28.12.08

Feliz semana flutuante entre o natal e o ano novo?

"Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não"...

24.12.08

One missing word sowed the seeds of catastrophe

Segue um artigo de Robert Fisk, corresponde internacional para o Oriente Médio do jornal The Independent, de Londres. A tradução é de Caia Fittipaldi e encontrei ele lá no blog Vi o mundo. Não sei se o tal tu To foi omitido propositacionalmente ou não, mas fiquei com vontade de ver os relatórios da convenção.

Uma palavra apagada: a semente da catástrofe

Robert Fisk, 20/12/2008 tradução de Caia Fittipaldi

Essa semana, eu e minhas manias. Dado que todos estamos rememorando os direitos humanos, pensei nos palestinos, que os têm tão preciosos e poucos, e nos israelenses, que vivem em orgia de direitos humanos.

E Lord Blair, que semana que vem comungará com Deus, bem poderia pensar que até hoje – que vergonha – não visitou a Faixa de Gaza. Mas estou maníaco, mesmo, é com a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, mania já antiga. Essa resolução, vocês lembram, deveria orientar todos os esforços seguintes de paz no Oriente Médio; Oslo deveria ter-se baseado nos termos dessa resolução e todos e quaisquer processos, cúpulas, conferências e mapas dos caminhos.

Foi aprovada em novembro de 1967, depois que Israel ocupou Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Leste, o Sinai e Golan. A resolução 242 declarou "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra" e ordenou "a retirada das forças armadas de Israel, de territórios ocupados no recente conflito".

Leitores que conheçam o problema, tenham paciência com os que logo perceberão do que se trata. Os israelenses dizem que não são obrigados a retirarem-se de todos os territórios – porque a palavra "todos" não está escrita e porque lá se lê "de territórios", não "dos territórios"; falta o artigo definido "os". Por isso, lá estaria escrito que é direito de Israel decidir que pedaços devolve e que pedaços não devolve.

Assim sendo, Israel pode dizer que devolve o Sinai nos termos da 242, mas não devolve Jerusalém Leste e conserva para seus colonos boa parte da Cisjordânia. Golan depende de negociação com a Síria. E Gaza? Bom, a 242 não proíbe que Israel mantenha aprisionados meio milhão de civis porque elegeram o partido errado.

Ninguém, em 1967, supunha que o conflito entre árabes e israelenses ainda estivesse em furiosa progressão, 41 anos depois. E, como lembrou há alguns anos um leitor do Independent, "é evidente que o Conselho de Segurança da ONU não planejou omitir um artigo definido, só para criar um pretexto para que Israel não saísse da Cisjordânia." Pois é. Infelizmente, nosso leitor errou.

Examinando meus arquivos sobre a Resolução 242, encontrei um documento muito elucidativo, assinado por John McHugo, professor visitante do Scottish Centre for International Law, na Universidade de Edinburgh. McHugo escreveu que "advogados pró-Israel têm dito, repetidas vezes, há anos, que "a Resolução 242 exige claramente a retirada "de territórios", não a retirada "de todos os territórios". As palavras foram cuidadosamente, deliberadamente escolhidas, para que só se discutisse a retirada de alguns territórios, nunca a retirada de todos os territórios."

McHugo é, que eu saiba, o único homem que está re-examinando as atas reais dos debates na ONU, sobre a 242 – coisa tristíssima de ler. Nas versões em francês e em espanhol, realmente há o artigo definido. Mas os ingleses – ao que parece, orientados pela mão pesada dos norte-americanos – omitiram o "os" (ing. the). Lord Caradon, nosso homem na ONU, insistiu para que se inserisse a frase que declara "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra", para impedir que Israel se pusesse a escolher os pedaços de terra que lhe interessasse devolver. Os ingleses aceitaram que a Jordânia controlasse a Cisjordânia – a OLP, naquele tempo, era a organização super-terrorista da hora – mas de nada adiantou. Abba Eban, o homem de Israel naquela negociação, fez o diabo para persuadir Caradon a apagar tanto o "os" quanto a parte sobre a "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra". Venceu a primeira batalha. Perdeu a segunda.

O grande estadista norte-americano George Ball teria de recontar como, quando os árabes negociavam a resolução 242, no início de novembro de 1967 – no Waldorf Astoria (esses caras sabiam escolher hotel para construir traições políticas!) –, o embaixador dos EUA na ONU, Arthur Goldberg, contou ao Rei Hussein que os EUA não garantiam "que Israel devolverá tudo". Os árabes não confiaram em Goldberg, porque era conhecido por suas posições pró-sionismo, mas Hussein sentiu-se mais seguro, quando o secretário de Estado norte-americano, Dean Rusk, garantiu-lhe, em Washington, que os EUA "desaprovam que Israel mantenha para si a Cisjordânia". Hussein sentiu-se ainda mais seguro quando se encontrou com o Presidente Johnson, que lhe disse que Israel se retiraria "num prazo de seis meses". E sentiu-se ainda mais seguro quando Goldberg lhe disse "Fique sossegado. [Os israelenses] Estão embarcando." Quá-quá-quá.

O que intriga é que várias nações, na ONU, incomodaram-se com a ausência daquele "os". O delegado indiano, por exemplo, chamou atenção para o fato de que a resolução referia-se a "todos os territórios" – repito: todos os territórios – ocupados por Israel..." e a URSS (especialista em ocupar países dos outros) declarou que "entendemos que a decisão refere-se à retirada das forças de Israel de todos, e repetimos, de todos os territórios de Estados árabes ocupados por Israel...". O Presidente Johnson não deu conversa aos sovietes e ostensivamente se recusou a inserir aquele "todos os" na resolução. A Bulgária, como seria de esperar, disse o que disseram os soviéticos. O Brasil manifestou reservas – com muita razão – sobre "a clareza do texto escrito". Os argentinos "prefeririam um texto mais claro". Em outras palavras, muitos viram, a tempo, a tragédia que viria. Mas nada fizemos.

Os norte-americanos já tinham tudo alinhavado e os ingleses deixamos andar. Os árabes não estavam satisfeitos, mas tolamente – e tipicamente – confiaram no que Caradon lhes disse, que a 242 referia-se a "todos os" territórios... mesmo que não se referisse. Israel ainda lutou muito para livrar-se também da "inadmissibilidade", mesmo depois de já ter conseguido extrair o "os".

Santo deus! Assim se semearam as sementes da catástrofe que viria, como veio. Bom, Colin Powell, quando secretário de Estado de George W Bush, recomendou covardemente aos diplomatas dos EUA que dissessem sempre "Cisjordânia disputada", em vez de "Cisjordânia ocupada" – o que foi como açúcar no mamão para Israel, como observa McHugo, porque Israel passou a chamar de "disputados" também os territórios não incluídos na partilha original determinada pela ONU. Além disso, a carta infame de George W a Ariel Sharon, em que diz que Israel poderia, de fato, continuar ocupando grandes áreas da Cisjordânia, foi o arremate, no golpe iniciado por Johnson.

McHugo acrescenta, com ironia, que placas de parque em que se leia "Cães devem ser mantidos em coleiras, em áreas próximas de lagos" valem para "todos" os cães e "todos" os lagos. Atualmente, Israel usa muros para afastar animais perigosos. Como os palestinos.

* "Robert Fisk's World: One missing word sowed the seeds of catastrophe", © The Independent, UK, 20/12/2008, em http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-one-missing-word-sowed-the-seeds-of-catastrophe-1205017.html

21.12.08

Duas da manhã

"Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa a emancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo num incerteza tacteante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encantamento dos bares, não é?, consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terrestre e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas brancas das mortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e inicia uma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorso da aurora, quando a primeira luz oblíqua no revela, com implacabilidade radioscópica, o triste esqueleto da solidão sem remédio. Se nos observarmos bem, aliás, podemos principiar a entrever já o perfil dos nossos ossos, que as vírgulas das olheiras e o acento circunflexo da boca disfarçam de sorrisos melancólicos de que pendem restos murchos de ironia idênticos ao braço inerte de um ferido."

Os Cus de Judas, António Lobo Antunes

* Descobri há pouco esse luso que, dizem às más línguas, deveria ter ganho o nobel no lugar do Saramago, que teria levado o prêmio mais pelo choque de mostrar Jesus adolescente que pelo valor da obra. Fã de Saramago que sou, decidi conhecer o desafeto do mestre. Os parágrafos longos e com dezenas de idéias entrelaçadas lembram bastante o Zé, e, junto com observações anteriores da BBC África, me fizeram teorizar que isso deve ser coisa de português mesmo. Anyway, com vocês um trecho de "os Cús do Judas", a obra mais famosa do Lobo Antunes (escolhi uma parte mais lírica, mas despúes posto um trecho que trata diretamente da guerra de Angola).

17.12.08

Títulos que sozinhos já valem uma história

O jardim dos caminhos que se bifurcam
O passado
Dois perdidos numa noite suja
As coisas que perdemos pelos caminho
Nossa vida não cabe num opala
Ainda orangotangos

11.12.08

Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.

Todo se transforma, Jorge Drexler

Quem tem alma não tem calma

ou 2008

Darling, I have no idea. Foram quantas semanas mesmo? Duas ou duas dezenas? Balanço de fim de ano antecipado, 2008 foi um ano bacana. Desses marcantes e com jeito de que vão piscar na memória por um bom tempo. Nova casa, nova casa novamente. E pessoas. Muitas pessoas. God save the people. Foi divertido sentir, até sofrer, e sorrir, e sentir mais um pouco. Lembra que estamos vivos, certo?
Momento querido diário, teve o rapaz. Ahh, o rapaz. Se as coisas acabam quando elas terminam, que sejam eternas enquanto durem. Não ele, mas algo que despertou com ele, meio que me salvou de uma certa amargura que vinha tomando lugar aos poucos. E como foi bom caminhar sem encostar o chão para variar.
O ano novo promete demais. Talvez bem provavelmente não seja capaz de cumprir. Formatura, as europa, a vida abanando de longe. Mas só de saber o nariz pra fora da porta sem cobertura, só pelo frio na barriga, só...só por isso ele já parece que vai ser tão incrível quanto apregoa.
E que venha 2009, recheado dessas coisas que a gente não pode controlar, de sentimentos, de novas velhas idéias e de pessoas. Muitas pessoas. Porque darling, eu continuo sem fazer idéia.

