22.7.07

Nada de Novo no Front

Na montoera de livros que dominam meu criado mudo um havia ficado de lado, meio sem querer. Enquanto eu descobria o Continente, do Érico Verissímo e me emocionava com as cartas do Caio Fernando o pequeno e surrado exemplar de "Nada de Novo do Front", emprestado da bibliteca em greve esperava. "Nada de Novo no Front é um puta livro. Leia, logo" disse o Igor. Pois bem, parafraseio ele. Nada de Novo no Front é um PUTA livro, leiam o mais breve possível! Narrado em primeira pessoa por um soldado alemão da primeira guerra mundial e publicado pela primeira vez em 1928, segundo a orelha da minha edição, ele chegou a ser proibido por desmistificar a idéia heróica e romântica dos soldados. O autor inclusive foi pra guerra, sofreu sérios ferimentos e começou a escrever depois de fazer de tudo um pouco, um pouco para se redimir, mais para sobreviver. A história mistura o cotidiano nos campos de batalha com reflexões sobre toda falta de sentido que é uma guerra entre outras coisas. Por mim, teria sublinhado meio livro (tenho a mania de copiar trechos que gosto e guardar), mas ok, a propriedade é pública. Dos muitos pedaços que me marcaram me segurei e separei só um trechinho:

"Albert exprime bem o que pensamos:
– A guerra arruinou-nos para tudo.
Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra".
Nada de Novo no Front, Erich M. Remarque
"É hábito. E o hábito é como uma esposa que cessamos de amar e que já aborrecemos, mas à qual estamos apegados pela força... do hábito, e por preguiça. A inércia, Carl, tem muita força. A rotina é uma balada insípida de rimas óbvias."
O Tempo e o Vento, tomo II do Continente

20.7.07

As Coisas Sérias

Tenho evitado falar sobre coisas sérias. Parte desanimo com toda situação, parte, admito, alienação. Chega um ponto em que você cansa, desliga a tv e prefere lidar só com o mundinho a sua volta. Parece mais fácil, não é. O problema, o maior talvez, é que a gente se acostuma. Se acostuma com as crianças pedindo comida do lado de fora do mercado. Se acostuma com as pessoas maltrapilhas dormindo debaixo das marquises. Se acostuma a andar mais rápido a noite, a desconfiar de tudo e todos, a chegar em casa, destrancar as milhares de fechaduras e fechá-las todas de novo, por segurançaa, por medo, por paranóia. Uma vez um amigo me disse que nunca iria achar normal alguém pedindo comida na rua pra sobreviver. Na hora eu disse que eu gostaria de não achar normal também. Me envergonho de escrever isso, mas hoje eu acho. Aí acontece algo tão absurdo quanto a morte dessa gente toda e as pessoas tomam um choque, acordam um pouco, sofrem. Porque é triste, porque é quase irreal, porque não há como mensurar o pesar causado por um acidente dessa magnitude. Mas dai passa um tempo, tudo volta a ser como era antes, e não me refiro apenas ao caos aéreo, e novamente o mundo se acostuma a sua falta de humanidade. "Nunca percam a capacidade de se indignar!", disse a professora no fim do semestre, com a esperança de que ao menos um de nós realmente ouvisse. Correndo o risco de ser chata por levar esse texto longe demais, mais que três dias de luto oficial o que falta é uma sociedade disposta a um luto permanente. Um luto pelas coisas sérias e pequenas, como crianças passando fome e perdendo a infância na nossa frente, que com o tempo passamos a achar normais.

*Meus pesâmes pelas vítimas, parentes e amigos do acidente com o vôo 3054.

19.7.07

A tal da Grande (literalmente) história

Tirou o meu sono, fez mal para o pulmão do Isma. Algo entre bater com a cabeça no teclado e querer desesperadamente chutar o balde. Valeu a pena. Você sabe o que é o Santo Daime? Está curioso pra saber? Seus problemas acabaram! Com vocês, muito mais que 200 linhas depois, escrito com carinho a quatro mãos e por enquanto apenas on-line, ta ta ta, sem mais delongas: "O Universo do Santo Daime, a primeira religião genuinamente brasileira" (é, títulos nunca foram o meu forte).

