21.4.08

"– Leve os sonhos a sério - sussurou. – Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado."
As mulheres do meu pai, José Eduardo Agualusa

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Entrei em contato com o Agualusa, um dos expoentes da literatura africana em português (ao menos é o que está escrito no serviço da edição caprichada de As mulheres... que tive acesso) graças a Bela, uma amiga de São Tomé e Príncipe, delicada como como só ela.

(livro em mãos)
– Quem é esse cara?
– Tu conhece algum escritor africano?
– Não.
– Então que diferença faz.

De cara achei meio estranho o "número de vozes" que contam a história (5, se não me engano) e o português angolano, que difere do nosso em algumas conjugações e expressões (em África, bué e por aí vai), mas passada essa pequena barreira não consegui parar de ler.
"De quantas verdades se faz uma mentira?", dispara o autor já nas primeiras páginas. E a partir dessa indagação é construído todo o romance, cruzando trechos de entrevistas, monólogos, prosa, poesia - ficção e realidade (coisa que eu só fui descobrir depois, off course). Tri bacana, algo como realismo fantástico recliclado do outro lado do Atlântico.

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Esse texto acabou sem fim, mas não foi por (pura) vagabundagem. Li uma entrevista com o autor e queria colocá-la aqui, mas não conseguir encontrar o texto. A história do livro nasceu quando uma amiga (do Agualusa) cieneasta propôs que ele a ajudasse a escrever um roteiro sobre uma garota que descobre que não é filha de seu pai e sai em busca dessa entidade África afora - eles viajavam por um continente urbano, diferente do retratado tradicionalmente. Uma África brasileira, européia, africana, tudo ao mesmo tempo e agora. Real.
Durante a viagem pra pescar as ambientações do filme, o Agualusa, que vem do jornalismo, não conseguiu fugir da vontade de escrever um livro, o que acabou resultando em "As mulheres...". A prosa é toda entermeada por páginas reais do diário da viagem, o que torna o autor um narrador/personagem. Questionado sobre o por que do livro, ele afirma, agora sim tomando bem daquele realismo fantástico latino que eu tentei explicar antes, que "em nosso países a realidade tende a ser muito mais inverosímil do que a ficção". "As situações mais inverosímeis provavelmente são verdadeiras porque ninguém as consegue imaginar a não ser a vida."

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