10.12.07

Tiro no pé



Na página 2 do Jornal do Comércio de Porto Alegre tem o editorial (com título de Opinião), um espaço para as frases do dia, o cenáculo (mensagem religiosa, resquício da fundação da publicação) e uma charge. Quer dizer, tinha uma charge.
Os três cartunistas que trabalhavam no jornal há alguns anos (imprecisão minha, 5 talvez, não tenho certeza), foram demitidos na semana passada através do e-mail:


"Santiago, Kayser, Moa, Agradeço o trabalho que fizemos em conjunto até agora e comunico que o JC está dispensando o serviço de vocês."

No lugar, começaram a ser veiculadas fotos, com o título de "imagem do dia".
Nem vou me alongar muito na história. Recomendo a leitura do post do Paulo Ramos, no blog dos quadrinhos , que conversou com os cartunistas e a direção do jornal (como estou com o texto dele na cabeça, qualquer coisa que eu escrever aqui corre o risco de ser plágio indireto).
Porém, todavia, contudo, entretanto não acho que se trata de censura, como pregam alguns blogs, mas de burrice. Qualquer jornal, por mais governista, aliado do lucro e blá blá blá (e esse é) deveria saber que "pluralidade" – assim entre aspas mesmo, porque no Brasil jornalismo desse tipo é díficil de encontrar – vende.
Sem pensar em liberdade de expressão e no direito dos cartunistas e tal (que também são discussões importantes), demiti-los, a meu ver, foi um tiro no pé.
Ou alguém aí acha que a Veja é anarquista por causa das charges do Millôr?

9 comentários:

Kauê disse...

será que, se o pessoal do jornal ler teu post, tu corre o risco de ser demitida também?
=P

Alexandre Haubrich disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre Haubrich disse...

Depois de muito tempo, voltando a comentar por aqui.
Bom, pelo que eu sei da história, foi censura claramente.
O cara achou que a charge não servia editorialmente, mandou o Santiago fazer outra, o Santigo disse que não, disse pra botar uma imagem no lugar então, e o cara falou que ia botar imagem todos os dias a partir de agora.
Contrataram ele porque é bom, demitiram porque pensa.
Mais do que burrice por perder um puta profissional, pra mim isso é nítido retrato de censura e de falta de pluralidade de pensamento.

natusch disse...

É uma estupidez, simplesmente. Ser censura ou não é acessório: é reflexo da tentativa de padronizar pensamentos que tem sido a tônica da nossa mui medíocre imprensa local. Azar deles, de qualquer modo: perderão mais alguns dos seus (já não muitos) leitores.

Alexandre Haubrich disse...

Acho que o mais importante é que foi censura, Igor.
A estupidez é que é problema deles, a burrice é problema deles. A censura, a postura ditatorial é problema nosso, como jornalistas e como leitores.

Frau Bersch disse...

mas eu nao consigo, na verdade, me surpreender com o fato. talvez por ser de pp, e nao de jornal, nao consigo ver o meio como essa ideia bonita de liberdade de expressao e coisa e tal. ate gostaria de ver, mas nao consigo. enfim, se ele eh feito para ser vendido, ele eh, no fim das contas, um produto. e sendo produto esta sujeito a toda e qualquer regra de mercado - inclusive ter conteudos castrados para agradar os caras de cima. nao, nao me batam. nao estou dizendo que isto eh bom, nem mesmo meramente aceitavel. de jeito nenhum. so estou dizendo que eh como as coisas me parecem.
enfim, bejo.

natusch disse...

Bom, Alexandre, disse que a questão de censura era acessória porque eu acho que "censura" é uma palavra usada demais, ao ponto da banalização. Não digo que seja o caso (porque não é), mas jornalista adora usar a palavra "censura" como escudo, do mesmo modo que apela à "liberdade de imprensa" sempre que alguém ousa tentar regulamentar seu trabalho. Ora, ambos os conceitos são muito sérios, e precisam ser visto com absoluta seriedade. No caso em questão, censura de quem? Do dono do jornal? Ora, por mais triste, decepcionante e deplorável que seja, o dono do jornal é dono do jornal e publica no jornal o que quiser. Se tu é repórter, te dizem "escreve isso de novo", e tu diz não, tu sabe que o risco de ser demitido é grande. Me parece que o caso é análogo: o chefe não gostou da charge, mandou o Santiago fazer outra, o Santiago disse na-na-ni-na-não e botaram ele na rua. Isso não é censura, na minha opinião, e sim burrice. Pretender que o jornal publique algo que vai contra sua linha editorial é, de certo modo, achar que um jornal pode tentar a imparcialidade - o que, bem sabemos, não rola nem a pau. Censura seria se a ordem de pôr o cara para a rua viesse de alguma entidade do governo, e não de um editor covarde ou de um proprietário imbecil. No caso, insisto: foi uma decisão idiota, tomada pelos motivos errados e que só 'emburrece' mais o jornal, além de afastar leitores. Minha opinião, somente.

Paula disse...

Não, Kauê, não vou ser demitida. Bacana isso do blog ser um texto em aberto, complementado por quem lê - é, achei legal a dicussão... Mantenho minha posição, jornalismo cagão e burro. O pior é que o JC, por ser independente, ter gráfica própria e blá blá blá poderia muito bem se posicionar; No entanto, nem quando a Fiergs bate na Yeda eles falam contra o governo.

Cinerama.Internacional disse...

ja ja ja!

adorei o elefante!