19.12.07

Realidade

- Paula, tu tem que entender que as notícias estão aí para preencher os espaços entre os anúncios.
Editora de geral e internacional, brincando (?).

16.12.07

O homem que criava universos

- Quando eu vi que tu queria um livro dele eu pensei 'Bom, pelo menos alguém entende.'
- Na verdade, eu também não entendo muito (agora entendo um pouquinho só mais), mas mesmo assim eu gosto.

O que leva alguém a ler Jorge Luis Borges. Fácil. Curiosidade. O que leva alguém a continuar lendo Jorge Luis Borges? Hmn. Masoquismo?
Comigo foi mais uma questã de orgulho/teimosia. Descobri o Borges do jeito tradicional, o nome me chamou a atenção e quando eu vi havia referências ao autor por todos os lados. Catei na biblioteca e lá estava ele: Ficções. Férias de verão, veio junto também mais uma carrada de livros. Janeiro passou, belisquei o Borges, mas nada. Quase fim das benditas férias, tinha lido todos os livros e pegado mais alguns e ainda nada. Por puro e simples 'não posso deixar esse livro aí na mão' e 'porcaria, eu teno que conseguir passar do primeiro conto', comecei. Disciplina espartana, todos os dias, não rolou. Fui de forma sofrida até a metade e decidi abandoná-lo. O que aquele cara queria dizer indo sempre do nada a lugar nenhum³?
Lá pelo meio do ano as referências ao Borges voltaram. Eu naquelas, pff, autor bobão. Como assim, base da literatura latino-americana no século XX? Hmn.
Para se ter uma idéia, existem livros do tipo "Como entender Borges", dissertações e dissertações. Lá por essas trombadas me deparei com alguém comentando (orkut, talvez?) que a melhor forma de começar o Borges era ler o Aleph. Novamente, curiosidade e pontinha de orgulho, procurei o tal exemplar e dessa vez eu li. E li. Aconteceu uma coisa muito engraçada. Até o terceiro conto parecia que eu estava apanhando - e perdendo feio. Rumo a segunda desistência, deixei o livro descansar e fui ler outras coisas, de preferência de autores que não fossem aficcionados por bibliotecas e enciclopédias e que achassem que um bom livro não precisa, necessariamente, remontar aos sumérios para acrescentar alguma coisa ao leitor.
Como eu ia dizendo, aconteceu uma coisa estranha. Depois desses três contos e da folga as tais coisas que não fazima sentido - nenhum - começaram a se encaixar um pouquinho, e um pouquinho mais, e um pouco pouquinho mais... Quando percebi, eu estava lendo Borges e ENTENDENDO (som de arpas clássico). Não tudo, porque daí ia ser demais, mas razoavelmente alguma coisa. O suficiente para gostar daquele autor que bateu as portas do fantástico (bateu, arrebentou, chutou) e mostrou que a linearidade é apenas umas das formas de se contar uma história. O legal é perceber que o García Marquez, o Cortazar e muitos outros tem um pézinho, se não um pezão, na obra do escritor argentino.
Ah, ganhei o 'Livro da Areia' de presente, escrito mais para o fim da vida dele, quando a cegueira já era irremediável e estou pronta para apanhar mais um pouco. Pra quem quiser começar, dou total apoio, só lembrem de não desistir antes da metade - do Aleph, de preferência.
Sr Borges, professor de inglês, tradutor, poeta, mestre em criar universos - compreensíveis na medida do possível e da teimosia de cada um.

10.12.07

Tiro no pé



Na página 2 do Jornal do Comércio de Porto Alegre tem o editorial (com título de Opinião), um espaço para as frases do dia, o cenáculo (mensagem religiosa, resquício da fundação da publicação) e uma charge. Quer dizer, tinha uma charge.
Os três cartunistas que trabalhavam no jornal há alguns anos (imprecisão minha, 5 talvez, não tenho certeza), foram demitidos na semana passada através do e-mail:


"Santiago, Kayser, Moa, Agradeço o trabalho que fizemos em conjunto até agora e comunico que o JC está dispensando o serviço de vocês."

No lugar, começaram a ser veiculadas fotos, com o título de "imagem do dia".
Nem vou me alongar muito na história. Recomendo a leitura do post do Paulo Ramos, no blog dos quadrinhos , que conversou com os cartunistas e a direção do jornal (como estou com o texto dele na cabeça, qualquer coisa que eu escrever aqui corre o risco de ser plágio indireto).
Porém, todavia, contudo, entretanto não acho que se trata de censura, como pregam alguns blogs, mas de burrice. Qualquer jornal, por mais governista, aliado do lucro e blá blá blá (e esse é) deveria saber que "pluralidade" – assim entre aspas mesmo, porque no Brasil jornalismo desse tipo é díficil de encontrar – vende.
Sem pensar em liberdade de expressão e no direito dos cartunistas e tal (que também são discussões importantes), demiti-los, a meu ver, foi um tiro no pé.
Ou alguém aí acha que a Veja é anarquista por causa das charges do Millôr?

8.12.07

"Deixa eu te contar uma coisa, guriazinha" ou Lições

- Tu sabe o que é viver (ahh, viver, bem, envolve respirar, certo)?
- Eu acho que sim.
- Não, tu não sabe (ele tinha quase noventa anos, quem era eu para retrucar).
- Viver é desviar de todas as coisas que nos impedem de fazê-lo.
- (ainda ele) E tu sabe o que é a verdade?
- Não, definitivamente eu não sei (e como)...
- Deixa eu olhar aqui, que eu anotei pra não esquecer. Eu gosto de escrever as coisas importantes (ele pega os documentos, tira um papel pequeninho, bem dobrado). Aqui, isso eu escrevi no dia 26 de agosto de 2006 (aponta a data para eu confirmar, afinal a vista não é mais a mesma).
- A verdade não pode ser contada. Cada um tem que descobrir a sua.

*

*

*

Oié, mega clichê. Tasca numa contra-capa de livro de auto-ajuda e era isso. Será mesmo? Conversando com um amigo surgiu a pergunta: Mas por que as coisas, quando são verdadeiras, não podem ser clichês? Será que por fazer comunicação nos acostumamos a esperar que tudo sempre tenha um sentindo maior, mais requintado? Essas foram as revelações da vida de alguém, importantes a ponto dele escrever, guardar e sentir a necessidade de passar adiante. Ou seja, clichês, ou não, importantes.

4.12.07

Trilhas

Sabe como é. Você liga o rádio e deixa tocar. De repente, mágica, aparece uma música que parece feita para você, cada acorde. Outro dia você ouve ela de novo e é só mais uma música, com uma letra qualquer. A mágica foi embora.

Como Uma Onda

(Lulu Santos)

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar...

2.12.07

Vamos sorrir, reclamar do tempo e continuar falando sobre as coisas que não importam. É assim há tanto tempo.

26.11.07

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".

18.11.07

Aproveitando o gancho que a Clarice destacou no blog dela.

Há um tempinho atrás, no aniversário dos 40 anos da morte de Ernesto Che Guevara, a Veja publicou uma reportagem cujo mote era a "desconstrução" da imagem do Che. O texto, escrito por pelo repórter Diogo Schelp, seguiu à risca a cartilha de "bom" jornalismo da revista, abusando da falta de pluralidade e do editorialismo e usando argumentos do tipo "ele não tomava banho e cheirava a rim fervido".
Antes do texto ser publicado o repórter Jon Lee Anderson, responsável pelo livro Che Guevara, uma biografia, foi procurado por Schelp para uma entrevista, como fonte da tal reportagem. A própria revista descreveu seu livro como ‘a mais completa biografia de Che’. Anderson aceitou o convite, mas não foi procurado por Shelp.
Semana passada Anderson, repórter das antigas e corresponde de guerra pela New Yorker, leu o texto que a Veja publicou sobre Che. Ele decidiu mandar uma carta a Shelp e tornar pública essa resposta, que começou a circular por email entre os jornalistas brasileiros. Segue uma tradução que corre pela rede:

Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Schelp, editor de internacional da Veja respondeu:


Caro Anderson,
Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

E a discussão corre na internet. Interessante notar que na resposta do Schelp a maior preocupação não é o fato do ter seu texto chamado de mentiroso, mas de que Andersons não ligou para ele para expor as críticas em particular, pelo contrário, chutou o balde e tornou o e-mail público.A velha tática de mudar o foco da discussão para confundir o adversário.

Anderson tratou de responder, publicamente, é claro.


Prezado Diogo Schelp:
Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.
Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?
Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:
Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.
Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!
Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.
Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

14.11.07

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca".
Eduardo Galeano

É, mais Galeano. Porque ele é um cara legal, porque ele é um baita jornalista, mas porque mesmo essa frase me ronda há um bom tempinho. Viva aqueles que andam no meio fio das calçadas, tomam sorvete com gosto e destrambelhadamente e não tem medo de sorrir em público.

