22.9.08

Sobre o Paraguai

Esse texto foi publicado hoje no jornal (e como meu nome, ê) e é o resultado de uma conversa que tive com o embaixador de relações exteriores do Paraguai, Mário Sandoval. Muito bacana, ele concordou em falar comigo em um intervalo de uma conferência sobre a abertura dos arquivos das ditaduras do cone sul aqui em Porto Alegre . O Paraguai está bem avançado nesse sentido, e já entregou a justiça uma lista com todas as pessoas que cometeram crimes contra os direitos humanos que eles conseguiram retirar dos chamados "arquivos do terror". A versão impressa ficou sem a última questão, que não é o bixo, mas trata desse assunto. Participei de parte do seminário e antes de conseguir a entrevista conversei um pouquinho com ele sobre isso também. Outra hora, se faltar assunto e sobrar vontade, escrevo sobre isso por aqui.
Quem vê o Paraguai hoje não tem idéia da importância histórica da nação, que chegou a ter níveis de analfetismo beirando ao zero em uma época que a prioridade dos governantes do nosso continente não era a educação, mas a fome (tá, não que as coisas tenham mudado taanto). Nossos livros de história são muitos omissos nessa parte, mas a guerra do Paraguai, além de apoiar o imperialismo inglês, serviu para parar em pelo menos dois séculos uma nação que se encaminhava para ser a mais desenvolvida da América do Sul.
Falei com Sandoval numa manhã de quarta-feira, bem no começo de setembro, após o presidente recém empossado Francisco Lugo ter anunciado na terça à noite que o ex-presidente Nicanor Duarte, o candidato derrotado Lino Oviedo entre outros estavam articulando um golpe de Estado. Como ele estava no Brasil durante a tal crise, não sabia de muita coisa e minhas ambições de ter um relato da situação foram por água a baixo. No fim, tivemos uma conversa bem menos política do que eu gostaria, mas ainda assim interessante visto que o Paraguai sempre foi deixado de lado na hora das grandes negociações.


Uma nova forma de olhar o futuro

Paula Bianca Bianchi

Dos 6 milhões de habitantes do Paraguai, 1, 1 milhão sobrevivem com menos de 1 dólar por dia, o que os coloca em nível de pobreza aguda. Além disso, estima-se que 500 famílias possuem 90% das terras do país, enquanto outras 320 mil carecem delas. Os números são extremos e expõem apenas algumas das contradições com que o recém-empossado presidente, Fernando Lugo, terá de lidar.
A eleição do ex-bispo terminou com 61 anos de hegemonia do Partido Colorado no poder e transformou o dia 20 de abril de 2008 em data histórica. No entanto, já é possível perceber reações da oposição, que não parece disposta a aceitar a nova posição. Primeiro governante de esquerda a assumir o comando do país pela via democrática, Lugo assustou os vizinhos ao tocar em assuntos até então tidos como resolvidos, como a distribuição dos lucros da Usina Hidrelétrica de Itaipu e a reforma agrária.
Em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, o embaixador de relações exteriores do Paraguai, Mário Sandoval, falou sobre os desafios do novo governo e se disse confiante quanto a implementação das propostas de campanha de Lugo. Para Sandoval não há como prever o que vai acontecer e é hora de "apostar para ganhar".

Jornal do Comércio - Qual o reflexo da entrada do presidente Fernando Lugo após 61 anos de governo colorado?
Mário Sandoval - Fazendo uma análise em profundidade, a questão não é o governo Lugo. O problema básico é uma forma de governar, que abrange não só o Partido Colorado, mas situações anteriores do Paraguai, de 30, 50 anos atrás, foi substituída. Depois de 1989, a sociedade civil muda de rol dentro do jogo de poder. A sociedade assume o protagonismo no dia 20 de abril de 2008, data das eleições. Há uma nova forma de olhar o futuro. As pessoas ficam com o dever de encontrar um novo caminho, uma nova organização de forças. Isso é o mais importante. Vai ter resultados positivos para país ou não? Ninguém sabe ainda. Nós temos que apostar para ganhar.

JC - Houve um amadurecimento da democracia?
Sandoval - Sim. A democracia no Paraguai iniciou em 1989 por uma situação de golpe de Estado que derrocou o ditador (general Alfredo Stroessner). Depois disso, em 1992, tivemos uma nova Constituição, que incorporou todos os elementos novos do mundo da democracia, mas esse foi apenas o marco legal. O passo seguinte foram as eleições. A votação do dia 20 virou todo o sistema. Há agora uma nova maneira de relacionamento entre o poder e a sociedade. Como vai ser, depende da habilidade do presidente, dos políticos, dos grupos de poder, dos empresários... Inclusive do meio internacional regional, em especial de Brasil e Argentina, que têm muita influência no Paraguai. Sessenta e cinco por cento do nosso comércio exterior é com o Brasil. Também temos uma relação muito forte com a Argentina. Há mais de um milhão de paraguaios morando lá. Temos que saber conjugar o relacionamento com a região.

