30.11.08

Sofismas

Fins de domingos sabem ser desconfortáveis. Olho pra o lado. É preciso pensar em caixas. O quarto pequeno sabe ser pesado na hora de ir embora. Duas semanas para decidir, bem, quase tudo. Uma vida nova de natal. Várias promessas particulares boiando sem rumo. Em que fio se começa a meada? E no fundo, no fundo... é bom.
Diz a moça do cabelo cacheado e leão nas costas que o amor é o antídoto para o suícido. "Te faz querer estar vivo". Diz o moço do sotaque de apartamento que sentir te lembra isso também. Eu voto no arrepio, no frio na barriga, nos começos. A garota dos vocês sorri. "Gostar por gostar, eu gosto do que eu faço."
O tcheco fugido teoriza que é tão mais fácil quanto imperceptível tornar o positivo negativo. "...a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos toa livres quanto insignificantes."
"Que escolher, então? O peso ou a leveza?"
"Não", cortou Ruy castro quando um espectador nostálgico perguntou se ele não sentia falta da Ipanema dos anos 60. "A vida não me deve nada."

28.11.08

As eleições norte-americanas, ainda

Ok, ok, ok. Todo mundo já ouviu o bastante sobre o Obama - de quem virei fã após terminar "A Origem dos meus sonhos" (sim, eu só preciso de uma dúzia de idéias bacans e tentativas de colocá-los em prática uns bons anos antes de alguém de sequer pensar em ser presidente pra ficar fã. Facinha, facinha), mas esse texto do Idelbrar vale a pena ser lido. É uma análise de toda a campanha do Barack em que ele já sinalizava que a mudança não era apenas retórica (pois o homem já não anunciou que vai fechar Guantánamo e fazer um plano de saúde?). Anyway, o Idelbrar é professor e mora no Sul dos States há um tempinho. Além de acompanhar de perto a história toda, votou no moço. Texto grandinho, mas recomendadíssimo.

"Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco."

27.11.08

Bye, bye Brasil

Oi, coração
Não dá pra falar muito não
Espera passar o avião
Assim que o inverno passar
Eu acho que vou te buscar
Aqui tá fazendo calor
Deu pane no ventilador
Já tem fliperama em Macau
Tomei a costeira em Belém do Pará
Puseram uma usina no mar
Talvez fique ruim pra pescar
Meu amor

No Tocantins
O chefe dos parintintins
Vidrou na minha calça Lee
Eu vi uns patins pra você
Eu vi um Brasil na tevê
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo tão só
Oh, tenha dó de mim
Pintou uma chance legal
Um lance lá na capital
Nem tem que ter ginasial
Meu amor

No Tabariz
O som é que nem os Bee Gees
Dancei com uma dona infeliz
Que tem um tufão nos quadris
Tem um japonês trás de mim
Eu vou dar um pulo em Manaus
Aqui tá quarenta e dois graus
O sol nunca mais vai se pôr
Eu tenho saudades da nossa canção
Saudades de roça e sertão
Bom mesmo é ter um caminhão
Meu amor

Baby, bye bye
Abraços na mãe e no pai
Eu acho que vou desligar
As fichas já vão terminar
Eu vou me mandar de trenó
Pra Rua do Sol, Maceió
Peguei uma doença em Ilhéus
Mas já tô quase bom
Em março vou pro Ceará
Com a benção do meu orixá
Eu acho bauxita por lá
Meu amor

Bye bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim
Tem um japonês trás de mim
Aquela aquarela mudou
Na estrada peguei uma cor
Capaz de cair um toró
Estou me sentindo um jiló
Eu tenho tesão é no mar
Assim que o inverno passar
Bateu uma saudade de ti
Tô a fim de encarar um siri
Com a benção de Nosso Senhor
O sol nunca mais vai se pôr

Chico Buarque

25.11.08

"São tão silenciosas!", eu disse.
"É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas como se estivessem rezando por todas as criaturas vivas naquele silêncio e só esperando que gente acabasse com toda nossa complicação e nossas bobagens."

The Dharma Bums - Jack Kerouac

24.11.08

Às vezes sinto um pouco de ciúme dessa gente que consegue colocar os demônios para fora, uma lágrima por vez.

Today's fortune

The guy who reads your fortune lost his psychic powers (and his job). We hope you are feeling lucky.

21.11.08

Inevitável mundo novo?

Crise econômica daqui, crise econômica dali sempre que alguém compara a explosão do mundo financeiro em setembro com o fatídico crash da bolsa de 1929 me pego pensando, "estamos vivendo um momento histórico, ok, mas quando é mesmo que a gente percebe que um momento histórico é um momento histórico?". Foi durante uma dessas divagações que me deparei com a capa do Le Monde Diplomatique desse mês. "Inevitável mundo novo", diz a chamada. Inevitável, com certeza. Novo, tomara. Mas que mundo será esse é o tipo de coisa que dá vontade ser uma mosquinha futurística para saber.

