26.4.08

O mundo ignora o que acontece na Palestina

Existem hoje cerca de nove milhões de palestinos espalhados pelo mundo. Desses, apenas quatro encontram-se nos chamados territórios ocupados, que correspondem a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Os outros cinco milhões vivem em países que variam da Jordânia ao Brasil. Através da preservação da cultura e dos laços familiares, eles procuram manter a unidade e a identidade palestina. Filha de mãe brasileira e pai árabe palestino, a presidente da Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre, Fátima Ali, afirma que o mundo ignora o que acontece na Palestina e a situação pode ser comparada ao regime do apartheid na África do Sul. Ela conversou com o Jornal do Comércio sobre o controle de Israel sobre os territórios, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) entre outras questões. A seguir, os principais trechos da entrevista.


Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC



Jornal do Comércio - Qual é a principal questão da relação entre Israel e a Palestina?

Fátima Ali - Em todos os acordos de paz, nunca ficou claro um limite de fronteiras. Nunca ficou estabelecido que o direito internacional seria maior que o direito israelense. A partir do Acordo de Oslo (1993), em que foi criada a Autoridade Nacional Palestina (ANP), o quê voltou de território para os palestinos? Cerca de 22%. Mesmo depois da divisão, o estado de Israel - o estado, não os judeus, não a religião – continua construindo estradas e implantando colônias dentro do território da ANP. Nenhum acordo até hoje foi claro com relação à questão palestina. A única coisa clara foi a resolução 181 da ONU, de 29 de novembro de 1948, conhecida como o plano da partilha.


JC - Observadores internacionais afirmam que os palestinos devem desistir do direito retorno para então conseguir formar o estado palestino. Qual seu posicionamento a respeito?

Fátima - Existe um controle acirrado hoje quando você vai à palestina. Há sempre o risco de chegar e não conseguir entrar. Vários brasileiros de origem palestina já foram deportados do aeroporto. Nós temos na palestina uma comunidade brasileira muito grande. Palestinos que viviam aqui e voltaram com a nacionalidade brasileira, filhos de palestinos que estão morando lá e que estão completamente ilegais. Eles não circulam. E por que eles não circulam? Temos que pensar em termos de regime de apartheid. Tem todo um muro construído, que é o chamado muro da vergonha, que divide as cidades em guetos. Ao longo dele há milhares de postos de controle, os check points, em que a pessoa é revistada e precisa mostrar seus documentos. Quem não tem a documentação em dia, autorizada por Israel, mesmo sendo palestino, e mesmo sendo território da ANP, é deportado.


JC - Israel exerce controle dentro dos territórios da ANP?

Fátima - O exército de Israel nunca saiu. Por exemplo, entre Ramallah e Nablus, que é uma outra grande cidade, conhecida como foco da resistência palestina, não dá 50 km. Do jeito que as coisas estão agora, não podendo utilizar as estradas que são específicas para os israelenses e passando pelo check point, você vai demorar quatro horas para chegar lá. É preciso ir com um carro até um pedaço, descer, porque a placa não é daquela cidade, passar caminhando, e pegar outro carro do outro lado. As placas de carros israelenses e palestinos são de cores diferentes para que o exército possa identificar. Esses são sinais claros de que o regime instalado lá é um regime segregacionista, sim.


JC - Os israelenses precisam parar nos postos de controle?

Fátima - Não, é israelense. O grande mérito hoje em Israel é ser israelense e nos territórios ocupados também. As melhores terras foram ocupadas, os assentamentos se dão nos locais mais privilegiados, o exército não sai lá de dentro. Só que Israel tem um grande temor, que é a questão demográfica. Eles têm uma média de natalidade de 1,5, e a nossa é de 4,5, 5. Não é mais uma luta de resistência, é uma luta de sobrevivência. Nós éramos um protetorado inglês, aí fomos literalmente uma parte extinta, expulsa, para a criação de um novo estado. Depois de tudo que aconteceu, a impressão é que o estado palestino deveria ter se diluído. Israel não esperava que os palestinos fossem sobreviver, manter a unidade.


JC - Como fica a questão de Jerusalém?

Fátima - Os dois lados querem a cidade. A idéia é que Jerusalém oriental seja a capital da Palestina. A cidade está completamente dividida entre Jerusalém ocidental, que é uma parte literalmente européia, e Jerusalém oriental, que é onde ainda vivem os palestinos que resistiram a ocupação. Ela está na mesma situação de Gaza e que a Cisjordânia - sitiada.


JC - Há possibilidade de criar um estado palestino a curto ou médio prazo?