18.7.07

'To the sun to shine'

Aconteceu numa terça feira, às onze da manhâ. Do jeito que essas coisas acontecem. Sem aviso, sem porquê. Talvez fosse o fim das aulas, talvez apenas uma sensação passageira. Fato é que ao terminar o livro, olhar pela janela e ver aquele céu cinza, sobre uma rua cinza, parte de um mundo cinza ela percebeu que já não importava. Havia vida lá fora. Vida a ser vivida. Vida que não ligava se o dia era cinza, branco, azul ou amarelo rubi. Talvez fosse, em pleno julho invernal, o começo de uma nova estação. Quem passasse por ali poderia até perceber um novo brilho antigo no olhar, misto de garra e fé renovada, enquanto no ar pairava algo parecido com um "bem vinda de volta". Bem vinda.

11.7.07


Lar, doce lar.

10.7.07

"And you can't always get what you want,
Honey, you can't always get what you want.
You can't always get what you want
But if you try sometimes, yeah,
You just might find you get what you need!"

Sábios Mick Jagger e Cia.

9.7.07

Secos e Molhados

Pais são pessoas estranhas. Liguei pra casa e me ofereci pra dar de presente dois ingressos do Cirque de Soleil pro seu Paulo e pra Dona Marlei e eles RECUSARAM (vamos desconsiderar que eu precisa de uma ajuda de custos de 100 pilas pra fechar o montante, mas ainda assim)! "Tu sabe que a mãe não se interessa por essas coisas, compra alguma coisa pra ti". Tchê, a mãe nem sabe o que são essas coisas. Progenitores, hunf.
Também vi Pulp Fiction for the first time hoje. Bem, é Tarantino, o que significa sangue a torto e a direito, violência, Uma e por aí vai. Agora aquela é com certeza uma das trilhas sonoras mais copiadas (e legais) da história. No meio do filme me peguei lutando contra mim mesma. Resultado: terminei ele com meio pote de negrinho de microondas no colo (o resto encontra-se confortávelmente instalado no meu estômago). Pretendo finalizar a noite, parafraseando um amigo parafraseando outro amigo, "dormindo como um bebê gordo" (o que não está londe de ser metade verdade). Na verdade faz tempo que eu não assistia tanta tv. Fim de semana vi A Rainha (lugar comum, mas aquela atriz é muito boa) e O Amor Não Tira Férias (não tenho nada a ver com isso, minha prima que alugou, era domingo a tarde, tava chovendo, vocês sabem, uma coisa leva a outra, e depois, Jude Law).
No mas, dias cinza, mundo cinza, rua (e jeans) molhada/o e a chuvinha que persiste. Após um sábado mega, muster murphy decidi comprar "Uma Temporada no Inferno" do Rimbaud. Vou ler, quando voltar o sol e eu puder fazer fotossíntese, só por segurança.

The 80´s

É, eu não vivi a década perdida (tá, só três anos com lembranças meio vagas) mesmo assim adoro os anos 80. Tem gosto de sessão da tarde, pipoca, ficar em casa sem compromisso, rock´n roll com teclados e afins. Agradeço pelo bom senso capilar das pessoas hoje em dia e por terem deixado de lado coisas como polainas e mullets, ainda assim, os tais anos 80 devem ter sido divertidos. Falando em sessão da tarde, esse videozinho é de uma comédia romântica meio recente (Letra e Música), mas que caberia perfeitamente nas tardes da Globo. "PoP! Goes My Heart"...

7.7.07

Conto de estimação

Há um tempo escrevi um conto, por escrever. Acabou que se tornou meio que um texto de estimação, desses que a gente visita de vez enquando. Lê, re-lê, gosta, desgosta. Essa chuva contínua, esse dia sem cor, lembrei dele. Saudade de pensar colorido.


Dias Brancos


Era um dia branco. Ela sentou e pediu um café cortado, nunca parava no centro para tomar café sozinha, mas naquele momento pareceu a melhor coisa a fazer. O vento soprava forte, não que estivesse necessariamente frio, mas toda a atmosfera daquele dia a levava a pensar em tomar um café.