A razão por que a vitória de Obama gerou tamanho entusiasmo não está apenas em que, contra todas as chances, realmente aconteceu: ela demonstrou a possibilidade de que uma coisa dessas acontecesse. O mesmo vale para todas as rupturas históricas

Slavoj Zizek

19.11.08

E a resposta para os problemas do mundo é... carboidratos! Tá, não é. Mas passa perto.

Sextante/Cidão

Fizemos nós quase todos (ou quase poucos) tempestades homéricas em copos d'agua. No final(?), o resultado foi uma revista bacana, memória desse bando de seres que juntos ouviram a Clarice tecer esperanças, a Rosa Nívea lembrar a relação entre jornalistas e super-heróis e o Ungaretti teorizar a subversão.

*

Porque ó espaço é variável e a paciência idem, uns tais de miniperfis ficaram para trás. Eu, que não sou lá muito fã do meu, publico aqui uma recorte que a senõrina Gastal praticou e que, na falta de encartes palpáveis, ficou restrito ao word. Com vocês, Cidão.

"Moreno, de porte atlético, cabelos negros, curtos e sedosos. A descrição parece a de um modelo, mas ele nunca esteve em comerciais ou desfiles. E para falar a verdade, poucas pessoas conhecem o seu nome. Alcides, que também atende por Cidão, tem uma história sofrida. Logo após nascer, sua mãe faleceu. Nem chegou a vê-la. Ela morreu antes que ele abrisse os olhos. Entre seis irmãos, foi o único a sobreviver. Sua sorte foi ser adotado. Hoje tem uma vida tranquila, mas o passado deixou marcas. Dizem que a falta de alimento nos primeiros dias de vida causou sequelas em seu sistema nervoso. É muito inteligente, porém hiperativo. Extremamente hiperativo. E também sentimental.
Da família em que vive, não tem muitas queixas a fazer. Tem tudo o que precisa e gosta. Inclusive um bom churrasco – bem passado! – todo final de semana. A única reclamação é a diferença de tratamento que recebe, a exclusão. Traumas de infância. No auge de sua explosão hormonal, Alcides passa a maior parte do tempo com a avó postiça ranzinza e a também adotada irmã destranbelhada. Se dão bem. Seu maior desafio no momento é controlar os instintos. E se você quiser que ele conte essa história, Alcides o faz, e de bom grado. Sem melindros. O único empecilho é decifrar seu vocabulário, composto basicamente por duas letras. "Au au!"."

Débora Gastal

Os baldes

Os baldes estão aí. Mais ou menos cheios. A maioria deles, escolhemos carregar. Ô mãe, me vê por favor uma chuteira de natal, que a minhas já não servem mais.

18.11.08

“... Os levantes populares destes últimos anos foram crivados a balaços, porém evitaram que o gás se evaporasse em mãos alheias, desprivatizaram a água em Cochabamba e La Paz, derrubaram governos governados desde fora, e disseram não ao imposto sobre o salário e outras sábias ordens do Fundo Monetário Internacional.
Desde o ponto de vista dos meios civilizados de Comunicação, estas
explosões de dignidade popular foram atos de barbárie. Mil vezes eu o vi, li, escutei: a Bolívia é um país incompreensível, ingovernável, intratável, inviável. Os jornalistas que o dizem e repetem equivocamse: deveriam confessar que a Bolívia é, para eles, um país invisível.
Isso nada tem de raro. Esta cegueira não é somente um mau costume de estrangeiros arrogantes. A Bolívia nasceu cega de si, porque o racismo joga teias de aranhas nos olhos e, por certo, não faltam bolivianos preferindo ver-se com os olhos que os desprezam.
Porém, por algo será que a bandeira indígena dos Andes rende homenagem à diversidade do mundo. Segundo a tradição, é uma bandeira nascida do encontro do arco-íris fêmea com o arco-íris macho. E este arco-íris da terra, que em língua nativa se chama tecido de sangue que tremula, tem mais cores que o arco-íris do céu.”

Eduardo Galeano, A segunda fundação da Bolívia

Como vão as coisas na Bolívia

Seguindo com meu plano maligno de inundá-los com entrevistas. Esse texto saiu há duas segundas-feiras na editoria de Internacional do Jornal do Comércio. No começo fiquei um pouco chateada por algumas questões burocráticas que esfriaram a matéria e não me atrevi a publicá-la aqui, mas depois de conversar com uma amiga passei a olhar ele de outra forma. O que é a saída de um "fascista" e a inversão de um lead quando é possível passar uma versão dissonante da divulgada na maior parte dos meios de comunicação? E viva la revolúcion!

A retomada da auto-estima

Maior parte da população apóia e se vê representada pelo governo de Evo Morales

Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC
3/11/2008

A Bolívia, país de maioria indígena, elegeu pela primeira vez em 2005 um índio presidente: o líder cocaleiro Evo Morales. Desde então, o governo Morales tem suscitado mudanças que deixam de cabelo em pé a oligarquia e contam com o apoio da maior parte da população do país, segundo mais pobre da América Latina.
O jornalista gaúcho Leonardo Wexell Severo acompanha há tempos os acontecimentos no país e presenciou os conflitos que tomaram lugar na região em agosto em função do desejo separatista dos governos de oposição – Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca - e resultaram na morte de dezenas de camponeses. O resultado foi o recém lançado livro Bolívia: nas ruas e nas urnas contra o imperialismo. Pouco antes do governo e da oposição entrarem em acordo sobre a nova constituição, que deverá passar por um referendo no dia 29 de janeiro, Wexell conversou com o Jornal do Comércio sobre a situação no país.


