13.11.07

Haiti

Ex-soldado conta vivência na Ilha

(ié, ié, títulos não são o meu forte)

O três-coroense Tailon Ruppenthal, então com 20 anos, era recruta do Exército quando o Brasil assinou, em 2004, um acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) e concordou em mandar um contingente de soldados para o Haiti a fim de garantir a paz na ilha.
O Haiti é o país mais pobre das Américas e um dos mais miseráveis fora da África. O PIB per capita gira em torno de US$ 360, metade da população nas áreas urbanas não tem acesso à água potável, apenas cerca de 30% contam com saneamento básico e somente 10% têm acesso à energia elétrica.
Apesar de ter sido a primeira colônia de escravos a conquistar a sua independência e a segunda república livre no Ocidente, depois dos Estados Unidos, o Haiti sofreu e continua sofrendo com a instabilidade política, que atrapalhou tanto o desenvolvimento econômico quanto social do país.
Movido pela idéia de ajudar na reconstrução da nação, Ruppenthal se “voluntariou” para a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, mais conhecida como Minustah. Após um treinamento rápido, raso a ponto de alguns colegas de vôo perguntarem em que parte da África ficava o Haiti, eles desembarcaram no país.
Os cerca de 1,2 mil soldados brasileiros desse primeiro contingente encontraram o local em uma situação delicada. O presidente Jean-Bertrand Aristide havia sido deposto por um golpe e a nova configuração política ainda estava se definindo. Conforme Ruppenthal, ao chegar lá soldados viram algo bem diferente do que havia sido passado.“Os EUA impuseram a paz, nós fomos enviados para mante-la. Só que quando chegamos lá, nós tivemos que continuar impondo-a”.
Além disso, existiam outros problemas, como os armamentos ultrapassados e os coletes à prova de balas vencidos. “O meu colete era de 2000, mas eu tinha colegas com coletes vencidos desde 1998”. Somando-se a isso havia a barreira da língua Creole, uma mistura de castelhano, francês e dialeto africano, o forte calor e a falta de insumos básicos. “Até hoje ando na rua e cuido se existem vendedores de água por perto. Um dos meus maiores medos era ficar sem água, não que houvesse faltado água para a gente em algum momento, mas era tudo muito racionado”, conta Ruppenthal.
E havia ainda a truculência do exército norte-americano, o qual eles estavam substituindo. “Eles achavam que ninguém falava inglês e ficavam fazendo troça da gente. Alguns diziam coisas como bem feito, vocês merecem esse inferno. Vocês vão se dar bem aqui, o Haiti deve ser igual ao Brasil”. Para Rupenthal, os soldados que foram para o país estavam treinados para a guerra e para aquela situação.
O país parecia um grande cemitério a céu aberto; corpos ficavam jogados nas ruas por mais de uma semana, crianças jogavam bola com abutres a espreita e o lixo acumulava nas calçadas. Ruppenthal afirma que nunca conseguiu se conformar com o descaso pela vida humana que presenciou.
Após voltar para o Brasil, ele teve dificuldade em se readaptar. Sofreu de síndrome do pânico entre outros problemas. Ao pedir ajuda para o exército foi informado de que, antes de participar da missão, ele havia feitos testes psicológicos confirmando seu bom estado de saúde, portanto a União não tinha nada a ver com aquela situação.
Hoje, já no sétimo contigente de soldados, o Haiti está mais estabilizado. A ONU recomendou a saída das forças, mantendo apenas a ajuda humanitária. Para Ruppenthal “alguma coisa tinha que melhorar com os soldados tanto tempo no país”. Segundo ele, desde 2004 foram encontradas apenas 250 armas de fogo, número pequeno para justificar uma intervenção. “A gente lucra com a miséria daquele país, vejo o Haiti como um grande bolo a ser fatiado e o Brasil vai ter seu pedaço também”.

P. B. B.
Jornal do Comércio, 12 de novembro de 2007

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