13.11.07

E as coisas mudam.
Mudam porque precisam, mudam porque não há como evitar.
Ir embora e ficar no fundo são coisas parecidas.
Para ir é preciso aceitar a mudança, deixar para trás todo um passado e olhar para frente. É mais fácil partir sem bagagem.
Para ficar, mas realmente ficar, é preciso comprometimento, se concentrar em um presente. Exige deixar os tradicionais e se´s de lado.
E as coisas mudam.
E é melhor que mudem mesmo, antes que os horizontes estourem.

Haiti

Ex-soldado conta vivência na Ilha

(ié, ié, títulos não são o meu forte)

O três-coroense Tailon Ruppenthal, então com 20 anos, era recruta do Exército quando o Brasil assinou, em 2004, um acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) e concordou em mandar um contingente de soldados para o Haiti a fim de garantir a paz na ilha.
O Haiti é o país mais pobre das Américas e um dos mais miseráveis fora da África. O PIB per capita gira em torno de US$ 360, metade da população nas áreas urbanas não tem acesso à água potável, apenas cerca de 30% contam com saneamento básico e somente 10% têm acesso à energia elétrica.
Apesar de ter sido a primeira colônia de escravos a conquistar a sua independência e a segunda república livre no Ocidente, depois dos Estados Unidos, o Haiti sofreu e continua sofrendo com a instabilidade política, que atrapalhou tanto o desenvolvimento econômico quanto social do país.
Movido pela idéia de ajudar na reconstrução da nação, Ruppenthal se “voluntariou” para a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, mais conhecida como Minustah. Após um treinamento rápido, raso a ponto de alguns colegas de vôo perguntarem em que parte da África ficava o Haiti, eles desembarcaram no país.
Os cerca de 1,2 mil soldados brasileiros desse primeiro contingente encontraram o local em uma situação delicada. O presidente Jean-Bertrand Aristide havia sido deposto por um golpe e a nova configuração política ainda estava se definindo. Conforme Ruppenthal, ao chegar lá soldados viram algo bem diferente do que havia sido passado.“Os EUA impuseram a paz, nós fomos enviados para mante-la. Só que quando chegamos lá, nós tivemos que continuar impondo-a”.
Além disso, existiam outros problemas, como os armamentos ultrapassados e os coletes à prova de balas vencidos. “O meu colete era de 2000, mas eu tinha colegas com coletes vencidos desde 1998”. Somando-se a isso havia a barreira da língua Creole, uma mistura de castelhano, francês e dialeto africano, o forte calor e a falta de insumos básicos. “Até hoje ando na rua e cuido se existem vendedores de água por perto. Um dos meus maiores medos era ficar sem água, não que houvesse faltado água para a gente em algum momento, mas era tudo muito racionado”, conta Ruppenthal.
E havia ainda a truculência do exército norte-americano, o qual eles estavam substituindo. “Eles achavam que ninguém falava inglês e ficavam fazendo troça da gente. Alguns diziam coisas como bem feito, vocês merecem esse inferno. Vocês vão se dar bem aqui, o Haiti deve ser igual ao Brasil”. Para Rupenthal, os soldados que foram para o país estavam treinados para a guerra e para aquela situação.
O país parecia um grande cemitério a céu aberto; corpos ficavam jogados nas ruas por mais de uma semana, crianças jogavam bola com abutres a espreita e o lixo acumulava nas calçadas. Ruppenthal afirma que nunca conseguiu se conformar com o descaso pela vida humana que presenciou.
Após voltar para o Brasil, ele teve dificuldade em se readaptar. Sofreu de síndrome do pânico entre outros problemas. Ao pedir ajuda para o exército foi informado de que, antes de participar da missão, ele havia feitos testes psicológicos confirmando seu bom estado de saúde, portanto a União não tinha nada a ver com aquela situação.
Hoje, já no sétimo contigente de soldados, o Haiti está mais estabilizado. A ONU recomendou a saída das forças, mantendo apenas a ajuda humanitária. Para Ruppenthal “alguma coisa tinha que melhorar com os soldados tanto tempo no país”. Segundo ele, desde 2004 foram encontradas apenas 250 armas de fogo, número pequeno para justificar uma intervenção. “A gente lucra com a miséria daquele país, vejo o Haiti como um grande bolo a ser fatiado e o Brasil vai ter seu pedaço também”.

P. B. B.
Jornal do Comércio, 12 de novembro de 2007

12.11.07

Um refúgio? Uma barriga? Um abrigo onde se esconder quando estiver se afogando na chuva, ou sendo quebrado pelo frio, ou sendo revirado pelo vento? Temos um esplêndido passado pela frente? Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um ponto de partida.

Eduardo Galeano

3.11.07

Meme de feira do livro

A Ju pediu, eu obedeço.

..no livro mais próximo. (o mais PRÓXIMO. Não procures.)
- Abre na página 161;
- Procura a 5ª frase, completa;
- Posta essa frase em teu blog;
- Não escolhas a melhor frase nem o melhor livro;
- Repassa para outros 5 blogs.

"Você escreverá", disse ela, "se você escrever sem pensar no resultado em termos de um resultado.

Gertrude Stein, entrevistada por John Preston, A Arte da Entrevista (curiosamente, feira do livro passada)

Hmn, acho que vou ler de novo essa entrevista...
Quinta regrinha, bom, passo pro Isma, para Nati, para o Kauê, para o Mário e para a Maria Rita (já que o Igor já respondeu). E quem mais quiser, é claro.

Às moscas? Magina...

20.10.07

.



"He dicho Escuela del Sur; porque en realidad, nuestro norte es el Sur. No debe haber norte, para nosotros, sino por oposición a nuestro Sur. Por eso ahora ponemos el mapa al revés, y entonces ya tenemos justa idea de nuestra posición, y no como quieren en el resto del mundo. La punta de América, desde ahora, prolongándose, señala insistentemente el Sur, nuestro norte.”

Joaquín Torres García. Universalismo Constructivo, Bs. As. : Poseidón, 1941.

19.10.07

Ultimamente tenho pensado sobre muitas coisas (pff, além do gerundismo parece até que não sabe que TODO mundo pensa), meditado seria o termo exato. Uma delas é escrever aqui, mas isso fica pra depois. A long, long, looog time ago eu descobri um negócio, que escrevendo pode até parecer bobagem, mas que mudou meu jeito de ver as coisas. Simplesmente que não é o lugar onde você está, nem as pessoas que estão ao seu redor, mas a forma como você lida com tudo isso (eu disse que ia parecer bobo). Isso me veio como uma bigorna Acme na cabeça numa época bem conturbada em que parecia mais fácil reclamar do mundo e dos outros do que encará-lo. Aquela história toda, tudo tem mais que dois lados, pessoas são pessoas, quando a gente foca demais em um ponto perde o contexto. A resolução pode até ser simplista, mas chegar até ela levou tempo e cabeçadas. Lembrei dessa história toda recentemente, e como a gente esquece das coisas que deveria lembrar sempre.
Já escrevi aqui que acredito que vivemos navegando em tempestades de copos d'agua? Se já, me desculpem, a frase vai sair deslocada aqui no meio, mas ela precisava sair.
De volta aos pensamentos. Como estudante dependente da mesada de meus pais (e não orgulhosa disso) também tenho me perguntado o que é liberdade. O que preciso é para ir embora, o que é preciso para ficar.
Olhando para os lados, eu não sou mais que um amontoado de papéis. Alguns livros, uns discos, uma coisa colorida que gira, passáros de cartolina, fotos e uma bicicleta. Mas de meu mesmo, só os papéis rabiscados. Quantas as coisas que a gente tem por ter não acabam se tornando quem nós somos. A moça do casaco azul com a braçadeira laranja com cem anos de solidão na mão. O casaco pode ser só um agasalho, o livro só mais um. "É difícil não acabar sendo que os outro acham que a gente é", supostamente Júlio Cesar, citado por um escritor dentro de um livro escrito por outro escritor. Tu é a Phoabe, ela é calma, ele é brigão. Quantas pessoas a gente conhece, mas realmente conhece, quantas a gente tenta conhecer de verdade, quantas nos conhecem.
Sempre que eu vou fazer alguma coisa estúpida penso no meus pais e geralmete não faço a coisa estúpida, porque a vida deles em parte sou eu. Pesado carregar isso, saber disso sem que ninguém nunca tenha te dito nada. Minha mãe é mãe por natureza, acorda de manhã as 3 e meia, 4 horas e vai trabalhar para que eu possa ser alguém, ter as oportunidades que ela não teve e eu sei que ela se preocupa comigo o tempo todo, mesmo sem querer. Mas e se eu não quiser ser alguém? Seguir o caminho que todo mundos segue e por aí vai? Carrego uma boa mala de expectativas alheias comigo.
Eu vejo séries, via, sem tv a cabo complica, enfim, gosto bastante, até das meio bobonas. Outro dia uma garota, numa dessas série de high school norte-americanas, falou um negócio que ficou na minha cabeça. Não existe ninguém mais velho que um formando de segundo grau e ninguém mais novo que um calouro de faculdade. Na dúvida sobre a validade dos meus últimos três anos, de uma coisa eu, que sabia tudo, tenho certeza. Crescer é também desaprender. E com esse texto eu não quero dizer nem teorizar nada. Até porque, pelo que deu para perceber, as coisas não ficam mais faceis.