7.12.08

Após cinco ou seis viagens e umas caminhadas para completar a mudança, não consigo não pensar "a minha vida não cabe num gol".

5.12.08

Saudações coloradas

Só para registro. Vinte e sete meses, todos os títulos internacionais possíveis: Libertadores, Mundial, Recopa e Sul-Americana. Isso sem contar os tupiniquins Estadual, Copa do Brasil e Brasileiro, já há tempos pegando poeira no Beira Rio.


Campeões de TUDO.
É pouco ou quer mais?

4.12.08

Conversas com o teto

– E tu tem certeza que essa é a coisa certa a se fazer?
– Claro... que não. Mas eu não posso não fazer alguma coisa.

***

Aplicável há nove entre dez dos meus problemas atuais.

"Esse caso da RBS é um escândalo, ela governa o estado."

Ok, você deve estar pensando, grande novidade. A novidade é que quem disse isso foi o procurador do Ministério Público Federal em Tubarão (SC), Celso Tres, que deve ingressar, ainda neste ano, com uma Ação Civil Pública contra o maior grupo de comunicação social do Sul do país. É. É sério.

"Quando a lei diz que tu não podes ser titular de mais de dois veículos, qual é o objetivo dela? É evitar concentração. Se é da mesma família, se tem a mesma programação, está concentrado, é evidente. É uma fraude clara ao objetivo da lei. Não teria sentido proibir que alguém seja proprietário de mais de dois meios de comunicação e permitir que esse meio de comunicação transmita a mesma programação, tenha a mesma linha editorial, etc. É a mesma coisa que nada."

Aqui tem a matéria completa, feita pelo jornal universitário da UFSC, o Zero, que junto com o Diarinho é um dos bastiões de resistência da mídia em Santa. Oremos irmãos.

2.12.08

Abandonar o navio!

1.12.08

Cheio dos deuses

Há um tempinho atrás estava eu, novamente, animada pra caramba em escrever aqui (já deve ter dado para perceber que bloggar por essas bandas é algo meio sazonal). Cheguei, pasmem, a pensar em pautas. Na palestra do Galeano em Porto Alegre mandei ver no bloquinho, pensando especificamente no Palimp. Mas como acontece geralmente, idéia na cabeça e papel longe (no caso, bloquinho com anotações perdido), não levei o texto adiante. Lembro até do começo. Opa, quer dizer, lembrava, mas era algo assim "Entre estudantes do jornalismo é comum dizer que o Galeano é o cara. Dane-se. Ele é." Olha só o que vocês perderam, hein?
De qualquer forma, cheguei passado o começo da conversa e, além de querer matar o entrevistador pelas interrupções desnecessárias e perguntas capengas, fiquei muito emocionada com várias coisas que ele disse. O Galeano tá batendo na casa dos 80 e chegou nessa idade em que tanto faz como tanto fez e agradar a qualquer um além dele mesmo é uma bobagem. Chega até a parecer meio estrelinha. Ele veio falar do livro Espelhos, para mim um livro de perguntas que ele se fez ao longo da vida e resolver dar eco agora - para ele, e para o resto do povo que teceu críticas a respeito (as que li), uma ode aos excluídos. Também.
Entre as tais linhas que me emocionaram está uma reposta, mais um meio de resposta. Parece que com 23 ele ficou encarregado de um jornal de "faquiris", já que eles tinham tudo, menos dinheiro (a pergunta se referia a sua mania de ler de tudo, adquirida nessa época). Diz o velhinho, autor das Veia abertas da america latina e tantos outros tapas na cara, que naquele tempo não importava porque eles tinha algo mágico e mais que o suficiente, originado em uma palavra grega que significa "cheio dos deuses": entusiasmo. E como é bonito o entusiasmo. É tipo de coisa que todos deveriam ter. É o tipo de coisa que nós deveríamos ter. Dá vontade de falar sempre assim, dialogando com o Olimpo. En-tu-si-as-mo.

"Sobre o Pontal eu não posso e não quero responder"



Para quem não leu ainda, segue a entrevista que o prefeito José Fogaça concedeu à repórter Naira Hofmeister do Jornal Já sobre a questão do Pontal do Estaleiro. Ele tem pouco menos de duas semanas para vetar ou aprovar o projeto que já foi sancionado pela câmara dos vereadores. Pelamordedeus leiam até o fim. O nosso prefeito, que como admistrador público é um grande poeta, solta uma pérola atrás da outra. Parabéns à repórter por fugir do vício dos jornalistas gaúchos de questionamentos café-com-leite.




Esse projeto tramita há bastante tempo a Secretaria Municipal de Planejamento. Em 2006, foi avaliado pela Comissão de Análise Urbanística e Gerenciamento, formada por todas as secretarias do município. Também foi alvo um estudo prévio de viabilidade urbana. No entanto ele não foi encaminhado pelo Executivo. Por quê?
Porque eu precisava de uma audiência à população e à comunidade, uma vez que isso mexe com valores que são históricos na vida da cidade. Eu inclusive disse aos mentores do projeto que eles precisavam formar massa crítica. Ou seja, fazer a população conhecer, debater e se manifestar a respeito dessa idéia. Não poderia ser algo assim, partindo de uma empresa e o poder público, simplesmente por uma opção técnica toma uma decisão. Precisava - e precisa - de uma ampla manifestação da cidade a esse respeito.

Mas o senhor sabia que apresentar esse tipo de projeto é competência do Executivo?
Evidente que sabia! Tanto que pedi ao Secretario de Planejamento que fosse à Comissão na Câmara e dizer que eu, Prefeito, precisava de muito espaço e tempo porque precisava ouvir muito a comunidade. Isso está registrado. Colocar o projeto em votação foi uma decisão unilateral do Legislativo? Foi uma decisão do legislativo e deve ser respeitada pois os vereadores têm autonomia e o direito de fazer isso. Eles têm suas maneiras de formar convicção.

O senhor se sentiu atropelado?
Nada que a Câmara faça atropela o Executivo. É um poder soberano e autônomo. Somos interdependentes mas separados como poderes. Cada um tem seu papel. Que peso terá a aprovação do Legislativo na sua avaliação? Houve uma decisão da Câmara e isso é um fato político relevante que tem que ser levado em conta.

O senhor disse que em 2006 não encaminhou o projeto por falta de tempo para análise. Agora o senhor acredita conseguirá ouvir todos os lados?
É difícil dizer, muito difícil. Realmente o tempo não é suficiente para uma ampla e consistente formação de lastro de opinião. É óbvio, não é preciso dizer isso com muita ênfase. Uma audiência pública está nos seus planos? É uma avaliação que tenho que fazer para tomar essa decisão. Mas não quero emitir opinião agora. Eu ainda não assumi nem decidi nada. E só depois de ter comunicado aos vereadores, vou falar com a imprensa.

Depois da decisão do Legislativo – e se for o caso, com a sanção da Prefeitura – o terreno de propriedade da BM Par Empreendimentos será muito valorizado. A ação do poder público vai beneficiar economicamente um empreendedor privado. Qual sua opinião sobre isso?
Posso falar sobre isso em tese e sobre outras situações. Sempre que uma empresa tem um projeto aprovado, quando vai desenvolver precisa fazer compensações à cidade. Ou seja, adotar uma série de medidas e empreendimentos voltados principalmente para obras públicas de infraestrutura: sistema viário, saneamento, projetos sócio-habitacionais. Isso – em tese – vale para várias situações que a Prefeitura adotou.

O senhor quer dizer que os benefícios públicos realizados pelo empreendedor justificariam a valorização de seu patrimônio?
Não foi isso que eu disse. Não respondi a respeito do Pontal, mas sobre várias outras situações. Quando um construtor gera valor imobiliário para determinada região, ele gera também conseqüências – mais gente circula, utiliza redes de águia e esgotos, precisa ter creches, escolas… Sobrecarrega. Logo, ele tem que produzir uma compensação equivalente à repercussão e conseqüências que ele produz.

Mas sobre o patrimônio privado, especificamente…
Isso não é feito com base na valorização imobiliária, mas na repercussão urbana, nas conseqüências de um empreendimento. O que eu vejo é que valorização também exige compensação. Isso é um princípio institucional. Tem que haver uma compensação para cidade. O senhor pode dar um exemplo? O Internacional acaba de ganhar da cidade uma doação, uma cessão de uso do estacionamento lateral. Em contrapartida, está cuidando de 150 crianças durante quatro horas por dia. É como se estivéssemos fundando uma escola no Beira Rio. E ainda paga um valor de 25 mil reais por mês para a cidade, para os fundos de investimento. Para tu ver que toda a vez que algo é valorizado, existe uma compensação.

Já existem possibilidades de compensação para a obra do Pontal?
Esse estudo será feito por técnicos, como em qualquer caso. No caso do Pontal eu não posso, não quero responder, e não estou respondendo ainda. Porque tenho que tomar uma decisão de contornos políticos. Mas o senhor pode adiantar quais critérios serão colocados na balança? O primeiro e mais importante é a necessidade de ter um recall, um lastro de opinião consistente e significativo da cidade, que vai desde o Clube de Mães da Vila Assunção até a Federação das Indústrias. Tudo o que passar no meio disso é a cidade.

Entre esses critérios estão os problemas ambientais e legais levantados pelo Fórum de Entidades?
Mas tu vai fazer um cerco a respeito desse assunto do Pontal? Assim fica muito difícil te responder!

Só estou tentando ser clara…
A clareza é a seguinte: eu não posso falar sobre esse assunto, gostaria de não ficar respondendo sobre questões laterais. É altamente delicado, seria inclusive um desrespeito à Câmara e aos vereadores. Depois que a minha decisão for tomada e anunciada ao presidente da Câmara Municipal é que vou me manifestar para a imprensa.

