24.5.07

Quando um barraco faz a diferença


Mim Paula, pessoa da paz, às vezes até demais. Desde muito tempo decidi abandonar o sangue de barata que domina minhas veias e revidar quando algo me incomoda. Fora uns xingões ocasionais na minha irmã, o que considero comuns entre consangüíneos, esse objetivo andou meio esquecido. Também não há muita coisa que faça subir o referido sangue. Mas essa quarta foi diferente.

Segue o relato de uns dos almoços mais absurdos (não digo o mais porque bem, comer no RU sempre tem seu quê bizarro, vide o parafuso encontrado no feijão semestre passado) que já tive nos meus últimos dois anos e meio de faculdade.

Ontem, como todo santo dia após a aula desde que entrei na UFRGS, me encaminhei para aquele aglomerado de mesas e alunos esfomeados, vulgo Restaurante Universitário, afim de calar a boca do meu estômago. Fila vai, fila vem, paguei (R$ 1,30, porque deus existe e foi estudante), me servi - feijão, arroz, prato quente estranho, uma carne e sobremesa – e fui sentar.

Bandeja na mão, estômago roncando (já mencionei isso, ok, mas essa é uma parte importante, eu tava com muiiitaa fome) e nenhum lugar para sentar. Quer dizer, tinha, vários, mas estavam “reservados”. Obviamente quem fez isso não viu os cartazes nas paredes com letras garrafais de “FAVOR NÃO RESERVAR LUGARES”, tampouco que era meio dia e quinze, horário de pico do estabelecimento. Entre ficar de pé esperando os tais analfabetos distraídos retirarem suas coisas ou outra mesa vagar e sentar pra comer, sentei. Junto com mais três colegas, que também tinham as bandejas na mão, pegueis as pastas e mochilas que cobriam uma das mesas e coloquei na mesa ao lado, coberta por outras pastas e mochilas.

Estava lá eu, olhando pro meu “espaguete de pizza" (nunca subestime a criatividade das nutricionistas do RU), com gritos internos de 'atacar!', quando um grupo, aparentemente furioso, veio indagar onde estavam as suas coisas. Ainda de olho na comida, apontei para a mesa ao lado e voltei para o levantamento de garfo. Qual não foi a minha surpresa, quando o tal grupo não saiu dali e começou a gritar comigo, mas gritar mesmo.

Minha primeira reação foi esbravejar um ‘Tu tá louco guri? Já leu os cartazes na parede, dá licença que eu quero almoçar’. Depois, não tenho bem certeza do que aconteceu. As pessoas começaram a gritar mais e mais. 'Que direito tu tem de mexer nas minhas coisas'! chiava um baixinho, com o dedo em riste na minha cara – ai que meda. 'O direito de, como estudante dessa universidade, poder chegar no RU, sentar e comer'!, respondi (no momento a frase saiu ainda pior que aqui, mas a idéia era essa).

A coisa foi crescendo de um jeito. Numa hora eu era a Paula feliz, prestes a comer, na outra lá estava eu, no meio de um bolo de gente, desafiando um guri que me mandava levantar e sair dali ‘Tenta tirar minha bandeja daqui pra ti ver’! Do nada apareceram uns amigos (que bom que eles estavam por ali), entraram na briga e começaram a me defender. 'Desde quando a guria não pode sentar pra almoçar, cara!', gritavam. Apareceu o guardinha pra apartar, apareceram curiosos, apareceu até uma retardada com um celular na mão rindo 'isso vai pro youtube, blá, blá, blá'...

Chegou ao ponto de um dos garotos, já sem argumentos, me olhar, gritar‘sua vagabunda’e sair andando. Me vi levantar da cadeira, virar pra trás e gritar de volta ‘tu que me chama de vagabunda, depois eu que sou grossa!' (grossa foi um xingamento recorrente durante toda interpelação (frase latente na minha garganta: vai tomar no @#$%& filho da #$&*¨&, mas claro que eu não disse isso, porque: 1. não tenho por que meter uma senhora desconhecida na discussão; e 2. ao contrário do que ele pensa, a minha mãe, sim, me deu educação)). A fala clássica dos valentões de filmes americanos de colégio dos anos 80 (ou seriam todos filmes americanos de colégio?) – 'Te pego na saída', encaixaria perfeitamente nos lábios do baixinho que me encarava. Que corajoso ele hein, eu ali sentada, com a minha manta cor-de-rosa no colo e o garfo na mão, devia parecer muito ameaçadora.

Concordo que falta um lugar para o pessoal colocar as coisas. Ninguém vai implicar com uma cadeira ou outra ocupada por materiais pesados. Agora, reservar duas, três mesas num RU lotado, fato comum ultimamente, é falta de consideração. A maioria das pessoas que conheço também vem cheias de tralhas da aula, e mesmo assim conseguem se servir, ainda que tenham que fazer uns malabarismos para segurar tudo.

