31.10.08

Eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett
(1799-1854)

do caderno

30.10.08

Entre livros e salva-vidas

Uma das coisas com que mais me identifiquei na longa carta de amor a escrita e a vida que é autobiografia do García Marquez, Viver para contar - além do constante ar de "não sei o que diabos fazer da minha vida"-, é a forma como ele trata livros como salva-vidas. E para mim, é isso que eles são. Formas de nos afastar da realidade, viver outras vidas, olhar o mundo com outros olhos e voltar um pouco diferente, seja melhor ou mais em dúvida. Uma forma de não afundar. O cotidiano, a rotina sabem como ninguém ser um mar revolto, pronto para engolir os desavisados.
Tenho que devolver o livro. Pena. Ainda queria reler um trechos e, se o dito cujo fosse meu, não escaparia as páginas dobradas, marcando a minha falta de coragem de riscar livros, esses salva-vidas ficcionais.

Em tempo, realismo fantástico o caramba. A vida do Gabo é tão ou mais fantastíca que o seus livros e me vi pulando de emoção, (é, eu pulo de emoção e faço escândalo com alguma frequência), ao reconhecer trechos das histórias que ele tornou famosas em forma de embrião na sua biografia. Já dizia o Isma, citando um jornalista qualquer entrevistando o Gabo, perto da infância em Arataca, o escritor torna-se tudo, menos criativo.

26.10.08

E Porto Alegre foi de Fogaça



Santa inércia, Batman.
Não é só tomar furo da imprensa paulista. É o repórter que fura apanhar só por estar fazendo o trabalho dele.
Estou à espera de uma idéia genial.

Continuo à espera de uma idéia genial.

Idéia genial?

23.10.08

Das subjetividades

A esperança de óculos era a Esperança, mulher do Zé que escreveu a letra da música. Só.
Algum lugar do centro de comando da assessoria de imprensa da Brigada Militar, de preferência perto da mesa de cafezinho.
– Bah, meu. Acho que a mídia está contra a Brigada. E agora?
– Já sei! Vamos colocar os jornalistas atirando uns contra os outros, daí eles vão ver como nós somos legais e parar de falar mal da gente.

"BM promove Instrução de Tiro para a Mídia Gaúcha


A Brigada Militar (BM) promove no dia 4 de novembro do corrente ano Instrução e Competição de Tiro para a Mídia Gaúcha, com duas opções de horários: das 9h às 11h ou das 14h às 17h. O evento é alusivo ao aniversário da Brigada Militar.
A entrega da premiação acontecerá após as 17h, no local da competição, no Centro de Material Bélico da BM, situado na Av. Aparício Borges, 2001, em Porto Alegre. O evento será realizado com qualquer tempo, tendo em vista o local possuir estande de tiro coberto.
Informações e inscrições na Assessoria de Comunicação Social da BM pelos telefones 3288-2930 e 3288-2932."

22.10.08

Abaixo-assinados

Sei que a maior parte das pessoas acha um saco assinar abaixo-assinados, por isso vou incomodar vocês duas vezes de uma vez só. Não sei até que ponto essas petições tem efeito, mas ao menos é uma forma de não ficar calado frente a situações que devem ser mudadas.
Primeiro, recomendo que vocês dêem uma olhada no abaixo-assinado contra o projeto Pontal do Estaleiro, que pretende construir seis espigões na orla do Guaíba. Trata-se de uma obra de dimensões desproporcionais com relação a região, que se executada modificará tanto a paisagem, quanto o trânsito e o clima de Porto Alegre. Além disso, a orla é uma área de proteção ambiental e, como é vocação de uma orla, deveria servir a população, não a interesses privados. A Cris explica bem melhor que eu a situação. A votação foi adiada para o dia 29/10. Se essa petição conseguir 5 mil assinaturas até lá é possível que ela seja adiada definitivamente.
O outro abaixo-assinado trata-se de uma carta aberta ao colunista Henrique Goldman e à revista Trip. Em setembro, a Trip publicou uma carta aberta de Goldman a empregada que ele estuprou quando tinha catorze anos. Claro que a palavra estupro não é mencionada em nenhum momento e a própria revista faz graça com a situação ao apresentar o colunista como "Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos". Repugnante. Fiquei sabendo da história, que não teve repercussão nenhuma na mídica, através do blog da Lola. Em tempos de tragédias como a morte da menina Eloá, o caso ilustra a forma como as mulheres são tratadas como posse pela pela sociedade.
No texto Goldman conta como ele e um amigo deram o "bote" na empregada da casa, Luisa, e fala da raiva que sente do Brail - sim, do Brasil - por isso ter acontecido. "Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego. O Adalberto, é claro, foi o primeiro. Subi numa escada e fiquei olhando através da janelinha do cubículo que era o teu quarto. Depois fui eu. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fiquei envergonhado e não rolou legal. Até hoje me envergonho. Muito. Espero que você esteja bem. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você possa rir do que aconteceu”.
A única coisa que a petição pede é que a carta resposta condenando o colunista também seja publicada na Trip, como forma de mostrar que alguém leu aquele absurdo e não compactua com isso. Afinal, para a revista e para Goldman às mulheres que "cederam por insistência" só resta rir do que aconteceu.

* Resposta da Lola ao auto-intitulado Mito da Caverna, que não contente em mandar a blogueira lavar a louça ainda teceu uma tese sobre como estuprar alguém aos 14 anos não deve ser crime.

