18.7.08

A incrível e triste história de Ayaan Hirsi Ali

Ahh, quem eu estou enganando? Eu não ia fazer isso com vocês, mas o blog é por definição uma mídia egocêntrica - por mais justos que possam ser os propósitos. Segue a tal matéria que saiu semana passada no jornal.
Tive oportunidade de ler o livro Infiel, assistir uma palestra e acompanhar uma coletiva com a escritora e ativista somali Ayaan Hirsi Ali.
Queria dizer bem mais sobre a moça, mas textos são feitos de escolhas. Por fim, escolhi contar um pouco da história e das idéias dela para que cada um decida como defini-la.
Ayaan tem uma história muito interessante e uma argumentação forte, mas acaba cometendo excessos que, se não são tão graves como os que denuncia, são suficientes para prejudicar a forma como a suas idéias são acolhidas.



Entre o Islã e a razão
P.B.B, especial para o JC publicado em 10.07.2008


Aos 38 anos de idade, a ativista e escritora somali Ayaan Hirsi Ali tem uma história de vida no mínimo singular. Ela passou de devota fiel ao Islã a uma das mais conhecidas críticas da religião, o que lhe rendeu uma série de ameaças de morte e a obrigou a andar com um séqüito permanente de guarda-costas.
Ayaan esteve pela primeira vez em Porto Alegre na semana passada, onde participou do seminário Fronteiras do Pensamento e aproveitou para criticar o Ocidente pelo uso da teoria do multiculturalismo - que defende a preservação da cultura dos imigrantes - como desculpa para relativizar o que acontece nos países muçulmanos. Segundo ela, "se o respeito pela tradição ou religião conflita com os direitos humanos, o indivíduo deve sempre vir antes".
Nascida em Mogadíscio, capital da Somália, Ayaan cresceu sobre a forte influência dos clãs e do Islã, religião predominante no país. Seu pai foi um dos maiores opositores ao ditador Siad Barr, o que levou a família a fugir primeiro para a Arábia Saudita, depois para a Etiópia e, por fim, para o Quênia.
Ainda criança, a escritora teve o clitóris extirpado devido a uma tradição local - fato que, segundo ela, acontece com a maior parte das meninas do país. Em 1992, seu pai arranjou seu casamento com um primo canadense. Após a cerimônia, Ayaan viajou para a Alemanha a fim de obter o visto para entrar no Canadá. Lá, decidiu fugir e foi para a Holanda, onde conseguiu asilo político.
Uma vez na Holanda, Ayaan se esforçou para aprender a língua do país e começou a trabalhar como intérprete. Ela cursou Ciência Política na faculdade de Leiden e ingressou no Partido Trabalhista Holandês, sendo eleita para o Parlamento pelo partido liberal VVD. Graças ao emprego de intérprete, ela entrou em contato com diversas histórias de imigrantes, o que ajudou a fortalecer a sua visão da ineficácia das políticas de preservação da cultura. "A doutrina do multiculturalismo é uma ilusão cruel", afirma.
No entanto, foi após roteirizar o curta Submission part I, dirigido pelo cineasta Theo Van Gogh, que Ayaan se tornou alvo definitivo dos radicais fundamentalistas. O filme, uma crítica à situação das mulheres no Islã, foi considerado ofensivo pela comunidade muçulmana e resultou no assassinato de Van Gogh. Ele foi morto no dia 2 de novembro de 2004, em pleno centro de Amsterdã. Mohammed Bouyeri disparou no diretor à queima-roupa, cortou-lhe a jugular com uma faca e espetou uma carta dirigida a Ayaan em que declarava: "a próxima será você". Desde então a escritora vive cercada de seguranças.
Ao contrário do que se possa imaginar, as ameaças, ao invés de diminuir, acabaram por aumentar a abrangência das críticas de Ayaan, que focam principalmente a opressão sofrida pelas mulheres e crianças dentro das sociedades islâmicas. Em 2005, ela foi escolhida pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.
Após uma série de denúncias que culminou na perda da sua cidadania holandesa e na posterior recuperação do documento, a escritora resolveu mudar-se para os Estados Unidos, onde passou a trabalhar como pesquisadora do American Enterprise Institute. Lá, escreveu o livro recém-lançado no Brasil, A Virgem na Jaula: um Apelo à Razão, coletânea de ensaios em que expõe a condição da mulher frente à doutrina islâmica e clama por uma era das luzes para o Islã, e a autobiografia precoce Infiel - A História de uma Mulher que Desafiou o Islã, na qual relata sua trajetória de criança somali a ex-parlamentar holandesa.
A principal crítica da escritora - que choca pela veemência com que abraça a doutrina secular ocidental, chegando a afirmar em Infiel que após viver nos dois mundos sabe claramente que um é melhor - é contra o multiculturalismo. "É uma distorção da liberdade permitir a opressão de mulheres em nome da diversidade cultural ou religiosa", ressalta.
Ayaan acredita que o Ocidente age de forma apática frente ao que acontece nas famílias, sociedades e países muçulmanos. "Os teóricos erram ao romantizar uma tradição tribal antiga que adota e impõe determinadas práticas que eles não aplicariam aos próprios filhos". Ela explica que é dever de todo homem muçulmano adulto disseminar a religião, "primeiro através da palavra e, se preciso for, através da espada, da violência". Segundo Ayaan, enquanto os regimes democráticos colocam a ênfase na vida humana, a teoria política do Islã exige que todos se sujeitem à vontade de Deus.
Questionada se é possível conciliar o Islã com a democracia, a escritora - que assumiu o ateísmo em 2002 - afirma que aprendeu a fazer uma distinção entre pessoas e idéias. "Os muçulmanos, como indivíduos, têm condições de aprender idéias novas, desenvolvê-las e modificar a sua religião a partir desse aprendizado". Ela lembra que estamos vendo isso em países muçulmanos. "Já o Islã como doutrina, e especialmente como uma teoria política, é incompatível com a época do iluminismo e da teoria liberal", define. "A minha esperança reside justamente no que esses indivíduos podem fazer."

