24.8.08

Um cara bom pra estar no ambiente

Na metade do semestre passado entrevistei, com outros quatro colegas, o vocalista dos Engenheiros do Hawaii, Humberto Gessinger. Como estávamos fazendo uma revista especial sobre amor (baita revista, hein) a idéia era, bem, falar de amor. Após quase duas horas de conversa sai meio zonza. Falamos, ele falou, sobre tudo, mais um pouco e amor.
A matéria saiu com o título Não respeite meus cabelos brancos! mas poderia muito bem ser Uma conversa sobre amor com Humberto Gessinger e outros causos. Outros muitos causos. Por questões de espaço e bom senso o texto terminou editado e passou de 47 para 16 mil caracteres. A versão completa da entrevista, apesar de enorme, vale muito a pena e pode se conferida aqui.
Entre as histórias mais legais está a participação dos Engenheiros na campanha para presidência do Brizola em 1989. Eu ctrl+c, ctrl+v o trechinho cá pra baixo - o que não significa que vocês não devem conferir o texto completo, viu! É bacana ver como as coisas eram amadoras naquela épocam, mas amadoras no sentido de amor a camiseta mesmo. Eles apoiavam o Briza mais pela poesia de ter um caudilho no poder que pelas chances reais dele. Como falou o Gessinger, "Era um cara bom pra estar no ambiente".

3×4 – Vocês fizeram comício pra ele [Brizola]?

HG – A gente fez dois comícios de graça pra ele. Nós e o Arthur Moreira Lima [pianista]. Cara, o que eu aprendi nesses comícios! Foram em Curitiba e Maringá. O Arthur Moreira Lima viajava num caminhão com o piano dele. Era surreal. O partido não tinha estrutura nenhuma, um caos. Rolava passagem de avião em cima da hora, cada um da banda num avião diferente, nuns teco-tecos. Era a maior chinelagem. E na época o Collor vinha correndo. Os comícios dele eram todos certinhos, com Xitãozinho e Xororó. Aí, um dia antes de fazer o comício em Maringá, veio um cara da campanha e disse: “Viram ontem o programa do Collor? Pô, agora ele faz o seguinte: o palco está aqui, ele entra pelo meio do público, sobe pela frente. É a maior cena do caralho, ele vem pelo povo! Nós vamos fazer igual!”. Aí eu olhei o palco: “Caraca, eles vão fazer igual” [risos] Aí estávamos tocando, acabou e o cara falou: “Toca mais que o governador não chegou!”. Tocamos mais. “Toca mais que o governador não chegou!”. Tocamos mais. Dali a pouco eu vejo uma confusão. O Brizola tinha chegado e os caras estavam tentando fazer ele chegar daquele jeito. Só que o Collor tinha o maior marketing atrás, era tudo ensaiado. Cara, jogaram o Brizola no palco! Ele gritou: “Aaaah!! Aaah!! Me machucaram!!” [risos] Cara, era hilária aquela campanha. Hoje eu dou graças a Deus que ele não se elegeu, porque eu me responsabilizaria. Não era uma onda muito racional. Era um lance meio poético, meio caudilho, visionário. Era um cara bom pra estar no ambiente.

3×4 – Tu apoiava sem esperar que ele se elegesse?

HG – Ele não tinha chance, né velho? Ele saía aqui do Rio Grande do Sul e não tinha chance! A maneira dele falar, cara… não tinha a menor chance.

3×4 – Se tivesse chance, talvez tu não fizesse o show?

HG – Aí é… aí é melhor assim, PT, alguém que tivesse um partido atrás. O Brizola quase não tinha partido, era um caos. E tinha um monte de picareta atrás dele. Mas ele tinha essa coisa do visionário, do político não acreditar em pesquisa. Ele não via pesquisa. Todo mundo cercado de pesquisa, tudo científico e ele não tava nem aí. O programa de tv dele, cara, era parado e não tinha fundo. Pô, ele queria proibir computação gráfica na revista Veja. Isso é maravilhoso, né cara? [risos] Claro que é uma bobagem, mas olha o que ele tá falando… faz sentido! Pô, ele sabia que se colocar um dragão com a cabeça de um cara tem um discurso rolando que vai além do discurso do texto. Ele tinha uma coisa muito bacana, que era esse lance meio poético do Darcy Ribeiro. Pô, e o primeiro governo deles no Rio foi muito legal. Essa coisa do socialismo moreno, eu achava muito bacana.

***

Já esta nas bancas (sic) o jornal/revista 3x4 amor, a melhor 3x4 sobre amor que você já viu! O jornal é um projeto da cadeira Redação Jornalística IV da faculdade de Jornalismo da UFRGS, produzido pelos alunos do 7º semestre sob a orientação do professor Wladymir Ungaretti. Quem quiser um exemplar favor entrar em contato. Disponibilidade limitada ao nº de revistas remanescentes no meu quarto. Por questões de gestalt este post ainda não terminou. La la la. "Closing time, open all the doors and let you out into the world/ Closing time, turn all of the lights on/ Over every boy and every girl..." Fim da encheção de linguiça descarada.

