28.8.08

As eleições porto-alegrenses

Buenas, a Lola pediu como vão as eleições em Porto Alegre. Confesso que não sou a pessoa mais indicada para tecer comentários a respeito - agora se alguém quiser uma análise rasa da situação política no Paquistão é outra história. Nessas horas me vejo obrigada a pedir ajuda aos universitários, amigos que moram na cidade há bem mais tempo e tem uma visão mais ampla da situação (Cristina Rodrigues, cof). No entanto, como eu não estou conseguindo dormir mesmo, vamos ver o que posso fazer.

O Rio Grande do Sul, e Porto Alegre, principalmente, foi considerado por muito tempo uma “aldeia vermelha” por ser um dos primeiros lugares a ter administrações petistas – vide a eleição do Olívio para prefeito da Capital em 1988 e para governador em 1998. Só aqui, o PT emplacou quatro prefeituras consecutivas, isso sem contar outras grandes cidades como Caxias e Pelotas que também adotaram a sigla por um tempo.

Eu ainda não morava em Porto Alegre em 2004, mas pelo que entendi a eleição do atual prefeito, José Fogaça (ex-PPS, atual PMDB), em parte foi motivada pelo desejo de mudança da população e a sensação de descaso com o então prefeito, Tarso Genro (PT), que deixou o cargo para pleitear o posto de candidato a governador pelo partido após ter dito que não o faria.

Apesar de não ter pego a eleição nem ter presenciado os governos anteriores, vivenciei toda a atual administração. O que se houve nas ruas e no rádio corredor da faculdade é que a primeira coisa que o PPS fez ao chegar ao poder foi promover uma caça às bruxas. Tamanho era o ranço com a antiga administração que boa parte dos servidores municipais que tinham alguma ligação com o PT foram removidos de seus cargos, e falo de gente concursada!

Poderia citar a mãe da vó de um amigo meus e diversos outros casos que tomei conhecimento para dar distância e qualidade jornalística, mas ah, as benesses de um blog, fico com a minha tia e uma entrevistada com quem conversei ano passado. Ambas enfermeiras, foram deslocadas de suas funções sem maiores justificativas apenas por terem sido designadas por alguém do partidão. Essa desestruturação foi mais visível nas áreas de saúde e educação. A impressão é que o governo ainda não conseguiu se estruturar. Não por acaso, um dos principais pontos debatidos na campanha é a situação das escolas e hospitais (escolas lembra enturmamento, enturmamento lembra outra grande porcaria que não vem ao caso agora, mas continuemos).

Voltando a administração Fogaça, projetos que antes recebiam atenção foram deixados de lado por estarem muito vinculados a imagem do PT (Sim. PT, PT, PT, PT. Foram 16 anos, é muita raiva acumulada). O Fórum Social Mundial, por exemplo, foi praticamente banido da cidade - não que ele trouxesse apenas benefícios, mas é uma iniciativa interessante que agrega valor cultural e turístico, além de, em termos práticos, situar Porto Alegre no mundo -, enquanto que o Orçamento Participativo, apesar de permanecer em funcionamento, sofreu sérias modificações que o afastaram da idéia original e diminuíram o grau de participação da população.

Na questão da segurança, outra plataforma comum, não tenho muito o que dizer. Porto Alegre me parece tão insegura quanto a minha cara terra natal, Caxias do Sul. Todos falam em conversar com o governo do Estado, aumentar o efetivo da Brigada Militar, acabar com a criminalidade, etc. o que soa como um discurso vazio. Uma das ações mais visíveis nessa área foi o armamento da Guarda Municipal, supostamente para aumentar a segurança dos moradores e dos próprios guardas. Só que a tal “sensação de segurança” é um conceito relativo. Não me sinto mais protegida por saber que pessoas sem o treinamento adequado - nem mesmo os brigadianos têm um bom treinamento – andam pelos parques e ruas da cidade carregando armas de fogo.

No mais, o governo Fogaça foi tão apagado quanto o seu prefeito. Como governante ele é um ótimo compositor. Quem já viu o Fogaça falando pessoalmente há de concordar que até uma samambaia tem mais presença de espírito. Várias das realizações estampadas nos folhetos de campanha que trazem o slogan “primeiro a gente faz, depois a gente mostra” já haviam sido encaminhadas por administrações anteriores. Muito projetos, como é tradicional, só foram tocados para valer este ano, caso do shopping popular, inaugurado mês passado. Outros, de extrema importância, como o a discussão de um Plano Diretor sério para a cidade, foram abafadas e transferidas para o próximo ano. Sou responsável por um caderno para advogados no jornal em que trabalho. Todos os dias “leio” os diários oficiais da União e do Estado atrás de medidas interessantes. Este mês as páginas com as leis saíram porque tinham que sair. Quase não se aprova nada de importante até outubro, medo de reflexo negativo nas eleições, acho.

