6.10.08

González, Aurélio González

Por Paula Bianca Bianchi

Aurélio González desembarcou no Uruguai com 33 liras e a roupa do corpo, graças a bondade da tripulação do navio italiano em que embarcou como clandestino, fugido de um Marrocos dividido, faminto e em guerra. Os marinheiros simpatizaram com o rapaz de apenas 17 anos – e aparentemente não muita coisa na cabeça –, e ao invés de jogá-lo no mar o jogaram entre os hermanos, mas não sem antes passar o chapéu e garantir que Aurélio ao menos não iria passar fome.
As liras valiam ouro perto dos pesos uruguaios do pós-guerra, e foram suficientes para que Aurélio se mantivesse. De bico em bico, foi fazendo amigos. E foi uma dessas pessoas iluminadas que lhe deu a primeira câmera e a profissão que iria carregar como missão pelo resto da vida: fotógrafo.
Envolvido com grupo anti-franquistas e o Partido Comunista desde a sua chegada, em 1952, Aurélio começou a trabalhar no jornal El Popular, em 1957. “Era um trabalho apaixonante. O Uruguai era a Suíça da América.”
O El Popular, localizado no Edifício Lapido, esquina da avenida 18 de Julio com a rua Rio Branco, era o maior periódico de esquerda do país. Foi de lá que ele acompanhou o surgimento da guerrilha urbana dos tupamaros e a crescente queda para o autoritarismo do governo. “As forças armadas gostaram de ser protagonistas”, conta, ao lembrar a forma como os militares perseguiram e liquidaram 72 guerrilheiros.
No dia 27 de Junho de 1973 o presidente Juan María Bordaberry decretou a dissolução do Parlamento e a criação de um Conselho de Estado. O Uruguai entrava para o hall das ditaduras latino-americanas. Casualmente, Aurélio estava lá no dia do golpe e foi o único fotógrafo a registrar a última sessão do Parlamento. “Os senadores declararam guerra a ditadura, se negaram a compactuar com aquele absurdo”, lembra. No corre-corre, conseguiu sair junto com os parlamentares e evitar que as fotos fossem recolhidas.
Mas é quando Aurélio começar a falar da resistência ao golpe que seus olhos azuis brilham. É como se estivesse lá, fotografando. Aurélio gesticula, levanta, enxerga cada detalhe. “Os trabalhadores, o povo vai resistir ao golpe.” Ele conta que os sindicatos decretaram greve geral. “As forças armadas tinham que ir de fábrica em com mega fones gritando ‘Voltem a trabalhar!’”.
A greve foi difícil e os dias foram passando. Os trabalhadores resistiram por 15 dias. “Mas trabalhadores não são soldados. A alimentação de seus filhos é o seu salário”, reflete.
No décimo terceiro dia só o que se ouvia e lia era o poema La Cogyda e La muerte, do Gárcia Lorca. “A las cinco de la tarde./ Eran las cinco en punto de la tarde./ Un niño trajo la blanca sábana/ a las cinco de la tarde. Una espuerta de cal ya prevenida/a las cinco de la tarde./ Lo demás era muerte y sólo muerte/ a las cinco de la tarde.” Ele era declamado de hora em hora nas rádios. Foi capa dos jornais. “Aquele dia, as cinco em ponto, a gente não cabia nas veredas.” As pessoas saíram as ruas sem que ninguém tivesse dito nada. Eram mães, estudantes, trabalhadores, crianças, velhos. Todos lá.
“Libertad, liberdad, tiranos liberdad”, conta ao Aurélio ao relembrar os gritos da multidão, que cantava pedaços do hino nacional uruguaio. “Foi uma luta heróica. Cantavam o hino, os militares golpeavam.” Balas de borracha voavam para todos os lados, as pessoas corriam. Ninguém sabia que os tiros não eram de verdade. “O exército uruguaio, naquele momento, se comportou como um exército de ocupação”. As 19h, 19h30 os militares já haviam conseguido esvaziar a rua a 18 del Julio. “A avenida parecia uma paisagem lunar.”
No jornal o problema era outro. Evitar que as fotos que registravam toda a loucura daqueles dias fossem perdidas. O editor do jornal confiou os negativos a Aurélio, que na época era chefe dos fotógrafos. “Até hoje me sinto mal quando lembro disso”, diz, e, pela primeira vez desde que começamos a conversar, fica em silêncio. Ele respira fundo, com a voz embargada continua. “Ele me falou ‘Aurélio, morremos os 135, mas tu tem a obrigação de salvar os negativos. Salvar a história.’” Os militares arrombaram a porta do El Popular e prenderam todos que encontraram. Enquanto isso Aurélio escalava o duto do elevador, em busca de um lugar seguro.
Parou no 12º andar, e escondeu as fotos entre uma andar e outro, ficando apenas com os registros da greve geral. Ao todo, eram mais de 50 mil negativos guardados em latas da Kodak. Aurélio esperou e esperou. “Não me mataram eles, vai me matar o frio”, pensou. Após um dia e uma noite, ouviu um assobio. “Parecia um assobio amigo”. Era um senhor que cuidava do prédio. Ele o ajudou a sair sem ser visto.