21.10.08

Ainda sobre a manifestação

ou Suposição sobre o por quê de coberturas mornas de acontecimentos derretendo
(Aviso aos navegantes. Anda difícil não falar de jornalismo. Um dia mudo de assunto, prometo.)
Pretendia escrever sobre isso fim de semana, mas fim de semana, vida e afins acabei deixando o blog de molho. Como comentou o Juliano, colega de redação que estava junto comigo quinta, uma das coisas mais chocantes da manifestação, além da ação da tropa de choque em si, foi a relação dos jornalistas com os brigadianos.

"Acho que uma das coisas mais estarrecedoras que ouvimos naquele dia, Paula, foi o que nos disse o repórter da Folha de São Paulo. Ele falou que, durante o tumulto, alguém da BM, não me lembro quem, se aproximou e disse "e o nosso acordo?", ao que foi repelido pelo repórter com um "que acordo? Eu não tenho acordo nenhum com os senhores". Isso explica muitas das coisas que nós vemos, ou que não vemos, nas páginas dos jornais."
Juliano

O mesmo repórter que, diga-se de passagem*, apesar de ser representante do bloco do eu sozinho, volta e sempre consegue furar a Zero Hora. Vi gente puxando o saco de milico descaradamente. Até aí tudo bem. De jornalista puxando o saco de fonte o mundo tá cheio. Agora há uma pequena diferença entre puxar o saco e se comprometer.
Não vou ser paranóica. Deixo para vocês juntares os pontinhos. Se ele não tem acordo com ninguém...

* Observação almoçal do Isma, nosso ruivo perspicaz.

19.10.08

Carta aberta do CPERS ao Sala de Redação



Senhores radialistas do "Sala de Redação", da Rádio Gaúcha de Porto Alegre

"Ouvi de um dos senhores no programa da última sexta-feira, o comentário de que os movimentos populares e sindicais queriam uma vítima entre os participantes da Marcha dos Sem de 16 de outubro, para usá-la como trunfo contra o governo. Esta afirmação fantasiosa, ofende o movimento dos trabalhadores. Não agimos assim. Somos lutadores e não oportunistas. Não queremos e não precisamos de feridos e muitos menos de mortos para divulgar as nossas idéias.

Mas, vamos denunciar sempre as agressões contra os trabalhadores.

Passo aos senhores duas fotos feitas no dia 16 de outubro, que mostram a nossa colega Marli Helena Kümpel da Silva, Diretora do Núcleo de Erechim do CPERS, ferida pela explosão de uma "bomba de efeito moral", como são chamadas eufemisticamente e com impropriedade estes artefatos, tanto pela Brigada Militar como pela imprensa. O impacto em Marli foi direto, deixando-a com uma fratura exposta na perna. Nossa colega, ainda agora, encontra-se em recuperação no Hospital Ernesto Dornelles.

Marli é uma dirigente do CPERS e participa do nosso Conselho Geral. Não queremos nossos dirigentes fora de combate ou imolados em sacrifício.

Queremos todos vivos e saudáveis, dirigindo a luta dos educadores. A Brigada Militar jogou de forma covarde, três bombas sobre a passeata, o suficiente para ferir 17 pessoas, a maioria na cabeça, com cortes feitos pelos estilhaços e queimaduras pela pólvora, o que por si só atesta o alto poder explosivo dos artefatos.

Quem está querendo fazer vítimas? Será que não está claro?

Foi afirmado no "Sala de Redação", que poderíamos ter feito uma concessão, e falado de onde foi detido o carro de som, abrindo mão de chegar ao Palácio Piratini. Mas, porque teríamos que fazer esta concessão?

Vejam as nossas razões:

A "Marcha dos Sem" é uma tradicional manifestação unitária dos movimentos sindicais e populares do Rio Grande do Sul, que se repete todos os anos, desde 1995, terminando sempre em frente ao Palácio Piratini, quando então é entregue uma carta reivindicatória dos participantes ao Governador do Estado. Será que não dá para compreender e aceitar o significado simbólico desta manifestação?

Em 13 anos, nunca aconteceu nenhum incidente. Desta vez, a Marcha do Sem foi reprimida com selvageria pela Brigada Militar, a poucos metros da Catedral Metropolitana, do Palácio Piratini e da Assembléia Legislativa, quando chegaria então ao seu final. O que temiam o Governo Estadual e a Brigada Militar? Era a paranóia de sempre com o MST? Saibam que a maior parte dos 17 feridos na Praça da Matriz, eram educadores, filiados ao CPERS.

Depois da manifestação, com a Praça da Matriz esvaziada, um policial militar recolhia dos canteiros alguns pequenos galhos apodrecidos de jacarandá, daqueles que se quebram com facilidade, ali caídos, e algumas pedras portuguesas soltas na calçada. Depois mostraram para a televisão aquelas "armas" dizendo que haviam sido usadas contra a Brigada Militar. Uma farsa.

Os achados foram feitos exatamente no local onde estavam os manifestantes, e não no trecho da Rua Duque de Caxias, onde haviam estado antes os policiais militares, e onde deveriam estar as pedras caso tivessem sido arremessadas contra os soldados.

Quero ainda lembrar que em 16 de setembro, o BOE e a cavalaria da Brigada Militar investiram contra uma manifestação do CPERS, que buscava uma audiência com a governadora, agredindo com violência a categoria e a Diretoria do Sindicato.

Será o destino do Rio Grande do Sul ser transformado em um estado policial militar, onde a questão social é tratada como questão de polícia, como era na República Velha e na ditadura, onde sindicalista era tido como "baderneiro"?

