18.11.08

“... Os levantes populares destes últimos anos foram crivados a balaços, porém evitaram que o gás se evaporasse em mãos alheias, desprivatizaram a água em Cochabamba e La Paz, derrubaram governos governados desde fora, e disseram não ao imposto sobre o salário e outras sábias ordens do Fundo Monetário Internacional.
Desde o ponto de vista dos meios civilizados de Comunicação, estas
explosões de dignidade popular foram atos de barbárie. Mil vezes eu o vi, li, escutei: a Bolívia é um país incompreensível, ingovernável, intratável, inviável. Os jornalistas que o dizem e repetem equivocamse: deveriam confessar que a Bolívia é, para eles, um país invisível.
Isso nada tem de raro. Esta cegueira não é somente um mau costume de estrangeiros arrogantes. A Bolívia nasceu cega de si, porque o racismo joga teias de aranhas nos olhos e, por certo, não faltam bolivianos preferindo ver-se com os olhos que os desprezam.
Porém, por algo será que a bandeira indígena dos Andes rende homenagem à diversidade do mundo. Segundo a tradição, é uma bandeira nascida do encontro do arco-íris fêmea com o arco-íris macho. E este arco-íris da terra, que em língua nativa se chama tecido de sangue que tremula, tem mais cores que o arco-íris do céu.”

Eduardo Galeano, A segunda fundação da Bolívia

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