Jornal do Comércio - Quais as principais mudanças desde a entrada de Evo Morales no governo?
Leonardo Wexell - O mais importante é a retomada da auto-estima. Um país majoritariamente indígena que começa a se sentir dono do seu próprio destino. E essa retomada se deu a partir da nacionalização dos hidrocarbonetos. Hoje, com o governo Evo, se inverte a lógica que destinava 82% para as transnacionais e apenas 18% para o seu próprio povo. Esses recursos, que começam a ser injetados na economia, possibilitaram um aumento real do salário mínimo. Possibilitaram garantir as crianças um bônus de 200 bolivianos por ano que serve para material escolar, para roupa. Garantiram também dignidade aos idosos, a partir de uma aposentadoria para todos os maiores de 60 anos. Isso é importante porque na faixa etária dos índios bolivianos muitos morriam sem ter o acesso a esse direito. Tanto a questão da juventude quanto dos idosos remontam a uma prática milenar dos indígenas de garantir apoio aos idosos, na medida em que eles são em parte o presente, e as crianças, uma parte do presente no futuro. A reforma agrária também está sendo acelerada. Nove milhões de hectares já foram distribuídos. O combate ao analfabetismo - ainda esse ano, com a ajuda cubano/venezuelana , a Bolívia vai se tornar o terceiro país livre do analfabetismo. O governo tem centrado o foco da sua intervenção em questões chave para o desenvolvimento do país, não apenas para o momento histórico.

JC - A maior parte da população apóia Evo?
Wexell - No referendo Evo cresceu em todas as regiões do país, ganhando em 95 das 120 províncias. Ele, que foi eleito com quase 54% dos votos, na última eleição teve 67,4%. Na Bolívia os presidentes costumavam ser eleitos por 17% da população. Era uma fragmentação incrível. Hoje os movimentos sociais se aglutinaram em torno da bandeira do Movimento ao Socialismo (MAS), que é um instrumento político das organizações populares, o que nos enche de esperança.

JC - E lá o voto é obrigatório?
Wexell - Um dos avanços da Constituição boliviana é o voto obrigatório. O voto facultativo isola os mais fragilizados dentro do processo democrático. Não apenas o voto é obrigatório, como o serviço militar. Há uma compreensão de que o estado deve gerir os recursos públicos e, como representante do conjunto dos interesses da nação, tem que ser preservado e fortalecido.

JC - Quem estimulou os conflitos que tiveram lugar há pouco tempo entre a população?
Wexell - A violência em Pando, por exemplo, que levou a morte de 16 camponeses e tem dezenas de desaparecidos, foi feita anteriormente queimando casas de lideranças populares que combatiam o governo fascista do Leopoldo Fernandes. Ele era uma figura execrável, um vendilhão conhecido. Quando viu que os camponeses iam fazer uma manifestação, e como os indígenas tinham um carisma popular muito grande e dialogavam com a sociedade, agiu. Só que o tiro saiu pela culatra. Fernandes pensou que matando os camponeses iria fazer com que o governo tivesse uma reação descontrolada, capaz de abrir espaço para uma sensibilização da comunidade internacional. Foi justamente o contrário. Tanto a população quanto os governos da zona Sul condenaram o que aconteceu. A prática desses grupos, particularmente quando ocuparam e destruíram as repartições públicas para se insurgir contra o resultado das urnas, que foi claro, provocou uma ojeriza. Eles ficaram vinculados com o atraso.

JC - Quais os pontos de desacordo da Constituição?
Wexell - A Constituição vai ter um referendo delimitório que limita em cinco ou em dez mil hectares o número de terras para a reforma agrária e estabelece o controle social sobre as propriedades públicas. O estado passa a ser visto não mais como uma autarquia em função dos interesses da elite, mas como algo a ser democratizado para garantir em plenitude os serviços básicos para o conjunto da população. A Constituição proíbe a privatização da água, da energia elétrica e das riquezas do país. Veda qualquer novo governo que enquanto política de estado dilapide o patrimônio público. Para reverter os extensos anos de miséria e de injustiça é preciso na Bolívia de um estado forte e com recursos suficientes para fazer frente às demandas.

JC - E como é a relação do governo com o narcotráfico?
Wexell - Porrada. O narcotráfico é vinculado ao governo norte-americano. Isso da Colômbia, a Venezuela e a Bolívia. A droga serve como um anestesiante da luta social. Da mesma forma, ele tem sido utilizado como força paramilitar pela direita para perseguir os movimentos sociais. A coca é um produto fundamental para enfrentar a altitude. Ajuda na circulação sanguínea e tem uma vinculação como o mate para nós gaúchos ou como o café para os paulistas. Agora o subproduto, a forma como é veiculada é um outro problema, e um grave problema da sociedade norte-americana, que tendo 4,5% da população mundial, consome 45% da cocaína do mundo.

