7.7.07

Conto de estimação

Há um tempo escrevi um conto, por escrever. Acabou que se tornou meio que um texto de estimação, desses que a gente visita de vez enquando. Lê, re-lê, gosta, desgosta. Essa chuva contínua, esse dia sem cor, lembrei dele. Saudade de pensar colorido.


Dias Brancos


Era um dia branco. Ela sentou e pediu um café cortado, nunca parava no centro para tomar café sozinha, mas naquele momento pareceu a melhor coisa a fazer. O vento soprava forte, não que estivesse necessariamente frio, mas toda a atmosfera daquele dia a levava a pensar em tomar um café.

E divagar, dias assim são feitos para pensamentos desconexos. O café chegou junto com uma borboleta, estranho, borboletas no inverno. Um dia alguém lhe disse que borboletas só vivem catorze dias. Uma vida em uma quinzena, será possível? Nascer, amar e morrer assim, em duas semanas.

Naquele instante um calafrio percorreu todo o seu corpo, será possível amar, morrer, melhor viver em cinqüenta, cem anos? Ela tinha trinta e três, mas o que fizera nesse tempo? Pela primeira vez percebeu e sentiu realmente que o tempo passa e como uma epifania teve a certeza de que ele é a única coisa irremediável da vida. Esses mesmos minutos em que pensa nisso são minutos perdidos. E se só lhe restassem mais duas semanas? Poderia ela morrer feliz e pensando que ao menos viveu? Na verdade ela era feliz de alguma forma? O colégio escolhido pelos pais, a faculdade de medicina feita, mas apenas feita, sem ânimo ou gosto algum. O casamento, os filhos, em algum momento ela indagou se era o que realmente queria, não, sempre seguiu o fluxo e sempre se achou bem assim, bem, mas não feliz. Os olhos castanhos guardavam em si a profundidade inescrutável e taciturna de tantos quase sonhos, quase tentativas e até quase amores nunca realizados. Se ela fosse uma borboleta, se ela tivesse só duas semanas, só assim talvez fosse feliz. Perceber o fim já é um começo mas a maior dificuldade é conseguir se libertar. Poderia ela viver realmente, voar sem medo e tentar o impossível sem se importar? Olhou o relógio, o ponteiro dos segundos continuava marcando sem parar seus segundos perdidos, talvez todo esse tempo ele só tenha marcado segundos perdidos.

A borboleta voou. Foi embora só, todos estamos sós. Sós no fato que a quantidade de escolhas que nos são postas só faz aumentar nossa indecisão. Sós porque cabe só a nós a responsabilidade pelo caminho que escolhemos. Duas semanas ou dois anos, o tempo é indiferente a nós também, e aí estamos sós de novo, lutando por mais um dia frente a um fim inevitável.

Sorveu o resto do café num gole ainda com a cabeça e a alma longe. O garçom a acordou:

-Moça, moça. A conta.

Pagou e foi embora pensando, talvez se ela fosse uma borboleta... Olhou o relógio, já era hora de pegar as crianças no colégio.

Ah, as coisas que passam pela cabeça das pessoas nesses dias brancos.

Paula B. B.

h
* Re-republicação.

Um comentário:

Kauê disse...

tempo é psicológico