30.11.08

Sofismas

Fins de domingos sabem ser desconfortáveis. Olho pra o lado. É preciso pensar em caixas. O quarto pequeno sabe ser pesado na hora de ir embora. Duas semanas para decidir, bem, quase tudo. Uma vida nova de natal. Várias promessas particulares boiando sem rumo. Em que fio se começa a meada? E no fundo, no fundo... é bom.
Diz a moça do cabelo cacheado e leão nas costas que o amor é o antídoto para o suícido. "Te faz querer estar vivo". Diz o moço do sotaque de apartamento que sentir te lembra isso também. Eu voto no arrepio, no frio na barriga, nos começos. A garota dos vocês sorri. "Gostar por gostar, eu gosto do que eu faço."
O tcheco fugido teoriza que é tão mais fácil quanto imperceptível tornar o positivo negativo. "...a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos toa livres quanto insignificantes."
"Que escolher, então? O peso ou a leveza?"
"Não", cortou Ruy castro quando um espectador nostálgico perguntou se ele não sentia falta da Ipanema dos anos 60. "A vida não me deve nada."

28.11.08

As eleições norte-americanas, ainda

Ok, ok, ok. Todo mundo já ouviu o bastante sobre o Obama - de quem virei fã após terminar "A Origem dos meus sonhos" (sim, eu só preciso de uma dúzia de idéias bacans e tentativas de colocá-los em prática uns bons anos antes de alguém de sequer pensar em ser presidente pra ficar fã. Facinha, facinha), mas esse texto do Idelbrar vale a pena ser lido. É uma análise de toda a campanha do Barack em que ele já sinalizava que a mudança não era apenas retórica (pois o homem já não anunciou que vai fechar Guantánamo e fazer um plano de saúde?). Anyway, o Idelbrar é professor e mora no Sul dos States há um tempinho. Além de acompanhar de perto a história toda, votou no moço. Texto grandinho, mas recomendadíssimo.

"Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco."

27.11.08

Bye, bye Brasil

Oi, coração
Não dá pra falar muito não
Espera passar o avião
Assim que o inverno passar
Eu acho que vou te buscar
Aqui tá fazendo calor
Deu pane no ventilador
Já tem fliperama em Macau
Tomei a costeira em Belém do Pará
Puseram uma usina no mar
Talvez fique ruim pra pescar
Meu amor

No Tocantins
O chefe dos parintintins
Vidrou na minha calça Lee
Eu vi uns patins pra você
Eu vi um Brasil na tevê
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo tão só
Oh, tenha dó de mim
Pintou uma chance legal
Um lance lá na capital
Nem tem que ter ginasial
Meu amor

No Tabariz
O som é que nem os Bee Gees
Dancei com uma dona infeliz
Que tem um tufão nos quadris
Tem um japonês trás de mim
Eu vou dar um pulo em Manaus
Aqui tá quarenta e dois graus
O sol nunca mais vai se pôr
Eu tenho saudades da nossa canção
Saudades de roça e sertão
Bom mesmo é ter um caminhão
Meu amor

Baby, bye bye
Abraços na mãe e no pai
Eu acho que vou desligar
As fichas já vão terminar
Eu vou me mandar de trenó
Pra Rua do Sol, Maceió
Peguei uma doença em Ilhéus
Mas já tô quase bom
Em março vou pro Ceará
Com a benção do meu orixá
Eu acho bauxita por lá
Meu amor

Bye bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim
Tem um japonês trás de mim
Aquela aquarela mudou
Na estrada peguei uma cor
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo um jiló
Eu tenho tesão é no mar
Assim que o inverno passar
Bateu uma saudade de ti
Tô a fim de encarar um siri
Com a benção de Nosso Senhor
O sol nunca mais vai se pôr

Chico Buarque

25.11.08

"São tão silenciosas!", eu disse.
"É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas como se estivessem rezando por todas as criaturas vivas naquele silêncio e só esperando que gente acabasse com toda nossa complicação e nossas bobagens."

The Dharma Bums - Jack Kerouac

24.11.08

Às vezes sinto um pouco de ciúme dessa gente que consegue colocar os demônios para fora, uma lágrima por vez.

Today's fortune

The guy who reads your fortune lost his psychic powers (and his job). We hope you are feeling lucky.

21.11.08

Inevitável mundo novo?

Crise econômica daqui, crise econômica dali sempre que alguém compara a explosão do mundo financeiro em setembro com o fatídico crash da bolsa de 1929 me pego pensando, "estamos vivendo um momento histórico, ok, mas quando é mesmo que a gente percebe que um momento histórico é um momento histórico?". Foi durante uma dessas divagações que me deparei com a capa do Le Monde Diplomatique desse mês. "Inevitável mundo novo", diz a chamada. Inevitável, com certeza. Novo, tomara. Mas que mundo será esse é o tipo de coisa que dá vontade ser uma mosquinha futurística para saber.

A razão por que a vitória de Obama gerou tamanho entusiasmo não está apenas em que, contra todas as chances, realmente aconteceu: ela demonstrou a possibilidade de que uma coisa dessas acontecesse. O mesmo vale para todas as rupturas históricas

Slavoj Zizek

19.11.08

E a resposta para os problemas do mundo é... carboidratos! Tá, não é. Mas passa perto.

Sextante/Cidão

Fizemos nós quase todos (ou quase poucos) tempestades homéricas em copos d'agua. No final(?), o resultado foi uma revista bacana, memória desse bando de seres que juntos ouviram a Clarice tecer esperanças, a Rosa Nívea lembrar a relação entre jornalistas e super-heróis e o Ungaretti teorizar a subversão.

*

Porque ó espaço é variável e a paciência idem, uns tais de miniperfis ficaram para trás. Eu, que não sou lá muito fã do meu, publico aqui uma recorte que a senõrina Gastal praticou e que, na falta de encartes palpáveis, ficou restrito ao word. Com vocês, Cidão.

"Moreno, de porte atlético, cabelos negros, curtos e sedosos. A descrição parece a de um modelo, mas ele nunca esteve em comerciais ou desfiles. E para falar a verdade, poucas pessoas conhecem o seu nome. Alcides, que também atende por Cidão, tem uma história sofrida. Logo após nascer, sua mãe faleceu. Nem chegou a vê-la. Ela morreu antes que ele abrisse os olhos. Entre seis irmãos, foi o único a sobreviver. Sua sorte foi ser adotado. Hoje tem uma vida tranquila, mas o passado deixou marcas. Dizem que a falta de alimento nos primeiros dias de vida causou sequelas em seu sistema nervoso. É muito inteligente, porém hiperativo. Extremamente hiperativo. E também sentimental.
Da família em que vive, não tem muitas queixas a fazer. Tem tudo o que precisa e gosta. Inclusive um bom churrasco – bem passado! – todo final de semana. A única reclamação é a diferença de tratamento que recebe, a exclusão. Traumas de infância. No auge de sua explosão hormonal, Alcides passa a maior parte do tempo com a avó postiça ranzinza e a também adotada irmã destranbelhada. Se dão bem. Seu maior desafio no momento é controlar os instintos. E se você quiser que ele conte essa história, Alcides o faz, e de bom grado. Sem melindros. O único empecilho é decifrar seu vocabulário, composto basicamente por duas letras. "Au au!"."

Débora Gastal

Os baldes

Os baldes estão aí. Mais ou menos cheios. A maioria deles, escolhemos carregar. Ô mãe, me vê por favor uma chuteira de natal, que a minhas já não servem mais.

18.11.08

“... Os levantes populares destes últimos anos foram crivados a balaços, porém evitaram que o gás se evaporasse em mãos alheias, desprivatizaram a água em Cochabamba e La Paz, derrubaram governos governados desde fora, e disseram não ao imposto sobre o salário e outras sábias ordens do Fundo Monetário Internacional.
Desde o ponto de vista dos meios civilizados de Comunicação, estas
explosões de dignidade popular foram atos de barbárie. Mil vezes eu o vi, li, escutei: a Bolívia é um país incompreensível, ingovernável, intratável, inviável. Os jornalistas que o dizem e repetem equivocamse: deveriam confessar que a Bolívia é, para eles, um país invisível.
Isso nada tem de raro. Esta cegueira não é somente um mau costume de estrangeiros arrogantes. A Bolívia nasceu cega de si, porque o racismo joga teias de aranhas nos olhos e, por certo, não faltam bolivianos preferindo ver-se com os olhos que os desprezam.
Porém, por algo será que a bandeira indígena dos Andes rende homenagem à diversidade do mundo. Segundo a tradição, é uma bandeira nascida do encontro do arco-íris fêmea com o arco-íris macho. E este arco-íris da terra, que em língua nativa se chama tecido de sangue que tremula, tem mais cores que o arco-íris do céu.”

Eduardo Galeano, A segunda fundação da Bolívia

Como vão as coisas na Bolívia

Seguindo com meu plano maligno de inundá-los com entrevistas. Esse texto saiu há duas segundas-feiras na editoria de Internacional do Jornal do Comércio. No começo fiquei um pouco chateada por algumas questões burocráticas que esfriaram a matéria e não me atrevi a publicá-la aqui, mas depois de conversar com uma amiga passei a olhar ele de outra forma. O que é a saída de um "fascista" e a inversão de um lead quando é possível passar uma versão dissonante da divulgada na maior parte dos meios de comunicação? E viva la revolúcion!

A retomada da auto-estima

Maior parte da população apóia e se vê representada pelo governo de Evo Morales

Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC
3/11/2008

A Bolívia, país de maioria indígena, elegeu pela primeira vez em 2005 um índio presidente: o líder cocaleiro Evo Morales. Desde então, o governo Morales tem suscitado mudanças que deixam de cabelo em pé a oligarquia e contam com o apoio da maior parte da população do país, segundo mais pobre da América Latina.
O jornalista gaúcho Leonardo Wexell Severo acompanha há tempos os acontecimentos no país e presenciou os conflitos que tomaram lugar na região em agosto em função do desejo separatista dos governos de oposição – Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca - e resultaram na morte de dezenas de camponeses. O resultado foi o recém lançado livro Bolívia: nas ruas e nas urnas contra o imperialismo. Pouco antes do governo e da oposição entrarem em acordo sobre a nova constituição, que deverá passar por um referendo no dia 29 de janeiro, Wexell conversou com o Jornal do Comércio sobre a situação no país.


