5.1.08

Para quem não leu a página 20

Esse texto foi publicado originalmente no Jornal do Comércio de Porto Alegre no dia 3 de janeiro de 2008. A versão integral tem cerca de 17 mil caracteres (quem quiser ler me avisa que eu passo por e-mail) e a matéria editada terminou com 7 mil caracteres ou três páginas de word – um assassinato, mas ainda assim muito mais que o normal para um jornal diário. O texto acabou menor devido ao distanciamento do fato (boa parte das perguntas trata do pós-referendo) e da falta de espaço (a editoria de Internacional só tem 2 páginas).
Divagando um pouco, ninguém tem paciência e garra suficientes para mudar o mundo e ir contra o sistema todos os dias - a tal da dead line é tão assassina quanto a falta de espaço. Por isso é legal ter a oportunidade de mostrar uma versão diferente da corrente na mídia tradicional – e publicá-la na tal mídia tradicional - e deixar ao menos uma pulga atrás da orelha dos leitores. Bem, julguem vocês, eu já tinha ficado feliz só de ter conversado com a Marisela.




Nos últimos anos, a Venezuela tem sido assunto recorrente nas manchetes dos jornais. Grande parte dessa notoriedade se deve as posições políticas e econômicas do seu presidente, Hugo Chávez. Eleito em 2002, ele instaurou a chamada Revolução Bolivariana. O projeto, baseado nas idéias do revolucionário Simon Bolívar, causa polêmica e envolve todos os segmentos da sociedade.
Apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, o país, que tem 26 milhões de habitantes e 912.050 km², o equivalente a um nono do Brasil, sofre com a grande desigualdade social. Apenas uma pequena parte da população concentra toda a riqueza nacional.
A jornalista venezuelana Marisela Capriles Vergara, formada pela Faculdade de Comunicação da UFRGS, trabalha na emissora de televisão estatal Telesur (www.telesurtv.net) e há 18 anos acompanha de perto a situação na Venezuela. Ela conversou com o Jornal do Comércio sobre a relação do país com o Brasil, a situação política e o governo do presidente Chávez.


Jornal do Comércio - O jornalista Richard Gott, no livro In the shadow of the liberator: The impact of Hugo Chávez on Venezuela and Latin America, diz que "A Venezuela é um misto, geograficamente, do Brasil com as Ilhas do Caribe". Quais as semelhanças entre o Brasil e a Venezuela?
Marisela Capriles Vergara - Semelhanças têm muitas, principalmente no fato de serem países do mundo "em desenvolvimento", que é um eufemismo utilizado pelos acadêmicos para meter tudo no mesmo saco.
Quer dizer, são parecidos nas contradições, nas diferenças enormes entre um bairro e outro das suas cidades, na pobreza que convive com a riqueza, na cor da pele das pessoas, na música, que é fruto de toda a mistura cultural, até naquele "jeitinho" latino, que é a malandragem, o humor. Inclusive, compartilham o destino de serem terras exóticas, com paisagens de cartão postal, riquezas culinárias, artesanato, enfim.
No entanto, é obvio que existem diferenças imensas entre o Brasil e a Venezuela, diferenças que vêm dadas pela história, pelo fator cultural e pelo simples fato do Brasil ter 9 vezes o tamanho da Venezuela. Apesar disso, os venezuelanos se identificam com o Brasil, adoram sua alegria, respeitam o orgulho que os brasileiros sentem por seu país e adoram o futebol brasileiro, a música brasileira.
Sentem o Brasil como irmão latino americano. Também respeitam o Lula, tanto os "chavistas" como os "não – chavistas", porque ele é visto como sinônimo de moderação e diplomacia eficiente, sem perder o seu norte político e as suas convicções. E isto, a mim, parece-me muito interessante, se pensarmos nas divisões tão grandes no pensamento político dos venezuelanos.

JC - Como é vista a relação com o Brasil e a entrada no Mercosul?
Marisela - Neste ponto acho que não é possível dar uma aproximação "geral" do que pensam os venezuelanos. Isso porque, nas questões políticas, a polarização atual faz com que as pessoas pensem mais com o intestino que com a cabeça. Provavelmente a maioria acha que é um grande negócio, porque acredita na idéia da integração para fortalecer a região, acredita nos mercados regionais e aposta na aliança entre as grandes economias do sul. Eu estou nesse grupo de pessoas. Acho que pode ser uma parceria assaz interessante.
Outra parte (a mais radical) acha que é "frescura" do Chávez, que o país não devia ter saído da Comunidade Andina das Nações (CAN), que é seu "espaço natural", e tem medo que o Brasil, com sua enorme produção de tudo o que é coisa, vá prejudicar a precária indústria venezuelana. A Venezuela produz algumas coisas para exportar –como atum, café e cacau- mas, no geral, só consegue fornecer o consumo nacional e às vezes nem isso. O grupo "contra" diz que o Brasil é "expansionista", "imperialista" e coisas do estilo. Tem medo de o país ser engolido.
Eu acho que, de fato, pode acontecer um efeito negativo com o ingresso massivo de produtos brasileiros, mas acho que não será tão apocalíptico.