O jornal foi fechado e todos os jornalistas entraram para uma lista negra para não conseguir trabalho. Aurélio escondeu o resto dos negativos no assoalho da casa e logo depois foi preso. Na delegacia, ele era torturado todos os dias. “Tentavam me fazer cair em contradição.” “O ser humano tem essa coisa incrível. Quando me levaram em casa e passamos por cima dos negativos sem eles desconfiarem, me senti um vencedor. Passamos por cima da história.”
A prisão era como um pesadelo. “A noite havia tantos lamentos que eu duvidava se não era uma gravação.” Até que chegou um momento em que não havia mais barulho nenhum. “Parecia o silêncio de um cemitério.” Permitiram que Aurélio tomasse banho, o primeiro em 15 dias. No banheiro ele viu um homem de barba, rosto magro, que olhava para ele fixamente e se assustou. “Era eu. Olhei no espelho e não me reconheci.”
Os policiais o liberaram e ele passou os dois anos seguintes sobrevivendo. “Era uma vida muito difícil.” No dia 14 de novembro de 1976 assassinaram o 1º estudante e a repressão foi às alturas. “Eu temia cada ruído.” No dia, Aurélio havia ido visitar o filho e a ex-mulher. Não demorou até que os militares viessem atrás dele. Com medo de que pudessem usar a criança para faze-lo falar, se escondeu no vão entre as janelas de banheiro.
No fundo do duto havia um buraco mínimo que dava para uma fábrica de tecidos. “Pensei, se entra a cabeça, entra o corpo.” E entrou. Esperou passar a noite e depois, “se retorcendo feito “um peixe quando está a morrer” conseguiu sair por um cano de ventilação. “Quando sai, o céu daquela manhã foi o céu mais celeste que já vi.” Na rua encontrou a mãe de um amigo, que o avisou para não voltar para casa pois os militares estavam esperando para pegá-lo.
Se James Bond fosse latino ele se chamaria Gonzalez, Aurélio González. “Eu tinha vergonha de ir a uma embaixada pedir asilo, mas não tinha outro jeito”. Aurélio arrumou um boné, pegou uma lata de tinta em uma construção e foi em direção ao consulado do México, disfarçado de pintor. “Como todos os pintores assobiam e cantam, também fui eu cantando – tremendo, mas cantando.” Com a cara de pau tradicional, perguntou a um guarda no caminho onde era a embaixada. Bateu na porta e quando o funcionário abriu se atirou para dentro.
Após cinco meses dormindo pelos corredores, juntos com outros amigos jurados de morte pelo regime, conseguiu o exílio no México, no dia 27 de setembro de 1976. O fotógrafo, que nunca havia falado, saiu pelo mundo denunciando a situação do Uruguai junto com as tais fotos da greve geral, mas sem esquecer do material escondido no edifício Lapido. “Sobrevivi como pude no exílio. Mas tudo era lindo, eu estava livre.”
No dia 14 de outubro de 1985 voltou a Montevidéu e foi direto a esquina da avenida 18 de Julio com a rua Rio Branco, antigo endereço do jornal. “Quando vi o prédio, foi como ver uma namorada. Nós tínhamos um segredo.” O problema é que o local havia sido reformado e os tais negativos já não estavam mais escondidos no 12º andar. “Quando eu vi que não tinha ficado nada, me coloquei de joelhos e chorei.”
Com o tempo as fotos viraram uma lenda que Aurélio fez questão de não esquecer. “Nunca deixei de procurar.” Em janeiro de 2006 a prefeitura de Montevidéu organizou uma homenagem ao fotógrafo. Ele não perdeu a oportunidade e marcou uma reunião com o prefeito para falar da “história dos negativos extraviados” e pedir permissão para esburacar a parede do prédio.
Antes que o prefeito pudesse pensar, dois fotógrafos mais jovens descobriram que um garoto jogava futebol com uma latinha antiga da Kodak que havia encontrado perto de um prédio de estacionamento nos fundos do antigo jornal. Com medo de decepcionar Aurélio primeiro eles verificaram o conteúdo da lata. Para a surpresa de todos era parte das fotos, preservadas do tempo pela lata oxidada.
Ainda hoje Aurélio mal consegue falar quando lembra como foi re-descobrir os negativos 21 anos depois. Mistério dos mistérios eles haviam caído em um duto no subsolo do edifício. Com um anzol e um imã em mãos o fotógrafo e os amigos foram pescar as fotos. “Os negativos soltos vinham como peixes.” Eles conseguiram recuperar quase 50 latas com cerca de 150 imagens cada uma.
Mas nem todos ficaram tão emocionados com a volta dos negativos. O dono do estacionamento decidiu que as fotos eram dele e deu um jeito de tirar as latas do prédio antes que Aurélio tentasse derrubar a parede – coisa que ele fez do mesmo jeito. A decisão colocou a cidade em campanha em prol do nosso Bond castelhano. No mesmo 10 março de 2006 em que a prefeitura entregou ao fotógrafo uma placa com os dizeres “A Aurélio, por acreditar que haveria futuro” os negativos foram devolvidos. “E tivemos um final feliz.”, sorri o homem de 76 anos e sete vidas, cuja história se confunde com a do Uruguai.

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