JC - Há um ministro específico para movimentos sociais no governo do Evo?
Wexell - O ministro Sacha Llorenti trabalha com os movimentos sociais. Todos os ministérios lidam com essa lógica, mas esse em particular se reúne todos os dias, o dia todo com eles, para que os movimentos saiam da fase do protesto para a fase da proposta. A partir de agora eles também governam e começam a trabalhar com a realidade e as dificuldades que tem uma administração. Carência de recursos, hierarquia, resolução de problemas... Isso é algo que oxigena o governo e ao mesmo tempo dá uma nova forma de ação para os movimentos sociais.

JC - Há uma discriminação história da população indígena?
Wexell - Contra a população indígena. Os indígenas se concentram historicamente no altiplano, por isso as vitórias tão arrasadoras do Evo na região. Ele ganhou em todas as províncias de La Paz. Onde os indígenas são minoria (40%) as forças racistas fazem um discurso anti-índigena no sentido de garantir espaço e gerar preconceito. Cerca de 60, 65% da população da Bolívia é indígena e essa população vê o governo como o seu governo, de afirmação. Já a direita faz cada vez mais o discurso de que o Evo quer transformar o país em uma grande aldeia, trazer o atraso e efetivamente não é o que está ocorrendo. A justiça social está vindo para todos. Em Santa Cruz, que é um estado em que o governo de direita se mantém, houve um grande investimento. É a província que concentra a maior parte dos recursos de construção de rodovias, por exemplo, para o investimento em indústrias. Porque é uma realidade diferenciada que o governo nacional vê e investe, não no sentido de cavar um abismo social, mas de potencializar as demandas daquele estado.

JC - E em Santa Cruz, o Evo tem alguma apoio?
Wexell - Cresceu. Ele tem cerca de 40% dos votos e individualmente o MAS é o partido que tem mais força em Santa Cruz. A direita, que é maioria, em uma relação de 49 para 51, para vencer tem que juntar ao menos uns 15 partidos.

* Essa é a versão sem os tradicionais cortes para encaixar na página e com o fascista, off course. No original essa última questão também não entrou por questões de espaço e o lead foi invertido.

17.11.08

Barbada



Ah, pessoal. Vi agora lá na Lola. Em novembro várias salas de cinema estarão exibindo filmes tupiniquins a imperdíveis 4 pilas, valendo meia para estudante! Quer consolo melhor pra atravancação do fim do semestre que cinema a 2 pilas? A programação completa do "mês do Filme Nacional" pode ser vista acá. Tem umas películas bem bacanas e para os marcianos que ainda não viram Ensaio sobre a cegueria, ele entra no balaio também.
Babe, babe, babe. Tô cheia de coisas para escrever, diria até que com um bom número de "posts de gaveta" na cabeça. Mas e vontade pra sentar aqui e didalhar, cadê? Acampei, escalei, conheci um dos lugares mais bonitos que (dá-lhe pleonasmo) conheci até hoje, com direito a cachoeira, arco-íris circular permanente, vista deslumbrante e tudo! Mas não criemos cânico, logo reapareço e encho vocês de entrevistas que poucos lerão e comentários irrelevantes. Se bem que eu podia postar uma entrevista agora...

14.11.08

Onde está Wally?


Prazer, Sebastian. Só não digita muito alto que atrapalha o meu sono de beleza.

13.11.08

Porque é de cimento que se faz uma orla

Aprovaram o Pontal do Estaleiro, off course. Afinal, "pra quem serve o teu pôr do sol"?

12.11.08

Candy store

Nada como olhar pro lado e ver uma pilha de livro bacanas à espera.
Se eu quiser um momento nerd, O cavaleiro das trevas do Frank Miller. Modismo, mas interessante, o tal livro do Obama. Jornalismo afu, A queda de bagdá, do John Lee Anderson ou The Art of Fact, do Ben Yagoda. Literatura de primeira, Jogo da amarelinha do Cortázar. Isso para não falar do Borges, do Garfield, do García Marquez, dos Saramagos e dos outros que estão rolando pelo quarto há um tempo. Ah, nesses momentos eu me sinto como uma criança presa em um supermercado à noite.

P.S. Viva as bibliotecas e os amigos livreiristicamente altruístas.

Ainda sobre o Obama

Fiquei tri curiosa pra ler a autobiografia do Obama que esse professor que entrevistei cita (A origem dos meus sonhos). Por essa mágica que envolve trombar em livros, consegui ela emprestada hoje com um amigo do jornal. Comecei a ler e, contra meus preconceitos iniciais com livros "da moda", além de interessante, parece muito bem escrita.

