16.10.08

Rasgaram a Constituição

Fui para casa trocar as sapatilhas por um bom par de tênis. Bloquinho e gravador em mãos, me mandei para o jornal encontrar o fotógrafo e o outro repórter que iam junto cobrir a Marcha dos Sem. Antes de sair, angariei um crachá, que mesmo virado ao contrário deveria servir como forma de evitar que os brigadianos me confundissem com os manifestantes. Manifestação em Porto Alegre, nunca se sabe.
Para a brigada militar gaúcha a palavra manifestação virou sinônimo de baderna. Qualquer agrupamento de pessoas reinvindicando algo já é considerado caso de polícia e tratado a base de tropa de choque para cima. Foi assim quando os professores protestaram por maiores salários no mês passado, foi assim hoje de manhã quando os bancários da agência central do Banrisul se negaram a trabalhar e não mudou muita coisa hoje à tarde, durante a tradicional Marcha dos Sem.
As cerca de 3 mil pessoas que caminhavam pacificamente do centro administrativo até o Palácio Piratini foram acompanhadas por nada menos que 500 PM´S, 120 policiais da guarda especial da Brigada e um helicóptero. A tensão era palpável.
Quando o carro de som ia se dirigir para a frente do palácio a Brigada interviu. Em segundos os soldados do batalhão de choque formaram uma barreira, supostamente por "questão de segurança". O inciso 4 do artigo 5º é claro. Todos tem o direito de se manifestar. Acho que faltou avisar o governo. Nessa hora dei um pé quente e peguei toda a discussão entre a direção da manifestação, o brigadiano que não deixava o carro passar e o deputado Raul Carrion.

– Quem autorizou isso?
– Foi ordem do comando superior.
– Mas vocês tem que respeitar a lei, não a governadora. Isso é inconstitucional!

Bate boca vai, bate boca vem o deputado gritava, "rasgaram a Constituição, rasgaram a Constituição!". Pouco depois, os manifestantes foram tentar furar o bloqueio. De novo, a Brigada usou da "força necessária". "Agora é hora da guerra", comentaram três brigadianos. E a orientação deveria ser essa mesmo, pois não pouparam nem o deputado, que levou uma cacetada no estômago.
Três bombas de efeito moral, algumas balas de borracha e doze manifestantes feridos encaminhados para o HPS depois, o circo estava armado. "Eu não fiz duas faculdades, pós graduação, para ganhar R$ 800,00 e ter que apanhar de Brigadiano!", comentava emocionada uma professora de Pelotas. "Isso é resultado da irresponsabilidade desse governo", protestava Enilson da Silva, um dos feridos.
Atrás do cordão de isolamento e cercado por três fileiras de brigadianos o Coronel Mendes sorria e evitava conversar com repórteres e com os deputados. "Isso é normal em uma manifestação desse porte. A coisa tem que ser pacífica e ordeira, se não a Brigada tem a obrigação e vai intervir."
No meio da história toda, eu olhava chocada os brigadianos com as armas engatilhas e apontadas para a população . Ninguém começou nada. Sem paus. Sem pedras. Quase sem provocações. E mesmo assim a polícia foi para cima. De novo, eu vi. Era quase uma cena de filme. A fumaça das bombas de "efeito moral" ao fundo, a raiva dos dois lados e o fotógrafo gritando para eu sair dali para não me machucar.
Depois de quase uma hora de negociação entre os deputados e a Brigada deixaram o carro de som passar. Mendes, a estrela do show, olhava tudo dos degrais da Catedral, cercado de brigadianos que o impediam até de conversar com a imprensa. Na praça da Matriz o povo gritava "fascista! fascista!".
Que tipo de defesa da ordem é essa que coloca a polícia contra os cidadãos que deveria defender? Não existem mais direitos constitucionais no Rio Grande do Sul?

* E a melhor foto não foi para a capa do jornal, para variar.
** Alguém sabe como colocar arquivos de som aqui?

10 comentários:

Schossler disse...

Não tenho palavras...

Dá até vergonha.

Ana Lúcia disse...

Triste.

Mas ainda bem que alguém de confiança esteve lá para dar a sua versão. Vou repassar para o maior número de pessoas que puder.

Valeu, Paula!

Ana Lúcia disse...

Aliás, hoje de manhã na Band News, um dos apresentadores justificou a pancadaria dizendo que não se pode trancar uma rua...

Dialógico disse...

Tá lá no Dialógico o teu depoimento.
Abraço!

natusch disse...

O que dizer?...

Vergonha de um governo desses, que supostamente me representa. Muita vergonha, mesmo.

Guillermo disse...

Ué??? Mas o Carrion não era brother do pessoal do governo??? Era só dizer que ele que é amiguinho do Busatto, Rosado, Britto e cia que conseguiria tudo...

Por isso que não fico junto dessa gente, nem mesmo nas eleições do Grêmio... sei que não têm nenhum caráter.

DÁ-LHE GRÊMIO!!!

Paula disse...

- Pois é Fer, vergonhoso.

- Ô Ana, nem sabia que tu sabia que eu tinha um blog. Quero falar com o fotógrafo para vazar umas fotos muito boas que não foram publicadas. Tb tenho uns trechos de áudio da conversa com o Carrion e um Brigadiano e a declaração do Mendes para a imprensa enquanto o negócio desandava. Calmo que só vendo.
E espalha afu. A gte tem que tentar furar esse bloqueio silencioso de algum jeito. Nem que seja no formiguinha way of journalism.
Claro,claro. Não se pode trancar a rua. E daí que é uma manfestação organizada e com autorização da EPTC? O pessoal do quebra som tentou ligar para eles, ao menos era o que gritavam no microfone, mas não adiantou alguma coisa.

Paula disse...

- Dialógico
Vai firme!

- Exato Igor. Quem eles representam ao agir dessa dessa forma? Supostamente, um Estado democrático é legitimado pela sua população.

- Guilhermo
Faz alguma diferença que deputado era? Bateram em um representante eleito pelo povo, bateram no povo (literalmente). Entrevistei um professor que me disse, "se batem em um deputado imagina o que eles não vão fazer com a gente?". Se fosse o Záchia ou o Alceu Moreira não ia ser diferente.

Cris Rodrigues disse...

paula, teu texto tá fantástico. olha, eu não sei nem mais o q pensar desse governo. quer dizer, não sei colocar isso em palavras. eu só fico atordoada e com medo que as pessoas não estejam vendo. está tudo errado, em todos os setores.

Juliano disse...

De fato, foi exatamente isso que ocorreu. Algumas limitações do jornalismo diário nos impedem de falar tudo. No caso da matéria que saiu no JC, a principal delas foi a de espaço. Acho que uma das coisas mais estarrecedoras que ouvimos naquele dia, Paula, foi o que nos disse o repórter da Folha de São Paulo. Ele falou que, durante o tumulto, alguém da BM, não me lembro quem, se aproximou e disse "e o nosso acordo?", ao que foi repelido pelo repórter com um "que acordo? Eu não tenho acordo nenhum com os senhores". Isso explica muitas das coisas que nós vemos, ou que não vemos, nas páginas dos jornais. Abçs.