Entre o guri que colocava o dedo na minha cara, a guria estridente que repetia e repetia ‘tu pode reservar lugar se for pra ti’ (afinal, formular outra frase exigiria um número superior a três neurônios), os outros guris que ameaçavam meus amigos ‘isso vai ter volta meu, ah vai’ e o guardinha perdido, as coisas ficaram confusas. Depois de uns 15 minutos eles decidiram sentar – ou perderam a voz, não tenho certeza, eu já tava ficando meio rouca (sei que o ideal é responder na classe e tal, mas ninguém mexe comigo quando estou faminta, pff)...

Terminei de comer, ainda meio zonza – e espumando de raiva, admito – com tudo aquilo e fui falar com a senhora responsável pelo RU, pra ver se eu estava tão errada assim. Obviamente, ela me deu razão – lado treze anos: na na na na na. Ela disse que na falta de escaninhos para os cadernos eles contam com o bom senso dos alunos, mas que, devido à ocorrência desses problemas (parece que a mesma turminha folgada (sorry, escapou) tinha arranjado confusão na terça com um pessoal que, pasme, sentou pra comer onde estavam as mochilas deles), a coordenação dos ru´s ia providenciar mesas para os materiais o mais rápido possível.

Tá, e daí? Tudo isso por nada? Não benhê, calma... Tudo isso foi pra dizer que hoje, quando terminei meu almoço, em paz, felizmente, havia sim mesas paras os cadernos e afins. Raro isso, as coisas acontecerem de um dia para o outro, mas às vezes um barraco ou dois fazem a diferença. Triste pensar que pra conseguir as coisas na universidade pública só desse jeito (as lembranças dessa que vos escreve voam pra biblioteca fechada por meses, que só abriu depois que os alunos fecharam também a Ipiranga, pra falta de professores semestral, sempre resolvida depois que os alunos se reúnem pra protestar, entre outras coisas). Sim, parece discurso da gurizada do DCE (garanto que não penso em concorrer pra nada), mas é verdade.

Ah, e esse post também é uma forma de expressar a minha tristeza. Aquela massa tava tão boa fria, imagina quente...

7 comentários:

Mário disse...

Eu na minha época de baixinho também era invocado.

Embora eu acredite que toda essa situação se resolveria com a frase: vá procurar alguém do teu tamanho!


AEIUAEHiUAHEiuAE

boa confusão e parabéns por manter a educação em meio ao escarcéu(mesmo que assim o texto tenha ficado menos dramático, apelativo e "mainstream"[hahaha]).

Cris disse...

pois é, e não é q teve a frase 'te pego na saída', ou alguma variável tipo 'a gente se encontra depois' ou outra qualquer?
e bom, tenho q citar o alexandre. o guri faz enfermagem e tava querendo pegar alguém na saída? ah, pára!

Kauê disse...

"o guri faz enfermagem e tava querendo pegar alguém na saída?"
a frase q eu falei foi bem mais legal...
o cara vai ser enfermeiro e tá querendo dar uma de machão
enfim, pelo menos tu pôde comer a massa quentinha (ou algo próximo disso) hj

Michel Cortez disse...

Faço minhas as palavras do Mário ali:

"Eu na minha época de baixinho também era invocado"

E durante todo o relato eu fiquei esperando uma batalha campal em pleno RU. E não veio. Broxante...

(sem batalha = sem botinaço no celular da guria do youtube = Michel frustrado)

Mas parabéns pela atitude, mesmo que tenha sido digna de franguinhos!

Póóóó pó pópópóóóó!

(beijo)

Cris disse...

paula, manda o michel à merda!
ele não só não teria brigado como teria liberado a mesa pros machões da enfermagem.
pff!

Natusch disse...

O baixinho é invocado mesmo. Ficou me encarando na sexta - justo eu, que nem estava por perto no dia do furdunço. Tá certo que do meu lado tava a Cris apontando o dedo para ele, mas enfim, detalhes. Claro que fiquei morrendo de medo do valentão da enfermagem... Vai que ele resolve, sei lá, dar uma cabeçada no meu joelho. Pode até doer, né.

Toda essa situação é tragicômica, na verdade. O videozinho no YouTube (já tiraram) era ridículo, os comentários dos enfermeiros irritados mais ainda. Um deles ser incapaz de compreender o significado de "FAVOR NÃO RESERVAR LUGARES" e ainda acusar os outros de analfabetismo funcional é uma pérola, convenhamos.

Cris disse...

ah, e acusar os outros de analfabetismo funcional (repito, sem noção de como aplicar o termo) pra depois escrever "mecher"... ridículo!