26.11.07

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".

18.11.07

Aproveitando o gancho que a Clarice destacou no blog dela.

Há um tempinho atrás, no aniversário dos 40 anos da morte de Ernesto Che Guevara, a Veja publicou uma reportagem cujo mote era a "desconstrução" da imagem do Che. O texto, escrito por pelo repórter Diogo Schelp, seguiu à risca a cartilha de "bom" jornalismo da revista, abusando da falta de pluralidade e do editorialismo e usando argumentos do tipo "ele não tomava banho e cheirava a rim fervido".
Antes do texto ser publicado o repórter Jon Lee Anderson, responsável pelo livro Che Guevara, uma biografia, foi procurado por Schelp para uma entrevista, como fonte da tal reportagem. A própria revista descreveu seu livro como ‘a mais completa biografia de Che’. Anderson aceitou o convite, mas não foi procurado por Shelp.
Semana passada Anderson, repórter das antigas e corresponde de guerra pela New Yorker, leu o texto que a Veja publicou sobre Che. Ele decidiu mandar uma carta a Shelp e tornar pública essa resposta, que começou a circular por email entre os jornalistas brasileiros. Segue uma tradução que corre pela rede:

Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Schelp, editor de internacional da Veja respondeu:


Caro Anderson,
Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

E a discussão corre na internet. Interessante notar que na resposta do Schelp a maior preocupação não é o fato do ter seu texto chamado de mentiroso, mas de que Andersons não ligou para ele para expor as críticas em particular, pelo contrário, chutou o balde e tornou o e-mail público.A velha tática de mudar o foco da discussão para confundir o adversário.

Anderson tratou de responder, publicamente, é claro.


Prezado Diogo Schelp:
Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.
Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?
Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:
Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.
Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!
Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.
Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

14.11.07

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca".
Eduardo Galeano

É, mais Galeano. Porque ele é um cara legal, porque ele é um baita jornalista, mas porque mesmo essa frase me ronda há um bom tempinho. Viva aqueles que andam no meio fio das calçadas, tomam sorvete com gosto e destrambelhadamente e não tem medo de sorrir em público.

13.11.07

E as coisas mudam.
Mudam porque precisam, mudam porque não há como evitar.
Ir embora e ficar no fundo são coisas parecidas.
Para ir é preciso aceitar a mudança, deixar para trás todo um passado e olhar para frente. É mais fácil partir sem bagagem.
Para ficar, mas realmente ficar, é preciso comprometimento, se concentrar em um presente. Exige deixar os tradicionais e se´s de lado.
E as coisas mudam.
E é melhor que mudem mesmo, antes que os horizontes estourem.

Haiti

Ex-soldado conta vivência na Ilha

(ié, ié, títulos não são o meu forte)

O três-coroense Tailon Ruppenthal, então com 20 anos, era recruta do Exército quando o Brasil assinou, em 2004, um acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) e concordou em mandar um contingente de soldados para o Haiti a fim de garantir a paz na ilha.
O Haiti é o país mais pobre das Américas e um dos mais miseráveis fora da África. O PIB per capita gira em torno de US$ 360, metade da população nas áreas urbanas não tem acesso à água potável, apenas cerca de 30% contam com saneamento básico e somente 10% têm acesso à energia elétrica.
Apesar de ter sido a primeira colônia de escravos a conquistar a sua independência e a segunda república livre no Ocidente, depois dos Estados Unidos, o Haiti sofreu e continua sofrendo com a instabilidade política, que atrapalhou tanto o desenvolvimento econômico quanto social do país.
Movido pela idéia de ajudar na reconstrução da nação, Ruppenthal se “voluntariou” para a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, mais conhecida como Minustah. Após um treinamento rápido, raso a ponto de alguns colegas de vôo perguntarem em que parte da África ficava o Haiti, eles desembarcaram no país.
Os cerca de 1,2 mil soldados brasileiros desse primeiro contingente encontraram o local em uma situação delicada. O presidente Jean-Bertrand Aristide havia sido deposto por um golpe e a nova configuração política ainda estava se definindo. Conforme Ruppenthal, ao chegar lá soldados viram algo bem diferente do que havia sido passado.“Os EUA impuseram a paz, nós fomos enviados para mante-la. Só que quando chegamos lá, nós tivemos que continuar impondo-a”.
Além disso, existiam outros problemas, como os armamentos ultrapassados e os coletes à prova de balas vencidos. “O meu colete era de 2000, mas eu tinha colegas com coletes vencidos desde 1998”. Somando-se a isso havia a barreira da língua Creole, uma mistura de castelhano, francês e dialeto africano, o forte calor e a falta de insumos básicos. “Até hoje ando na rua e cuido se existem vendedores de água por perto. Um dos meus maiores medos era ficar sem água, não que houvesse faltado água para a gente em algum momento, mas era tudo muito racionado”, conta Ruppenthal.
E havia ainda a truculência do exército norte-americano, o qual eles estavam substituindo. “Eles achavam que ninguém falava inglês e ficavam fazendo troça da gente. Alguns diziam coisas como bem feito, vocês merecem esse inferno. Vocês vão se dar bem aqui, o Haiti deve ser igual ao Brasil”. Para Rupenthal, os soldados que foram para o país estavam treinados para a guerra e para aquela situação.
O país parecia um grande cemitério a céu aberto; corpos ficavam jogados nas ruas por mais de uma semana, crianças jogavam bola com abutres a espreita e o lixo acumulava nas calçadas. Ruppenthal afirma que nunca conseguiu se conformar com o descaso pela vida humana que presenciou.
Após voltar para o Brasil, ele teve dificuldade em se readaptar. Sofreu de síndrome do pânico entre outros problemas. Ao pedir ajuda para o exército foi informado de que, antes de participar da missão, ele havia feitos testes psicológicos confirmando seu bom estado de saúde, portanto a União não tinha nada a ver com aquela situação.
Hoje, já no sétimo contigente de soldados, o Haiti está mais estabilizado. A ONU recomendou a saída das forças, mantendo apenas a ajuda humanitária. Para Ruppenthal “alguma coisa tinha que melhorar com os soldados tanto tempo no país”. Segundo ele, desde 2004 foram encontradas apenas 250 armas de fogo, número pequeno para justificar uma intervenção. “A gente lucra com a miséria daquele país, vejo o Haiti como um grande bolo a ser fatiado e o Brasil vai ter seu pedaço também”.

P. B. B.
Jornal do Comércio, 12 de novembro de 2007

12.11.07

Um refúgio? Uma barriga? Um abrigo onde se esconder quando estiver se afogando na chuva, ou sendo quebrado pelo frio, ou sendo revirado pelo vento? Temos um esplêndido passado pela frente? Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um ponto de partida.

Eduardo Galeano

3.11.07

Meme de feira do livro

A Ju pediu, eu obedeço.

..no livro mais próximo. (o mais PRÓXIMO. Não procures.)
- Abre na página 161;
- Procura a 5ª frase, completa;
- Posta essa frase em teu blog;
- Não escolhas a melhor frase nem o melhor livro;
- Repassa para outros 5 blogs.

"Você escreverá", disse ela, "se você escrever sem pensar no resultado em termos de um resultado.

Gertrude Stein, entrevistada por John Preston, A Arte da Entrevista (curiosamente, feira do livro passada)

Hmn, acho que vou ler de novo essa entrevista...
Quinta regrinha, bom, passo pro Isma, para Nati, para o Kauê, para o Mário e para a Maria Rita (já que o Igor já respondeu). E quem mais quiser, é claro.

Às moscas? Magina...