11.11.08

Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, exilado

Um pedaço da história de Jaime Rodrigues

Po Paula Bianca Bianchi

Jaime Rodrigues, 64 anos, é uma dessas nem tão muitas pessoas que teve a vida virada do avesso por causa do golpe de 64. Militou no movimento estudantil, no partidão, na clandestinidade. Saiu do país antes que a coisa ficasse preta a ponto de ter que vestir um paletó de madeira. Viveu o Chile de Allende, a Europa pós-maio de 68 e a incerteza de saber se poderia voltar para casa. Voltou. Ajudou a fundar o PT. Militou mais um pouco. Viu o Lula perder três eleições e ganhar a quarta. Viu o PT balançar e quase perder o rumo. Chorou. Agüentou no peito. Continuou lutando. Fez dois filhos no meio do caminho. Hoje anda por aí com uma pasta de couro cheia de papéis debaixo do braço e um diploma de história, já que o de urbanismo concluído no estrangeiro não serve mais para muita coisa, a procura de um emprego normal. Militando ainda. Sonhando sempre.

Mas vamos retroceder algumas décadas. Apesar de ter nascido em Porto Alegre, Jaime é de uma família turca de origem judia sefaradi. O que, nas palavras dele, "não é lá grandes coisas em termos de judeu". A mistura tem direito a avó da Bessarábia, avô da Ucrânia, mãe de Cruz Alta (RS) e pai vindo direto de Istambul aos 17 anos, junto com o resto do povo para não participar da guerra entre turcos e curdos, que marcou o país e causou a morte de mais de um milhão de pessoas.

Com caldo cultural suficiente para dar um nó na cabeça de qualquer um, aos 13 anos Jaime decidiu chutar o balde. Graças a influência de alguns amigos judeus progressistas, trocou o colégio Piratini, "de elite", pelo Júlio de Castilhos. "Já no primeiro dia de aula, não entrei no colégio. O meu amigo Marcos (Faireman, aquele, criador da revista Versus), estava no telhado do colégio gritando: greve geral! Greve geral! Pensei, greve? É comigo mesmo! E fomos em passeata até o centro." Começava aí a vida de revolucionário.

A religião foi outra grande questão. "Com treze anos como tu vai questionar coisas tão gigantescas?" Passou pelo ritual do Bar Mitzváh porque era uma condição para virar homem. Uma vez homem, decidiu que não acreditava em Deus.

Na época questionar era a palavra de ordem. "Quem questionava era o máximo", lembra. Ele explica que, “um jovem não andar de terno e gravata era um escândalo”. Pílula anticoncepcional, homem na lua, adolescentes de jeans e rock´n'roll. O movimento que culminou em maio de 68 começou muito antes, com esses garotos que decidiram pensar qual afinal era o seu lugar. "Nós fizemos a reviravolta no mundo." Era uma vontade de tudo ao mesmo tempo e agora, uma sensação de que qualquer coisa era possível. "Vontade de entrar na vida", define Jaime.

Em 61, ele também foi às ruas defender o Piratini, Brizola e a Legalidade, ou ao menos tentar. Junto com os amigos do movimento estudantil passava o dia na Praça da Matriz, parte central de uma Porto Alegre sitiada. "Era manifestação para cá, manifestação para lá. Mas nunca pegar em armas, que armas eram coisa para homem e nós éramos crianças", admite.

Entre os colegas ler Marx era fundamental, afinal a revolução podia chegar a qualquer momento. "Eu achava tão, mas tão importante ler Marx que tinha épocas que eu tomava banho só para ler ele." Jaime ri ao lembrar dos amigos e de toda onda feita em torno do filósofo. "Nós líamos, mas líamos com muito charme". Era um ler cheio de si, como se aquilo fosse o bastante para entender o mundo.

O golpe veio quando ele já estava cursando arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas essa parte a gente pula. Não que a história de todos os estudantes que lutaram contra ditadura seja igual, mas a vida é muita e o espaço curto. Quando a coisa apertou na capital gaúcha – ele passou bons dois meses preso no DOPS (Departamento de Ordem e Política Social) porto-alegrense, amador perto do paulista - o moço foi para a cidade maravilhosa. Sessenta e oito chegou, e com ele o AI-5 e os anos de chumbo. No Rio, militou clandestinamente até que tanto a militância política quanto a luta armada não fizeram mais sentido. “Chega uma hora que tu sente que tá perdendo o controle das coisas.”

Com a companheira Miriam e um casal de amigos resolveu ir para o Chile pensar na vida. Cruzou a fronteira pelo Uruguai, quando a coisa lá ainda não estava preta. Foi recebido por um Brizola lendário e eloqüente, que lhes ofereceu um churrasco em seu sítio. "O Brizola falava todo o tempo, e o falar dele era... era quase transcendental. Foi muito bonito estar com ele.”

De Montevidéu para Buenos Aires, de Buenos Aires para Santiago. Toda a viagem de ônibus, pela cordilheira dos Andes. "A ida ao Chile já começou a ser rompedora de vida”, conta. “Tu sai do medo, da clandestinidade. Olha aquelas grandezas que tu não sabe que existem. Naquele momento a natureza me deu um novo sentimento.”

Se a viagem foi como respirar, a chegada foi como um sonho. "Estávamos caminhando na Gran Avenida com as malas na mão, como dois nordestinos, e demos de cara com uma manifestação de trabalhadores. Eu larguei as malas e chorei". Ele chora hoje, só de lembrar. "Imagina, eram trabalhadores! Aquilo que a gente queria para o Brasil!"