17.10.07


Faculdade, estágio, vida de vez enquando, e salsa. Oh boy, quase nem sobra espaço pro me Garfield interior.

16.10.07

Música para dias chuvosos

Electrical Storm

U2

The sea it swells like a sore head and the night it is aching
Two lovers lie with no sheets on their bed
And the day it is breaking

On rainy days we'd go swimming out
On rainy days swimming in the sound
On rainy days we'd go swimming out

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
If the sky can crack there must be someway back
For love and only love
Electrical storm

Electrical storm

Electrical storm

Baby don't cry

Car alarm won't let you back to sleep
You're kept awake dreaming someone elses dream
Coffee is cold but it'll get you through
Compromise that's nothing new to you
Let's see colours that have never been seen
Let's go to places no one else has been

It's hot as hell, honey in this room
Sure hope the weather will break soon
The air is heavy, heavy as a truck
We need the rain to wash away our bad luck

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
Well if the sky can crack there must be some way back
To love and only love
Electrical storm

Electrical storm

Electrical storm


Baby don't cry

14.10.07

Após anos e anos apanhando na canastra – com eventuais vitórias muito celebradas – decidi me vingar. Domingo à tarde, nada para fazer, ensinei meu pai a jogar pôquer. Era agora, a hora da verdade, deu pra ti geração passada. E não é que ele limpou a mesa? Maldita sorte de principiante.

Figuras de linguagem

Gosto de metáforas e de ironia.
A primeira, porque torna o mundo mais bonito. O narrador de a Insustentável Leveza do Ser dizia, enquanto contava a história de Thomas, que era preciso tomar cuidado com as metáforas. "O amor pode nascer de uma metáfora". Da segunda, bem, porque o universo é irônico, maldosamente irônico (e divertido).
Segundo "Fefê" (e tem épocas em que tudo se resume a uma boa e boba metáfora) é preciso viver de forma circular e para todos os lados, mantendo sempre a inocência infantil.
Basicamente, tomem sorvete com gosto, sem medo de se sujar ou ficar com dor de cabeça.
Sem ironia dessa vez.

10.10.07

"Mas quem tem coragem de ouvir, amanheceu o pensamento que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento..."
Outro dia estava pensando nesse desenho, e pum, como geralmente acontece (ou talvez eu ache que isso acontece geralmente porque relaciono as vezes que acontece e esqueço de relacionar as que nada acontece) dei de cara com ele pela internet. O youtube tem seu valor... One Froggy Evening para você também.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

9.10.07

- Há algo de calmante em folhear Diários Oficiais. Uma parte minha virginiana gosta de tarefas repetitivas, que exigem paciência e atenção. Claro que essa parte é, constantemente e por segurança, sufocada e ameaçada de morte, mas ela existe.

- Fora a alergia decorrente da rinite, cheiro de jornal recém saído é bom, muito bom. Só não supera livros novos.

- "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar na verdade não há". Como se fosse tão simples, pff.

- Eu queria ter um coração de samurai.

4.10.07

Que falta faz alguém para ficar em silêncio.

1.10.07

Nós e o Guaíba



Quando se pensa no Guaíba se pensa em Porto Alegre, quando se pensa em Porto Alegre se pensa no Guaíba?

Na faculdade a professora de rádio propôs fazermos um documentário. Conversando com a gurizada veio à tona o tópico Guaíba, mais especificamente aquela sensação de estar na Salgado com a Dr. Flores, olhar para frente e se dar conta "nossa, o Guaíba tá ali na frente". Apesar de rodiada por um rio, estuário, lago, delta ou seja lá o que for Porto Alegre não é exatamente uma cidade ligada às águas. Tem quem coloque a culpa no Muro da Mauá, ali just in case desde o final dos anos 70, tem quem nunca tenha dado muita bola para ele mesmo, tem quem o considere essencial. Fato é que a relação com a cidade é conturbada.
Na busca por respostas ficou comigo a tarefa de falar com um economista. Conversei com o professor da UFRGS Eduardo Felippi e como a entrevista ficou bem interessante (e eu decupei o material todo e só usamos umas frases) fiquei com vontade de compartilhar com vocês (se é que ainda existe um vocês entrando nessas bandas eletrônicas).

Como é a relação da cidade com o Guaíba?

A relação do Guaíba com a cidade é uma relação ambígua, por quê? Durante muito tempo o Guaíba serviu como uma via de acesso, não apenas de produtos, mas de pessoas para a cidade. Essa relação foi se perdendo ao longo do tempo. Por que ela se perdeu, em termos econômicos? Uma razão bastante simples, a cidade se voltou para o outro lado. Não pro lado oriental da cidade, mas o lado ocidental da cidade. Em outros termos, o que chama atenção hoje que os porto-alegrenses e as pessoas da região metropolitana de Porto Alegre encaram o Guaíba apenas como uma área de lazer, mesmo porque a gente tem um muro em termos físicos que separa a cidade do Guaíba. O que é muito curiosos é notar, por exemplo, que as pessoas da Zona Sul de Porto Alegre tem uma relação muito próxima com o Guaíba, porque não há o muro, e tu tem uma série de avenidas que conduzem até as praias do Guaíba. O Lami é outro exemplo. Se tu vai pro outro lado, nas ilhas, tu vai ver que tem uma série de instituições ligadas aos pescadores. Esses pescadores, na colônia de pescadores das ilhas, evidentemente tem uma relação bastante próxima com o rio, é o ganha pão desses indivíduos, o que também fica muito claro no filme do Jorge Furtado, Ilha das Flores, o curta metragem. Mas isso ainda, quando é falado ou mostrado aos Porto Alegrenses, é visto como algo exótico.
O segundo aspecto é o Porto de Porto Alegre. O Porto de Porto Alegre é muito mal utilizado por questões de infra-estrutura, ou seja, a infra-estrutura ainda é muito acanhada para receber navios de grande calado. Também em termos econômicos, isso já vem desde os anos 50, 60 em termos nacionais, se optou pelas rodovias e se esqueceu as hidrovias. No fundo no fundo o Guaíba passa a ser algo fundamentado apenas no lazer e ainda assim muito mal arquitetado, em termo de políticas públicas.

O muro foi o começo dessa separação?

Não, eu acho que o muro não foi o começo dessa separação. O muro surge como fruto da enchente que aconteceu em 1941 para proteger a cidade, mas o Guaíba sempre foi visto, e eu digo sempre nos últimos cinqüenta anos, como algo a ser colocado em termos econômicos, mas fundamentalmente como espaço de lazer. Por que que isso é problemático? Por que Quando tu analisa em termos de aspectos econômicos, durante muito tempo foi assim, o Rio passou a ser o esgoto de Porto Alegre, não uma via de escoamento. E o que é curioso é saber que um dos símbolos de Porto Alegre é o pôr-do-sol, e o pôr-do-sol no Guaíba. Ele não é encarado como outros estuários no planeta. Por exemplo, o Guaíba não é um organismo vivo, no sentido econômico da palavra, como é o porto da Antuérpia na Bélgica, como é Roterdã na Holanda, como é Santos no litoral paulista ou como é o porto do Rio de Janeiro, que ao mesmo tempo que faz parte da paisagem turística dessas cidades também é uma via de escoamento de produção.

Haveria alguma mudança significativa se houvesse maior vazão desse lado econômico?

Eu não sei, eu não tenho certeza a respeito disso. O que eu acho muito curioso é que toda vez que há eleições em Porto Alegre, particularmente para a prefeitura de Porto Alegre, o tema vem a tona, e logo em seguida ele é esquecido. A revitalização do Guaíba, não apenas em termos turístico, mas em termos econômicos. Eu cito aqui uma série de idéias, por exemplo, uma série de idéias que demoram muito a sair do papel, quando saem, relacionadas a uma melhor utilização dos armazéns, que são voltados para o Guaíba, ou seja, do outro lado do muro da Mauá. Tu tem uma série de projetos, por exemplo, a Bienal do Mercosul tentou utilizar, em outro momento o Guaíba foi utilizado como espaço físico do Fórum social Mundial, mas isso são coisas muito pontuais. Por exemplo, agora na semana Farroupilha é muito curioso que o parque da Harmonia que é utilizado para tal, para os piquetes, para os CTG´s, para alimentar a memória da revolução Farroupilha. Se fala em parque da Harmonia, mas não se fala do Guaíba que tá logo ali ao lado. No fundo, no fundo da a impressão de que o Guaíba é um peso para a cidade. Que não é algo a ser utilizado, que é algo a ser mantido, infelizmente, de uma maneira a parte da cidade. Quando tu vai fazer entrevistas, ou quando tu pergunta para os porto-alegrenses o que eles acham do Guaíba, é sempre numa ótica de turismo.

O Guaíba é visto em segundo plano?