Atentem na repressão que está sendo desencadeada contra os movimentos sindicais e populares. Ela já está fora de controle e representa uma ameaça às liberdades democráticas.

Gosto muito do "Sala de Redação", até mesmo quando o programa transcende o futebol e os senhores falam da realidade em que vivemos, mas faço um apelo para que não ignorem os argumentos daqueles que lutam pelos seus direitos.

Em 18 de outubro de 2008.

Clóvis Carneiro de Oliveira

Secretário-Geral do CPERS-Sindicato"

16.10.08

Rasgaram a Constituição

Fui para casa trocar as sapatilhas por um bom par de tênis. Bloquinho e gravador em mãos, me mandei para o jornal encontrar o fotógrafo e o outro repórter que iam junto cobrir a Marcha dos Sem. Antes de sair, angariei um crachá, que mesmo virado ao contrário deveria servir como forma de evitar que os brigadianos me confundissem com os manifestantes. Manifestação em Porto Alegre, nunca se sabe.
Para a brigada militar gaúcha a palavra manifestação virou sinônimo de baderna. Qualquer agrupamento de pessoas reinvindicando algo já é considerado caso de polícia e tratado a base de tropa de choque para cima. Foi assim quando os professores protestaram por maiores salários no mês passado, foi assim hoje de manhã quando os bancários da agência central do Banrisul se negaram a trabalhar e não mudou muita coisa hoje à tarde, durante a tradicional Marcha dos Sem.
As cerca de 3 mil pessoas que caminhavam pacificamente do centro administrativo até o Palácio Piratini foram acompanhadas por nada menos que 500 PM´S, 120 policiais da guarda especial da Brigada e um helicóptero. A tensão era palpável.
Quando o carro de som ia se dirigir para a frente do palácio a Brigada interviu. Em segundos os soldados do batalhão de choque formaram uma barreira, supostamente por "questão de segurança". O inciso 4 do artigo 5º é claro. Todos tem o direito de se manifestar. Acho que faltou avisar o governo. Nessa hora dei um pé quente e peguei toda a discussão entre a direção da manifestação, o brigadiano que não deixava o carro passar e o deputado Raul Carrion.

– Quem autorizou isso?
– Foi ordem do comando superior.
– Mas vocês tem que respeitar a lei, não a governadora. Isso é inconstitucional!

Bate boca vai, bate boca vem o deputado gritava, "rasgaram a Constituição, rasgaram a Constituição!". Pouco depois, os manifestantes foram tentar furar o bloqueio. De novo, a Brigada usou da "força necessária". "Agora é hora da guerra", comentaram três brigadianos. E a orientação deveria ser essa mesmo, pois não pouparam nem o deputado, que levou uma cacetada no estômago.
Três bombas de efeito moral, algumas balas de borracha e doze manifestantes feridos encaminhados para o HPS depois, o circo estava armado. "Eu não fiz duas faculdades, pós graduação, para ganhar R$ 800,00 e ter que apanhar de Brigadiano!", comentava emocionada uma professora de Pelotas. "Isso é resultado da irresponsabilidade desse governo", protestava Enilson da Silva, um dos feridos.
Atrás do cordão de isolamento e cercado por três fileiras de brigadianos o Coronel Mendes sorria e evitava conversar com repórteres e com os deputados. "Isso é normal em uma manifestação desse porte. A coisa tem que ser pacífica e ordeira, se não a Brigada tem a obrigação e vai intervir."
No meio da história toda, eu olhava chocada os brigadianos com as armas engatilhas e apontadas para a população . Ninguém começou nada. Sem paus. Sem pedras. Quase sem provocações. E mesmo assim a polícia foi para cima. De novo, eu vi. Era quase uma cena de filme. A fumaça das bombas de "efeito moral" ao fundo, a raiva dos dois lados e o fotógrafo gritando para eu sair dali para não me machucar.
Depois de quase uma hora de negociação entre os deputados e a Brigada deixaram o carro de som passar. Mendes, a estrela do show, olhava tudo dos degrais da Catedral, cercado de brigadianos que o impediam até de conversar com a imprensa. Na praça da Matriz o povo gritava "fascista! fascista!".
Que tipo de defesa da ordem é essa que coloca a polícia contra os cidadãos que deveria defender? Não existem mais direitos constitucionais no Rio Grande do Sul?

* E a melhor foto não foi para a capa do jornal, para variar.
** Alguém sabe como colocar arquivos de som aqui?

15.10.08

Detalhes

Teorias desnecessárias a parte, acho que podemos realmente conhecer alguém pelo o que ela tem no criado-mudo/primeira mesa mais a mão no quarto. Nessa história de tecer perfis, foi o que me faltou perguntar. Livros, bagunças, lembranças. Essas coisas que deixamos a mão nos denunciam. Alguém pode fazer odes a Proust, mas na hora do vamos ver é o almanaque do Tio Patinhas que está do lado da cama. É nos detalhes que reside um bom pedaço da alma das pessoas.
Com dificuldade para equilibrar todos os pratinhos.