Jornal do Comércio - Quais as principais mudanças desde a entrada de Evo Morales no governo?
Leonardo Wexell - O mais importante é a retomada da auto-estima. Um país majoritariamente indígena que começa a se sentir dono do seu próprio destino. E essa retomada se deu a partir da nacionalização dos hidrocarbonetos. Hoje, com o governo Evo, se inverte a lógica que destinava 82% para as transnacionais e apenas 18% para o seu próprio povo. Esses recursos, que começam a ser injetados na economia, possibilitaram um aumento real do salário mínimo. Possibilitaram garantir as crianças um bônus de 200 bolivianos por ano que serve para material escolar, para roupa. Garantiram também dignidade aos idosos, a partir de uma aposentadoria para todos os maiores de 60 anos. Isso é importante porque na faixa etária dos índios bolivianos muitos morriam sem ter o acesso a esse direito. Tanto a questão da juventude quanto dos idosos remontam a uma prática milenar dos indígenas de garantir apoio aos idosos, na medida em que eles são em parte o presente, e as crianças, uma parte do presente no futuro. A reforma agrária também está sendo acelerada. Nove milhões de hectares já foram distribuídos. O combate ao analfabetismo - ainda esse ano, com a ajuda cubano/venezuelana , a Bolívia vai se tornar o terceiro país livre do analfabetismo. O governo tem centrado o foco da sua intervenção em questões chave para o desenvolvimento do país, não apenas para o momento histórico.

JC - A maior parte da população apóia Evo?
Wexell - No referendo Evo cresceu em todas as regiões do país, ganhando em 95 das 120 províncias. Ele, que foi eleito com quase 54% dos votos, na última eleição teve 67,4%. Na Bolívia os presidentes costumavam ser eleitos por 17% da população. Era uma fragmentação incrível. Hoje os movimentos sociais se aglutinaram em torno da bandeira do Movimento ao Socialismo (MAS), que é um instrumento político das organizações populares, o que nos enche de esperança.

JC - E lá o voto é obrigatório?
Wexell - Um dos avanços da Constituição boliviana é o voto obrigatório. O voto facultativo isola os mais fragilizados dentro do processo democrático. Não apenas o voto é obrigatório, como o serviço militar. Há uma compreensão de que o estado deve gerir os recursos públicos e, como representante do conjunto dos interesses da nação, tem que ser preservado e fortalecido.

JC - Quem estimulou os conflitos que tiveram lugar há pouco tempo entre a população?
Wexell - A violência em Pando, por exemplo, que levou a morte de 16 camponeses e tem dezenas de desaparecidos, foi feita anteriormente queimando casas de lideranças populares que combatiam o governo fascista do Leopoldo Fernandes. Ele era uma figura execrável, um vendilhão conhecido. Quando viu que os camponeses iam fazer uma manifestação, e como os indígenas tinham um carisma popular muito grande e dialogavam com a sociedade, agiu. Só que o tiro saiu pela culatra. Fernandes pensou que matando os camponeses iria fazer com que o governo tivesse uma reação descontrolada, capaz de abrir espaço para uma sensibilização da comunidade internacional. Foi justamente o contrário. Tanto a população quanto os governos da zona Sul condenaram o que aconteceu. A prática desses grupos, particularmente quando ocuparam e destruíram as repartições públicas para se insurgir contra o resultado das urnas, que foi claro, provocou uma ojeriza. Eles ficaram vinculados com o atraso.

JC - Quais os pontos de desacordo da Constituição?
Wexell - A Constituição vai ter um referendo delimitório que limita em cinco ou em dez mil hectares o número de terras para a reforma agrária e estabelece o controle social sobre as propriedades públicas. O estado passa a ser visto não mais como uma autarquia em função dos interesses da elite, mas como algo a ser democratizado para garantir em plenitude os serviços básicos para o conjunto da população. A Constituição proíbe a privatização da água, da energia elétrica e das riquezas do país. Veda qualquer novo governo que enquanto política de estado dilapide o patrimônio público. Para reverter os extensos anos de miséria e de injustiça é preciso na Bolívia de um estado forte e com recursos suficientes para fazer frente às demandas.

JC - E como é a relação do governo com o narcotráfico?
Wexell - Porrada. O narcotráfico é vinculado ao governo norte-americano. Isso da Colômbia, a Venezuela e a Bolívia. A droga serve como um anestesiante da luta social. Da mesma forma, ele tem sido utilizado como força paramilitar pela direita para perseguir os movimentos sociais. A coca é um produto fundamental para enfrentar a altitude. Ajuda na circulação sanguínea e tem uma vinculação como o mate para nós gaúchos ou como o café para os paulistas. Agora o subproduto, a forma como é veiculada é um outro problema, e um grave problema da sociedade norte-americana, que tendo 4,5% da população mundial, consome 45% da cocaína do mundo.

JC - Há um ministro específico para movimentos sociais no governo do Evo?
Wexell - O ministro Sacha Llorenti trabalha com os movimentos sociais. Todos os ministérios lidam com essa lógica, mas esse em particular se reúne todos os dias, o dia todo com eles, para que os movimentos saiam da fase do protesto para a fase da proposta. A partir de agora eles também governam e começam a trabalhar com a realidade e as dificuldades que tem uma administração. Carência de recursos, hierarquia, resolução de problemas... Isso é algo que oxigena o governo e ao mesmo tempo dá uma nova forma de ação para os movimentos sociais.

JC - Há uma discriminação história da população indígena?
Wexell - Contra a população indígena. Os indígenas se concentram historicamente no altiplano, por isso as vitórias tão arrasadoras do Evo na região. Ele ganhou em todas as províncias de La Paz. Onde os indígenas são minoria (40%) as forças racistas fazem um discurso anti-índigena no sentido de garantir espaço e gerar preconceito. Cerca de 60, 65% da população da Bolívia é indígena e essa população vê o governo como o seu governo, de afirmação. Já a direita faz cada vez mais o discurso de que o Evo quer transformar o país em uma grande aldeia, trazer o atraso e efetivamente não é o que está ocorrendo. A justiça social está vindo para todos. Em Santa Cruz, que é um estado em que o governo de direita se mantém, houve um grande investimento. É a província que concentra a maior parte dos recursos de construção de rodovias, por exemplo, para o investimento em indústrias. Porque é uma realidade diferenciada que o governo nacional vê e investe, não no sentido de cavar um abismo social, mas de potencializar as demandas daquele estado.

JC - E em Santa Cruz, o Evo tem alguma apoio?
Wexell - Cresceu. Ele tem cerca de 40% dos votos e individualmente o MAS é o partido que tem mais força em Santa Cruz. A direita, que é maioria, em uma relação de 49 para 51, para vencer tem que juntar ao menos uns 15 partidos.

* Essa é a versão sem os tradicionais cortes para encaixar na página e com o fascista, off course. No original essa última questão também não entrou por questões de espaço e o lead foi invertido.

17.11.08

Barbada



Ah, pessoal. Vi agora lá na Lola. Em novembro várias salas de cinema estarão exibindo filmes tupiniquins a imperdíveis 4 pilas, valendo meia para estudante! Quer consolo melhor pra atravancação do fim do semestre que cinema a 2 pilas? A programação completa do "mês do Filme Nacional" pode ser vista acá. Tem umas películas bem bacanas e para os marcianos que ainda não viram Ensaio sobre a cegueria, ele entra no balaio também.
Babe, babe, babe. Tô cheia de coisas para escrever, diria até que com um bom número de "posts de gaveta" na cabeça. Mas e vontade pra sentar aqui e didalhar, cadê? Acampei, escalei, conheci um dos lugares mais bonitos que (dá-lhe pleonasmo) conheci até hoje, com direito a cachoeira, arco-íris circular permanente, vista deslumbrante e tudo! Mas não criemos cânico, logo reapareço e encho vocês de entrevistas que poucos lerão e comentários irrelevantes. Se bem que eu podia postar uma entrevista agora...

14.11.08

Onde está Wally?


Prazer, Sebastian. Só não digita muito alto que atrapalha o meu sono de beleza.

13.11.08

Porque é de cimento que se faz uma orla

Aprovaram o Pontal do Estaleiro, off course. Afinal, "pra quem serve o teu pôr do sol"?

12.11.08

Candy store

Nada como olhar pro lado e ver uma pilha de livro bacanas à espera.
Se eu quiser um momento nerd, O cavaleiro das trevas do Frank Miller. Modismo, mas interessante, o tal livro do Obama. Jornalismo afu, A queda de bagdá, do John Lee Anderson ou The Art of Fact, do Ben Yagoda. Literatura de primeira, Jogo da amarelinha do Cortázar. Isso para não falar do Borges, do Garfield, do García Marquez, dos Saramagos e dos outros que estão rolando pelo quarto há um tempo. Ah, nesses momentos eu me sinto como uma criança presa em um supermercado à noite.

P.S. Viva as bibliotecas e os amigos livreiristicamente altruístas.

Ainda sobre o Obama

Fiquei tri curiosa pra ler a autobiografia do Obama que esse professor que entrevistei cita (A origem dos meus sonhos). Por essa mágica que envolve trombar em livros, consegui ela emprestada hoje com um amigo do jornal. Comecei a ler e, contra meus preconceitos iniciais com livros "da moda", além de interessante, parece muito bem escrita.

11.11.08

Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, exilado

Um pedaço da história de Jaime Rodrigues

Po Paula Bianca Bianchi

Jaime Rodrigues, 64 anos, é uma dessas nem tão muitas pessoas que teve a vida virada do avesso por causa do golpe de 64. Militou no movimento estudantil, no partidão, na clandestinidade. Saiu do país antes que a coisa ficasse preta a ponto de ter que vestir um paletó de madeira. Viveu o Chile de Allende, a Europa pós-maio de 68 e a incerteza de saber se poderia voltar para casa. Voltou. Ajudou a fundar o PT. Militou mais um pouco. Viu o Lula perder três eleições e ganhar a quarta. Viu o PT balançar e quase perder o rumo. Chorou. Agüentou no peito. Continuou lutando. Fez dois filhos no meio do caminho. Hoje anda por aí com uma pasta de couro cheia de papéis debaixo do braço e um diploma de história, já que o de urbanismo concluído no estrangeiro não serve mais para muita coisa, a procura de um emprego normal. Militando ainda. Sonhando sempre.