JC - O ex-ministro de Defesa, Raul Isaías Baduel, declarou que há "Duas Venezuelas". Pode-se notar uma divisão entre a população?
Marisela - É Claro. É o que falei antes. A polarização é uma verdade, infelizmente.
Quanto o Baduel, ele não é nenhum gênio por ter descoberto a água morna. Ele é um oportunista a mais na parada, à procura de lucrar politicamente com a sua já esperada mudança de bando (o "chavismo" é uma mistura heterogênea de muita coisa, incluídos muitos camaleões). Eu sempre considerei o Baduel um militar de direita disfarçado. O que o uniu ao chavismo foi sua amizade pessoal de muitos anos com o Chávez, não suas coincidências ideológicas. Isso foi circunstancial. E ele não representa todas as forças militares.

JC - O que é a "Revolução bolivariana", a população está ciente do seu significado?
Marisela - Acho que não existe uma população mais ciente desse conceito em todo o planeta Terra. Pensar o contrário é um erro comum, produto da informação tendenciosa da imprensa internacional, que só reflete a visão de que o Chávez é um ditador e que tudo o que acontece na Venezuela é imposto. Esta é uma visão forjada pelos que votaram contra o Chávez e perderam, e depois saíram para dizer ao mundo inteiro que a eleição foi roubada.
São os meios de comunicação, todos da oposição, que fazem a campanha frenética e permanente para derrubar o governo. São eles os que não aceitam opiniões diferentes (sei em carne própria, pois nunca falei de política e me obrigaram a falar, a tomar partido).
Para nós (jornalistas) isto é, honestamente, um saco! A revolução bolivariana, como é vista de fora, parece uma loucura, uma invenção, um anacronismo. Mas não é nada disso. Eu acho, sinceramente, que não tem precedente.
Não é marxismo, nem leninismo, nem castro-comunismo. É uma coisa muito particular, séria e gozada, teimosa e caótica, folclórica e única no mundo, produto do momento histórico do país. É um movimento político heterogêneo, com facções moderadas e outras radicais, uma imensa aliança de pessoas que nunca militaram em nada, muita gente jovem, com políticos de esquerda que nunca tinham tomado o poder e com alguns militares.

JC – Quais os problemas da revolução?
Marisela - O maior ponto "fraco" da revolução (e digo fraco porque é, justamente, o que se questiona) é que surgiu em torno de uma pessoa, que é um líder personalista, um pessoa com um temperamento forte e egocêntrico, um ex-militar.
A crise econômica que viveu a Venezuela na década de 90 não tem justificação nenhuma, foi produto da má administração. Os partidos liderados por dinossauros políticos levaram o país para o brejo e entregaram as riquezas às multinacionais. Foi por isso que o Chávez ganhou tantas eleições e referendos. Eu vi as filas de gente votando no revogatório de 2004, e eram quarteirões de gente descendo do morro e se perdendo longe na avenida, fazendo filas de 6 e 8 horas para votar.

JC - Quais as mudanças mais marcantes no país desde que o presidente Hugo Chávez assumiu?
Marisela - A chegada do Chávez ao poder foi um fenômeno social que marcou o país. A polarização foi um efeito importante, mas não veio na hora. Passaram-se um par de anos antes que a Venezuela começasse a se rachar em duas partes.
Acho que as mudanças importantes aconteceram na parte social, nos ganhos para o país, nas políticas oficiais. A PDVSA não foi privatizada, quando o processo de privatização já estava caminhando e os negócios já estavam praticamente assinados. Acho que isso não é pouca coisa.
O que o Chávez significa para o povo, o povo venezuelano pode contar. São as "missões", um monte de programas sociais nunca vistos na história do país. A melhora de 180 graus no poder aquisitivo, no acesso aos produtos, à educação, à saúde. Isto também é uma verdade inquestionável. A grande maioria do povo está com o bolivarismo porque sente na pele a diferença entre o "antes" e o "agora". Sente no bolso, no prato de comida.
Também é verdade que há um monte de gente que não quer o Chávez, mas não é o povo. É a classe média, que não quer ser povo e que não está nem aí para o social porque suas metas são outras, são ascender socialmente e deixar de ser classe média.
E claro, os ricos, que chamam o presidente de "macaco", "caboclo maldito" e coisas assim. Muita gente odeia o Chávez à morte. Não é loucura quando o presidente ou os ministros denunciam planos golpistas.
Enquanto isso, no cenário internacional, a Venezuela deu um salto significativo: de ser um escuro fornecedor subdesenvolvido tornou-se uma potencia petroleira, um promotor de integração e o sócio estratégico que todos os vizinhos querem ter, digam o que disserem.
Foi o Chávez e suas políticas "Sul-Sul" que resgataram a Opep e ajudaram a recuperar essa aliança, que estava rompida, justo uns anos antes que o barril chegasse aos quase 100 dólares de hoje. Isso também não é pouca coisa.

