangueira, na praia do Leme, na zona sul do Rio de Janeiro, desceu o morro arrastando num lençol ensanguentado o jovem Jonas, 20, baleado durante um tiroteio entre criminosos e policiais militares. Eles tentaram colocar Jonas no banco de trás de um carro de polícia; os policiais, assustados, arrancaram em alta velocidade, deixando-o caído no asfalto, a poucos metros da orla. Desesperados, os moradores atiraram pedras contra um ônibus que passava por ali até pará-lo, carregaram o jovem para dentro do coletivo e o levaram até o hospital municipal Rocha Faria, no bairro vizinho de Botafogo. Pouco depois de chegar a unidade, Jonas, baleado na cabeça, não resistiu aos ferimentos e morreu.'

Matéria inteirinha, acá.

16.11.16

A tal da menção honrosa




Começo do mês quebrei protocolos e tietei com gosto o Zuenir Ventura durante a entrega do prêmio Patrícia Acioli de direitos humanos. Tão legal quanto a plaquinha ali com a menção honrosa que vou levar pra dona Marlei no natal foi conhecer um dos jornalistas que leio e admiro desde antes mesmo pensar em pagar o aluguel e viver a vida escrevendo as histórias dos outros. 

A matéria que rendeu a tal da menção honrosa fala justo do aumento desproporcional de mortes de civis por policiais em são Gonçalo após o assassinato da juíza. E vida longa ao jornalismo nosso de todos os dias!

15.11.16

Aniversariantes novembrinos

Novembro calha de vir coalhada de aniversários de amigos do peito/irmãos/camaradas. Alguns deles com um dos melhores fatores para desenhos despretenciosos: barbas!
Algumas, no caso do Kauê, até com trancinhas.



Fica aqui o meu parabéns a canetinha, rabiscado entre um e outro intervalo do plantão. E viva o Rod e o nosso amigo K.!

9.11.16

The Trump Day

Sobre 2016, só consigo pensar que ainda temos 50 dias pela frente e Alah only knows o que pode acontecer ainda.

4.11.16

Vai ter natal, sim senhora

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

29.10.16

O que o subúrbio carioca quer?

Eleição aí, tal e coisa, coisa e tal, ado, ado, cada um na sua pracinha, mas fato é que quem vai decidir esse pleito é o pedaço da cidade que costuma escapar aos jornais. Mas o que o subúrbio carioca quer? 




(Fernando Maia/UOL)

Ao longo dos trilhos de trem que cortam ao meio o Rio de Janeiro a partir da Central do Brasil, no centro, até as bordas da capital fluminense, corre uma cidade que foge do cartão postal e que será, junto aos seus mais de 4,1 milhões de moradores –cerca de 65,5% da população do município, de acordo com o Instituto Pereira Passos--, o fiel da balança destas eleições.

O subúrbio carioca, que inclui a zona norte e parte da zona oeste, tem memórias e queixas comuns: transporte, saneamento básico, lazer, segurança pública e saúde são questões longe de serem resolvidas.

"São as áreas da cidade que mais demandam direitos públicos", diz o historiador e professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Rafael Santos.

O próprio conceito de subúrbio, diz Santos, passa por uma disputa de representação --recentemente, um vereador apresentou um projeto de lei propondo transformar a região da Barra da Tijuca e do Recreio em "zona oeste-sul", dessassociando-a do restante da região oeste. "A cidade é mutante, as nomenclaturas que estabelecemos são políticas", diz.

Lar da Portela, dos bate-bolas, do viaduto de Madureira e de outras tantas manifestações culturais tipicamente cariocas, essa região esquecida é, de acordo com seus moradores, deixada de lado entre as prioridades da cidade, voltadas mais para a zona sul e o centro. Mas o que o subúrbio carioca quer?

A matéria inteira, bonita, com os trilhos passando e o lindo vídeo da Taís Vilela, acá.

28.10.16

Nível de transmissão de pensamento entre irmãos

Termino um livro, surto com o livro, resolvo que coisas como comprar comida e lavar roupa são menos importantes que ler o livro, e penso, 'caramba, CARAMBA, preciso levar esse livro pra Caroline ler na próxima vez que eu for pra casa'. Dois dias depois, Bianchi Jr. telefona. "Tu PRECISA ler o livro que eu terminei de ler agora!". O que são 2 mil quilômetros pra quem nasceu do mesmo umbigo, ein?

19.10.16

Os 30 da Cris


Formato presente post it (ou, o começo da nova década que vai longe).
E fica também como desejo geral para os amigos, antes, durante e depois dos famigerados 30.