13.10.08

O segredo de Mitchell


Há tempos não conseguia engatar um livro. Mistura de falta de concentração com não encontrar o tom certo para o momento. Pois bem, peguei hoje O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell. Repórter da lendária New Yorker, o livro é a compilação de dois perfis de Gould, um "boêmio nova-iorquino culto, excêntrico e pobre" que Mitchell escreveu para revista com um intervalo de quase trinta anos. Depois do segundo texto o jornalista aposentou o bloquinho e nunca mais publicou nada apesar de continuar comparecendo a redação todos os dias e recebendo seu salário no fim do mês.
Gould ou professor Gaivota (título do primeiro perfil) sobrevivia de "ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e ketchup" e morreu empenhado em escrever o que chamava de A história Oral do Nosso Tempo, livro que ainda pode vir a ser um dos cânones da literatura inglesa se as previsões do boêmio estiverem certas. Ele era o personagem típico de Mitchell, que gostava de descrever pessoas comuns e marginalizadas, e por isso mesmo, únicas em sua singulardade - ou, como colocou o Times no obituário do repórter, que passou dessa para melhor em 1996, "ele gostava de sonhadores e bêbados, e, para ele, as pessoas era sempre tão grandes quanto seus sonhos".
Ainda não cheguei no tal segredo, mas do jeito que vai a coisa não passa do fim da noite. Especula-se que a revelação da tal história - que só foi impressa sete anos depois que Gould morreu - seria uma das causas que levaram Mitchell a parar de escrever. Pelo sim, pelo não por enquanto fico com a teoria do Luís Bulcão, autor de uma monagrafia sobre a New Yorker (um dos textos que tem me mantindo longe da prosa). "
Também me pergunto a razão pela qual Mitchell deixou de escrever. Já que é moda, lançarei também a minha teoria: ele parou porque trabalhar é um saco e um dia todo mundo perde a paciência, até o Mitchell."

11.10.08

A crise


Santiago
"O amor pode ficar frustrado; e pessoas que se amam e se querem bem podem, no entanto, viver uma ao lado da outra sem encontrar seu destino comum, ficando presos em suas vidas misteriosamente incomunicáveis e incomensuráveis; e cada um gostaria de ajudar o outro e, no entanto, não pode e nem sequer pode se ajudar a si próprio, assim como em pesadelos absurdos e tristes. Mas sabemos, enfim, que a alegria e a tristeza são inseparáveis como compassos diferentes de uma mesma música. A arte de narrar essas coisas e a oportunidade de lê-las e compreendê-las é o grande consolo dos que ficam do lado de fora e aos quais o destino não deu a força de comandar a própria vida." Herman Hesse

(Lá do Igor.)

10.10.08

Um responsável, ao menos

Demorou, mas parece que a ditadura está começando a ter existido. Primeiro o burburinho pelos arquivos, depois a discussão da anistia... passos de tartaruga, mas passos. Ontem o coronel Ustra, grandão das forças armadas, foi declarado responsável pela tortura do casal de ex-presos políticos Maria Amélia de Almeida Teles e César Augusto Teles, e de Criméia Schmidt de Almeida, irmã de Maria, durante o regime militar.
O entedimento resultou de uma ação declaratória ajuizada pelo casal e por Criméia (ação declaratória é quando se pretende apenas provar que uma coisa existiu ou não, sem pedido de indenização). César e Maria Amélia foram torturados em frente aos filhos de 4 e 5 anos pelo mesmo Urdi, comandante do DOI-Codi paulista na época.
A reportagem da Agência Brasil procurou o militar, mas ele preferiu não dar declarações. Segundo seu advogado, ele "se incomoda em ser tachado de torturador. Ele considera desagradável e injusto".
Claro, essas coisas são muito desagradáveis. Conforme afirmou Amélia para a AB, "deve ser mesmo desconfortável, mas que ele cometeu tortura, cometeu. Pode mesmo incomodá-lo, mas é uma questão de justiça. Bater, espancar... tudo o que ele fez foi tortura, não tem outro nome para isso".
O Coronel ainda é autor do livro Projeto Orvil, que vocês podem encontrar no divertidíssimo site A Verdade Sufocada, que mostra "A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça". De acordo com o site, "O livro resgata a verdade de um período histórico totalmente distorcido por aqueles que hoje encobrem os seus reais desígnios de transformar o Brasil em um satélite do comunismo internacional, com a falácia de que lutaram contra uma ditadura militar para promover a liberdade e a democracia."

8.10.08

Mino e Mendes

Mino voltou, e já chegou dando de prancha.

"Qual é o país cuja mídia ignora a reportagem publicada por semanário de política, economia e cultura, e não lhe dá seguimento, sobre as mazelas, todas devidamente documentadas, do presidente da Suprema Corte?

A) Serra Leoa
B) Haiti
C) Brasil
D) Coréia do Norte
Em qual outro país o mesmo se daria?
A) França
B) Argentina
C) Estados Unidos
D) África do Sul.

Quais motivos induzem a mídia ao silêncio?

A) Não dar crédito a um concorrente
B) Cumplicidade com o acusado
C) Certeza de que o silêncio se fecha sobre a verdade factual como o mar sobre um barco furado
D) Participação ativa da máfia no poder Admitem-se respostas positivas a todas as perguntas."

(referências a matéria de capa da Carta Capital - completa no site - dessa semana, que trás o ministro Gilmar Mendes acima da chamada "Às favas a ética" e que não teve repercussão nenhuma na mídia tupiniquim)

7.10.08

Vai la, ó

Cowabanga.

A melhor profissão do mundo

Descobri hoje um discurso do García Marquez sobre jornalismo intitulado A melhor profissão do mundo (by the way, em momentos de crise existencial extrema, recomendo a obra jornalística do Gabo na veia. Só o título do negócio já dá vontade de sair escrevendo). O texto é antigo, lá de 1996 e talvez boa parte de vocês já tenha lido. Ainda estou com ele ecoando na cabeça. Várias partes me comoveram bastante por me lembrar dúvidas e constatações que me atazanam desde que entrei em uma redação.

"As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante."