Não tenho dúvidas disso. Me dá a impressão que o guaíba é visto pelos porto-alegrenses como o bairro da Restinga. É periférico, não é algo que faz parte da cidade.

Como era a relação do Gauíba e da cidade antigamente?

É justamente o Guaíba que fez Porto Alegre ser o que é. Se não fosse o estuário do Guaíba e a relação com a Lagoa dos Patos muito provavelmente a capital do Rio Grande do Sul seria em outro lugar. Ou seja, Porto Alegre é que é porque tem o rio, porque tem o estuário, porque tem o Porto. Se tu for ver, na história de Porto Alegre, onde é que se inicia Porto Alegre? Se inicia aonde hoje é justamente o Mercado Público, na região da rodoviária, mas no bairro Navegantes. E não é à toa que se chama Navegantes, porque diz respeito a todos aqueles que, de alguma maneira, tinham o Guaíba como um lócus, não apenas de produção, mas de escoamento de produção. Ou seja, o Guaíba atraia pessoas para Porto Alegre e permitia que Porto Alegre fosse um centro irradiador de atividades econômicas. Isso se perde ao longo do tempo pela opção pela rodovia e porque a cidade cresceu para o outro lado.

Então o Guaíba que era o centro acabou sendo ignorado...

Exatamente, aliás, ele está no centro de Porto Alegre, que não é um centro. Não está no centro da cidade, tá numa das pontas da cidade, mas o que que é essa ponta? Essa ponta é início de tudo. Hoje infelizmente o Guaíba é o esgoto de Porto Alegre. Basta ver o estado que se encontra o arroio Dilúvio, que é a porta de entrada de Porto Alegre, bastante próximo do centro, pra gente ver o Rio Guaíba.

27.9.07

Pessoas

Gosto de pessoas. Todas as pessoas. Apesar de tudo e por causa de tudo. Gosto dos detalhes. De perceber como são parecidas e diferentes, diferentes. De como elas te surpreendem, para o bem ou para o mal. Acho que estamos todos, quase sempre, navegando entre tempestades de copos d’agua. We will always be so much more human than we wish to be”, não é mesmo? Todo mundo tem uma história, é uma história. Algumas merecem ser contadas, outras também.

26.9.07

E aí está você, rindo à toa por ter feito o quê mesmo? Ah, jornalismo.

24.9.07

A casa

Faz um bom tempo que quero escrever sobre a minha casa, mas acabo sempre, por um motivo ou outro, deixando para lá ou parando no primeiro parágrafo. Quer dizer, escrever escrevo, e reescrevo e escrevo de novo. Textos enormes, detalhados, cheios de ganchos para outros textos, mas como faço isso quando estou andando de bicicleta, caminhando à toa ou viajando eles acabam nunca indo pro papel. Tenho certeza que minhas melhores histórias vieram e foram assim, quando me sobravam idéias e faltavam canetas.
Superado esse ‘isso não vai sair mesmo do jeito que eu havia pensando’ eu poderia dizer que a minha casa é uma casa de madeira bege com as janelas brancas e o telhado de telhas vermelhas situada num bairro residencial afastado do centro da cidade de Caxias do Sul.
Só que isso não descreve bem, apesar de ser mesmo uma casa bege de janelas brancas. Minha casa é o lugar que eu guardaria num globo de vidro, para levar pra sempre junto e intocado.
Bem, acho que ainda vai demorar um tempo.


18.9.07

Num dia você arrasa, no outro é arrasado. Já dizia o Forrest, shit happens.

17.9.07

"Tem lugares que me lembram
Minha vida, por onde andei
As histórias, os caminhos
O destino que eu mudei

Cenas do meu filme
Em branco e preto
Que o vento levou
E o tempo traz

...Desenhos que a vida vai fazendo
Desbotam alguns, uns ficam iguais"

Diálogos

– O que que tem na redenção hoje que tá assim?
– É domingo.

***

– Fiu, fiu, fiu, ta, ta, ta...
– Já sei, é aquela música do Titãs!
– Não, eu não assobio músicas em português.

***

Polpa é quando você po-u-pa alguma coisa e poupa é a parte de cima da fruta.
– Não, não é.



16.9.07

"Às vezes a gente tem que cavocar bem cavocado pra achar coisas que são sinal da magia da vida."

Da sabedoria de um bom amigo, explicitada nos domingos à noite.

15.9.07

A partir de que ponto as coisas mudam e não há mais como voltar atrás, nem mesmo querendo? Quanto tempo é um ano? Quanto tempo pode ser um ano, uma semana, um dia? Por quantas mortes é preciso passar até decidir que morrer já não vale a pena? Que fim leva a inocência no fim da história? Até quando aguentam as últimas esperanças? A poesia perdida volta algum dia?

13.9.07

Believe It or Not

"O Via Legal desta semana mostra a batalha de um universitário para continuar estudando. Ele é portador do vírus HIV e, por causa do tratamento, não conseguiu concluir o curso de biblioteconomia em oito anos, prazo máximo estabelecido pela instituição. Jubilado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o estudante voltou à sala de aula com o aval da Justiça Federal".

Sim amigos, companheiros, fabicanos. Por mais incrível que pareça, alguém já foi jubilado em nossa nobre instituição de ensino. Fala sério? Pataquada? O que é o Via Legal? Trf4.

12.9.07

Ditadura dos caracteres

Textos jornalísticos são, em boa parte, contados em termos de “caracteres”. Uma matéria de cerca de 3.500 toques equivale a uma lauda em Times 12, ou seja, uma folha. Mas o que é uma folha quando se quer retratar um pedacinho do mundo que só você teve acesso, quando se é a única ligação entre o leitor e o acontecido? Aparentemente, uma folha é mais do que o suficiente, chega a ser um exagero.

As matérias dos jornais, as grandonas, têm, no máximo, 4, 5 mil caracteres e olha lá. As tradicionais batem na casa dos 2.000, se der em menos, melhor. Um minuto no rádio são 1.000 caracteres. Tem muito texto que não vai para impressão porque é grande demais. Editores, política do jornal, assunto... isso fica em segundo plano. O que conta mesmo é o espaço.

Pra se ter uma idéia, uma das matérias de capa da Folha de São Paulo de hoje – “Quadrilha detona bomba para roubar R$ 10 mil de empresa” – tem pouco mais de 4.000 caracteres. A do Estadão, sobre o Renan Calheiros (35 votos a favor, 40 contra, 6 abstenções, sem comentários),3.664. A capa da Zero Hora, 2.381.

Segunda-feira chegou às bancas a 2ª edição da “Revista da Semana” da Editora Abril, cuja proposta é “mais informação em menos tempo”. Por mais informação entenda-se um aglomerado de textos curtos, quase que só lide, e uma diagramação recheada de fotos. A tendência do mercado é que publicações desse gênero ganhem cada vez mais espaço (ou percam, já que em se tratando de notas enxugadas a internet já está bem servida). A desculpa das empresas é que há público e que esse público não tem tempo para mais de 2.000 caracteres, quiça 3.000.

Há? Quando foi que as pessoas desistiram de ser bem informadas, de poder interpretar um texto e tirar conclusões próprias? O futuro é das matérias feitas só de manchetes? Nos tornamos leitores preguiçosos ou decidiram por nós que não que não tínhamos mais tempo para ler?

(o presente texto tem 1874 caracteres)

Ipês



Segunda de manhã, abro a janela e bum. Uma parede de flores rosas parece querer invadir o quarto e tapar o mundo. É primavera outra vez, finalmente – e não me venham com calendários, ou alguém aí espera até o dia 21 de junho para decretar inverno.

11.9.07

Blindness

Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara".
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago


Particularmente, fiquei bem feliz ao saber que o Fernando Meirelles vai dirigir a adaptação para o cinema de Ensaio sobre a Cegueira. Não vi muita coisa dele, mas o cara responsável pelo Jardineiro Fiel por si só já merece respeito. Diretores à parte, adaptações sempre me deixam com um pé atrás, ainda mais quando se trata de um livro que eu gosto bastante (leia-se MUITO). Na maioria das vezes ficam bem longe do original, isso quando não avacalham de vez com a história. Estou torcendo pra que essa de certo. Pois então, descobri lá no Pirão Sem Dono que o Meirelles fez um um blog pra contar como andam as filmagens. É muito bacana ler os desabafos dele, que vai pondo pra fora a barra pesada que é filmar uma obra dessa intensindade e, ainda por cima, do Saramago! Vale mais pra quem já leu o livro, já que os textos são cheios de spoilers, ou pra quem não leu também e não vê problemas em descobrir a história antes da hora.