Todo mundo estava indo para o Chile na época por causa da eleição do governante de esquerda, Salvador Allende. "O governo Allende era maravilhoso." Com a ajuda de parentes Jaime alugou um apartamento e não demorou a se envolver com grupos de esquerda que militavam no país. “Era incrível como um lugar com dez milhões de habitantes conseguia promover manifestações com um milhão de pessoas”, lembra. Mas, como alegria de exilado dura pouco, veio 1973 e a ditadura por lá também. Presidente morto, milicos no poder, a solução foi, outra vez, sair do país.

Na condição de exilados, eles conseguiram um visto para o México. A viagem, cheia de escalas pela América Central, passou pelo Peru e acabou no Panamá. "O país era governado por militares, mas militares nacionalistas. Eles nos convidaram para ficar e ajudar a ‘construir o Panamá’." Jaime conta que era olhar pela janela para ver uma manifestação. "E lá vai o pessoal. 'Tucundindum , tucudam'. Se manifestando e dançando."

Tudo corria bem até que uns três meses depois da chegada e ainda sem nenhuma definição do papel que eles ocupariam na “reconstrução do país” Jaime abriu o jornal e deu de cara com a manchete: O Panamá não é como o Brasil, o Uruguai e o Chile. No Panamá o fascismo não passará. Pouco tempo depois o presidente Omar Torrijos morreu batendo o avião contra uma montanha. "Na hora pensei ‘ihh, isso eu já conheço. Quero ir embora’”. E foi.

América Latina, até a vista. Ele, a companheira e o filho Henrique, nascido no Chile de Allende - onde a coisa estava tão boa que deu até para engravidar - foram para a Bélgica. Da Bélgica partiram para a Alemanha. E da Alemanha, Jaime seguiu sozinho para a França, onde se formou em urbanismo pela universidade de Paris VIII, sempre pensando em voltar. "Uma coisa é tu viajar, escolher. A outra é o não poder ir para casa. Dói muito".

E cá estava o Brasil, acenando de longe. Médici, Geisel, Figueiredo. Antes que o último ditador resolvesse ser esquecido, chegou a hora de fazer as malas. No fim de 78, Jaime pisou no país novamente, pela primeira vez em dez anos. Apesar de ter chegado antes da anistia, a coisa foi tranqüila. "Estava todo mundo voltando. Ia ter eleições (diretas para prefeito, deputado, senador e indireta para presidente). Pegava mal prender."

E o Brasil... O Brasil era o Brasil. "Eu saia na rua só para ouvir as pessoas falando português." Em Porto Alegre, imbuído do espírito francês de liberdade, igualdade e fraternidade quase apanhou em um grenal. "O Inter tinha ganho e os colorados passavam por cima, enquanto os gremistas ia embora por baixo. O pessoal xingava, jogava copos e eu, acostumado com os europeus, tão comedidos, achava tudo muito estranho. Parei e gritei: ‘Pessoal, pessoal, parem! Ser gremista também é um direito humano!’. Me olharam... ‘Ah é?’ E nessa hora foi bom ter a Brigada por perto.”

Envolver-se com política novamente foi quase inevitável. Foi para Caxias do Sul, onde trabalhou como secretário de planejamento do prefeito Mansueto Serafini (antigo MDB). "Meu currículo era uma maravilha. Imagina, eu era um urbanista recém formado na França". Por exigência do governo o bipartidarismo foi extinto e os partidos políticos pipocaram por todos os lados. "O prefeito perguntava para os secretários. 'Fulano, pra que partido tu vai?' PMDB, PTB, PMDB, PTB... Um escolheu o Partido Comunista. Chegou a minha vez e eu disse: ‘Vou ajudar na fundação do PT’. ‘PT, Jaime? Tu vai te meter justo nisso aí?’”.

E se meteu. Jaime foi o primeiro candidato do partido à prefeitura de Caxias de Sul, em 1982. “Sentei com o pessoal para fazer o planejamento de governo e tive que ouvir, ‘Planejamento? Mas nós não queremos ganhar’” Ele era tido como um liberal dentro do partido, algo mais perto do PT de hoje. “Eles diziam que ‘gerenciar a queda do capitalismo era papel da burguesia’”.

As eleições passaram, Jaime não ganhou. Entre idas e vindas, ele morou ainda em João Pessoa e Brasília, antes de aportar de vez em Porto Alegre. Sobre o presente não parece haver muito o quê dizer, ou que ele queira dizer. Teria feito diferente se soubesse o rumo que as coisas iriam tomar? “A gente se aventura muito”, reflete. “Eu deveria ter me preparado melhor, ter tido mais cuidado com o futuro. Agora é muito importante, para mim, conseguir um emprego com carteira assinada, ter essa segurança”.

Após mais de três horas de conversa estamos os dois cansados, com a cabeça pesada de histórias. Entre o número 20 e o 82 do edifício 1025 da avenida Borges de Medeiros, onde cresceu e vive até hoje, Jaime passou por bem mais que seis andares. Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, clandestino, pai, exilado, político, homem com a pasta marrom debaixo do braço. "A verdade é que nessa vida a gente tem que se aventurar", sorri. E ele segue. Militando ainda. Sonhando sempre.