Em tempos da discussão do diploma - em que, apesar de estar para me formar, não acredito - o texto é matador. Só não sublinhei inteiro porque li no PC. A principal questão que o Gabo coloca não é que o jornalismo era mais ou menos romântico, é que ele era mais humano. Seguem uns trechinhos. Quem quiser ler inteiro (são umas 3 pgs de word) pode encontrar ele aqui.

(Seguiam uns trechinhos. Percebi que isso é direcionar a leitura, o que é sacanagem. De qualquer forma, leiam o texto inteiro. É uma aula, como diria o Unga.)

6.10.08

El segundo turno

Sexta-feira feira de madrugada. Amigos. Política. Cerveja. Como é tradicional, todos falavamos ao mesmo tempo, alto e teorizando. Na hora em que o Ale conseguiu vencer a balburdia geral e dizer “o problema é que a campanha da Luciana Genro foi uma m@#$%” o pessoal da mesa de trás começou rir. “A culpa é dele, ó!”, apontavam. De todos os bares do mundo, entramos naquele que os assessores de imprensa da filha do Tarso escolheram para encher a cara e desaguar a raiva da quase eleição.
Acredito que a Luciana era a melhor candidata e o triste desse segundo turno foi o gosto de “e se” no ar. E se todas as pessoas que também acreditam nela tivessem votado nela. E se o pessoal não tivesse ficado com medo que desse Fogaça e Manuela. As pesquisas perto das eleições foram claríssimas. Assim que a garota prodígio encostou na Rosário, o votos da Luciana caíram e os da petista aumentaram. É mais correto votar de forma política ou ideológica? E se todo mundo pensar assim quando ela vai ter uma chance? Diz a assessora que o problema foi a Manuela. Sem ela seria outra eleição. Talvez.
E agora lá vamos todos, votar em alguém que a gente não acredita para evitar que alguém que a gente acredita ainda menos passe mais quatro anos apenas lembrando da cidade na hora de compor canções.

***

Ainda sexta, ainda os assessores. Dois deles eram argentinos, o mais velho um senhor simpático, de cabelo grisalho. Na hora de fechar a conta ele disse que ele e o amigo tinham a impressão que me conheciam. Sem ataques de gardelismo e apenas pela curiosidade, o senhor comentou que eles entraram em consenso que pareço um anjo de Volpi, pintado lá numa catedral de Buenos Aires. Fiquei muito curiosa. Sabecomoé, não é todo dia que a gente é comparada a uma pintura. Só espero que o cara não seja cubista. Procurei, mas só achei umas bandeirinhas do tal Volpi. Alguém aí conhece os anjos?


Itapemerim, Alfredo Volpi - Eu ia colocar as bandeirinhas, mas gostei mais dessa paisagem
Nos dias bons acordo pouco antes da sete e vou nadar. Nos outros malemal me dou o trabalho de dizer piscina até a vista em sonho. Sempre me impressiona uma senhora de ointenta anos que nada faça ou chuva ou faça sol mil metros corridos. Mas hoje sim fiquei envergonhada dos meus dias de vagabundagem ao olhar para a porta e ver um senhor de calção e bengala, pronto para entrar na água.