10.9.07

Acho que todo mundo tem momentos congelados na memória. Não estou falando de grandes momentos, mas daquelas pequenas situações, quase insignificantes, que vai saber por que, decidiram ficar ali, entre o nome no listão do vestibular, a neve em Setembro e o primeiro beijo. Como quando você tirou tatu do nariz no prézinho e a professora viu e não disse nada ou quando você perdeu, chutou a parede, engoliu seco e desceu a escada correndo, vermelha e quieta, torcendo pra que ninguém percebesse os seu olhos. Tenho milhares desses, que aparecem e desaparecem sem aviso, e, honrando o jeito como foram guardados, sem porquê. Hoje no ônibus lembrei claramente de uma apresentação no colégio, quer dizer, do começo dela. Essas coisas de professora de educação física, fazer uma coreografia do nada e por aí vai. Decidimos por step e alguém tinha que puxar todo mundo, devido a minha memória para os passos - o que é bem diferente de coordenação - acabei na frente das gurias e de frente pro povo. Lembro do momento que eu pisei no step e ele girou (steps não devem girar, em apresentações com platéia muito menos). Lembro dos cinco segundos de pânico, do vermelhão subindo o rosto, de uma bola de medo e vergonha na garganta. E lembro, mais ainda, de como decidi pisar de novo e pisar mais forte. Se fosse pra dar errado eu daria errado tentando.

9.9.07

Um brinde às Esperanças

Às esperanças perdidas, às esperanças mantidas e, sempre e principalmente, às Esperanças renovadas.

Último ano para contar a idade nos dedos.

6.9.07

Da série "já que eu não vou escrever nada aqui mesmo". Porque é feriado, porque é quase domingo, porque não pará de tocar na minha cabeça.

Bad Day

Daniel Powter

Where is the moment when we needed the most
You kick up the leaves and the magic is lost
They tell me your blue skies fade to grey
They tell me your passion's gone away
And I don't need no carryin' on

You stand in the light just to hit a new low
You're faking a smile with the coffee to go
You tell me your life's been a way off line
You're falling to pieces everytime
And I don't need no carryin' on

Because you had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work on a smile and you go for a ride
You had a bad day
The camera don't lie
You're coming back down and you really don't mind
You had a bad day
You had a bad day

Well you need a blue sky holliday
The point is they laugh at what you say
And I don't need no carryin' on

You had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work with a smile and go for a ride
You had a bad day
The camera don't lie
You're coming back down and you really don't mind
You had a bad day

(Oh.. holliday..)

Sometimes the system goes on the blink
And the whole thing turns out wrong
You might not make it back and you know
That you could be well oh that strong
And I'm not wrong

So where is the passion when we needed the most
Oh you and I
You kick up the leaves and the magic is lost

'Cause you had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work with a smile and you go for a ride
You had a bad day
You've seen what you like
And how does it feel for one more time
You had a bad day
You had a bad day

4.9.07

Travei. Para variar. Já faz um tempo e acho que vai demorar um tempo. Não tenho vontade de escrever. A simples visão de uma tela em branco me dá alergia. E nem é falta do que escrever. O bacana de falar sobre o nada é que ele tem uma capacidade de se multiplicar imensa, qualquer coisa é assunto... Até tenho muitas coisas para assuntar, ou tinha. No entanto, contudo, todavia, porém, travei.

1.9.07

O que seria da vida sem o ócio criativo?
Bent Objects
Santa criatividade, Batman!

Vira Virou

Kleiton e Kledir


Vou voltar na primavera
E era tudo que eu queria
Levo terra nova daqui
Quero ver o passaredo
Pelos portos de Lisboa
Voa, voa que chego já

Ai se alguém segura o leme
Dessa nave incandescente
Que incendeia minha vida
Que era viajante lenta
Tão faminta da alegria
Hoje é porto de partida

Ah! Vira virou
Meu coração navegador
Ah! Gira girou
Essa galera.

27.8.07

Cowabanga!

Desaparecida, eu? A culpa é dele!
"Músicas heterogêneas, seriados bizarros, filmes inesquecíveis, fenômenos cibernéticos, pinturas enigmáticas, esculturas vivas, chavões indiscutivelmente marcantes e tudo o que couber no imenso balaio da cultura pop contemporânea".
Pode ser que dure sete dias, pode ser que dure sete meses, de qualquer forma esse blog experiência vale uma olhada. Nem que seja só pelos três outros integrantes do autodenominado quarteto fantástico.

(Marketing, babe. Ou seria merchandising?)

21.8.07


Em homenagem a excelentíssima senhorita Débora. H. S. G.

19.8.07

"Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranqüilo"
E se foi um grande erro? E se tudo não passou de uma longa e divertida perda de tempo? Bem, ao menos foi divertida.

16.8.07

agosto, mês do desgosto

Lembro que meu avô tinha medo de morrer em agosto. Malemal julho acabava ele e os seus oitenta e la vai pedrada partiam para um retiro no hospital. O seu Dorin cuidou tanto para não ser pego desprevenido no mês "do cachorro louco" que acabou partindo dessa para melhor nas quentes idas de fevereiro. E lá se vão dez anos. Agosto, mês do desgosto dizia meu pai, que ouvi dizer de alguém, que ouviu de não sei quem e por aí vai. Pensando agora num texto argumentativo que escrevi para a aula de redação III não tenho nada concretamente forte para desmerecer agosto. Ele é um mês ruim e ponto. "Ó, desse jeito você se induz a desgostar do mês e ver e nele coisas não boas". Superstição ou não a forma como me sinto e como as coisas dão errado nessa época é bem real pra mim. Poderia ir mais longe e dizer que é real para a humanida, vide que foi em agosto que começaram as guerras mundiais e uma longa série de outros desastres, incluindo a primeira vez que a cadeira elétrica foi usada até o terremoto dessa madrugada. Fato é que chega agosto e me vejo perdida (mais que o normal), guardando coisas e não as encontrando depois, querendo coisas e não as conseguindo, respirando e sufocando um pouco. Só mais quinze dias, só mais quinze dias.
É coisa de pequena, é coisa meio desde sempre, é coisa sem explicação. É agosto. E agosto dói.

14.8.07



Para aqueles que gostariam de ter nascido amarelos, dar uma passada em Springfield ou apenas aguardam ansiosos pelo episodião de duas horas que estréia essa semana nos cinemas.
Simpsonize yourself!


(É, eu sei que não ficou lá muito parecida.)

12.8.07

Cóloquio

Duas melhores amigas conversam.

– Pô, agora só falta ter que marcar hora pra te encontrar.
– É que com esse estágio eu ando muito ocupada, sem tempo pra nada.
– Mas eu não moro mais aqui, devia ter prioridade!
– E eu com isso, quem quis se mudar foi tu, não eu.

Fim da discussão.

9.8.07

Chata de Galochas

Quem diria, galochas não só existem como servem para outras coisas além xingamentos das antigas.

Drops

*Você sabia que O tempo e o Vento foi um do livros que Gabriel García Márquez estudou para escrever Cem Anos de Solidão? Ele inclusive estranha que o Erico Verissimo seja tão pouco reconhecido no Brasil.

*Encontrar as gravuras presentes no livro na web para colar aqui não é tão fácil quanto parece.

8.8.07

De volta a Macondo

Caminhando à toa pela João Pessoa, depois de ter dado com a cara na porta mais uma vez, entrei numa loja de quinquilharias para matar o tempo. Misto de brechó, antiquário e sebo o lugar é muito bacana. Para completar tem como dona uma senhora bem velhinha, com sotaque castelhano, que é uma graça. Nada como ver livros e livros empilhados prontos para serem bisoiados. O ar empoeirado e a bagunça organizada traziam implícito um "cavocar!". E lá fui eu, com 5 pilas na bolsa e nenhuma idéia na cabeça – também sem muitas esperanças, afinal eram só 5 pilas e levar um Julia não estava nos meus planos.
Acredito que tu não encontra um livro, ele te encontra. Funciona mais ou menos assim. Por algum motivo alguma coisa te chama atenção. Passa um tempo e tu esquece até que tu "pexa" de novo com a tal coisa. De repente aquilo começa aparecer por todas as partes. É como se a partir do momento que a gente aprende a enxergar as coisas aprendem a existir. E existindo elas piscam, brilham. Existindo tu tropeça com elas por aí. É, talvez isso não funcione só para livros...
De volta ao sebo e aos livros com radar mês passado presentei uma amiga com Cem Anos de Solidão. Sou feita de histórias. Que ouvi. Que li. Que vivi. E sem dúvida nenhuma a saga dos Buendía foi uma das que mais me marcou, ficando encrustada na alma e na forma de ver o mundo. Pois então, desde o fatídico aniversário namoro a idéia de reler o livro (na verdade namoro essa idéia desde a primeira leitura). Como aqui em casa a biblioteca é raquítica deixei pra depois e depois e foi que depois se tornou hoje. Lá estava, em meio a um bando de livros e quadros e discos e copos e roupas e o que mais você conseguir imaginar, um exemplar de Cem Anos de Solidão piscando pra mim, por inacrediáveis 5 pilas! Velhinho, assinado (outra hora falo mais sobre a beleza de livros rabiscados), perfeito.

Tem como ler o primeiro parágrafo e não querer ler o resto?

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, contruídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo".
Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

A tarde foi, os planos sumiram e eu fiquei presa em Macondo matando a saudade. Como é bom reencontrar velhos amigos.