Fátima - Sim, se não eu não estaria aqui. Se não nós não estaríamos discutindo. Enquanto nós estivermos discutindo essa questão existe a esperança de uma Palestina soberana. O que nós temos lá é uma ocupação de um estado e a opressão de um povo. Essa é a única história em que as vítimas foram transformadas em atacantes. É como se a vida de um palestino não valesse absolutamente nada. Se tiver um atentado e morrer um israelense, o mundo todo fala. Agora, se eles entram em um campo de refugiados, ou entram em uma cidade, e morrem 30 palestinos é como se isso fosse uma coisa natural. As pessoas que vivem lá só querem que o mundo perceba que lá vive gente como a gente. O que está acontecendo na Faixa de Gaza, o que nós sabemos de Gaza? Pouquíssima coisa. Ela está toda fechada. Não se consegue entrar. Eu estive lá em 2005 e não consegui entrar. O que há de tão horrendo que as pessoas não podem ver? Israel sempre fez muito isso. Atacar, fechar. No massacre de Jenin, a ONU não tinha autorização nem para a entrega de alimentos.


JC - Quais as diferenças entre Al Fatar e Hamas? Qual dos dois grupos tem mais apoio popular?

Fátima - A questão da Palestina sempre foi uma questão laica. Nós temos palestinos muçulmanos, cristãos e judeus. O Fatar, que é do Abbas, é como se fosse um partido político. O grande líder era o Yassar Arafat. Quando ele morreu foram chamadas novas eleições. Quem ganhou a presidência foi o Mohamed Abbas. O Hamas surgiu na primeira Intinfada. É um movimento religioso, constituído por palestinos muçulmanos e é o mais forte na Palestina no momento. Ele começou focando muito na questão dos movimentos sociais e tem a simpatia de um grande percentual da população. A ANP assinou o acordo de Oslo reconhecendo o estado de Israel, que o Hamas não reconhece. Esse é o grande impasse, o que nos leva de volta aos limites de fronteira.

Insisto que o mundo não está preocupado com a Palestina. Existe uma imagem do povo palestino de pessoas más, "terroristas". O palestino é o outro. É como se a gente tivesse três orelhas. As pessoas pensam, quando você vai falar da questão palestina, que nós defendemos o terrorismo. Não, não estou aqui defendendo. Eu não gostaria de entrar em um ônibus e morrer. Defendo sim que as pessoas se defendam do ataque. Você não vai deixar que entrem na sua casa sem fazer absolutamente nada. Por que os palestinos têm que aceitar a ocupação como se aquilo fosse uma coisa normal? Isso não existe.

5 comentários:

Mario Thompson disse...

Nem sei direito o que comentar... É aquela questão do "Dois errados não fazem um certo"

Incrível também é como um povo oprimido torna-se a caricatura do antigo opressor assim que toma o poder...

Como dizia Frankl, alguns soldados nazistas perdiam sua condição de humanos com os estímulos recebidos em prol da eficiência no extermínio do indesejado, dos métodos mais elaborados...

Gostei bastante da entrevista, a Fátima Ali - embora nem lá nem cá - mostrou o ridículo "abafa" colocado na situação...

Uma pena que qualquer conflito longo seja logo deixado de lado pelo Padre Maluco ou criança finada em voga.

Continua assim... na próxima faz uma com o Rubinho que eu iria até renovar a assinatura por uns 2 ou 3 anos.

Schossler disse...

beibe,
sou tri por fora do assunto, mas achei teu texto do caralho!
Muito bem escrito, imparcial, uma coisa de loco!

;)

Parabéns, gata.
besos

Anônimo disse...

Nada justifica a omissão da comunidade internacional para com o povo palestino. Isarel viola dezenas de resoluções da ONU e não existe um único embargo econômico contra.
Existe um invasor e um invadido. O problçema do invadido é que a história é escrita pelo invasor.

uerlon disse...

Nossa, li toda a matéria a antes tava vendo uns videos no you tube, civis mortos engraçado q ao mesmo tempo, trocando informações com um amigo do Rio de Janeiro, qndo abordavamos nossa guerra, é a guerra do crime organizado as crueldades dos "Micro ondas" dos traficantes do morro. Q assistiu o filme Show de bola vai ver cenas q revelam nossa realizade, ou seja, nossas guerra, uma guerra q mata e mata muitos e quem tá preocupados com esta gente, pessoas pobre, vítimas de retalhações, do x-9 (dedo dudo. A minha opinião não para contrariar os comentários da matéria, mas aqui não é mto diferente, estamos num país Democráticos de Direito e quem tem feito alguma coisa para resolver o caso da violência e do tráfico de Rio de Janeiro ? por Exemplo.. Nossa esse assunto vai longe.. È revoltante o q fazem com os menos favorecidos, como Israel tem feito com o povo palestino, nossa vi no video uma criança ferida.. Perdão é um ato de sabedoria, é dificil aceitar, ver alguém q mata, fere uma criana, uma ser inofensivo q tá tentando vivier meio a tantas coisas crueis no Mundo. Acredite, Jesus está voltado.. para vc q creia em Deus e nao me critique por isso, leio Mateus 24 o cápítulo todo e/ou João III - Caítulo todo. Q Deus nos perdoe

Bernardete Baronti disse...

Infelizmente, o Mundo ignora o que acontece na Palestina. É uma vergonha Mundial!!!
Muito bem explicado! O Mundo precisa fazer alguma coisa.