González, Aurélio González

Por Paula Bianca Bianchi

Aurélio González desembarcou no Uruguai com 33 liras e a roupa do corpo, graças a bondade da tripulação do navio italiano em que embarcou como clandestino, fugido de um Marrocos dividido, faminto e em guerra. Os marinheiros simpatizaram com o rapaz de apenas 17 anos – e aparentemente não muita coisa na cabeça –, e ao invés de jogá-lo no mar o jogaram entre os hermanos, mas não sem antes passar o chapéu e garantir que Aurélio ao menos não iria passar fome.
As liras valiam ouro perto dos pesos uruguaios do pós-guerra, e foram suficientes para que Aurélio se mantivesse. De bico em bico, foi fazendo amigos. E foi uma dessas pessoas iluminadas que lhe deu a primeira câmera e a profissão que iria carregar como missão pelo resto da vida: fotógrafo.
Envolvido com grupo anti-franquistas e o Partido Comunista desde a sua chegada, em 1952, Aurélio começou a trabalhar no jornal El Popular, em 1957. “Era um trabalho apaixonante. O Uruguai era a Suíça da América.”
O El Popular, localizado no Edifício Lapido, esquina da avenida 18 de Julio com a rua Rio Branco, era o maior periódico de esquerda do país. Foi de lá que ele acompanhou o surgimento da guerrilha urbana dos tupamaros e a crescente queda para o autoritarismo do governo. “As forças armadas gostaram de ser protagonistas”, conta, ao lembrar a forma como os militares perseguiram e liquidaram 72 guerrilheiros.
No dia 27 de Junho de 1973 o presidente Juan María Bordaberry decretou a dissolução do Parlamento e a criação de um Conselho de Estado. O Uruguai entrava para o hall das ditaduras latino-americanas. Casualmente, Aurélio estava lá no dia do golpe e foi o único fotógrafo a registrar a última sessão do Parlamento. “Os senadores declararam guerra a ditadura, se negaram a compactuar com aquele absurdo”, lembra. No corre-corre, conseguiu sair junto com os parlamentares e evitar que as fotos fossem recolhidas.
Mas é quando Aurélio começar a falar da resistência ao golpe que seus olhos azuis brilham. É como se estivesse lá, fotografando. Aurélio gesticula, levanta, enxerga cada detalhe. “Os trabalhadores, o povo vai resistir ao golpe.” Ele conta que os sindicatos decretaram greve geral. “As forças armadas tinham que ir de fábrica em com mega fones gritando ‘Voltem a trabalhar!’”.
A greve foi difícil e os dias foram passando. Os trabalhadores resistiram por 15 dias. “Mas trabalhadores não são soldados. A alimentação de seus filhos é o seu salário”, reflete.
No décimo terceiro dia só o que se ouvia e lia era o poema La Cogyda e La muerte, do Gárcia Lorca. “A las cinco de la tarde./ Eran las cinco en punto de la tarde./ Un niño trajo la blanca sábana/ a las cinco de la tarde. Una espuerta de cal ya prevenida/a las cinco de la tarde./ Lo demás era muerte y sólo muerte/ a las cinco de la tarde.” Ele era declamado de hora em hora nas rádios. Foi capa dos jornais. “Aquele dia, as cinco em ponto, a gente não cabia nas veredas.” As pessoas saíram as ruas sem que ninguém tivesse dito nada. Eram mães, estudantes, trabalhadores, crianças, velhos. Todos lá.
“Libertad, liberdad, tiranos liberdad”, conta ao Aurélio ao relembrar os gritos da multidão, que cantava pedaços do hino nacional uruguaio. “Foi uma luta heróica. Cantavam o hino, os militares golpeavam.” Balas de borracha voavam para todos os lados, as pessoas corriam. Ninguém sabia que os tiros não eram de verdade. “O exército uruguaio, naquele momento, se comportou como um exército de ocupação”. As 19h, 19h30 os militares já haviam conseguido esvaziar a rua a 18 del Julio. “A avenida parecia uma paisagem lunar.”
No jornal o problema era outro. Evitar que as fotos que registravam toda a loucura daqueles dias fossem perdidas. O editor do jornal confiou os negativos a Aurélio, que na época era chefe dos fotógrafos. “Até hoje me sinto mal quando lembro disso”, diz, e, pela primeira vez desde que começamos a conversar, fica em silêncio. Ele respira fundo, com a voz embargada continua. “Ele me falou ‘Aurélio, morremos os 135, mas tu tem a obrigação de salvar os negativos. Salvar a história.’” Os militares arrombaram a porta do El Popular e prenderam todos que encontraram. Enquanto isso Aurélio escalava o duto do elevador, em busca de um lugar seguro.
Parou no 12º andar, e escondeu as fotos entre uma andar e outro, ficando apenas com os registros da greve geral. Ao todo, eram mais de 50 mil negativos guardados em latas da Kodak. Aurélio esperou e esperou. “Não me mataram eles, vai me matar o frio”, pensou. Após um dia e uma noite, ouviu um assobio. “Parecia um assobio amigo”. Era um senhor que cuidava do prédio. Ele o ajudou a sair sem ser visto.
O jornal foi fechado e todos os jornalistas entraram para uma lista negra para não conseguir trabalho. Aurélio escondeu o resto dos negativos no assoalho da casa e logo depois foi preso. Na delegacia, ele era torturado todos os dias. “Tentavam me fazer cair em contradição.” “O ser humano tem essa coisa incrível. Quando me levaram em casa e passamos por cima dos negativos sem eles desconfiarem, me senti um vencedor. Passamos por cima da história.”
A prisão era como um pesadelo. “A noite havia tantos lamentos que eu duvidava se não era uma gravação.” Até que chegou um momento em que não havia mais barulho nenhum. “Parecia o silêncio de um cemitério.” Permitiram que Aurélio tomasse banho, o primeiro em 15 dias. No banheiro ele viu um homem de barba, rosto magro, que olhava para ele fixamente e se assustou. “Era eu. Olhei no espelho e não me reconheci.”
Os policiais o liberaram e ele passou os dois anos seguintes sobrevivendo. “Era uma vida muito difícil.” No dia 14 de novembro de 1976 assassinaram o 1º estudante e a repressão foi às alturas. “Eu temia cada ruído.” No dia, Aurélio havia ido visitar o filho e a ex-mulher. Não demorou até que os militares viessem atrás dele. Com medo de que pudessem usar a criança para faze-lo falar, se escondeu no vão entre as janelas de banheiro.
No fundo do duto havia um buraco mínimo que dava para uma fábrica de tecidos. “Pensei, se entra a cabeça, entra o corpo.” E entrou. Esperou passar a noite e depois, “se retorcendo feito “um peixe quando está a morrer” conseguiu sair por um cano de ventilação. “Quando sai, o céu daquela manhã foi o céu mais celeste que já vi.” Na rua encontrou a mãe de um amigo, que o avisou para não voltar para casa pois os militares estavam esperando para pegá-lo.
Se James Bond fosse latino ele se chamaria Gonzalez, Aurélio González. “Eu tinha vergonha de ir a uma embaixada pedir asilo, mas não tinha outro jeito”. Aurélio arrumou um boné, pegou uma lata de tinta em uma construção e foi em direção ao consulado do México, disfarçado de pintor. “Como todos os pintores assobiam e cantam, também fui eu cantando – tremendo, mas cantando.” Com a cara de pau tradicional, perguntou a um guarda no caminho onde era a embaixada. Bateu na porta e quando o funcionário abriu se atirou para dentro.
Após cinco meses dormindo pelos corredores, juntos com outros amigos jurados de morte pelo regime, conseguiu o exílio no México, no dia 27 de setembro de 1976. O fotógrafo, que nunca havia falado, saiu pelo mundo denunciando a situação do Uruguai junto com as tais fotos da greve geral, mas sem esquecer do material escondido no edifício Lapido. “Sobrevivi como pude no exílio. Mas tudo era lindo, eu estava livre.”
No dia 14 de outubro de 1985 voltou a Montevidéu e foi direto a esquina da avenida 18 de Julio com a rua Rio Branco, antigo endereço do jornal. “Quando vi o prédio, foi como ver uma namorada. Nós tínhamos um segredo.” O problema é que o local havia sido reformado e os tais negativos já não estavam mais escondidos no 12º andar. “Quando eu vi que não tinha ficado nada, me coloquei de joelhos e chorei.”
Com o tempo as fotos viraram uma lenda que Aurélio fez questão de não esquecer. “Nunca deixei de procurar.” Em janeiro de 2006 a prefeitura de Montevidéu organizou uma homenagem ao fotógrafo. Ele não perdeu a oportunidade e marcou uma reunião com o prefeito para falar da “história dos negativos extraviados” e pedir permissão para esburacar a parede do prédio.
Antes que o prefeito pudesse pensar, dois fotógrafos mais jovens descobriram que um garoto jogava futebol com uma latinha antiga da Kodak que havia encontrado perto de um prédio de estacionamento nos fundos do antigo jornal. Com medo de decepcionar Aurélio primeiro eles verificaram o conteúdo da lata. Para a surpresa de todos era parte das fotos, preservadas do tempo pela lata oxidada.
Ainda hoje Aurélio mal consegue falar quando lembra como foi re-descobrir os negativos 21 anos depois. Mistério dos mistérios eles haviam caído em um duto no subsolo do edifício. Com um anzol e um imã em mãos o fotógrafo e os amigos foram pescar as fotos. “Os negativos soltos vinham como peixes.” Eles conseguiram recuperar quase 50 latas com cerca de 150 imagens cada uma.
Mas nem todos ficaram tão emocionados com a volta dos negativos. O dono do estacionamento decidiu que as fotos eram dele e deu um jeito de tirar as latas do prédio antes que Aurélio tentasse derrubar a parede – coisa que ele fez do mesmo jeito. A decisão colocou a cidade em campanha em prol do nosso Bond castelhano. No mesmo 10 março de 2006 em que a prefeitura entregou ao fotógrafo uma placa com os dizeres “A Aurélio, por acreditar que haveria futuro” os negativos foram devolvidos. “E tivemos um final feliz.”, sorri o homem de 76 anos e sete vidas, cuja história se confunde com a do Uruguai.