P.S. Sim, matando o português e misturando pessoas. É isso aí.
P.P.S. Dessa vez sai a árvore genealógica inteira!

5.8.07

João Bisol, 315

Voltar pra casa, voltar de casa, voltar. Foram boas férias, com tudo que estar em família outra vez envolve: casa, comida, roupa lavada, cobranças... Férias cheias daquela sensação de segurança de útero que diferencia um lugar de um lar. Talvez poucas coisas tenham mudado tão pouco quanto aquela paz modorrenta, só possível lá, de ficar deitada no sofá da sala, quase madrugada, assistindo/pescando qualquer coisa na TV. Um pouco por preguiça de ir pra cama, um pouco por vontade de estender a noite, com os roncos do pai, as pombas no telhado e a respiração da geladeira ao fundo (ok, talvez a geladeira já não seja a mesma). Saber a casa dormindo e perceber que um lugar pode fazer parte de você sem que você tenha necessariamente que fazer parte dele.

3.8.07

"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato".

Álvaro de Campos, uma das muitas pessoas do Pessoa

2.8.07

Rapunzel, rapunzel...

1.8.07

A Culpa é Minha
ou
A Hora da Estrela
ou
Ela que se Arranje
ou
O Direito ao Grito
ou
Quanto ao Futuro
ou
Lamento de um Blue
ou
Ela Não Sabe Gritar
ou
Uma Sensação de Perda
ou
Assovio no Vento Escuro
ou
Eu Não Posso Fazer Nada
ou
Registro dos Fatos Antecedentes
ou
História Lacrimogênica de Cordel
ou
Saída Discreta pela Porta dos Fundos
ou
Treze Nomes para um Pequeno GRANDE Livro

Ave Clarice.
Viver é um acaso. Uma pessoa é uma série de acasos. Um amigo são acasos com teimosia.

22.7.07

Nada de Novo no Front

Na montoera de livros que dominam meu criado mudo um havia ficado de lado, meio sem querer. Enquanto eu descobria o Continente, do Érico Verissímo e me emocionava com as cartas do Caio Fernando o pequeno e surrado exemplar de "Nada de Novo do Front", emprestado da bibliteca em greve esperava. "Nada de Novo no Front é um puta livro. Leia, logo" disse o Igor. Pois bem, parafraseio ele. Nada de Novo no Front é um PUTA livro, leiam o mais breve possível! Narrado em primeira pessoa por um soldado alemão da primeira guerra mundial e publicado pela primeira vez em 1928, segundo a orelha da minha edição, ele chegou a ser proibido por desmistificar a idéia heróica e romântica dos soldados. O autor inclusive foi pra guerra, sofreu sérios ferimentos e começou a escrever depois de fazer de tudo um pouco, um pouco para se redimir, mais para sobreviver. A história mistura o cotidiano nos campos de batalha com reflexões sobre toda falta de sentido que é uma guerra entre outras coisas. Por mim, teria sublinhado meio livro (tenho a mania de copiar trechos que gosto e guardar), mas ok, a propriedade é pública. Dos muitos pedaços que me marcaram me segurei e separei só um trechinho:

"Albert exprime bem o que pensamos:
– A guerra arruinou-nos para tudo.
Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra".
Nada de Novo no Front, Erich M. Remarque
"É hábito. E o hábito é como uma esposa que cessamos de amar e que já aborrecemos, mas à qual estamos apegados pela força... do hábito, e por preguiça. A inércia, Carl, tem muita força. A rotina é uma balada insípida de rimas óbvias."
O Tempo e o Vento, tomo II do Continente

20.7.07

As Coisas Sérias

Tenho evitado falar sobre coisas sérias. Parte desanimo com toda situação, parte, admito, alienação. Chega um ponto em que você cansa, desliga a tv e prefere lidar só com o mundinho a sua volta. Parece mais fácil, não é. O problema, o maior talvez, é que a gente se acostuma. Se acostuma com as crianças pedindo comida do lado de fora do mercado. Se acostuma com as pessoas maltrapilhas dormindo debaixo das marquises. Se acostuma a andar mais rápido a noite, a desconfiar de tudo e todos, a chegar em casa, destrancar as milhares de fechaduras e fechá-las todas de novo, por segurançaa, por medo, por paranóia. Uma vez um amigo me disse que nunca iria achar normal alguém pedindo comida na rua pra sobreviver. Na hora eu disse que eu gostaria de não achar normal também. Me envergonho de escrever isso, mas hoje eu acho. Aí acontece algo tão absurdo quanto a morte dessa gente toda e as pessoas tomam um choque, acordam um pouco, sofrem. Porque é triste, porque é quase irreal, porque não há como mensurar o pesar causado por um acidente dessa magnitude. Mas dai passa um tempo, tudo volta a ser como era antes, e não me refiro apenas ao caos aéreo, e novamente o mundo se acostuma a sua falta de humanidade. "Nunca percam a capacidade de se indignar!", disse a professora no fim do semestre, com a esperança de que ao menos um de nós realmente ouvisse. Correndo o risco de ser chata por levar esse texto longe demais, mais que três dias de luto oficial o que falta é uma sociedade disposta a um luto permanente. Um luto pelas coisas sérias e pequenas, como crianças passando fome e perdendo a infância na nossa frente, que com o tempo passamos a achar normais.

*Meus pesâmes pelas vítimas, parentes e amigos do acidente com o vôo 3054.

19.7.07

A tal da Grande (literalmente) história

Tirou o meu sono, fez mal para o pulmão do Isma. Algo entre bater com a cabeça no teclado e querer desesperadamente chutar o balde. Valeu a pena. Você sabe o que é o Santo Daime? Está curioso pra saber? Seus problemas acabaram! Com vocês, muito mais que 200 linhas depois, escrito com carinho a quatro mãos e por enquanto apenas on-line, ta ta ta, sem mais delongas: "O Universo do Santo Daime, a primeira religião genuinamente brasileira" (é, títulos nunca foram o meu forte).

18.7.07

'To the sun to shine'

Aconteceu numa terça feira, às onze da manhâ. Do jeito que essas coisas acontecem. Sem aviso, sem porquê. Talvez fosse o fim das aulas, talvez apenas uma sensação passageira. Fato é que ao terminar o livro, olhar pela janela e ver aquele céu cinza, sobre uma rua cinza, parte de um mundo cinza ela percebeu que já não importava. Havia vida lá fora. Vida a ser vivida. Vida que não ligava se o dia era cinza, branco, azul ou amarelo rubi. Talvez fosse, em pleno julho invernal, o começo de uma nova estação. Quem passasse por ali poderia até perceber um novo brilho antigo no olhar, misto de garra e fé renovada, enquanto no ar pairava algo parecido com um "bem vinda de volta". Bem vinda.

11.7.07


Lar, doce lar.

10.7.07

"And you can't always get what you want,
Honey, you can't always get what you want.
You can't always get what you want
But if you try sometimes, yeah,
You just might find you get what you need!"

Sábios Mick Jagger e Cia.

9.7.07

Secos e Molhados

Pais são pessoas estranhas. Liguei pra casa e me ofereci pra dar de presente dois ingressos do Cirque de Soleil pro seu Paulo e pra Dona Marlei e eles RECUSARAM (vamos desconsiderar que eu precisa de uma ajuda de custos de 100 pilas pra fechar o montante, mas ainda assim)! "Tu sabe que a mãe não se interessa por essas coisas, compra alguma coisa pra ti". Tchê, a mãe nem sabe o que são essas coisas. Progenitores, hunf.
Também vi Pulp Fiction for the first time hoje. Bem, é Tarantino, o que significa sangue a torto e a direito, violência, Uma e por aí vai. Agora aquela é com certeza uma das trilhas sonoras mais copiadas (e legais) da história. No meio do filme me peguei lutando contra mim mesma. Resultado: terminei ele com meio pote de negrinho de microondas no colo (o resto encontra-se confortávelmente instalado no meu estômago). Pretendo finalizar a noite, parafraseando um amigo parafraseando outro amigo, "dormindo como um bebê gordo" (o que não está londe de ser metade verdade). Na verdade faz tempo que eu não assistia tanta tv. Fim de semana vi A Rainha (lugar comum, mas aquela atriz é muito boa) e O Amor Não Tira Férias (não tenho nada a ver com isso, minha prima que alugou, era domingo a tarde, tava chovendo, vocês sabem, uma coisa leva a outra, e depois, Jude Law).
No mas, dias cinza, mundo cinza, rua (e jeans) molhada/o e a chuvinha que persiste. Após um sábado mega, muster murphy decidi comprar "Uma Temporada no Inferno" do Rimbaud. Vou ler, quando voltar o sol e eu puder fazer fotossíntese, só por segurança.

The 80´s

É, eu não vivi a década perdida (tá, só três anos com lembranças meio vagas) mesmo assim adoro os anos 80. Tem gosto de sessão da tarde, pipoca, ficar em casa sem compromisso, rock´n roll com teclados e afins. Agradeço pelo bom senso capilar das pessoas hoje em dia e por terem deixado de lado coisas como polainas e mullets, ainda assim, os tais anos 80 devem ter sido divertidos. Falando em sessão da tarde, esse videozinho é de uma comédia romântica meio recente (Letra e Música), mas que caberia perfeitamente nas tardes da Globo. "PoP! Goes My Heart"...

