8.8.07

De volta a Macondo

Caminhando à toa pela João Pessoa, depois de ter dado com a cara na porta mais uma vez, entrei numa loja de quinquilharias para matar o tempo. Misto de brechó, antiquário e sebo o lugar é muito bacana. Para completar tem como dona uma senhora bem velhinha, com sotaque castelhano, que é uma graça. Nada como ver livros e livros empilhados prontos para serem bisoiados. O ar empoeirado e a bagunça organizada traziam implícito um "cavocar!". E lá fui eu, com 5 pilas na bolsa e nenhuma idéia na cabeça – também sem muitas esperanças, afinal eram só 5 pilas e levar um Julia não estava nos meus planos.
Acredito que tu não encontra um livro, ele te encontra. Funciona mais ou menos assim. Por algum motivo alguma coisa te chama atenção. Passa um tempo e tu esquece até que tu "pexa" de novo com a tal coisa. De repente aquilo começa aparecer por todas as partes. É como se a partir do momento que a gente aprende a enxergar as coisas aprendem a existir. E existindo elas piscam, brilham. Existindo tu tropeça com elas por aí. É, talvez isso não funcione só para livros...
De volta ao sebo e aos livros com radar mês passado presentei uma amiga com Cem Anos de Solidão. Sou feita de histórias. Que ouvi. Que li. Que vivi. E sem dúvida nenhuma a saga dos Buendía foi uma das que mais me marcou, ficando encrustada na alma e na forma de ver o mundo. Pois então, desde o fatídico aniversário namoro a idéia de reler o livro (na verdade namoro essa idéia desde a primeira leitura). Como aqui em casa a biblioteca é raquítica deixei pra depois e depois e foi que depois se tornou hoje. Lá estava, em meio a um bando de livros e quadros e discos e copos e roupas e o que mais você conseguir imaginar, um exemplar de Cem Anos de Solidão piscando pra mim, por inacrediáveis 5 pilas! Velhinho, assinado (outra hora falo mais sobre a beleza de livros rabiscados), perfeito.

Tem como ler o primeiro parágrafo e não querer ler o resto?

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar daquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, contruídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo".
Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

A tarde foi, os planos sumiram e eu fiquei presa em Macondo matando a saudade. Como é bom reencontrar velhos amigos.

P.S. Sim, matando o português e misturando pessoas. É isso aí.
P.P.S. Dessa vez sai a árvore genealógica inteira!

4 comentários:

Kauê disse...

"Tem como ler o primeiro parágrafo e não querer ler o resto?"
sim.

Cris disse...

nossa, o kauê cada vez me surpreende mais...

pois bem, hj tb comprei um livro usado por 5 pila. sem a menor intenção, caminhando na osvaldo. no chão, na rua. bom, não era nenhum cem anos de solidão, mas já era um verissimo. e cá estou eu presa na mãe do freud.

Isma disse...

O que me salvou nas férias de inverno das gordas malas querendo comprar roupas que não lhes servem foi poder visitar Macondo de vez em quando.

Paula disse...

Kauê
Se tu quiser te empresto o livro, acho difícil não mudar de opinião.

Cris
Presa na mãe de Freud? Analista de Bagé?

Isma
O bacana de reler foi que ele não perdeu o impacto. Pretendo re-visitar Macondo sempre.