JC - Como a população vê as mudanças na Constituição?
Marisela - Como eu já disse, a população venezuelana sempre votou a favor das reformas do Chávez. Desta vez, o processo era muito mais complexo e foi atropelado, pisoteado. Não se fizeram as coisas como devia. Eu conversei com muitas pessoas, chavistas, pessoas não-militantes, que preferiram ficar em casa e não votar, para não ir contra o Chávez. Quer dizer, o povo quer o Chávez, mas não quis essa reforma, do jeito como foi apresentada.

JC - A vitória do não muda alguma coisa?
Marisela - É claro. Muda bastante. A democracia sai fortalecida. Apesar da teimosia de alguns em insistir que o resultado foi deturpado, isso deu um respiro à oposição, fragmentada, dividida e desnorteada, e abriu-lhe possibilidades para se reorganizar, para rever seus objetivos além das intentonas golpistas e dos berros histéricos na rua. Agora vão ter que refletir e buscar fazer política de verdade, com seriedade.

8 comentários:

Isma disse...

Congratulações.
Pena que foi o Jornal do Comércio que foi conversar com ela, e não a Paula.
Mas parabéns, mesmo. Pela entrevista e por subverter o discurso do noticiário internacional quando se fala de Chávez.

E tu sabe meu e-mail. Quero os outros 10 mil caracteres.

Cris Rodrigues disse...

Parabéns, muito bom mesmo.
Concordo com o Isma, mas é claro, sempre aparece o nome do veículo. Mas gostei muito da entrevista, ótimas perguntas, ótimas respostas.
E tb peço os outros caracteres. Pena q essas coisas saem sempre assim, cortada. Mas ainda assim, ficou a essência do negócio, dá pra respirar no meio de tantas publicações batendo.
Parabéns =D
Beijos

Paula disse...

Sabe que apesar dos cortes eu gostei bastante da versão que saiu no jornal - gostaria mais se tivesse o meu nome =p -, acho que ficou bem fiel ao que ela disse. Mas fora essa parte vaidosa e tal fiquei tri feliz de imaginar que um cara que nunca pensou na Venezuela de outra forma vai ler isso num jornal q ele confia, e vai ter que concordar que é uma visão lúcida, e pensar algo além do tradicional maldito "Hugo Chávez, ditador e afins".

Diego Bevilacqua disse...

Parabén Paula.
Admiro seu empenho em contrapor essa mídia porca.
Há pouco li uma matéria do Deputado do PSOL (eskeci o nome dele) dizendo que devemos aproveitar o espaço na mídia conservadora, quando possível. E vc o fez com classe.
Parabén e continue o bom trabalho.
Visite meu blog se puder, seu comentário será bem vindo.

http://resistenciavermelha.blogspot.com.br

Se gostar do blog podemos linká-los.

Bjs.

Diego.

Diego Bevilacqua disse...

Parabén Paula.
Admiro seu empenho em contrapor essa mídia porca.
Há pouco li uma matéria do Deputado do PSOL (eskeci o nome dele) dizendo que devemos aproveitar o espaço na mídia conservadora, quando possível. E vc o fez com classe.
Parabén e continue o bom trabalho.
Visite meu blog se puder, seu comentário será bem vindo.

http://resistenciavermelha.blogspot.com.br

Se gostar do blog podemos linká-los.

Bjs.

Diego.

natusch disse...

Eu também quero os caracteres extras.
E, mesmo não tendo nada a ver com isso, fiquei com um orgulho desgraçado :)

Frau Bersch disse...

eu quero, eu quero!!!

Paula disse...

Diego

Desculpa a demora na resposta, mas muito obrigada. Não sei quanto ao linkar. Esse é um blog sem compromisso com nada específico - nem mesmo atualizações.

Ju e Igor
Mandei.