7.7.07

Conto de estimação

Há um tempo escrevi um conto, por escrever. Acabou que se tornou meio que um texto de estimação, desses que a gente visita de vez enquando. Lê, re-lê, gosta, desgosta. Essa chuva contínua, esse dia sem cor, lembrei dele. Saudade de pensar colorido.


Dias Brancos


Era um dia branco. Ela sentou e pediu um café cortado, nunca parava no centro para tomar café sozinha, mas naquele momento pareceu a melhor coisa a fazer. O vento soprava forte, não que estivesse necessariamente frio, mas toda a atmosfera daquele dia a levava a pensar em tomar um café.

E divagar, dias assim são feitos para pensamentos desconexos. O café chegou junto com uma borboleta, estranho, borboletas no inverno. Um dia alguém lhe disse que borboletas só vivem catorze dias. Uma vida em uma quinzena, será possível? Nascer, amar e morrer assim, em duas semanas.

Naquele instante um calafrio percorreu todo o seu corpo, será possível amar, morrer, melhor viver em cinqüenta, cem anos? Ela tinha trinta e três, mas o que fizera nesse tempo? Pela primeira vez percebeu e sentiu realmente que o tempo passa e como uma epifania teve a certeza de que ele é a única coisa irremediável da vida. Esses mesmos minutos em que pensa nisso são minutos perdidos. E se só lhe restassem mais duas semanas? Poderia ela morrer feliz e pensando que ao menos viveu? Na verdade ela era feliz de alguma forma? O colégio escolhido pelos pais, a faculdade de medicina feita, mas apenas feita, sem ânimo ou gosto algum. O casamento, os filhos, em algum momento ela indagou se era o que realmente queria, não, sempre seguiu o fluxo e sempre se achou bem assim, bem, mas não feliz. Os olhos castanhos guardavam em si a profundidade inescrutável e taciturna de tantos quase sonhos, quase tentativas e até quase amores nunca realizados. Se ela fosse uma borboleta, se ela tivesse só duas semanas, só assim talvez fosse feliz. Perceber o fim já é um começo mas a maior dificuldade é conseguir se libertar. Poderia ela viver realmente, voar sem medo e tentar o impossível sem se importar? Olhou o relógio, o ponteiro dos segundos continuava marcando sem parar seus segundos perdidos, talvez todo esse tempo ele só tenha marcado segundos perdidos.

A borboleta voou. Foi embora só, todos estamos sós. Sós no fato que a quantidade de escolhas que nos são postas só faz aumentar nossa indecisão. Sós porque cabe só a nós a responsabilidade pelo caminho que escolhemos. Duas semanas ou dois anos, o tempo é indiferente a nós também, e aí estamos sós de novo, lutando por mais um dia frente a um fim inevitável.

Sorveu o resto do café num gole ainda com a cabeça e a alma longe. O garçom a acordou:

-Moça, moça. A conta.

Pagou e foi embora pensando, talvez se ela fosse uma borboleta... Olhou o relógio, já era hora de pegar as crianças no colégio.

Ah, as coisas que passam pela cabeça das pessoas nesses dias brancos.

Paula B. B.

h
* Re-republicação.

6.7.07

Cá estou, semestre quase findo (cheguei no estágio ou ele acaba ou eu me acabo), mas ainda sem aquela sensação de ahhh. Enquanto faço planos de recuperar pôres-do-sol perdidos, botar as pernas pra cima e conversar com o teto sem culpa tento colocar na cabeça que as coisas acabam quando elas terminam e ponto. Uma coisa eu sei, amanhã de manhã eu vou dormir e dormir pela primeira vez em um bom tempo (quer dizer, vou dormir até o telefone tocar e me acordar, como sempre acontece, mas antes o telefone que o despertador). Viva as quase férias.

5.7.07

"And therefore never send to know for whom Bell tolls;
it tolls for thee"


" – Nenhum homem é uma ilha... O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, residi quase toda a angústia de existir. ... Cada homem é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua flora e sua história particulares. ... E a comunicação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais semafóricos, mensagens truncadas escritas num código cuja chave ninguém possui. ... as ilhas do Arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente, ao qual anseiam por se unirem. Muitos pensam resolver o problema da solidão e da separação... aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele, mesmo com o sacrifício da própria personalidade... ... O que importa a cada ilha é vencer a solidão, o estado de alienação, o tédio ou o medo que o isolamento lhe provoca".

O Arquipélago, Érico Veríssimo

4.7.07


Andrés Vivo

3.7.07

site do livro da Miranda July
noonebelongsheremorethanyou
genial

O e-mail

Nada de ligação, apenas um e-mail (bem simpático até, se for pra ser dispensada que seja sempre assim): "Infelizmente, optamos por outra pessoa para ocupar a vaga" pa ta ti pa ta ta.

Breve histórico. Fiz uma entrevista pra uma vaga de estágio lá no Margs sexta. Lugar bacana, chefe gente boa, candidata estupidamente sincera... A resposta vinha/veio hoje.

Conversação com Cibele, a empregadora (resumida, a parte em que me ferrei e dei bye bye pra vaga):
C- Te descreve em uma palavra.
P. Apaixonada.
C. O que tu mais gosta no jornalismo?
P. A reportagem, sair pra rua, falar com as pessoas e blá blá blá (discurso também apaixonado de jornalista utópica).
C. Pois é, eu me preocupo muito com a felicidade dos meus funcionários. Pelo jeito eu não sei se tu consiguiria ficar atrás do computador o tempo todo, porque aqui o trabalho na maioria das vezes acaba sendo bem burocrático...
P. (imbecil, retardada, remediando quando já era tarde) Ah, mas tu tem que ver que eu consigo sim, a vida de qualquer estudante é passar os dias atrás do pc e blá, blá, blá (papo inútil, ela já tinha me sacado, é, eu nasci pra ir pra rua cair em indiada, tá no sangue).

Não deu. É a vida. Se alguém souber de uma vaguinha de estágio me avisa (É SÉRIO).

..."gostamos muito do teu perfil, especialmente porque pareces ser mesmo uma pessoa 'apaixonada' - característica interessante para desenvolveres no nível profissional... Desejamos boa sorte em outras seleções e vamos manter teu currículo aqui conosco, ok?"

Ok.

O telefone mal tem tempo de tocar e eu já pulo em cima dele. Será "A ligação"? Por enquanto nada. E tenho visto esse telefone tocar, hein. Um 'não mora nenhuma Maria do Carmo aqui não', 'a Jerusa não se encontra', 'oie Caro' e 'não, não quero curso de inglês, obrigada' depois estou perdendo as esperanças...

1.7.07

Amar é

–Ver uma garota que se diz sua filha dizer "cai fora" logo ao sair da rodoviária, enquanto balança a carteira de motorista recém adquirida e gentilmente ceder o banco de motorista entre o aterrorizado e o contente.
–Ouvir "dá uma olhada se tem espaço pra eu ir pra trás" em pleno morro no centro caxiense, tentar não falar nada gênero "como?" ao lembrar que o a camionete pesa tranquilamente uns 3.000 kgs e esmagaria sem problemas o carro novo que se encontra atrás e sem entrar em pânico, descer do carro e conversar com o motorista do referido veículo novo. "Pode passar, ela tá aprendendo".
–Largar tudo o que estava fazendo afim de evitar o inevitável pra acompanhar a garota, ansiosa por pegar no volante, nem que seja só pra ficar dando voltas pelo bairro.
–Sentado a conversar com um amigo sobre a vida e a entrada da filha no mundo dos motoristas se ver obrigado a dizer sim a pergunta "Pai, posso pegar o carro"? enquanto um "nem pensar" seguido de um "tu sabe que eu não posso te dizer não agora" fica engasgado e rezar pra que tudo corra bem e as tais quatro quadras até a casa da maldita amiga estejam vazias e sem postes.
– Respirar aliviado ao vê-la chegar a salvo e cheia de si. "No fim do ano, quando eu tiver mais prática, o senhor me empresta o carro pra eu viajar com as gurias"? "Empresto", é, daqui pra frente só piora suspira.
–Olhar o parachoque arrebentado, sorrir, soltar um "Tá tudo bem, não te preocupa, isso acontece" e agradecer por não ter acontecido nada de grave, enquanto lembra que alertou ela para não tirar o carro da garagem sozinha, pois até mesmo pra ele era complicado devido a falta de espaço e mesmo assim dizer, após ter remediado* a situação, "Então, vamos dar uma volta"?

"Essas gurias ainda vão te deixar de cabelo branco" pondera o amigo. AINDA?


Prévia dia dos pais.
Pro cara mais legal que eu conheço e que é O CARA.