5.10.08

Atualização

Com uma diferença de 21.502 mil votos, o ganhador da eleição em Caxias foi o atual prefeito Ivo Sartori (PMDB). Não vou ser má perdedora. Apesar de não ser o meu candidato ele não fez um governo ruim e espero que corra tudo bem nos próximos quatro anos. Vendo pelo metade cheia do copo, ao menos o meu deputado continua deputando.

***

Em Porto Alegre o segundo turno ficou com o Fogaça e a Rosário. Manuela em terceiro, Luciana em quarto, Onix em quinto. Não chegou a ser surpreendente. Isso vale uma história de bar de ante-véspera de votação. Conforme correr a segunda eu vejo se conto.

4.10.08

Pepe x Sartori

Agora sim parece que estou em uma cidade à vespera das eleições. Bandeiras nas ruas, adesivos, militantes não contratados, pessoas discutindo o pleito animadamente! A eleição aqui em Caxias está pegando fogo. Como dessa vez só tem dois candidatos, amanhã é tudo ou nada. São mais de 295 mil votantes e a cidade está claramente dividida. Prevendo o futuro, quem ganhar leva por uma diferença mínima.

3.10.08

Jaime

Sabe, tem uma lista de coisas mais importantes que eu deveria fazer ao invés de ficar aqui sentada ouvindo música, rabiscando e pensando na vida. Rabiscar a sério, por exemplo. Especialista em perder tempo. Mas, mas... O inglês, o alemão, a vida do Jaime e do Aurélio parecem tão sem graça no momento.
Falando em vidas, erro meu. Essas duas são tudo, menos sem graça. Lembrei ontem de um episódio ótimo do Jaime. Pena que eu não gravei. Metade da história é ele contando. Conversamos assim, quase quatro horas. Café da manhã e almoço. Só não tomamos café da tarde junto porque eu tinha um estágio no meio e uma longa sexta no fim - e porque depois de três horas, se eu já tava com o pulso cansado, imagina a garganta dele.
Tá, o tal episódio (momento fuxicar anotação para garantir o ipsis literis). Resumão para vocês não ficarem no ar.
Jaime Rodrigues, 64 anos, é uma dessas nem tão muitas pessoas que teve a vida virada do avesso por causa do golpe de 64. Militou no movimento estudantil, no partidão, na clandestinidade. Saiu do país antes que a coisa ficasse preta a ponto de ter que vestir um paletó de madeira. Viveu o Chile de Allende, a Europa pós maio de 68 e a incerteza de saber se poderia voltar para casa. Voltou. Ajudou a fundar o PT. Militou mais um pouco. Viu o Lula perder três eleições e ganhar a quarta. Viu o PT balançar e quase perder rumo. Chorou. Aguentou no peito. Continuou lutando. Fez dois filhos no meio do caminho. Hoje anda por aí com uma pasta de couro cheia de papéis debaixo do braço e um diploma de história, já que o de urbanismo tirado no estrangeiro não serve mais para muita coisa a procura de um emprego normal. Militando ainda. Sonhando sempre. Esse é o Jaime. Feito? Tá, agora tal o episódio.