9.11.08

Barack Obama, presidente

Eu já ia começar com aquela história, Jornal do Comérico, amanhã (hoje, no caso), página x e afins, mas quer saber? Leiam aqui mesmo e pronto (ou não leiam, vocês que sabem). O texto é sobre o hit do momento, Barack Obama. O professor Vizentini tem uma visão bem interessante e esperançosa da situação. Bom, acho que esperançosos estamos todos. Claro que originalmente era 15 mil caracteres e todo aquele blá blá blá, mas dessa vez não vou reclamar da edição. Ser racional vez enquando é interessantes. Mas se por acaso alguém quiser o texto inteiro - e ainda tiver paciência para ler sobre o assunto -, já sabem, emeiemme. Ahh, e eu não tenho nada a ver com esse título com aspas, viu...


"Os EUA precisam de Obama"

10/11/2008
Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC



Histórico parece o adjetivo preferido para definir o pleito que elegeu o democrata Barack Obama, 47 anos, o 44º presidente dos Estados Unidos. A eleição do dia 4 de novembro marcou o fim de oito anos de era Bush, governo que figura entre os piores em termos de rejeição interna e externa. Obama, visto com grande expectativa pelo mundo inteiro, recebe um país fragilizado pela crise econômica e insatisfeito com os resultados pífios da luta contra o terrorismo, encabeçada pelos republicanos. Caberá a ele mostrar nos próximos quatros anos se o grito que o levou à Casa Branca, "Yes, we can", e a vontade de mudança demonstrada nas urnas serão suficientes para recolocar os EUA no posto de maior democracia do mundo.
O professor de relações internacionais da Ufrgs Paulo Vizentini, doutor em Relações Internacionais pela London School of Ecomics e ex-assessor da universidade para assuntos exteriores, conversou com exclusividade com o Jornal do Comércio sobre o pleito e adianta: "Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo o que ele tem para trazer".

Jornal do Comércio - Obama representa mesmo uma mudança tão grande?
Vizentini - Ele representa a quebra de uma situação incômoda. Os norte-americanos estavam se sentindo muito inseguros, principalmente porque a opinião pública mundial, depois da guerra do Iraque, se tornou decisivamente contrária às ações do país. E, finalmente, os problemas econômicos chegaram. Oito anos de era Bush levaram a população à saturação.

JC - Quais os reflexos diretos da eleição?
Vizentini - O que mais muda é uma cultura. Há uma sinalização de que a população quer outro tipo de resposta para os seus problemas. Em um plano imediato, Obama tem uma margem de manobra que não é muito grande. O presidente Bush já adiantou o pacote de ajuda aos bancos para que os dois candidatos estivessem comprometidos com isso. O que parece novo é que não só ele tem uma perspectiva de dialogar com outras forças, inclusive adversárias, mas a maioria dos adversários também está lhe dando algum crédito para discutir soluções. Isso se dá devido ao fato de Obama dizer que quer ter um diálogo com Chávez, com o Irã. Bush deixou os EUA em uma posição em que não dá para ficar, mas não dá para sair.

JC - Obama tem capacidade de unir o país?
Vizentini - Certamente vai haver muita resistência se ele tentar realizar mudanças que contrariem interesses dos setores mais estabelecidos, como o militar. Fazem muitos anos que as classes mais altas nos EUA têm pago menos impostos. Mexer nisso vai provocar alguma reação. A questão é que ele vai ter que demonstrar para sociedade que o tamanho da crise exige sacrifícios. São muitas tarefas para um homem só. Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo que ele tem para trazer.

JC - Ele não seria inexperiente?
Vizentini - Não. Eu fiz uma resenha de um livro que Obama escreveu há dez anos (A Origem dos meus Sonhos, Editora Gente), quando foi o primeiro negro a ser nomeado diretor da Harvard Law Review, revista de Direito de Harvard. Ele contou sua vida e os conceitos que usa; as experiências mostram uma pessoa muito preparada e talentosa. A maneira como o senador Obama enfrentou na campanha esse tipo de possível preconceito mostra bastante jogo de cintura.

JC - O senhor mencionou que os EUA estão em uma situação da qual não podem sair. Como fica a questão das tropas no Oriente Médio?
Vizentini - Eles não podem permanecer infinitamente lá. A guerra é uma guerra de desgaste e, já ficou claro, não poderá ser ganha. Agora, se retirar bruscamente significaria uma mudança desestabilizadora na região. A saída terá que ser pactuada com outros países e com forças internas, no Iraque e no Afeganistão.

JC - Muda alguma coisa na relação com a América Latina?
Vizentini - Os EUA estão muito envolvidos no Oriente Médio, tentando de alguma maneira fazer com que as potências financiem o déficit que eles geraram. Eles não têm dado muita atenção ao continente, inclusive foi isso que permitiu uma proliferação maior de governos críticos ao país. Uma coisa que pode melhorar é se, de alguma maneira, Obama impulsionar a Colômbia a ter um diálogo maior tanto com a Venezuela quanto com o Equador e buscar um outro tipo de solução para problemas de guerrilhas e narcotráfico. Isso vai facilitar bastante as coisas na região, sem que seja preciso ter uma política e um grande envolvimento, porque não há recursos para isso.