8 comentários:

Kauê disse...

gestalt? o.O
e tem um "o Comentários" sobrando ali depois da segunda resposta do HG
sem falar que "encheção", apesar de não ser uma palavra que conste nos dicionários, normalmente se escreve com cecedrilha =P

Paula disse...

Happy?

Kauê disse...

de nada
(quase) sempre às ordens
;P

Dé disse...

Ok, confesso que eu não li teu post inteiro o.O Não por preguiça, sexymintendi... heuhe
De qualquer forma, acho que a gente devia aumentar a tiragem dessa revista. As que eu trouxe pra Mafra já se esgotaram... o sucesso é fogo! heuheu

Besos

natusch disse...

E eu lembro de boa parte da campanha de 1989... Rende um curta =P

lola aronovich disse...

Ah, eu quero um exemplar. Manda pra mim? (quer dizer, aí suponho que tenho que te mandar meu endereço por email?).
Sobre a campanha de 89, eu participei muito dela. Fiz campanha pro Lula - de graça, claro. Ia pras estações de trem falar com as pessoas, pra Praça Ramos, tirava xerox de matérias de jornal, totalmente amador mesmo. Não havia estrutura. As outras pessoas que conheci fazendo campanha eram todas "independentes" tb, sem ligação com o PT. A gente ia aos escritórios do Collor, pedia material pra distribuir, eles davam um monte de adesivos e panfletos (a diferença de dinheiro era gritante), e a gente queimava tudo. Eu fui a todos os comícios do Lula em SP. E, no segundo turno, fui até o Rio pra ver Lula e Brizola no mesmo palanque, na Candelária. Foi comovente. Mas o Brizola foi ficando gagá depois. Ele era contra o impeachment do Collor!
Eu lembro dessa campanha de 89 mais do que qualquer outra. Eu tinha 22 anos...

Paula disse...

Igor e Lola
Um curta sobre a primeira eleição depois da ditadura seria um baita curta, hein. Absurdo pensar que isso foi recém em 1989. Para quem cresceu nos anos 90, como eu, a ditadura parece algo distante e intangível. Até mesmo pela forma como é lembrada, não sendo lembrada.
Semana passada teve uma manifestação no Uruguai contra a lei da anistia para os militares. Parou o país. Por aqui falar em rever o passado é quase palavrão. Como boa parte da população estava confortavelmente acompanhando os acontecimentos no sofá da sala através do jornal nacional rever a lei de anistia é o tipo de coisa que preocupa pouca gente.
Saiu uma pesquisa no Valor Econômico há umas duas semanas, vou dar uma procurada e linko no blog, comparando a violência nos países que puniram os culpados e os que anistiaram todo mundo. A conclusão das pesquisadoras foi de que os regimes democráticos que julgaram aqueles que violaram os direitos humanos, em crimes como tortura, assassinato, prisão sem processo, desaparecimento de pessoas ou genocídio, tiveram uma melhora significativa na preservação dos direitos básicos de seu povo.
Ok, voltando à entrevista. Mando sim, Lola. Meu e-mail é paulabianchi@gmail.com. Me passa teu endereço que assim que der vou nos Correios. Depois diz o que tu achou. ;)

lola aronovich disse...

Aqui no Brasil criou-se uma mentalidade que qualquer volta ao passado - como, por exemplo, pagar indenização aos perseguidos pela ditadura - é uma atrocidade. Ninguém quer nem saber do Golpe de 64. Mas até hoje acho que as passeatas pró-impeachment de 92 não teriam acontecido se a Globo não tivesse passado Anos Rebeldes um pouco antes. Aquilo influenciou muito os jovens. Se reprisassem Anos Rebeldes em horário nobre ano que vem, olha, não é por nada não, mas a Dilma ganharia fácil! Imagina se a Globo vai fazer isso... Aliás, imagina se a Globo vai permitir que se faça filme sobre 1989. Qualquer filme sobre a época teria que retratar os três fatos marcantes que deram a vitória pro Collor (e todos passaram pela TV): o pronunciamento da ex-mulher do Lula dizendo que ele era racista e que havia exigido um aborto; a captura dos sequestradores do Abilio Diniz na véspera do segundo turno, posando com camisetas do PT!; e, claro, a edição do debate da Globo. Collor ganhou por muito pouco as eleições. Se qualquer uma dessas três coisas não tivesse ocorrido, Lula teria sido eleito em 89. E aí mudava TUDO, claro. Tudo que veio depois... Será que o deixariam governar? Naquela época se falava demais num novo golpe militar caso a esquerda ganhasse.
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