E divagar, dias assim são feitos para pensamentos desconexos. O café chegou junto com uma borboleta, estranho, borboletas no inverno. Um dia alguém lhe disse que borboletas só vivem catorze dias. Uma vida em uma quinzena, será possível? Nascer, amar e morrer assim, em duas semanas.

Naquele instante um calafrio percorreu todo o seu corpo, será possível amar, morrer, melhor viver em cinqüenta, cem anos? Ela tinha trinta e três, mas o que fizera nesse tempo? Pela primeira vez percebeu e sentiu realmente que o tempo passa e como uma epifania teve a certeza de que ele é a única coisa irremediável da vida. Esses mesmos minutos em que pensa nisso são minutos perdidos. E se só lhe restassem mais duas semanas? Poderia ela morrer feliz e pensando que ao menos viveu? Na verdade ela era feliz de alguma forma? O colégio escolhido pelos pais, a faculdade de medicina feita, mas apenas feita, sem ânimo ou gosto algum. O casamento, os filhos, em algum momento ela indagou se era o que realmente queria, não, sempre seguiu o fluxo e sempre se achou bem assim, bem, mas não feliz. Os olhos castanhos guardavam em si a profundidade inescrutável e taciturna de tantos quase sonhos, quase tentativas e até quase amores nunca realizados. Se ela fosse uma borboleta, se ela tivesse só duas semanas, só assim talvez fosse feliz. Perceber o fim já é um começo mas a maior dificuldade é conseguir se libertar. Poderia ela viver realmente, voar sem medo e tentar o impossível sem se importar? Olhou o relógio, o ponteiro dos segundos continuava marcando sem parar seus segundos perdidos, talvez todo esse tempo ele só tenha marcado segundos perdidos.

A borboleta voou. Foi embora só, todos estamos sós. Sós no fato que a quantidade de escolhas que nos são postas só faz aumentar nossa indecisão. Sós porque cabe só a nós a responsabilidade pelo caminho que escolhemos. Duas semanas ou dois anos, o tempo é indiferente a nós também, e aí estamos sós de novo, lutando por mais um dia frente a um fim inevitável.

Sorveu o resto do café num gole ainda com a cabeça e a alma longe. O garçom a acordou:

-Moça, moça. A conta.

Pagou e foi embora pensando, talvez se ela fosse uma borboleta... Olhou o relógio, já era hora de pegar as crianças no colégio.

Ah, as coisas que passam pela cabeça das pessoas nesses dias brancos.

Paula B. B.

h
* Re-republicação.

6.7.07

Cá estou, semestre quase findo (cheguei no estágio ou ele acaba ou eu me acabo), mas ainda sem aquela sensação de ahhh. Enquanto faço planos de recuperar pôres-do-sol perdidos, botar as pernas pra cima e conversar com o teto sem culpa tento colocar na cabeça que as coisas acabam quando elas terminam e ponto. Uma coisa eu sei, amanhã de manhã eu vou dormir e dormir pela primeira vez em um bom tempo (quer dizer, vou dormir até o telefone tocar e me acordar, como sempre acontece, mas antes o telefone que o despertador). Viva as quase férias.

5.7.07

"And therefore never send to know for whom Bell tolls;
it tolls for thee"


" – Nenhum homem é uma ilha... O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, residi quase toda a angústia de existir. ... Cada homem é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua flora e sua história particulares. ... E a comunicação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais semafóricos, mensagens truncadas escritas num código cuja chave ninguém possui. ... as ilhas do Arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente, ao qual anseiam por se unirem. Muitos pensam resolver o problema da solidão e da separação... aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele, mesmo com o sacrifício da própria personalidade... ... O que importa a cada ilha é vencer a solidão, o estado de alienação, o tédio ou o medo que o isolamento lhe provoca".

O Arquipélago, Érico Veríssimo

4.7.07


Andrés Vivo

3.7.07

site do livro da Miranda July
noonebelongsheremorethanyou
genial

O e-mail

Nada de ligação, apenas um e-mail (bem simpático até, se for pra ser dispensada que seja sempre assim): "Infelizmente, optamos por outra pessoa para ocupar a vaga" pa ta ti pa ta ta.