*Remediado = tronco de madeira (daqueles estilo lenha ainda não rachada) + mãe apavorada segurando tronco contra parede + paninho no parochoque + carro indo contra parede, tronco e mãe. E não é que melhorou bastante? E sim, a dona Marlei sobreviveu a empreitada.

26.6.07

Parágrafos

Abro essa janela, fecho, abro e por aí vai, texto que é bom necas. Na dúvida decidi escrever sobre o que sei melhor, ou seja (um dia vou conseguir digitar isso de novo sem um coro mental ao fundo gritando CERVEJA), coisa nenhuma. Estou interneticamente de luto. O no mínimo, meu quilombo de jornalistas preferido, acaba essa semana. Já faz um tempo que eles anunciam que sem patrocinador o negócio não ia ter como continuar, mas eu pensava "Que é isso, deve existir alguma boa alma endinheirada por aí disposta a bancar essa idéia". Não há. No more Zuenir Ventura, Kotscho e afins na rede, ao menos por enquanto. Frio(zão), chuva, dias cinzas. O trio inverno parada dura persiste em continuar. Toca Hold me closer tiny dancer/ Count the headlights on the highway no rádio, aquela música do Quase Famosos, e dá uma vontade enorme de sair pela vida num ônibus qualquer cheios de desconhecidos atrás de grandes histórias ou só de sair pela vida mesmo, sem pensar, planejar e todas essas bobagens. Nessas horas vem o Instantes do Borges à cabeça (ele sempre vêm) "Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve" (como que a gente faz pra viajar mais leve?) . Falando em grandes histórias, tenho uma comigo, já faz um tempinho, mas não consigo por pra fora, desengasgar. É uma matéria que fiz/estou fazendo com um amigo sobre uma religião da amazônia, um troço muito, mas muito interessante. Pesquisamos pra caramba até conseguirmos entender e agora, arrg. Bem, o assunto em si não vêm ao caso, o fato é que não sai. Quer dizer, não sai no papel, porque a história em si nós já contamos pra muita gente e falando o negócio flui que é uma beleza (ah é, então grava, not, não funciona desse jeito (nem tenta discutir, (pseudo) jornalistas são pessoas estranhas)). Sabe aquela sensação de que está tudo ali, ao alcance da mão, e que se der vai ser íncrivel. SE der. De pijama, casacão, manta e pantufas (combinação elegantérrima) desci até a caixinha de correio. E daí que já é noite, nada impede que o carteiro tenha se atrasado. Espero uma carta como uma criança espera o Natal, ansiosa, feliz, sem saber direito o que vai encontrar. Um pedacinho de entendimento quem sabe? Faz tanto tempo. Domingo andei de bicicleta, fui até o Morro São Caetano. Ele fica ao lado de um outro morro (da Tv?) cheio de antenas, que olhando da redenção parece ser a parede que marca o fim da cidade. Não é, e como é bom perceber/respirar isso. A vista de Porto Alegre é inacreditável, fiquei namorando a idéia de ver o pôr-do-sol de lá. O céu deve ser um lugar cheio de morros asfaltados pra descer de bicicleta. Frases soltas "Quando a música para, tudo que resta é o silêncio" (da onde será isso?). E segue o baile, digo, a música. Lay me down in sheets of linen /You had a busy day today...

24.6.07

Poema de Sete Faces

Quando nasci um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que corresm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de peras:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
nao perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Uma grande amiga disse que sempre lembra de mim quando lê esse poema. Ótima forma de ser lembrada (morram de inveja).

23.6.07

E a resposta certa é

Ta ta ta ta. Letra D babe, ou quanto mais escândalo melhor para os íntimos.
"d.) Lembra dos velhos tempos de perdida no hipermercado, conversa com a dona do restaurante e pede gentilmente pra ela chamar o nome do entrevistado no microfone. Uma coisa básica do tipo "o professor Antônio Sanseverino se encontra, atenção, o professor Sanseverino se encontra"..."
Claro que após o téti a téti com a dona do estabelecimento e a chamada no microfone ninguém respondeu. Só um senhor com cara de professor (hmn) olhou para trás com um cara de interrogação e voltou a sua leitura. Instinto jornalístico (leia-se desespero) fui falar com o homem. Não é que era o Fisher (
também professor de literatura da UFRGS)? Dai pra frente Murphy decidiu dar um folga, o professor conhecia o Sanseverino sim, eram colegas e além de me convidar para sentar (já disse que o lugar tava lotado?) se ofereceu pra ligar para ele, o que facilitou bastante a minha vida. Ligação realizada o Sansa estava chegando, problemas com estacionamento, ou algo assim. Nessa hora o mais inteligente a fazer seria aproveitar para entrevistar o Fisher também, mas admito que só consegui pensar que com todo o material bom que eu já tinha apurado se eu fizesse mais uma entrevista NUNCA que eu ia conseguir fechar a matéria só de cinco minutos. Tá, também fiquei com preguiça (quem não estiver com um fim de semestre calamitoso que atire a primeira pedra).
Quanto ao resto, o professor chegou (muito bacana, pediu desculpas pelo atraso), reconheci ele graças ao Fisher, fiz a entrevista rapidinho e aproveitei pra ficar mais uns vinte minutos conversando sobre literatura brasileira e os tempos dele de Fabico. É incrível a quantidade de gente que larga o jornalismo pra fazer letras.
Clichezão do dia: tudo acaba bem, se não está bem é porque não chegou ao fim ainda (espero).

Mães sempre tem razão

Sexta à noite, toca o telefone.

- Alô.
- Alô Paula, tudo bem por aí?
- Oie mãe. Tudo, e com a senhora? Como vão as coisas em Caxias?
- Tudo bem também. Vai sair?
- Vou (timing materno é brabo. A dona Marlei SEMPRE liga quando vou sair. Agora quando eu passo todo o fim de semana em casa acha que ela liga? NOT). Hoje é aquela festa à fantasia (de bebida liberada) que tem todo o semestre.
- Ah minha filha, te cuida, não bebe. Tu sabe que a mãe fica preocupada.
- Mãe, pode deixar que eu me cuido (e é claro que eu vou beber).

Sábado à noite. Trê litros de água, duas aspirinas e um dia todo com a sensação de ter o cérebro sendo drenado depois: por que raios eu não ouço a minha mãe?

20.6.07

(Sabe, andei pensando, da pra adiar muita coisa, menos dizer que pra quem a gente gosta que gosta (por mais que nem todos entendam isso). Vamos lá, eu e meu orgulho king size (que não facilita muito as cousas), resgatando amigos de contar nos dedos que ficaram perdidos por aí. Li em algum lugar que com o tempo, por puro instinto de proteção, a gente aprende a golpear sempre que sente cheiro de lança no ar. Eu não só golpeei, de tanto apanhar eu me fechei (meu passado, ó, mas ela nem tem vinte anos, é, mas mesmo assim, ela tem umas histórias que ainda pesam pra caramba). Fiz questão de criar umas barreiras bem altas pra ninguém nunca saber quando eu tava mal ou bem e assim também não conseguir chegar perto. Dói menos. Funcionou bem por um bom tempo, mas dai eu fui amolecendo e deu no que deu, me quebrei outra vez. Agora to em dúvida. A parte apatriada, auto-exilada, pseudo auto suficiente tá pelos muros. Essa fazia as trouxinhas e ia embora nem que metaforicamente. Mas a outra, que se reconheceu num lugar pela primeira vez, que viu como é legal ser mais uma estranha entre estranhos (no bom sentido) gostaria de se aquietar, parar, encontrar de vez esse lugar que faz sentido. Paira um sentimento de desagregação no ar. Isso me incomoda. Divagações a parte, sinto falta das pessoas.)

19.6.07

Enquete

Você marca uma entrevista com alguém num restaurante, sendo que nunca viu o sujeito mais gordo (ou magro, ou careca, ou vestido de anão de jardim etc. Enfim, não faz idéia de como é a figura). Lá, em meio aos lugares para sentar inexistentes (o tal estabelecimento gentilmente encontra-se lotado), percebe: esqueceu o telefone da pessoa (e porque murphy é murphy quem disse que ela tem o seu). Após longos vinte minutos de espera (e duas abordagens mal sucedidas) você:
a.) Passa mais vinte minutos analisando todos os trausentes detalhadamente afim de encontrar alguém que pareça tão ou mais perdido que a sua pessoa.
b.) Recolhe acampamento, abaixa a cabeça e vai embora, afinal, às vezes as coisas simplesmente não dão certo.
c.) Corre pra casa pra pegar o bendito número de telefone e enquanto isso aproveita pra rezar pro cara chegar e pensar "Ah, acho que vou ficar mais uma meia hora aqui sentado esperando, afinal ela deve ter ido até em casa correndo pra pegar meu número de telefone e volta daqui a pouco".
d.) Lembra dos velhos tempos de perdida no hipermercado, conversa com a dona do restaurante e pede gentilmente pra ela chamar o nome do entrevistado no microfone. Uma coisa básica do tipo "o professor Antônio Sanseverino se encontra, atenção, o professor Sanseverino se encontra"...
E então?

To be continue