1.10.07

Nós e o Guaíba



Quando se pensa no Guaíba se pensa em Porto Alegre, quando se pensa em Porto Alegre se pensa no Guaíba?

Na faculdade a professora de rádio propôs fazermos um documentário. Conversando com a gurizada veio à tona o tópico Guaíba, mais especificamente aquela sensação de estar na Salgado com a Dr. Flores, olhar para frente e se dar conta "nossa, o Guaíba tá ali na frente". Apesar de rodiada por um rio, estuário, lago, delta ou seja lá o que for Porto Alegre não é exatamente uma cidade ligada às águas. Tem quem coloque a culpa no Muro da Mauá, ali just in case desde o final dos anos 70, tem quem nunca tenha dado muita bola para ele mesmo, tem quem o considere essencial. Fato é que a relação com a cidade é conturbada.
Na busca por respostas ficou comigo a tarefa de falar com um economista. Conversei com o professor da UFRGS Eduardo Felippi e como a entrevista ficou bem interessante (e eu decupei o material todo e só usamos umas frases) fiquei com vontade de compartilhar com vocês (se é que ainda existe um vocês entrando nessas bandas eletrônicas).

Como é a relação da cidade com o Guaíba?

A relação do Guaíba com a cidade é uma relação ambígua, por quê? Durante muito tempo o Guaíba serviu como uma via de acesso, não apenas de produtos, mas de pessoas para a cidade. Essa relação foi se perdendo ao longo do tempo. Por que ela se perdeu, em termos econômicos? Uma razão bastante simples, a cidade se voltou para o outro lado. Não pro lado oriental da cidade, mas o lado ocidental da cidade. Em outros termos, o que chama atenção hoje que os porto-alegrenses e as pessoas da região metropolitana de Porto Alegre encaram o Guaíba apenas como uma área de lazer, mesmo porque a gente tem um muro em termos físicos que separa a cidade do Guaíba. O que é muito curiosos é notar, por exemplo, que as pessoas da Zona Sul de Porto Alegre tem uma relação muito próxima com o Guaíba, porque não há o muro, e tu tem uma série de avenidas que conduzem até as praias do Guaíba. O Lami é outro exemplo. Se tu vai pro outro lado, nas ilhas, tu vai ver que tem uma série de instituições ligadas aos pescadores. Esses pescadores, na colônia de pescadores das ilhas, evidentemente tem uma relação bastante próxima com o rio, é o ganha pão desses indivíduos, o que também fica muito claro no filme do Jorge Furtado, Ilha das Flores, o curta metragem. Mas isso ainda, quando é falado ou mostrado aos Porto Alegrenses, é visto como algo exótico.
O segundo aspecto é o Porto de Porto Alegre. O Porto de Porto Alegre é muito mal utilizado por questões de infra-estrutura, ou seja, a infra-estrutura ainda é muito acanhada para receber navios de grande calado. Também em termos econômicos, isso já vem desde os anos 50, 60 em termos nacionais, se optou pelas rodovias e se esqueceu as hidrovias. No fundo no fundo o Guaíba passa a ser algo fundamentado apenas no lazer e ainda assim muito mal arquitetado, em termo de políticas públicas.

O muro foi o começo dessa separação?

Não, eu acho que o muro não foi o começo dessa separação. O muro surge como fruto da enchente que aconteceu em 1941 para proteger a cidade, mas o Guaíba sempre foi visto, e eu digo sempre nos últimos cinqüenta anos, como algo a ser colocado em termos econômicos, mas fundamentalmente como espaço de lazer. Por que que isso é problemático? Por que Quando tu analisa em termos de aspectos econômicos, durante muito tempo foi assim, o Rio passou a ser o esgoto de Porto Alegre, não uma via de escoamento. E o que é curioso é saber que um dos símbolos de Porto Alegre é o pôr-do-sol, e o pôr-do-sol no Guaíba. Ele não é encarado como outros estuários no planeta. Por exemplo, o Guaíba não é um organismo vivo, no sentido econômico da palavra, como é o porto da Antuérpia na Bélgica, como é Roterdã na Holanda, como é Santos no litoral paulista ou como é o porto do Rio de Janeiro, que ao mesmo tempo que faz parte da paisagem turística dessas cidades também é uma via de escoamento de produção.

Haveria alguma mudança significativa se houvesse maior vazão desse lado econômico?

Eu não sei, eu não tenho certeza a respeito disso. O que eu acho muito curioso é que toda vez que há eleições em Porto Alegre, particularmente para a prefeitura de Porto Alegre, o tema vem a tona, e logo em seguida ele é esquecido. A revitalização do Guaíba, não apenas em termos turístico, mas em termos econômicos. Eu cito aqui uma série de idéias, por exemplo, uma série de idéias que demoram muito a sair do papel, quando saem, relacionadas a uma melhor utilização dos armazéns, que são voltados para o Guaíba, ou seja, do outro lado do muro da Mauá. Tu tem uma série de projetos, por exemplo, a Bienal do Mercosul tentou utilizar, em outro momento o Guaíba foi utilizado como espaço físico do Fórum social Mundial, mas isso são coisas muito pontuais. Por exemplo, agora na semana Farroupilha é muito curioso que o parque da Harmonia que é utilizado para tal, para os piquetes, para os CTG´s, para alimentar a memória da revolução Farroupilha. Se fala em parque da Harmonia, mas não se fala do Guaíba que tá logo ali ao lado. No fundo, no fundo da a impressão de que o Guaíba é um peso para a cidade. Que não é algo a ser utilizado, que é algo a ser mantido, infelizmente, de uma maneira a parte da cidade. Quando tu vai fazer entrevistas, ou quando tu pergunta para os porto-alegrenses o que eles acham do Guaíba, é sempre numa ótica de turismo.

O Guaíba é visto em segundo plano?

Não tenho dúvidas disso. Me dá a impressão que o guaíba é visto pelos porto-alegrenses como o bairro da Restinga. É periférico, não é algo que faz parte da cidade.

Como era a relação do Gauíba e da cidade antigamente?

É justamente o Guaíba que fez Porto Alegre ser o que é. Se não fosse o estuário do Guaíba e a relação com a Lagoa dos Patos muito provavelmente a capital do Rio Grande do Sul seria em outro lugar. Ou seja, Porto Alegre é que é porque tem o rio, porque tem o estuário, porque tem o Porto. Se tu for ver, na história de Porto Alegre, onde é que se inicia Porto Alegre? Se inicia aonde hoje é justamente o Mercado Público, na região da rodoviária, mas no bairro Navegantes. E não é à toa que se chama Navegantes, porque diz respeito a todos aqueles que, de alguma maneira, tinham o Guaíba como um lócus, não apenas de produção, mas de escoamento de produção. Ou seja, o Guaíba atraia pessoas para Porto Alegre e permitia que Porto Alegre fosse um centro irradiador de atividades econômicas. Isso se perde ao longo do tempo pela opção pela rodovia e porque a cidade cresceu para o outro lado.

Então o Guaíba que era o centro acabou sendo ignorado...

Exatamente, aliás, ele está no centro de Porto Alegre, que não é um centro. Não está no centro da cidade, tá numa das pontas da cidade, mas o que que é essa ponta? Essa ponta é início de tudo. Hoje infelizmente o Guaíba é o esgoto de Porto Alegre. Basta ver o estado que se encontra o arroio Dilúvio, que é a porta de entrada de Porto Alegre, bastante próximo do centro, pra gente ver o Rio Guaíba.

Um comentário:

Kauê disse...

acho que vou transcrever a minha entrevista com o biólogo e postar no meu blog também
=P
mentira