12.9.07

Ditadura dos caracteres

Textos jornalísticos são, em boa parte, contados em termos de “caracteres”. Uma matéria de cerca de 3.500 toques equivale a uma lauda em Times 12, ou seja, uma folha. Mas o que é uma folha quando se quer retratar um pedacinho do mundo que só você teve acesso, quando se é a única ligação entre o leitor e o acontecido? Aparentemente, uma folha é mais do que o suficiente, chega a ser um exagero.

As matérias dos jornais, as grandonas, têm, no máximo, 4, 5 mil caracteres e olha lá. As tradicionais batem na casa dos 2.000, se der em menos, melhor. Um minuto no rádio são 1.000 caracteres. Tem muito texto que não vai para impressão porque é grande demais. Editores, política do jornal, assunto... isso fica em segundo plano. O que conta mesmo é o espaço.

Pra se ter uma idéia, uma das matérias de capa da Folha de São Paulo de hoje – “Quadrilha detona bomba para roubar R$ 10 mil de empresa” – tem pouco mais de 4.000 caracteres. A do Estadão, sobre o Renan Calheiros (35 votos a favor, 40 contra, 6 abstenções, sem comentários),3.664. A capa da Zero Hora, 2.381.

Segunda-feira chegou às bancas a 2ª edição da “Revista da Semana” da Editora Abril, cuja proposta é “mais informação em menos tempo”. Por mais informação entenda-se um aglomerado de textos curtos, quase que só lide, e uma diagramação recheada de fotos. A tendência do mercado é que publicações desse gênero ganhem cada vez mais espaço (ou percam, já que em se tratando de notas enxugadas a internet já está bem servida). A desculpa das empresas é que há público e que esse público não tem tempo para mais de 2.000 caracteres, quiça 3.000.

Há? Quando foi que as pessoas desistiram de ser bem informadas, de poder interpretar um texto e tirar conclusões próprias? O futuro é das matérias feitas só de manchetes? Nos tornamos leitores preguiçosos ou decidiram por nós que não que não tínhamos mais tempo para ler?

(o presente texto tem 1874 caracteres)

4 comentários:

Isma disse...

E quem contou os caracteres das páginas dos jornais?

Ass: o cara que insiste em fazer comentários desnecessários.

Kauê disse...

eu não tenho tempo nem pra ler gibis
(minha pilha de leitura já deve totalizar mais de 3000 páginas)
capaz que vou ter tempo pra ler notícias
nem essas de 2000 caracteres da abril

Cris Rodrigues disse...

mas paula, há esperança. eu lembro q a gente comentava q as nossas reportagens da clarice e da rosa nívea eram grandes demais pro tamanho das publicadas pela imprensa hoje.
semestre passado, fui fazer um trabalho pro porcello e queria citar a carta capital (a única revista q discute a imprensa), uma matéria muito boa q eu tinha lido sobre a venezuela e a rctv. não achei minha edição em papel e fui catar na internet. achei ela inteira no site e, por curiosidade, copiei pro word pra ver o tamanho. ela tinha quase 15 mil caracteres. cinco laudas de times 12 espaçamento simples.
e a matéria é excelente, flui tri bem e tu nem sente o tamanho. acho q o negócio é saber escrever pra fazer as pessoas lerem. afinal, a gente só lê tudo isso se o texto é realmente bom. e aí tá o nosso desafio, eu acho.

Paula disse...

Isma
O Word.

Kauê
Na, as da Abril tem bem menos de 2.000.

Cris
Nem sempre o negócio é saber escrever. Em semanais e mensais principalmente a gte encontra grandes matérias, agora em jornal diário é difícil encontrar até matérias medianas. Aí que reside meu desânimo.