Mas vamos retroceder algumas décadas. Apesar de ter nascido em Porto Alegre, Jaime é de uma família turca de origem judia sefaradi. O que, nas palavras dele, "não é lá grandes coisas em termos de judeu". A mistura tem direito a avó da Bessarábia, avô da Ucrânia, mãe de Cruz Alta (RS) e pai vindo direto de Istambul aos 17 anos, junto com o resto do povo para não participar da guerra entre turcos e curdos, que marcou o país e causou a morte de mais de um milhão de pessoas.

Com caldo cultural suficiente para dar um nó na cabeça de qualquer um, aos 13 anos Jaime decidiu chutar o balde. Graças a influência de alguns amigos judeus progressistas, trocou o colégio Piratini, "de elite", pelo Júlio de Castilhos. "Já no primeiro dia de aula, não entrei no colégio. O meu amigo Marcos (Faireman, aquele, criador da revista Versus), estava no telhado do colégio gritando: greve geral! Greve geral! Pensei, greve? É comigo mesmo! E fomos em passeata até o centro." Começava aí a vida de revolucionário.

A religião foi outra grande questão. "Com treze anos como tu vai questionar coisas tão gigantescas?" Passou pelo ritual do Bar Mitzváh porque era uma condição para virar homem. Uma vez homem, decidiu que não acreditava em Deus.

Na época questionar era a palavra de ordem. "Quem questionava era o máximo", lembra. Ele explica que, “um jovem não andar de terno e gravata era um escândalo”. Pílula anticoncepcional, homem na lua, adolescentes de jeans e rock´n'roll. O movimento que culminou em maio de 68 começou muito antes, com esses garotos que decidiram pensar qual afinal era o seu lugar. "Nós fizemos a reviravolta no mundo." Era uma vontade de tudo ao mesmo tempo e agora, uma sensação de que qualquer coisa era possível. "Vontade de entrar na vida", define Jaime.

Em 61, ele também foi às ruas defender o Piratini, Brizola e a Legalidade, ou ao menos tentar. Junto com os amigos do movimento estudantil passava o dia na Praça da Matriz, parte central de uma Porto Alegre sitiada. "Era manifestação para cá, manifestação para lá. Mas nunca pegar em armas, que armas eram coisa para homem e nós éramos crianças", admite.

Entre os colegas ler Marx era fundamental, afinal a revolução podia chegar a qualquer momento. "Eu achava tão, mas tão importante ler Marx que tinha épocas que eu tomava banho só para ler ele." Jaime ri ao lembrar dos amigos e de toda onda feita em torno do filósofo. "Nós líamos, mas líamos com muito charme". Era um ler cheio de si, como se aquilo fosse o bastante para entender o mundo.

O golpe veio quando ele já estava cursando arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas essa parte a gente pula. Não que a história de todos os estudantes que lutaram contra ditadura seja igual, mas a vida é muita e o espaço curto. Quando a coisa apertou na capital gaúcha – ele passou bons dois meses preso no DOPS (Departamento de Ordem e Política Social) porto-alegrense, amador perto do paulista - o moço foi para a cidade maravilhosa. Sessenta e oito chegou, e com ele o AI-5 e os anos de chumbo. No Rio, militou clandestinamente até que tanto a militância política quanto a luta armada não fizeram mais sentido. “Chega uma hora que tu sente que tá perdendo o controle das coisas.”

Com a companheira Miriam e um casal de amigos resolveu ir para o Chile pensar na vida. Cruzou a fronteira pelo Uruguai, quando a coisa lá ainda não estava preta. Foi recebido por um Brizola lendário e eloqüente, que lhes ofereceu um churrasco em seu sítio. "O Brizola falava todo o tempo, e o falar dele era... era quase transcendental. Foi muito bonito estar com ele.”

De Montevidéu para Buenos Aires, de Buenos Aires para Santiago. Toda a viagem de ônibus, pela cordilheira dos Andes. "A ida ao Chile já começou a ser rompedora de vida”, conta. “Tu sai do medo, da clandestinidade. Olha aquelas grandezas que tu não sabe que existem. Naquele momento a natureza me deu um novo sentimento.”

Se a viagem foi como respirar, a chegada foi como um sonho. "Estávamos caminhando na Gran Avenida com as malas na mão, como dois nordestinos, e demos de cara com uma manifestação de trabalhadores. Eu larguei as malas e chorei". Ele chora hoje, só de lembrar. "Imagina, eram trabalhadores! Aquilo que a gente queria para o Brasil!"

Todo mundo estava indo para o Chile na época por causa da eleição do governante de esquerda, Salvador Allende. "O governo Allende era maravilhoso." Com a ajuda de parentes Jaime alugou um apartamento e não demorou a se envolver com grupos de esquerda que militavam no país. “Era incrível como um lugar com dez milhões de habitantes conseguia promover manifestações com um milhão de pessoas”, lembra. Mas, como alegria de exilado dura pouco, veio 1973 e a ditadura por lá também. Presidente morto, milicos no poder, a solução foi, outra vez, sair do país.

Na condição de exilados, eles conseguiram um visto para o México. A viagem, cheia de escalas pela América Central, passou pelo Peru e acabou no Panamá. "O país era governado por militares, mas militares nacionalistas. Eles nos convidaram para ficar e ajudar a ‘construir o Panamá’." Jaime conta que era olhar pela janela para ver uma manifestação. "E lá vai o pessoal. 'Tucundindum , tucudam'. Se manifestando e dançando."

Tudo corria bem até que uns três meses depois da chegada e ainda sem nenhuma definição do papel que eles ocupariam na “reconstrução do país” Jaime abriu o jornal e deu de cara com a manchete: O Panamá não é como o Brasil, o Uruguai e o Chile. No Panamá o fascismo não passará. Pouco tempo depois o presidente Omar Torrijos morreu batendo o avião contra uma montanha. "Na hora pensei ‘ihh, isso eu já conheço. Quero ir embora’”. E foi.

América Latina, até a vista. Ele, a companheira e o filho Henrique, nascido no Chile de Allende - onde a coisa estava tão boa que deu até para engravidar - foram para a Bélgica. Da Bélgica partiram para a Alemanha. E da Alemanha, Jaime seguiu sozinho para a França, onde se formou em urbanismo pela universidade de Paris VIII, sempre pensando em voltar. "Uma coisa é tu viajar, escolher. A outra é o não poder ir para casa. Dói muito".

E cá estava o Brasil, acenando de longe. Médici, Geisel, Figueiredo. Antes que o último ditador resolvesse ser esquecido, chegou a hora de fazer as malas. No fim de 78, Jaime pisou no país novamente, pela primeira vez em dez anos. Apesar de ter chegado antes da anistia, a coisa foi tranqüila. "Estava todo mundo voltando. Ia ter eleições (diretas para prefeito, deputado, senador e indireta para presidente). Pegava mal prender."

E o Brasil... O Brasil era o Brasil. "Eu saia na rua só para ouvir as pessoas falando português." Em Porto Alegre, imbuído do espírito francês de liberdade, igualdade e fraternidade quase apanhou em um grenal. "O Inter tinha ganho e os colorados passavam por cima, enquanto os gremistas ia embora por baixo. O pessoal xingava, jogava copos e eu, acostumado com os europeus, tão comedidos, achava tudo muito estranho. Parei e gritei: ‘Pessoal, pessoal, parem! Ser gremista também é um direito humano!’. Me olharam... ‘Ah é?’ E nessa hora foi bom ter a Brigada por perto.”

Envolver-se com política novamente foi quase inevitável. Foi para Caxias do Sul, onde trabalhou como secretário de planejamento do prefeito Mansueto Serafini (antigo MDB). "Meu currículo era uma maravilha. Imagina, eu era um urbanista recém formado na França". Por exigência do governo o bipartidarismo foi extinto e os partidos políticos pipocaram por todos os lados. "O prefeito perguntava para os secretários. 'Fulano, pra que partido tu vai?' PMDB, PTB, PMDB, PTB... Um escolheu o Partido Comunista. Chegou a minha vez e eu disse: ‘Vou ajudar na fundação do PT’. ‘PT, Jaime? Tu vai te meter justo nisso aí?’”.

E se meteu. Jaime foi o primeiro candidato do partido à prefeitura de Caxias de Sul, em 1982. “Sentei com o pessoal para fazer o planejamento de governo e tive que ouvir, ‘Planejamento? Mas nós não queremos ganhar’” Ele era tido como um liberal dentro do partido, algo mais perto do PT de hoje. “Eles diziam que ‘gerenciar a queda do capitalismo era papel da burguesia’”.

As eleições passaram, Jaime não ganhou. Entre idas e vindas, ele morou ainda em João Pessoa e Brasília, antes de aportar de vez em Porto Alegre. Sobre o presente não parece haver muito o quê dizer, ou que ele queira dizer. Teria feito diferente se soubesse o rumo que as coisas iriam tomar? “A gente se aventura muito”, reflete. “Eu deveria ter me preparado melhor, ter tido mais cuidado com o futuro. Agora é muito importante, para mim, conseguir um emprego com carteira assinada, ter essa segurança”.

Após mais de três horas de conversa estamos os dois cansados, com a cabeça pesada de histórias. Entre o número 20 e o 82 do edifício 1025 da avenida Borges de Medeiros, onde cresceu e vive até hoje, Jaime passou por bem mais que seis andares. Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, clandestino, pai, exilado, político, homem com a pasta marrom debaixo do braço. "A verdade é que nessa vida a gente tem que se aventurar", sorri. E ele segue. Militando ainda. Sonhando sempre.

