1.3.08

Entrevista com o professor Nizar

Well, cá estou outra vez. A história ficou pela metade (pelo primeiro terço seria o mais correto), mas ao contrário do que eu disse ante-anteriormente não foi devido a nenhum surto nem nada do gênero. Foi culpa mesmo da velha e boa falta de internet - e meios de comunicação em geral, digasse de passagem. Para ajudar a compor o quadro do que raios eu estava tentando dizer, segue uma entrevista com o professor Nizar Messari. Timing trágico, saiu no jornal semana passada, um pouco antes de Gaza voltar a pauta com tudo por causa dos ataques israelenses. O professor Messari dá aula na Puc carioca e, além de especialista em Oriente Médio, é marroquino e muçulmano. Não é o bixo nem gancho direto da fala da Fátima, mas ajuda a pegar o contexto.


Possibilidade de paz é remota

Em novembro do ano passado a cidade de Annapolis, nos Estados Unidos, foi sede de uma conferência que reuniu diversos países árabes para estabelecer um acordo de paz entre Israel e Palestina. Após o encontro, promovido pelo presidente norte-americano, George W. Bush, foram estabelecidas metas a fim de chegar a uma solução para o conflito até o fim de 2008.

No entanto, logo após o início das negociações, uma série de ações de ambos os lados minaram as já escassas esperanças de alcançar a paz. O ponto mais latente é a Faixa de Gaza, que teve suas fronteiras bloqueadas pelo governo israelense em retaliação aos lançamentos diários de foguetes rústicos em direção ao sul do país por parte de militantes palestinos. Cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem nos 360 km² do território, uma das áreas mais populosas do mundo. Para o professor da PUC-RJ Nizar Messari, especialista em Oriente Médio, a iniciativa de Bush tem poucas chances de êxito e dificilmente os governos da região irão chegar a um acordo até o fim do ano.

Jornal do Comércio - Existe possibilidade de um estado palestino ser estabelecido a curto ou médio prazo, como quer o presidente norte-americano George W. Bush?
Nizar Messari
- Desde 1993 estamos muito próximos disso; em 2000 estávamos muito perto de um acordo. Existe alguma possibilidade, mas no meu ponto de vista ela é muito remota. Essa iniciativa do presidente Bush me parece fadada ao fracasso devido ao tempo perdido. Bush ficou sete anos sem atuar na mediação do conflito. Agora está em fim de mandato e ninguém o ouve, nem nos EUA. Pode, por causa dessa falta de credibilidade, acontecer o inacreditável e surpreender todo mundo, e essa é a torcida. Tanto o presidente palestino, Mohamoud Abbas, quanto o premiê israelense, Ehud Olmert, são dois líderes bastante desacreditados. Para ambos me parece muito difícil convencer suas populações da necessidade de fazer concessões, sacrifícios.

JC - Qual o objetivo dos Estados Unidos em incentivar um acordo de paz?
Messari
- Por um lado correr atrás do tempo perdido. Os EUA vêm sendo pressionados para atuar nesse conflito desde o primeiro mandato de Bush. Por outro , existe uma previsão entre analistas de que para resolver os problemas no Oriente Médio é preciso resolver o conflito entre israelenses e palestinos. E por fim, estar no fim do mandato e com uma série de fracassos na política internacional levou o governo Bush a acreditar na possibilidade de que se ele conseguir obter a paz entre israelenses e palestinos passaria para história como alguém que teve um desempenho fenomenal na política internacional. Eu acho que é pura ilusão. O presidente Bill Clinton, que se empenhou desde o início na questão, tentou uma mediação no último ano de mandato e fracassou. Imagina Bush, que nunca se interessou pelo assunto! Mas milagres acontecem. Em termos de sofrimento, a região já pagou bastante. Temos que torcer por qualquer iniciativa que possa trazer a paz.

JC - Qual a conseqüência do muro construído entre a Faixa de Gaza e Israel?
Messari -
A preocupação, o medo dos palestinos é que essa separação represente uma fronteira final de um eventual estado palestino. Bush tinha sinalizado em um discurso no qual defendeu a criação de um estado palestino que a população ia ter que se submeter às realidades do terreno, fazendo alusão justamente a necessidade por parte dos palestinos de reconhecerem os limites que a cerca estava impondo. Hoje em dia a condenação internacional unânime dessa separação tem deslegitimado esse muro e se fala cada vez menos dele como a futura fronteira. A conseqüência dele acaba sendo trazer segurança à população israelense, já que desde a sua construção os atentados contra Israel diminuíram de maneira significativa.

JC - Qual a diferença entre o Fatah e o Hamas?
Messari
- O Fatah é um movimento mais antigo, laico e nacionalista. Foi fundado em 1959 para a criação de um estado palestino. Muitas das suas lideranças que ainda vivem voltaram aos territórios ocupados após os acordos de paz de 1993 que criaram uma Autoridade Nacional Palestina. O Hamas é um movimento que nasceu na década de 1980 com uma base altamente religiosa com o objetivo de providenciar a população nos territórios ocupados um enquadramento emocional e material diante das situações pelas quais estavam passando; desenvolveu-se e tornou-se uma organização política que acabou participando das eleições. Ambos têm seguidores e orientações políticas distintas. Hoje o Hamas é muito mais radical na defesa dos interesses palestinos e goza de maior legitimidade entre a população. Ele defende a criação do estado palestino em todo território, não apenas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, rejeita Israel e os acordos de paz de 1993.

JC - Como deve se desenrolar a crise entre a Faixa de Gaza e Israel?
Messari
- Por enquanto o Hamas vai continuar jogando foguetes por cima de Israel em atos criminosos e os israelenses vão continuar castigando a população de maneira coletiva, em outro ato criminoso. No entanto, essa violência física não tem que mascarar a questão de fundo; a única solução viável e duradoura para o conflito entre israelenses e palestinos é a criação de dois estados. Cada um com a sua capital onde quiser, e ambos querem Jerusalém, e cada estado viável e capaz de continuar existindo e sobrevivendo de forma independente e soberana.

2 comentários:

Débora disse...

Já tinha lido a entrevista no JC. Muito boa!
Fora isso, tou contigo e não abro... toda essa história é uma grande falcatrua e uma imensa injustiça.
Mas ainda moramos no Bom Fim... cuidado com os ataques terroristas! heuheu

Paula disse...

Essa imagem dos palestino na mídia é algo bem interessante de analisar. E sim, sempre olho pros dois lados antes de atravessar a rua. ;)