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Trecho do livro Infiel – a história de uma mulher que desafiou o Islã, Ayaan Hirsi Ali, Companhia das Letras, 2007.

“O tipo de pensamento que presenciei na Arábia Saudita e na Fraternidade Muçulmana, no Quênia e na Somália, é incompatível com os direitos humanos e os valores liberais. Preserva uma mentalidade feudal arrimada em conceitos tribais de honra e vergonha. Apóia-se no auto-engano, na hipocrisia e em padrões dúplices. Depende dos avanços tecnológico ocidentais ao mesmo tempo que finge ignorar sua origem no pensamento ocidental. Essa mentalidade torna a transição para a modernidade muito dolorosa para todos os praticantes do islamismo.
A transição para o mundo moderno sempre é difícil. Foi difícil para a minha avó e para todos os meus parentes do miyé. Também foi assim para mim. Passei do mundo da fé para o mundo da razão – do mundo da clitorectomia e do casamento forçado para o da emancipação sexual. Tendo feito a viagem, sei que um desses mundos simplesmente é melhor que o outro. Não por causa dos seus dispositivos espalhafatosos, e sim, fundamentalmente, por causa dos seus valores.”

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Tá. Agora que vocês (alguém?) chegaram até aqui, vamos aos fatos. Pras cucuias com a imparcialidade. Ela é reaça. Reaça, reaça, reaça. Gente boa, bacana, sofrida e reaça. Do tipo os EUA estão certos em sair espalhando a democracia pelo mundo e a culpa dos palestinos (e de qualquer outro povo que não esteja se dando bem) estarem assim é dos palestinos, não nessas palavras, off course. Pronto. Estou me sentindo melhor.

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Ainda assim, o livro vale muito a pena. Afora isso, Ayaan levanta questões muito pertinentes sobre o ato de crer, as suas consequências e o papel da mulher na sociedade. Também acredito que se ela não defendesse o sistema (Luhman?) dificilmente teria tanto espaço.
Além disso, ela é alguém que corre risco de vida por defender as suas idéias. O simples fato de alguém ter que andar cercado de seguranças por falar o que pensa é um absurdo.
Não me interessa que os outros pensem como eu. Quero mais é que pensem, e que cada vez mais gente pense diferente, e que se discuta as diferenças, e que possamos chegar a algum lugar melhor com isso.
Quantos de nós escolheríamos morrer lutando a ficar engasgados e sossegados?

3 comentários:

Frau Bersch disse...

concordo com o que tu disse, que os excessos prejudicam as ideias dela. nao duvido que haja uma parte de bom no que ela diz, mas a forma como é dita me cria uma certa antipatia...

lola aronovich disse...

Ela parece ser bem reaça em algumas coisas, mas não em todas. Certamente não é reacionário lutar pela liberação das mulheres...

Paula disse...

Não, claro que não. E ela se impor e expor as agressões que sofreu e que viu outras mulheres sofrerem é a parte mais válida do discurso dela. Só que fica um clima de no Ocidente todos são evoluídos e já resolvemos tudo. S'as, pobre orientais atrasados... Na coletiva tentei perguntar se ela não achava que as mulheres também não sofriam com o machismo por essas bandas, mas como essas coisas são bem protocoladas e só podia uma questã por repórter ela só respondeu a minha primeira pergunta. Em comparação, é obvio que quem mora em um país onde não é possível que uma mulher saia a rua desacompanhada sem ser motivo de desprezo, como é o caso da Arábia Saudita, nós estamos muito bem. Mas isso não significa que a sociedade aqui seja menos patriarcal. O que me irrita é agirem como se o feminismo fosse ultrapassado e desnecessário, afinal o que mais uma mulher pode querer? E de certa forma a Ayaan sustenta isso.