9.11.08

Barack Obama, presidente

Eu já ia começar com aquela história, Jornal do Comérico, amanhã (hoje, no caso), página x e afins, mas quer saber? Leiam aqui mesmo e pronto (ou não leiam, vocês que sabem). O texto é sobre o hit do momento, Barack Obama. O professor Vizentini tem uma visão bem interessante e esperançosa da situação. Bom, acho que esperançosos estamos todos. Claro que originalmente era 15 mil caracteres e todo aquele blá blá blá, mas dessa vez não vou reclamar da edição. Ser racional vez enquando é interessantes. Mas se por acaso alguém quiser o texto inteiro - e ainda tiver paciência para ler sobre o assunto -, já sabem, emeiemme. Ahh, e eu não tenho nada a ver com esse título com aspas, viu...


"Os EUA precisam de Obama"

10/11/2008
Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC



Histórico parece o adjetivo preferido para definir o pleito que elegeu o democrata Barack Obama, 47 anos, o 44º presidente dos Estados Unidos. A eleição do dia 4 de novembro marcou o fim de oito anos de era Bush, governo que figura entre os piores em termos de rejeição interna e externa. Obama, visto com grande expectativa pelo mundo inteiro, recebe um país fragilizado pela crise econômica e insatisfeito com os resultados pífios da luta contra o terrorismo, encabeçada pelos republicanos. Caberá a ele mostrar nos próximos quatros anos se o grito que o levou à Casa Branca, "Yes, we can", e a vontade de mudança demonstrada nas urnas serão suficientes para recolocar os EUA no posto de maior democracia do mundo.
O professor de relações internacionais da Ufrgs Paulo Vizentini, doutor em Relações Internacionais pela London School of Ecomics e ex-assessor da universidade para assuntos exteriores, conversou com exclusividade com o Jornal do Comércio sobre o pleito e adianta: "Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo o que ele tem para trazer".

Jornal do Comércio - Obama representa mesmo uma mudança tão grande?
Vizentini - Ele representa a quebra de uma situação incômoda. Os norte-americanos estavam se sentindo muito inseguros, principalmente porque a opinião pública mundial, depois da guerra do Iraque, se tornou decisivamente contrária às ações do país. E, finalmente, os problemas econômicos chegaram. Oito anos de era Bush levaram a população à saturação.

JC - Quais os reflexos diretos da eleição?
Vizentini - O que mais muda é uma cultura. Há uma sinalização de que a população quer outro tipo de resposta para os seus problemas. Em um plano imediato, Obama tem uma margem de manobra que não é muito grande. O presidente Bush já adiantou o pacote de ajuda aos bancos para que os dois candidatos estivessem comprometidos com isso. O que parece novo é que não só ele tem uma perspectiva de dialogar com outras forças, inclusive adversárias, mas a maioria dos adversários também está lhe dando algum crédito para discutir soluções. Isso se dá devido ao fato de Obama dizer que quer ter um diálogo com Chávez, com o Irã. Bush deixou os EUA em uma posição em que não dá para ficar, mas não dá para sair.

JC - Obama tem capacidade de unir o país?
Vizentini - Certamente vai haver muita resistência se ele tentar realizar mudanças que contrariem interesses dos setores mais estabelecidos, como o militar. Fazem muitos anos que as classes mais altas nos EUA têm pago menos impostos. Mexer nisso vai provocar alguma reação. A questão é que ele vai ter que demonstrar para sociedade que o tamanho da crise exige sacrifícios. São muitas tarefas para um homem só. Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo que ele tem para trazer.

JC - Ele não seria inexperiente?
Vizentini - Não. Eu fiz uma resenha de um livro que Obama escreveu há dez anos (A Origem dos meus Sonhos, Editora Gente), quando foi o primeiro negro a ser nomeado diretor da Harvard Law Review, revista de Direito de Harvard. Ele contou sua vida e os conceitos que usa; as experiências mostram uma pessoa muito preparada e talentosa. A maneira como o senador Obama enfrentou na campanha esse tipo de possível preconceito mostra bastante jogo de cintura.

JC - O senhor mencionou que os EUA estão em uma situação da qual não podem sair. Como fica a questão das tropas no Oriente Médio?
Vizentini - Eles não podem permanecer infinitamente lá. A guerra é uma guerra de desgaste e, já ficou claro, não poderá ser ganha. Agora, se retirar bruscamente significaria uma mudança desestabilizadora na região. A saída terá que ser pactuada com outros países e com forças internas, no Iraque e no Afeganistão.

JC - Muda alguma coisa na relação com a América Latina?
Vizentini - Os EUA estão muito envolvidos no Oriente Médio, tentando de alguma maneira fazer com que as potências financiem o déficit que eles geraram. Eles não têm dado muita atenção ao continente, inclusive foi isso que permitiu uma proliferação maior de governos críticos ao país. Uma coisa que pode melhorar é se, de alguma maneira, Obama impulsionar a Colômbia a ter um diálogo maior tanto com a Venezuela quanto com o Equador e buscar um outro tipo de solução para problemas de guerrilhas e narcotráfico. Isso vai facilitar bastante as coisas na região, sem que seja preciso ter uma política e um grande envolvimento, porque não há recursos para isso.

JC - Então muda a forma de resolver os conflitos?
Vizentini - Sim. A maior crítica ao governo Bush é a sua intransigência. O governo decidia sozinho, inclusive seus próprios aliados não eram ouvidos. Isso gerou um desconforto imenso.

JC - E a relação com o Brasil, permanece a mesma? Os subsídios...
Vizentini - O Brasil, discretamente, sempre preferiu os republicanos. Eles não são tão protecionistas e só se envolvem diretamente naquilo que lhes diz muito respeito. Há vários fatores. O primeiro deles é que a dependência brasileira dos EUA diminuiu nos últimos sete, oito anos. Tanto é assim que a crise não bateu com tanta força aqui. O etanol é uma questão mais complexa que envolve os subsídios internos norte-americanos para os seus agricultores, o protocolo de Kyoto, que favorece o etanol, mas não o álcool produzido a partir do milho. Há um espaço maior para a negociação. Eu vi do lado das autoridades brasileiras e do Ministério das Relações Exteriores, em particular, uma certa tranqüilidade com relação à eleição. Ganhando Obama, se favorece uma linha que o Brasil desenvolve no plano internacional. Talvez ajude a desbloquear negociações na OMC e em outros lugares.

JC - Há chances de o embargo a Cuba cair?
Vizentini - Há chances de começar um diálogo. Não só temos nos EUA uma nova liderança disposta a conversar, como em Cuba, o irmão de Fidel Castro, Raúl, tem mostrado mais flexibilidade para tratar dos vários problemas do país. Se abre um caminho para a discussão.

JC - Os EUA estão prontos para ter um presidente negro?
Vizentini - A gente vê no meio-oeste, nos estados de fazendeiros, em que a população é quase só branca, aquele racismo atrasado. Agora o próprio John McCain segurou a vaia de seus eleitores e disse que o país precisa se unir. Observando a produção de Hollywood, nós vemos a quantidade de filmes que mostram negros em posição de autoridade. Para que isso? Para ir preparando o ânimo da população. Eu gostaria de lembrar que o Obama não é propriamente um negro norte-americano. Ele é um mestiço. A mãe dele é branca e ele foi criado principalmente pela avó, que é branca. E o seu pai, que também já morreu, era um africano da elite do Quênia. Ele foi ministro, embaixador na Inglaterra. Obama viveu a discriminação pela cor da sua pele, mas não tem aquele ressentimento de quem passou a vida em um gueto, pelo contrário. Obama é um cosmopolita.

JC - Recentemente o ex-secretário de Estado dos EUA Colin Powell disse que alguém se declarar muçulmano no país é quase como dizer que tem antecedentes criminais. As raízes muçulmanas de Barack Hussein Obama influem de alguma forma?
Vizentini - Não. Nós já passamos pelo processo eleitoral, isso foi levantado. A biografia dele mostra um homem na verdade agnóstico. As pessoas já têm uma reação condicionada e é complicado. Mas onde a sociedade norte-americana chegou com essa situação? Em um beco sem saída. A ponto de as pessoas se retirarem dos EUA, não irem mais estudar no país. Houve um cerceamento à liberdade de pensamento nos EUA nos últimos oito anos e as pessoas mais arejadas se sentiam mal. Milhares de norte-americanos deixaram o país. Também é um problema o grande nível de expectativa que existe. Nunca houve nos EUA uma manifestação desse tamanho. O próprio presidente Bush adotou uma postura muito cordial. Ele reconhece, de certa forma, o estrago que deixou.

JC - E uma pessoa só é capaz de corresponder a uma expectativa desse tamanho?
Vizentini - É difícil. Ele não é o super-homem. Obama vai ter que lidar com um país muito complexo e cheio de problemas. Agora, continuar como está, não dá mais.

3.11.08

Acordei e era o dia da marmota. De novo.

1.11.08

Eu ainda

Gosto de cinema com pipoca, pizza, chocolate branco, sair para dançar, ler bons livros, desenhar, praia, céu azul, jogar vôlei - apesar de quase ter esquecido o que é isso pela falta de prática -, bicicletear, nadar, viajar e rock´n roll. Já não vejo tv, nem consigo dormir até o meio dia e no momento qualquer tipo de férias é bem vindo já que não sei o que é isso há um bom ano e meio. No mais, faltou passar tempo com os amigos e fazer filosofias infinitas de botequim noite adentro sem o que sentido tenha que necessariamente fazer parte da conversa.
Eu ainda passo os invernos chuvosos, lavar louça (se bem que incluiria lavar roupa e limpar banheiros na lista), pneu de bicicleta vazio, bolas de vôlei furadas, verduras, mosquitos e solidão (só que daquela sem opção, que solidão saudável e momentos de autismo são sempre bem vindos). Estudar vez em quando as coisas legais já não parece tão terrível, assim como acordar cedo, cair, feijão e reuniões de família.
Eu ainda fico admirada pela forma como o tempo passa e a gente continua igual, mas diferente.

