15.2.08

Conversa com a Fátima

Na quarta conversei com a presidente da Sociedade Arábe Palestina da Grande Porto Alegre, Fátima Ali. Ela faz parte de uma associação voltada para a preservação dos vínculos culturais e de irmandade entre os patrícios palestinos perdidos pela capital gaúcha e arredores.
Já faz um tempo me interesso pela causa e sempre estranhei que quase ninguém fale disso nos jornais além do tradicional explodiu uma bomba aqui, morreu outro ali. "Tudo que os palestinos pedem é que o mundo olhe para eles, apenas olhe" relata Fátima, que viaja com frequência para a região. Como pode uma população estar sitiada, sem direitos básicos como ir e vir ou julgamentos e isso não ser pauta mundial? A autoridade palestina, criada com os Acordos de Oslo, tem apenas poderes representativos. Quem gere as fronteiras e policia os territórios ocupados é o governo de Israel - qualquer um pode ser detido como preso político, o que exime a necessidade de provas e de julgamento.
Fátima fala em termos de guetos e compara a situação com o regime do Aparthaid na África do Sul. Todo o território palestino é dividido por um muro de 700 km e 8 metros de altura - o muro de Berlim tinha 155 km. Conversei com um professor da PUC-RJ, Nizar Messari, e ele me disse que o temor é que essa divisa representasse a fronteira final de um futuro estado palestino, mas que hoje em dia é difícil que isso aconteça devido a condenação mundial unanime que ele sofreu. Já para Fátima, a divisão - que corta cidades ao meio - é uma forma de controle. As placas dos carros de palestinos e israelenses são de cores diferentes e para passar de um lado para o outro do muro é preciso parar em um check point, quer dizer, os palestinos tem que parar. "O grande mérito em Israel é ser israelense", explica ela. Lá, são revistados os documentos e, se receber permissão de passagem, a pessoa deve atrevassar a pé a divisa e então embarcar em outro veículo. Ir de Ramalah a Nablos, duas cidades cuja distância não ultrapassa os 50 km, leva em média quatro horas. Como muitas pessoas que vivem na palestina estão com seus vistos e documentos vencidos elas ficam ilhadas em certas regiões.
Um dos temores do governo de Israel em relação a um futuro acordo de paz é a chamada "claúsula de retorno" que permitiria aos palestinos refugiados a volta a suas terras. Há um controle muito grande de quem entra no território. Vários palestinos brasileiros, com passaporte brasileiro, foram enviados de volta assim que chegaram ao aeroporto do país. Quando conversei com o professor Messari ele me explicou que os palestinos deveriam desistir dessa idéia, uma vez que os refugiados já não vivem naquela terra há tanto tempo. Perguntei para a Fátima se ela voltaria, e ela sorriu. "Não é uma questão só de querer voltar, é sobre poder voltar."

2 comentários:

Frau Bersch disse...

moca, tou aprendendo afu com o teu blog. ta que eu sou uma aspirante a ex-alienada em evolucao e qualquer informacao eh lucro. mas escrever de forma a fazer uma ex-alienada em evolucao querer ler, eh coisa que nao se ve em qualquer lugar =)

Paula disse...

=]