20.7.07

As Coisas Sérias

Tenho evitado falar sobre coisas sérias. Parte desanimo com toda situação, parte, admito, alienação. Chega um ponto em que você cansa, desliga a tv e prefere lidar só com o mundinho a sua volta. Parece mais fácil, não é. O problema, o maior talvez, é que a gente se acostuma. Se acostuma com as crianças pedindo comida do lado de fora do mercado. Se acostuma com as pessoas maltrapilhas dormindo debaixo das marquises. Se acostuma a andar mais rápido a noite, a desconfiar de tudo e todos, a chegar em casa, destrancar as milhares de fechaduras e fechá-las todas de novo, por segurançaa, por medo, por paranóia. Uma vez um amigo me disse que nunca iria achar normal alguém pedindo comida na rua pra sobreviver. Na hora eu disse que eu gostaria de não achar normal também. Me envergonho de escrever isso, mas hoje eu acho. Aí acontece algo tão absurdo quanto a morte dessa gente toda e as pessoas tomam um choque, acordam um pouco, sofrem. Porque é triste, porque é quase irreal, porque não há como mensurar o pesar causado por um acidente dessa magnitude. Mas dai passa um tempo, tudo volta a ser como era antes, e não me refiro apenas ao caos aéreo, e novamente o mundo se acostuma a sua falta de humanidade. "Nunca percam a capacidade de se indignar!", disse a professora no fim do semestre, com a esperança de que ao menos um de nós realmente ouvisse. Correndo o risco de ser chata por levar esse texto longe demais, mais que três dias de luto oficial o que falta é uma sociedade disposta a um luto permanente. Um luto pelas coisas sérias e pequenas, como crianças passando fome e perdendo a infância na nossa frente, que com o tempo passamos a achar normais.

*Meus pesâmes pelas vítimas, parentes e amigos do acidente com o vôo 3054.

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