Delegacia do polícia. Porto Alegre - RS Data estimada - entre 1966 e 1967. Estudante detido por suberversão a ordem dominante. (Nesse momento vocês tem que fazer um esforço de imaginação. É a Porto Alegre anos 60. Provinciana até dizer chega. Delegado turrão, voz grossa, bigodão. Daqueles que não passou muito tempo no colégio. Ok? Então vamulá)
Delegado - Vô te deixa preso aí por um mês!
Jaime - Um mês não pode.
Delegado - Ué, como não pode? Tô te enquandrando na Lei de Segurança Nacional...
Jaime - Ahh, mas eu tô falando de uma lei muito mais importante.
Delegado - Qual?
Jaime - A Constituição!
Delegado, baixando o tom da voz - E quanto é que pode pela Constituição?

Grande Jaime, hein? Lembrando que, como bom estudante militante esquecido da faculdade, ele malemal tinha passado os olhos pela capa da grande Carta Magna, e olha lá. Claro, depois a coisa engrossou e foi difícil manter a pose assim. Pouco antes do Congresso geral de estudantes da UNE - lembra, aquele famoso. Que a polícia descobriu e fez a festa - o Jaime foi preso de novo, meio que de aviso para a gurizada amainar os ânimos e dessa vez não teve arrego.
Buenas, eu disse que ele contando era o canal. De qualquer forma, vidão. "Nessa vida a gente tem que se aventurar". E tem seu Jaime. E tem.
Olha aí. Eu não disse? E lá se foi mais meia hora.

Bye bye frio

Chutei o balde. Guardei os casacos. Desenterrei os vestidos. Dane-se. Decretei o fim do inverno. Se a friaca voltar, encaro de canelas de fora.

2.10.08

Tá. Não pude resistir. Segue a Palin se afundando e a Couric entrando para história do jornalismo.

As informações não chegam no Alasca


Palin e a Crise

(a tradução dessa pergunta está no post abaixo, right?)

Hoje é dia de debate

Acabei de ver o primeiro bloco do debate entre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre. ZZZZZZZZZZZZZZZZ. Pelarmordedeus. Nem três dias antes da votação a coisa pega fogo, brasa, faísca que seja. Colonizada que sou, se eu pudesse (leia-se tv a cabo) hoje à noite veria uma discussão bem mais interessante, ou ao menos divertida. O debate entre os vice-candidatos à presidência norte-americana, Joe Biden e Sarah Palin. O encontro chamou bem mais atenção da mídia norte-americana - e mundial - que o debate entre os candidatos, candidatos a presidência, Obama e McCain, sexta passada.
De um lado o escolado Biden, dono de frases magistrais e gafes idem. Foi dele a tirada histórica contra o então pré-candidato republicano Rudolph Giuliani. Ao comentar que Rudy havia centrado toda a sua campanha em explorar os atentados de 11 de setembro de 2001 ele acrescentou que o ex-prefeito nova-iorquino só criava frases com "um verbo, um substantivo e 11 de setembro". Biden também declarou, após escolhido vice, que Hillary estaria muito melhor no papel do que ele e aproveitou para pedir, e um evento da campanha, para que um eleitor cadeirante se levantasse.
A governadora do Alasca, por sua vez, disse que estava ansiosa pelo debate já que ouvia falar dos dons oratórios de Biden "desde que estava na segunda série". Isso não seria o equivalente a Rosário dizer que enquanto a Manuela aprendia a ler e a escrever ela já era deputada? Pena que nessas conversas para boi dormir porto-alegrenses ninguém parece a vontade para dar a cara a tapa...
O debate de hoje também é uma boa forma de Palin se redimir. Ela anda comendo o pão que o diabo amassou por ter aceito participar de uma série de entrevistas com a apresentadora da norte-americana, Katie Couric. A moça desmontou a miss Wassalen com perguntas simples e capazes de demontrar o potencial da vice, que corre um grande risco de se tornar presidente caso o McCain-pé-na-cova venha a ganhar as eleições em novembro.
Entre as muitas pérolas das entrevistas, duas se sobressaem, como o dia em que Palin disse ter se preparado muito, lido muitos jornais, mas não foi capaz de citar um, e quando decidiu se aventurar pela política econômica tapa-crise que o país adotou. Segue a íntegra dessa segunda pergunta-resposta (tradução lá do Biscoito Fino, que acompanha o debate de hoje "lance a lance").

Couric - Por que não seria melhor, Governadora Palin, gastar os US$ 700 bilhões ajudando as famílias de classe média que estão em dificuldades com assistência médica, moradia, gasolina e comida, para permitir que elas gastem mais e coloquem mais dinheiro na economia, ao invés de ajudar essas grandes instituições financeiras que cumpriram um papel na criação dessa bagunça?
Palin -
É por isso que eu digo que eu, como todo americano com o qual eu estou conversando, estamos doentes com essa posição em que fomos colocados. Onde são os contribuintes tentando socorrer. Mas no final das contas, o que o socorro faz é ajudar aqueles que estão preocupados com a reforma do sistema de saúde que é necessária para consertar nossa economia. Uh, ajudar... oh .. tem que ser tudo para criar empregos. Consertar nossa economia e colocá-la de volta nos trilhos. Então, a reforma do sistema de saúde, e baixar os impostos, e controlar os gastos tem que acompanhar a redução de impostos e os alívios de impostos para os americanos, e o comércio. Nós temos que ver o comércio como oportunidade, não, uh, como uma coisa competitiva e, uh, que dá medo. Temos que olhar para isso como mais oportunidade. Todas essas coisas sob o guarda-chuva da criação de empregos.