16.12.07

O homem que criava universos

- Quando eu vi que tu queria um livro dele eu pensei 'Bom, pelo menos alguém entende.'
- Na verdade, eu também não entendo muito (agora entendo um pouquinho só mais), mas mesmo assim eu gosto.

O que leva alguém a ler Jorge Luis Borges. Fácil. Curiosidade. O que leva alguém a continuar lendo Jorge Luis Borges? Hmn. Masoquismo?
Comigo foi mais uma questã de orgulho/teimosia. Descobri o Borges do jeito tradicional, o nome me chamou a atenção e quando eu vi havia referências ao autor por todos os lados. Catei na biblioteca e lá estava ele: Ficções. Férias de verão, veio junto também mais uma carrada de livros. Janeiro passou, belisquei o Borges, mas nada. Quase fim das benditas férias, tinha lido todos os livros e pegado mais alguns e ainda nada. Por puro e simples 'não posso deixar esse livro aí na mão' e 'porcaria, eu teno que conseguir passar do primeiro conto', comecei. Disciplina espartana, todos os dias, não rolou. Fui de forma sofrida até a metade e decidi abandoná-lo. O que aquele cara queria dizer indo sempre do nada a lugar nenhum³?
Lá pelo meio do ano as referências ao Borges voltaram. Eu naquelas, pff, autor bobão. Como assim, base da literatura latino-americana no século XX? Hmn.
Para se ter uma idéia, existem livros do tipo "Como entender Borges", dissertações e dissertações. Lá por essas trombadas me deparei com alguém comentando (orkut, talvez?) que a melhor forma de começar o Borges era ler o Aleph. Novamente, curiosidade e pontinha de orgulho, procurei o tal exemplar e dessa vez eu li. E li. Aconteceu uma coisa muito engraçada. Até o terceiro conto parecia que eu estava apanhando - e perdendo feio. Rumo a segunda desistência, deixei o livro descansar e fui ler outras coisas, de preferência de autores que não fossem aficcionados por bibliotecas e enciclopédias e que achassem que um bom livro não precisa, necessariamente, remontar aos sumérios para acrescentar alguma coisa ao leitor.
Como eu ia dizendo, aconteceu uma coisa estranha. Depois desses três contos e da folga as tais coisas que não fazima sentido - nenhum - começaram a se encaixar um pouquinho, e um pouquinho mais, e um pouco pouquinho mais... Quando percebi, eu estava lendo Borges e ENTENDENDO (som de arpas clássico). Não tudo, porque daí ia ser demais, mas razoavelmente alguma coisa. O suficiente para gostar daquele autor que bateu as portas do fantástico (bateu, arrebentou, chutou) e mostrou que a linearidade é apenas umas das formas de se contar uma história. O legal é perceber que o García Marquez, o Cortazar e muitos outros tem um pézinho, se não um pezão, na obra do escritor argentino.
Ah, ganhei o 'Livro da Areia' de presente, escrito mais para o fim da vida dele, quando a cegueira já era irremediável e estou pronta para apanhar mais um pouco. Pra quem quiser começar, dou total apoio, só lembrem de não desistir antes da metade - do Aleph, de preferência.
Sr Borges, professor de inglês, tradutor, poeta, mestre em criar universos - compreensíveis na medida do possível e da teimosia de cada um.

2 comentários:

Alexandre Haubrich disse...

O único texto que eu conheço do Borges é "Instantes", e me gusta afu.

Paula disse...

E não é dele. Há uns meses conversei com uma senhora uruguaia, indignada com as "as coisas que a internet faz as pessoas acreditarem". Fui procurar e, realmente, é o mesmo caso daquele texto do LFV, alguém assinou por ele, o poema ficou famoso e quem sabe até ganhou um prêmio em Paris. Ainda assim, é uma baita texto.