JC - Então muda a forma de resolver os conflitos?
Vizentini - Sim. A maior crítica ao governo Bush é a sua intransigência. O governo decidia sozinho, inclusive seus próprios aliados não eram ouvidos. Isso gerou um desconforto imenso.

JC - E a relação com o Brasil, permanece a mesma? Os subsídios...
Vizentini - O Brasil, discretamente, sempre preferiu os republicanos. Eles não são tão protecionistas e só se envolvem diretamente naquilo que lhes diz muito respeito. Há vários fatores. O primeiro deles é que a dependência brasileira dos EUA diminuiu nos últimos sete, oito anos. Tanto é assim que a crise não bateu com tanta força aqui. O etanol é uma questão mais complexa que envolve os subsídios internos norte-americanos para os seus agricultores, o protocolo de Kyoto, que favorece o etanol, mas não o álcool produzido a partir do milho. Há um espaço maior para a negociação. Eu vi do lado das autoridades brasileiras e do Ministério das Relações Exteriores, em particular, uma certa tranqüilidade com relação à eleição. Ganhando Obama, se favorece uma linha que o Brasil desenvolve no plano internacional. Talvez ajude a desbloquear negociações na OMC e em outros lugares.

JC - Há chances de o embargo a Cuba cair?
Vizentini - Há chances de começar um diálogo. Não só temos nos EUA uma nova liderança disposta a conversar, como em Cuba, o irmão de Fidel Castro, Raúl, tem mostrado mais flexibilidade para tratar dos vários problemas do país. Se abre um caminho para a discussão.

JC - Os EUA estão prontos para ter um presidente negro?
Vizentini - A gente vê no meio-oeste, nos estados de fazendeiros, em que a população é quase só branca, aquele racismo atrasado. Agora o próprio John McCain segurou a vaia de seus eleitores e disse que o país precisa se unir. Observando a produção de Hollywood, nós vemos a quantidade de filmes que mostram negros em posição de autoridade. Para que isso? Para ir preparando o ânimo da população. Eu gostaria de lembrar que o Obama não é propriamente um negro norte-americano. Ele é um mestiço. A mãe dele é branca e ele foi criado principalmente pela avó, que é branca. E o seu pai, que também já morreu, era um africano da elite do Quênia. Ele foi ministro, embaixador na Inglaterra. Obama viveu a discriminação pela cor da sua pele, mas não tem aquele ressentimento de quem passou a vida em um gueto, pelo contrário. Obama é um cosmopolita.

JC - Recentemente o ex-secretário de Estado dos EUA Colin Powell disse que alguém se declarar muçulmano no país é quase como dizer que tem antecedentes criminais. As raízes muçulmanas de Barack Hussein Obama influem de alguma forma?
Vizentini - Não. Nós já passamos pelo processo eleitoral, isso foi levantado. A biografia dele mostra um homem na verdade agnóstico. As pessoas já têm uma reação condicionada e é complicado. Mas onde a sociedade norte-americana chegou com essa situação? Em um beco sem saída. A ponto de as pessoas se retirarem dos EUA, não irem mais estudar no país. Houve um cerceamento à liberdade de pensamento nos EUA nos últimos oito anos e as pessoas mais arejadas se sentiam mal. Milhares de norte-americanos deixaram o país. Também é um problema o grande nível de expectativa que existe. Nunca houve nos EUA uma manifestação desse tamanho. O próprio presidente Bush adotou uma postura muito cordial. Ele reconhece, de certa forma, o estrago que deixou.

JC - E uma pessoa só é capaz de corresponder a uma expectativa desse tamanho?
Vizentini - É difícil. Ele não é o super-homem. Obama vai ter que lidar com um país muito complexo e cheio de problemas. Agora, continuar como está, não dá mais.

3.11.08

Acordei e era o dia da marmota. De novo.

1.11.08

Eu ainda

Gosto de cinema com pipoca, pizza, chocolate branco, sair para dançar, ler bons livros, desenhar, praia, céu azul, jogar vôlei - apesar de quase ter esquecido o que é isso pela falta de prática -, bicicletear, nadar, viajar e rock´n roll. Já não vejo tv, nem consigo dormir até o meio dia e no momento qualquer tipo de férias é bem vindo já que não sei o que é isso há um bom ano e meio. No mais, faltou passar tempo com os amigos e fazer filosofias infinitas de botequim noite adentro sem o que sentido tenha que necessariamente fazer parte da conversa.
Eu ainda passo os invernos chuvosos, lavar louça (se bem que incluiria lavar roupa e limpar banheiros na lista), pneu de bicicleta vazio, bolas de vôlei furadas, verduras, mosquitos e solidão (só que daquela sem opção, que solidão saudável e momentos de autismo são sempre bem vindos). Estudar vez em quando as coisas legais já não parece tão terrível, assim como acordar cedo, cair, feijão e reuniões de família.
Eu ainda fico admirada pela forma como o tempo passa e a gente continua igual, mas diferente.