31.10.08

Eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett
(1799-1854)

do caderno

30.10.08

Entre livros e salva-vidas

Uma das coisas com que mais me identifiquei na longa carta de amor a escrita e a vida que é autobiografia do García Marquez, Viver para contar - além do constante ar de "não sei o que diabos fazer da minha vida"-, é a forma como ele trata livros como salva-vidas. E para mim, é isso que eles são. Formas de nos afastar da realidade, viver outras vidas, olhar o mundo com outros olhos e voltar um pouco diferente, seja melhor ou mais em dúvida. Uma forma de não afundar. O cotidiano, a rotina sabem como ninguém ser um mar revolto, pronto para engolir os desavisados.
Tenho que devolver o livro. Pena. Ainda queria reler um trechos e, se o dito cujo fosse meu, não escaparia as páginas dobradas, marcando a minha falta de coragem de riscar livros, esses salva-vidas ficcionais.

Em tempo, realismo fantástico o caramba. A vida do Gabo é tão ou mais fantastíca que o seus livros e me vi pulando de emoção, (é, eu pulo de emoção e faço escândalo com alguma frequência), ao reconhecer trechos das histórias que ele tornou famosas em forma de embrião na sua biografia. Já dizia o Isma, citando um jornalista qualquer entrevistando o Gabo, perto da infância em Arataca, o escritor torna-se tudo, menos criativo.

26.10.08

E Porto Alegre foi de Fogaça



Santa inércia, Batman.
Não é só tomar furo da imprensa paulista. É o repórter que fura apanhar só por estar fazendo o trabalho dele.
Estou à espera de uma idéia genial.

Continuo à espera de uma idéia genial.

Idéia genial?

23.10.08

Das subjetividades

A esperança de óculos era a Esperança, mulher do Zé que escreveu a letra da música. Só.
Algum lugar do centro de comando da assessoria de imprensa da Brigada Militar, de preferência perto da mesa de cafezinho.
– Bah, meu. Acho que a mídia está contra a Brigada. E agora?
– Já sei! Vamos colocar os jornalistas atirando uns contra os outros, daí eles vão ver como nós somos legais e parar de falar mal da gente.

"BM promove Instrução de Tiro para a Mídia Gaúcha


A Brigada Militar (BM) promove no dia 4 de novembro do corrente ano Instrução e Competição de Tiro para a Mídia Gaúcha, com duas opções de horários: das 9h às 11h ou das 14h às 17h. O evento é alusivo ao aniversário da Brigada Militar.
A entrega da premiação acontecerá após as 17h, no local da competição, no Centro de Material Bélico da BM, situado na Av. Aparício Borges, 2001, em Porto Alegre. O evento será realizado com qualquer tempo, tendo em vista o local possuir estande de tiro coberto.
Informações e inscrições na Assessoria de Comunicação Social da BM pelos telefones 3288-2930 e 3288-2932."

22.10.08

Abaixo-assinados

Sei que a maior parte das pessoas acha um saco assinar abaixo-assinados, por isso vou incomodar vocês duas vezes de uma vez só. Não sei até que ponto essas petições tem efeito, mas ao menos é uma forma de não ficar calado frente a situações que devem ser mudadas.
Primeiro, recomendo que vocês dêem uma olhada no abaixo-assinado contra o projeto Pontal do Estaleiro, que pretende construir seis espigões na orla do Guaíba. Trata-se de uma obra de dimensões desproporcionais com relação a região, que se executada modificará tanto a paisagem, quanto o trânsito e o clima de Porto Alegre. Além disso, a orla é uma área de proteção ambiental e, como é vocação de uma orla, deveria servir a população, não a interesses privados. A Cris explica bem melhor que eu a situação. A votação foi adiada para o dia 29/10. Se essa petição conseguir 5 mil assinaturas até lá é possível que ela seja adiada definitivamente.
O outro abaixo-assinado trata-se de uma carta aberta ao colunista Henrique Goldman e à revista Trip. Em setembro, a Trip publicou uma carta aberta de Goldman a empregada que ele estuprou quando tinha catorze anos. Claro que a palavra estupro não é mencionada em nenhum momento e a própria revista faz graça com a situação ao apresentar o colunista como "Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos". Repugnante. Fiquei sabendo da história, que não teve repercussão nenhuma na mídica, através do blog da Lola. Em tempos de tragédias como a morte da menina Eloá, o caso ilustra a forma como as mulheres são tratadas como posse pela pela sociedade.
No texto Goldman conta como ele e um amigo deram o "bote" na empregada da casa, Luisa, e fala da raiva que sente do Brail - sim, do Brasil - por isso ter acontecido. "Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego. O Adalberto, é claro, foi o primeiro. Subi numa escada e fiquei olhando através da janelinha do cubículo que era o teu quarto. Depois fui eu. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fiquei envergonhado e não rolou legal. Até hoje me envergonho. Muito. Espero que você esteja bem. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você possa rir do que aconteceu”.
A única coisa que a petição pede é que a carta resposta condenando o colunista também seja publicada na Trip, como forma de mostrar que alguém leu aquele absurdo e não compactua com isso. Afinal, para a revista e para Goldman às mulheres que "cederam por insistência" só resta rir do que aconteceu.

* Resposta da Lola ao auto-intitulado Mito da Caverna, que não contente em mandar a blogueira lavar a louça ainda teceu uma tese sobre como estuprar alguém aos 14 anos não deve ser crime.

21.10.08

Ainda sobre a manifestação

ou Suposição sobre o por quê de coberturas mornas de acontecimentos derretendo
(Aviso aos navegantes. Anda difícil não falar de jornalismo. Um dia mudo de assunto, prometo.)
Pretendia escrever sobre isso fim de semana, mas fim de semana, vida e afins acabei deixando o blog de molho. Como comentou o Juliano, colega de redação que estava junto comigo quinta, uma das coisas mais chocantes da manifestação, além da ação da tropa de choque em si, foi a relação dos jornalistas com os brigadianos.

"Acho que uma das coisas mais estarrecedoras que ouvimos naquele dia, Paula, foi o que nos disse o repórter da Folha de São Paulo. Ele falou que, durante o tumulto, alguém da BM, não me lembro quem, se aproximou e disse "e o nosso acordo?", ao que foi repelido pelo repórter com um "que acordo? Eu não tenho acordo nenhum com os senhores". Isso explica muitas das coisas que nós vemos, ou que não vemos, nas páginas dos jornais."
Juliano

O mesmo repórter que, diga-se de passagem*, apesar de ser representante do bloco do eu sozinho, volta e sempre consegue furar a Zero Hora. Vi gente puxando o saco de milico descaradamente. Até aí tudo bem. De jornalista puxando o saco de fonte o mundo tá cheio. Agora há uma pequena diferença entre puxar o saco e se comprometer.
Não vou ser paranóica. Deixo para vocês juntares os pontinhos. Se ele não tem acordo com ninguém...

* Observação almoçal do Isma, nosso ruivo perspicaz.

19.10.08

Carta aberta do CPERS ao Sala de Redação



Senhores radialistas do "Sala de Redação", da Rádio Gaúcha de Porto Alegre

"Ouvi de um dos senhores no programa da última sexta-feira, o comentário de que os movimentos populares e sindicais queriam uma vítima entre os participantes da Marcha dos Sem de 16 de outubro, para usá-la como trunfo contra o governo. Esta afirmação fantasiosa, ofende o movimento dos trabalhadores. Não agimos assim. Somos lutadores e não oportunistas. Não queremos e não precisamos de feridos e muitos menos de mortos para divulgar as nossas idéias.

Mas, vamos denunciar sempre as agressões contra os trabalhadores.

Passo aos senhores duas fotos feitas no dia 16 de outubro, que mostram a nossa colega Marli Helena Kümpel da Silva, Diretora do Núcleo de Erechim do CPERS, ferida pela explosão de uma "bomba de efeito moral", como são chamadas eufemisticamente e com impropriedade estes artefatos, tanto pela Brigada Militar como pela imprensa. O impacto em Marli foi direto, deixando-a com uma fratura exposta na perna. Nossa colega, ainda agora, encontra-se em recuperação no Hospital Ernesto Dornelles.

Marli é uma dirigente do CPERS e participa do nosso Conselho Geral. Não queremos nossos dirigentes fora de combate ou imolados em sacrifício.

Queremos todos vivos e saudáveis, dirigindo a luta dos educadores. A Brigada Militar jogou de forma covarde, três bombas sobre a passeata, o suficiente para ferir 17 pessoas, a maioria na cabeça, com cortes feitos pelos estilhaços e queimaduras pela pólvora, o que por si só atesta o alto poder explosivo dos artefatos.

Quem está querendo fazer vítimas? Será que não está claro?

Foi afirmado no "Sala de Redação", que poderíamos ter feito uma concessão, e falado de onde foi detido o carro de som, abrindo mão de chegar ao Palácio Piratini. Mas, porque teríamos que fazer esta concessão?

Vejam as nossas razões:

A "Marcha dos Sem" é uma tradicional manifestação unitária dos movimentos sindicais e populares do Rio Grande do Sul, que se repete todos os anos, desde 1995, terminando sempre em frente ao Palácio Piratini, quando então é entregue uma carta reivindicatória dos participantes ao Governador do Estado. Será que não dá para compreender e aceitar o significado simbólico desta manifestação?

Em 13 anos, nunca aconteceu nenhum incidente. Desta vez, a Marcha do Sem foi reprimida com selvageria pela Brigada Militar, a poucos metros da Catedral Metropolitana, do Palácio Piratini e da Assembléia Legislativa, quando chegaria então ao seu final. O que temiam o Governo Estadual e a Brigada Militar? Era a paranóia de sempre com o MST? Saibam que a maior parte dos 17 feridos na Praça da Matriz, eram educadores, filiados ao CPERS.

Depois da manifestação, com a Praça da Matriz esvaziada, um policial militar recolhia dos canteiros alguns pequenos galhos apodrecidos de jacarandá, daqueles que se quebram com facilidade, ali caídos, e algumas pedras portuguesas soltas na calçada. Depois mostraram para a televisão aquelas "armas" dizendo que haviam sido usadas contra a Brigada Militar. Uma farsa.