Breve histórico. Fiz uma entrevista pra uma vaga de estágio lá no Margs sexta. Lugar bacana, chefe gente boa, candidata estupidamente sincera... A resposta vinha/veio hoje.

Conversação com Cibele, a empregadora (resumida, a parte em que me ferrei e dei bye bye pra vaga):
C- Te descreve em uma palavra.
P. Apaixonada.
C. O que tu mais gosta no jornalismo?
P. A reportagem, sair pra rua, falar com as pessoas e blá blá blá (discurso também apaixonado de jornalista utópica).
C. Pois é, eu me preocupo muito com a felicidade dos meus funcionários. Pelo jeito eu não sei se tu consiguiria ficar atrás do computador o tempo todo, porque aqui o trabalho na maioria das vezes acaba sendo bem burocrático...
P. (imbecil, retardada, remediando quando já era tarde) Ah, mas tu tem que ver que eu consigo sim, a vida de qualquer estudante é passar os dias atrás do pc e blá, blá, blá (papo inútil, ela já tinha me sacado, é, eu nasci pra ir pra rua cair em indiada, tá no sangue).

Não deu. É a vida. Se alguém souber de uma vaguinha de estágio me avisa (É SÉRIO).

..."gostamos muito do teu perfil, especialmente porque pareces ser mesmo uma pessoa 'apaixonada' - característica interessante para desenvolveres no nível profissional... Desejamos boa sorte em outras seleções e vamos manter teu currículo aqui conosco, ok?"

Ok.

O telefone mal tem tempo de tocar e eu já pulo em cima dele. Será "A ligação"? Por enquanto nada. E tenho visto esse telefone tocar, hein. Um 'não mora nenhuma Maria do Carmo aqui não', 'a Jerusa não se encontra', 'oie Caro' e 'não, não quero curso de inglês, obrigada' depois estou perdendo as esperanças...

1.7.07

Amar é

–Ver uma garota que se diz sua filha dizer "cai fora" logo ao sair da rodoviária, enquanto balança a carteira de motorista recém adquirida e gentilmente ceder o banco de motorista entre o aterrorizado e o contente.
–Ouvir "dá uma olhada se tem espaço pra eu ir pra trás" em pleno morro no centro caxiense, tentar não falar nada gênero "como?" ao lembrar que o a camionete pesa tranquilamente uns 3.000 kgs e esmagaria sem problemas o carro novo que se encontra atrás e sem entrar em pânico, descer do carro e conversar com o motorista do referido veículo novo. "Pode passar, ela tá aprendendo".
–Largar tudo o que estava fazendo afim de evitar o inevitável pra acompanhar a garota, ansiosa por pegar no volante, nem que seja só pra ficar dando voltas pelo bairro.
–Sentado a conversar com um amigo sobre a vida e a entrada da filha no mundo dos motoristas se ver obrigado a dizer sim a pergunta "Pai, posso pegar o carro"? enquanto um "nem pensar" seguido de um "tu sabe que eu não posso te dizer não agora" fica engasgado e rezar pra que tudo corra bem e as tais quatro quadras até a casa da maldita amiga estejam vazias e sem postes.
– Respirar aliviado ao vê-la chegar a salvo e cheia de si. "No fim do ano, quando eu tiver mais prática, o senhor me empresta o carro pra eu viajar com as gurias"? "Empresto", é, daqui pra frente só piora suspira.
–Olhar o parachoque arrebentado, sorrir, soltar um "Tá tudo bem, não te preocupa, isso acontece" e agradecer por não ter acontecido nada de grave, enquanto lembra que alertou ela para não tirar o carro da garagem sozinha, pois até mesmo pra ele era complicado devido a falta de espaço e mesmo assim dizer, após ter remediado* a situação, "Então, vamos dar uma volta"?

"Essas gurias ainda vão te deixar de cabelo branco" pondera o amigo. AINDA?


Prévia dia dos pais.
Pro cara mais legal que eu conheço e que é O CARA.


*Remediado = tronco de madeira (daqueles estilo lenha ainda não rachada) + mãe apavorada segurando tronco contra parede + paninho no parochoque + carro indo contra parede, tronco e mãe. E não é que melhorou bastante? E sim, a dona Marlei sobreviveu a empreitada.