3.10.08

Jaime

Sabe, tem uma lista de coisas mais importantes que eu deveria fazer ao invés de ficar aqui sentada ouvindo música, rabiscando e pensando na vida. Rabiscar a sério, por exemplo. Especialista em perder tempo. Mas, mas... O inglês, o alemão, a vida do Jaime e do Aurélio parecem tão sem graça no momento.
Falando em vidas, erro meu. Essas duas são tudo, menos sem graça. Lembrei ontem de um episódio ótimo do Jaime. Pena que eu não gravei. Metade da história é ele contando. Conversamos assim, quase quatro horas. Café da manhã e almoço. Só não tomamos café da tarde junto porque eu tinha um estágio no meio e uma longa sexta no fim - e porque depois de três horas, se eu já tava com o pulso cansado, imagina a garganta dele.
Tá, o tal episódio (momento fuxicar anotação para garantir o ipsis literis). Resumão para vocês não ficarem no ar.
Jaime Rodrigues, 64 anos, é uma dessas nem tão muitas pessoas que teve a vida virada do avesso por causa do golpe de 64. Militou no movimento estudantil, no partidão, na clandestinidade. Saiu do país antes que a coisa ficasse preta a ponto de ter que vestir um paletó de madeira. Viveu o Chile de Allende, a Europa pós maio de 68 e a incerteza de saber se poderia voltar para casa. Voltou. Ajudou a fundar o PT. Militou mais um pouco. Viu o Lula perder três eleições e ganhar a quarta. Viu o PT balançar e quase perder rumo. Chorou. Aguentou no peito. Continuou lutando. Fez dois filhos no meio do caminho. Hoje anda por aí com uma pasta de couro cheia de papéis debaixo do braço e um diploma de história, já que o de urbanismo tirado no estrangeiro não serve mais para muita coisa a procura de um emprego normal. Militando ainda. Sonhando sempre. Esse é o Jaime. Feito? Tá, agora tal o episódio.

Delegacia do polícia. Porto Alegre - RS Data estimada - entre 1966 e 1967. Estudante detido por suberversão a ordem dominante. (Nesse momento vocês tem que fazer um esforço de imaginação. É a Porto Alegre anos 60. Provinciana até dizer chega. Delegado turrão, voz grossa, bigodão. Daqueles que não passou muito tempo no colégio. Ok? Então vamulá)
Delegado - Vô te deixa preso aí por um mês!
Jaime - Um mês não pode.
Delegado - Ué, como não pode? Tô te enquandrando na Lei de Segurança Nacional...
Jaime - Ahh, mas eu tô falando de uma lei muito mais importante.
Delegado - Qual?
Jaime - A Constituição!
Delegado, baixando o tom da voz - E quanto é que pode pela Constituição?

Grande Jaime, hein? Lembrando que, como bom estudante militante esquecido da faculdade, ele malemal tinha passado os olhos pela capa da grande Carta Magna, e olha lá. Claro, depois a coisa engrossou e foi difícil manter a pose assim. Pouco antes do Congresso geral de estudantes da UNE - lembra, aquele famoso. Que a polícia descobriu e fez a festa - o Jaime foi preso de novo, meio que de aviso para a gurizada amainar os ânimos e dessa vez não teve arrego.
Buenas, eu disse que ele contando era o canal. De qualquer forma, vidão. "Nessa vida a gente tem que se aventurar". E tem seu Jaime. E tem.
Olha aí. Eu não disse? E lá se foi mais meia hora.

2 comentários:

Kauê disse...

especialista em perder tempo?
eu também sou
e digo mais
sou bem melhor nisso do que tu

Paula Bianca Bianchi disse...

Eu não disse que eu tenho o monopólio da perda de tempo.