Os achados foram feitos exatamente no local onde estavam os manifestantes, e não no trecho da Rua Duque de Caxias, onde haviam estado antes os policiais militares, e onde deveriam estar as pedras caso tivessem sido arremessadas contra os soldados.

Quero ainda lembrar que em 16 de setembro, o BOE e a cavalaria da Brigada Militar investiram contra uma manifestação do CPERS, que buscava uma audiência com a governadora, agredindo com violência a categoria e a Diretoria do Sindicato.

Será o destino do Rio Grande do Sul ser transformado em um estado policial militar, onde a questão social é tratada como questão de polícia, como era na República Velha e na ditadura, onde sindicalista era tido como "baderneiro"?

Atentem na repressão que está sendo desencadeada contra os movimentos sindicais e populares. Ela já está fora de controle e representa uma ameaça às liberdades democráticas.

Gosto muito do "Sala de Redação", até mesmo quando o programa transcende o futebol e os senhores falam da realidade em que vivemos, mas faço um apelo para que não ignorem os argumentos daqueles que lutam pelos seus direitos.

Em 18 de outubro de 2008.

Clóvis Carneiro de Oliveira

Secretário-Geral do CPERS-Sindicato"

16.10.08

Rasgaram a Constituição

Fui para casa trocar as sapatilhas por um bom par de tênis. Bloquinho e gravador em mãos, me mandei para o jornal encontrar o fotógrafo e o outro repórter que iam junto cobrir a Marcha dos Sem. Antes de sair, angariei um crachá, que mesmo virado ao contrário deveria servir como forma de evitar que os brigadianos me confundissem com os manifestantes. Manifestação em Porto Alegre, nunca se sabe.
Para a brigada militar gaúcha a palavra manifestação virou sinônimo de baderna. Qualquer agrupamento de pessoas reinvindicando algo já é considerado caso de polícia e tratado a base de tropa de choque para cima. Foi assim quando os professores protestaram por maiores salários no mês passado, foi assim hoje de manhã quando os bancários da agência central do Banrisul se negaram a trabalhar e não mudou muita coisa hoje à tarde, durante a tradicional Marcha dos Sem.
As cerca de 3 mil pessoas que caminhavam pacificamente do centro administrativo até o Palácio Piratini foram acompanhadas por nada menos que 500 PM´S, 120 policiais da guarda especial da Brigada e um helicóptero. A tensão era palpável.
Quando o carro de som ia se dirigir para a frente do palácio a Brigada interviu. Em segundos os soldados do batalhão de choque formaram uma barreira, supostamente por "questão de segurança". O inciso 4 do artigo 5º é claro. Todos tem o direito de se manifestar. Acho que faltou avisar o governo. Nessa hora dei um pé quente e peguei toda a discussão entre a direção da manifestação, o brigadiano que não deixava o carro passar e o deputado Raul Carrion.

– Quem autorizou isso?
– Foi ordem do comando superior.
– Mas vocês tem que respeitar a lei, não a governadora. Isso é inconstitucional!

Bate boca vai, bate boca vem o deputado gritava, "rasgaram a Constituição, rasgaram a Constituição!". Pouco depois, os manifestantes foram tentar furar o bloqueio. De novo, a Brigada usou da "força necessária". "Agora é hora da guerra", comentaram três brigadianos. E a orientação deveria ser essa mesmo, pois não pouparam nem o deputado, que levou uma cacetada no estômago.
Três bombas de efeito moral, algumas balas de borracha e doze manifestantes feridos encaminhados para o HPS depois, o circo estava armado. "Eu não fiz duas faculdades, pós graduação, para ganhar R$ 800,00 e ter que apanhar de Brigadiano!", comentava emocionada uma professora de Pelotas. "Isso é resultado da irresponsabilidade desse governo", protestava Enilson da Silva, um dos feridos.
Atrás do cordão de isolamento e cercado por três fileiras de brigadianos o Coronel Mendes sorria e evitava conversar com repórteres e com os deputados. "Isso é normal em uma manifestação desse porte. A coisa tem que ser pacífica e ordeira, se não a Brigada tem a obrigação e vai intervir."
No meio da história toda, eu olhava chocada os brigadianos com as armas engatilhas e apontadas para a população . Ninguém começou nada. Sem paus. Sem pedras. Quase sem provocações. E mesmo assim a polícia foi para cima. De novo, eu vi. Era quase uma cena de filme. A fumaça das bombas de "efeito moral" ao fundo, a raiva dos dois lados e o fotógrafo gritando para eu sair dali para não me machucar.
Depois de quase uma hora de negociação entre os deputados e a Brigada deixaram o carro de som passar. Mendes, a estrela do show, olhava tudo dos degrais da Catedral, cercado de brigadianos que o impediam até de conversar com a imprensa. Na praça da Matriz o povo gritava "fascista! fascista!".
Que tipo de defesa da ordem é essa que coloca a polícia contra os cidadãos que deveria defender? Não existem mais direitos constitucionais no Rio Grande do Sul?

* E a melhor foto não foi para a capa do jornal, para variar.
** Alguém sabe como colocar arquivos de som aqui?

15.10.08

Detalhes

Teorias desnecessárias a parte, acho que podemos realmente conhecer alguém pelo o que ela tem no criado-mudo/primeira mesa mais a mão no quarto. Nessa história de tecer perfis, foi o que me faltou perguntar. Livros, bagunças, lembranças. Essas coisas que deixamos a mão nos denunciam. Alguém pode fazer odes a Proust, mas na hora do vamos ver é o almanaque do Tio Patinhas que está do lado da cama. É nos detalhes que reside um bom pedaço da alma das pessoas.
Com dificuldade para equilibrar todos os pratinhos.

13.10.08

O segredo de Mitchell


Há tempos não conseguia engatar um livro. Mistura de falta de concentração com não encontrar o tom certo para o momento. Pois bem, peguei hoje O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell. Repórter da lendária New Yorker, o livro é a compilação de dois perfis de Gould, um "boêmio nova-iorquino culto, excêntrico e pobre" que Mitchell escreveu para revista com um intervalo de quase trinta anos. Depois do segundo texto o jornalista aposentou o bloquinho e nunca mais publicou nada apesar de continuar comparecendo a redação todos os dias e recebendo seu salário no fim do mês.
Gould ou professor Gaivota (título do primeiro perfil) sobrevivia de "ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e ketchup" e morreu empenhado em escrever o que chamava de A história Oral do Nosso Tempo, livro que ainda pode vir a ser um dos cânones da literatura inglesa se as previsões do boêmio estiverem certas. Ele era o personagem típico de Mitchell, que gostava de descrever pessoas comuns e marginalizadas, e por isso mesmo, únicas em sua singulardade - ou, como colocou o Times no obituário do repórter, que passou dessa para melhor em 1996, "ele gostava de sonhadores e bêbados, e, para ele, as pessoas era sempre tão grandes quanto seus sonhos".
Ainda não cheguei no tal segredo, mas do jeito que vai a coisa não passa do fim da noite. Especula-se que a revelação da tal história - que só foi impressa sete anos depois que Gould morreu - seria uma das causas que levaram Mitchell a parar de escrever. Pelo sim, pelo não por enquanto fico com a teoria do Luís Bulcão, autor de uma monagrafia sobre a New Yorker (um dos textos que tem me mantindo longe da prosa). "
Também me pergunto a razão pela qual Mitchell deixou de escrever. Já que é moda, lançarei também a minha teoria: ele parou porque trabalhar é um saco e um dia todo mundo perde a paciência, até o Mitchell."

11.10.08

A crise


Santiago
"O amor pode ficar frustrado; e pessoas que se amam e se querem bem podem, no entanto, viver uma ao lado da outra sem encontrar seu destino comum, ficando presos em suas vidas misteriosamente incomunicáveis e incomensuráveis; e cada um gostaria de ajudar o outro e, no entanto, não pode e nem sequer pode se ajudar a si próprio, assim como em pesadelos absurdos e tristes. Mas sabemos, enfim, que a alegria e a tristeza são inseparáveis como compassos diferentes de uma mesma música. A arte de narrar essas coisas e a oportunidade de lê-las e compreendê-las é o grande consolo dos que ficam do lado de fora e aos quais o destino não deu a força de comandar a própria vida." Herman Hesse

(Lá do Igor.)

10.10.08

Um responsável, ao menos

Demorou, mas parece que a ditadura está começando a ter existido. Primeiro o burburinho pelos arquivos, depois a discussão da anistia... passos de tartaruga, mas passos. Ontem o coronel Ustra, grandão das forças armadas, foi declarado responsável pela tortura do casal de ex-presos políticos Maria Amélia de Almeida Teles e César Augusto Teles, e de Criméia Schmidt de Almeida, irmã de Maria, durante o regime militar.
O entedimento resultou de uma ação declaratória ajuizada pelo casal e por Criméia (ação declaratória é quando se pretende apenas provar que uma coisa existiu ou não, sem pedido de indenização). César e Maria Amélia foram torturados em frente aos filhos de 4 e 5 anos pelo mesmo Urdi, comandante do DOI-Codi paulista na época.
A reportagem da Agência Brasil procurou o militar, mas ele preferiu não dar declarações. Segundo seu advogado, ele "se incomoda em ser tachado de torturador. Ele considera desagradável e injusto".
Claro, essas coisas são muito desagradáveis. Conforme afirmou Amélia para a AB, "deve ser mesmo desconfortável, mas que ele cometeu tortura, cometeu. Pode mesmo incomodá-lo, mas é uma questão de justiça. Bater, espancar... tudo o que ele fez foi tortura, não tem outro nome para isso".
O Coronel ainda é autor do livro Projeto Orvil, que vocês podem encontrar no divertidíssimo site A Verdade Sufocada, que mostra "A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça". De acordo com o site, "O livro resgata a verdade de um período histórico totalmente distorcido por aqueles que hoje encobrem os seus reais desígnios de transformar o Brasil em um satélite do comunismo internacional, com a falácia de que lutaram contra uma ditadura militar para promover a liberdade e a democracia."