13.10.08

O segredo de Mitchell


Há tempos não conseguia engatar um livro. Mistura de falta de concentração com não encontrar o tom certo para o momento. Pois bem, peguei hoje O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell. Repórter da lendária New Yorker, o livro é a compilação de dois perfis de Gould, um "boêmio nova-iorquino culto, excêntrico e pobre" que Mitchell escreveu para revista com um intervalo de quase trinta anos. Depois do segundo texto o jornalista aposentou o bloquinho e nunca mais publicou nada apesar de continuar comparecendo a redação todos os dias e recebendo seu salário no fim do mês.
Gould ou professor Gaivota (título do primeiro perfil) sobrevivia de "ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e ketchup" e morreu empenhado em escrever o que chamava de A história Oral do Nosso Tempo, livro que ainda pode vir a ser um dos cânones da literatura inglesa se as previsões do boêmio estiverem certas. Ele era o personagem típico de Mitchell, que gostava de descrever pessoas comuns e marginalizadas, e por isso mesmo, únicas em sua singulardade - ou, como colocou o Times no obituário do repórter, que passou dessa para melhor em 1996, "ele gostava de sonhadores e bêbados, e, para ele, as pessoas era sempre tão grandes quanto seus sonhos".
Ainda não cheguei no tal segredo, mas do jeito que vai a coisa não passa do fim da noite. Especula-se que a revelação da tal história - que só foi impressa sete anos depois que Gould morreu - seria uma das causas que levaram Mitchell a parar de escrever. Pelo sim, pelo não por enquanto fico com a teoria do Luís Bulcão, autor de uma monagrafia sobre a New Yorker (um dos textos que tem me mantindo longe da prosa). "
Também me pergunto a razão pela qual Mitchell deixou de escrever. Já que é moda, lançarei também a minha teoria: ele parou porque trabalhar é um saco e um dia todo mundo perde a paciência, até o Mitchell."

4 comentários:

Ale Lucchese disse...

é, naum tem como naum concordar com a tese do bulcão.

Paula disse...

Terminei. Acho que tu ia gostar de trabalhar na New Yorker Ale, eles tem o tempo que querem para escrever - o Mitchell fazia 2, 3 perfis por ano. Ô mundinho bacana.

Ana Lúcia disse...

Esse livro é excelente. O li graças à CLarice Esperança (sempre ela!), trabalhamos com ele um bom tempo com ele na cadeira de Laboratório de Textos.

E Paula, acho que a New Yorker é o sonho de qualquer jornalista... :P

Paula disse...

Ok, a N.Y é hors-concours. Bem que alguém poderia ter uma idéias dessas por aqui. A Piauí até gostaria, mas não tem metade da classe.