O primeiro turno conta com uma penca de candidatos – José Fogaça (PMDB), Maria do Rosário (PT), Manuela D’Avilla (PcdoB), Luciana Genro (Psol), Onyx Lorenzoni (DEM), Nélson Marchezan Júnior (PSDB), Vera Guasso (PSTU) e mais um cara que eu não lembro agora. Com chance, Fogaça, que lidera as pesquisas de intenção de voto, Rosário, sustentada pela estrutura do partido e a Manuela, colocando medo em todo mundo e de quem podemos esperar qualquer coisa após a força que mostrou nas urnas na votação para deputado federal. Em menor grau, Onix e Luciana, que a meu ver possuem os discursos mais coerentes.

Fala-se muito em votar em x para impedir y entre, apesar da preferência pela pessoinha w. Nesses momentos, respiro aliviada ao lembrar que voto em Caxias, onde a situação é menos caótica. Tudo depende de quem passar para o segundo turno - e essa é certamente a pergunta que mais atazana os analistas políticos de plantão. Agora, isso é assunto para outro post.

Comecei com a idéia de esboçar um breve perfil dos candidatos e dizer que a Luciana, ao menos publicamente, fez as pazes com o pai e exagerei. Ele até aparece rapidinho na propaganda eleitoral dela, meio que pra constar já que pertence ao partido rival. Quem fala mesmo é a mamãe Genro, de cabelos igualmente lisos. Como disse no começo, não tenho autoridade para falar disso. Gostaria muito de saber a opinião do Igor e da Cris – dessa vez chamei na xinxa, hein – que como porto-alegrenses da gema acompanham essa história há bem mais tempo que eu.

P.S. Possíveis erros escabrosos de português podem ser encontrados. Blogueira insone, mas cansada. Favor avisar a redação.

4 comentários:

lola aronovich disse...

Obrigada, Paula! Agora sinto-me muito mais informada sobre as eleições municipais de Porto Alegre. Parece que tudo se resume a quem irá ao segundo turno contra o Fogaça. Aí imagino (espero?) que PT, Pc do B e Psol apóiem a mesma candidata. Legal ter três candidatas mulheres de esquerda!
Mas sei que o RS foi reduto eleitoral do PT durante muito tempo. Queria saber o que mudou. Como que o Lula perdeu aí na última eleição? É um pouco a mania de ser "do contra" ("se o país inteiro vai eleger o cara, vamos votar diferente"), resquícios do movimento separatista, ou tô viajando?
www.escrevalolaescreva.blogspot.com

natusch disse...

"O primeiro turno conta com uma penca de candidatos – José Fogaça (PMDB), Maria do Rosário (PT), Manuela D’Avilla (PcdoB), Luciana Genro (Psol), Onyx Lorenzoni (DEM), Nélson Marchezan Júnior (PSDB), Vera Guasso (PSTU) e mais um cara que eu não lembro agora."

Tu esqueceu o Paulo Rogowski - que nem precisava lembrar na moral, pois foi obrigado a abandonar a campanha ontem devido à dívidas ainda do tempo que concorreu a deputado estadual =P

A tua análise da situação toda está bem estruturada, de modo geral. Muito do Fogaça ter sido eleito em Porto Alegre vem de um sentimento anti-petista, que foi crescendo no decorrer dos anos e é basicamente uma revolta com a postura arrogante que o partido e a militância foram tomando em Porto Alegre. Isso de "renovação" na verdade era uma coisa do tipo "vamos tirar esses petistas malditos do governo, seja quem for que ganhe deles!". Sim, parece muito mais futebol do que política - e na brincadeira fomos brindados com o Fogaça-a-a-a-a-a, um dos prefeitos mais apagados e omissos de que se tem notícia. Algo semelhante aconteceu no Estado, com a Yeda (a Yeda!) representando o "novo jeito de governar" - uma desculpa para "não quero Olívio Dutra nem a pau". Deu no que deu - e isso não é dizer que se fosse o PT seria lindo, apenas constatar que pela enésima vez elegemos pessoas pelos motivos errados.

E vou dizer aqui: Manuela será a nova prefeita de Porto Alegre. É uma previsão fatalista, que se refere a algo tão inevitável quanto a primavera depois do inverno - não há nada que se possa fazer para impedir isso. E vai ser pelos motivos errados, de novo. Enfim, a vida se repete, que jeito =P

Cris Rodrigues disse...

Bah, Paula, me deixou na maior saia justa =P
Mas prometo q vou pensar com carinho e q posto um texto a respeito nos próximos dias. Não q vá ser melhor q o teu, pq o teu tá bem bom e pq eu não tô muito por dentro do q tem acontecido no governo. Mas enfim, vai ser parecido, de certa forma, pq eu vou bater no Fogaça tanto quanto tu e o Igor =P

Paula disse...

Lola
As ordens. Eu gostaria q o segundo turno fosse feminino, mas acho difícil o Fogaça não passar, justo por ser o único candidato de direita com chance. Quanto ao RS, é ser do contra por ser do contra mesmo. Às vezes nem eu entendo.

Igor
Tu acha que vai dar Manuela? Eu chuto num Fogaça x Rosário e daí sei lá. Realmente espero q ela não passe para o 2º turno.

Cris
=)