JC - Qual a importância do apoio brasileiro ao Paraguai?
Sandoval - É fundamental. O presidente Lula, com quem Lugo já conversou, abriu as portas para uma nova forma de relacionamento entre as nações. Agora temos que negociar. Isso não é fácil, mas também não é impossível. É preciso encontrar uma correlação exata de interesses superiores, que não tenham a ver com as dimensões do país, sejam elas geográficas, populacionais ou produtivas. Se não, dimensões de direitos humanos, de defesa da democracia na região, que é o mais importante. De benefício mútuo à população.

JC - O senhor acha que esse novo governo vai conseguir implementar as reformas que estavam na plataforma de campanha, como a reforma tributária e a agrária?
Sandoval - Confio, confio firmemente que sim.

JC - Mas a reforma agrária, principalmente, não enfrenta muitos problemas, da concentração da terra...
Sandoval - A concentração de terra no Paraguai é uma das mais robustas que existe. Os pequenos proprietários têm muito pouco espaço. Todo o tema da reforma agrária é fundamental para colocar em branco e preto a economia e o aspecto social do país. Os campesinos devem ter terra, mas não só terra. Também os outros elementos, tecnologia, crédito etc. Mais que isso, devem ter uma cultura de cultivar. A cultura do campo foi perdida por muito tempo, por que eles não tinham mais onde plantar e tiveram que migrar para a cidade. Hoje há uma "re-volta" para o passado, nesse sentido. Mas não para um passado mau, regressivo.

JC – Hoje mais da metade da população vive nas cidades. A idéia é tornar o Paraguai um país mais agrário?
Sandoval - Talvez não um país mais agrário, mas que mais pessoas ocupem o campo. A produtividade geral do Paraguai em termos agrícolas é alta, mas isso está concentrado em poucas empresas multinacionais. Marginalmente, tem muita gente que poderia ser agricultora, mas não é. É provedora de serviços secundários, fora do comércio formal. O que se deve fazer é incorporar todo esse mundo de pessoas ao sistema agrícola granadeiro, que até agora é a base da economia do Paraguai. Não apenas buscando uma atividade comum, mas produtiva. Esse é um desafio muito grande

JC - Quais são os principais problemas enfrentados pelo Paraguai atualmente?
Sandoval - Temos dificuldade, por exemplo, na produção. Temos uma das melhores carnes de gado do mundo, mas a produtividade paraguaia não é do nível do Uruguai, por exemplo. Nós temos apenas nove milhões e meio de cabeças de gado. O Uruguai, mesmo sendo um país menor, tem 14 milhões, ou mais. Outro é o tema da soja. Apesar de pequeno, o Paraguai participa com o Brasil e a Argentina na produção mundial do produto. A soja tem dificuldades. Ela envolve a distribuição de terra, os campesinos que a cultivam e as empresas multinacionais que estão trabalhando nesse negócio. Tudo isso deve ser revisto. As multinacionais pagam um imposto muito baixo, poderiam pagar mais, talvez. Tudo isso está sendo estudado por uma equipe econômica. Você também tem o problema do contrabando. Há uma forte intenção de legalizar tudo que for ilegal. O comércio ilegal não traz benefícios para o Paraguai. Nesse ponto temos que ver a relação com nossos vizinhos, principalmente com o Brasil, que também tem uma cota de responsabilidade, porque o comércio é feito por duas partes. Os países devem trabalhar juntos, tanto o Estado quanto o empresariado, para legalizar todo o comércio que atualmente é ilegal.

JC - Para fechar a questão dos direitos humanos: o Paraguai é um dos primeiros países a abrir os arquivos da ditadura, os chamados "arquivos do terror". Qual a importância disso para a democracia?
Sandoval - Fundamental. Temos muita informação que vai possibilitar definir o que aconteceu. Já temos um panorama geral, mas isso pode incrementar as provas e os documentos que irão respaldar os processos futuros para punir os responsáveis pelas violações dos direitos humanos.

* E aí, alguém notou o furo da matéria?

Um comentário:

Cris Rodrigues disse...

hmm, confesso que não.