11.11.08

Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, exilado

Um pedaço da história de Jaime Rodrigues

Po Paula Bianca Bianchi

Jaime Rodrigues, 64 anos, é uma dessas nem tão muitas pessoas que teve a vida virada do avesso por causa do golpe de 64. Militou no movimento estudantil, no partidão, na clandestinidade. Saiu do país antes que a coisa ficasse preta a ponto de ter que vestir um paletó de madeira. Viveu o Chile de Allende, a Europa pós-maio de 68 e a incerteza de saber se poderia voltar para casa. Voltou. Ajudou a fundar o PT. Militou mais um pouco. Viu o Lula perder três eleições e ganhar a quarta. Viu o PT balançar e quase perder o rumo. Chorou. Agüentou no peito. Continuou lutando. Fez dois filhos no meio do caminho. Hoje anda por aí com uma pasta de couro cheia de papéis debaixo do braço e um diploma de história, já que o de urbanismo concluído no estrangeiro não serve mais para muita coisa, a procura de um emprego normal. Militando ainda. Sonhando sempre.

Mas vamos retroceder algumas décadas. Apesar de ter nascido em Porto Alegre, Jaime é de uma família turca de origem judia sefaradi. O que, nas palavras dele, "não é lá grandes coisas em termos de judeu". A mistura tem direito a avó da Bessarábia, avô da Ucrânia, mãe de Cruz Alta (RS) e pai vindo direto de Istambul aos 17 anos, junto com o resto do povo para não participar da guerra entre turcos e curdos, que marcou o país e causou a morte de mais de um milhão de pessoas.

Com caldo cultural suficiente para dar um nó na cabeça de qualquer um, aos 13 anos Jaime decidiu chutar o balde. Graças a influência de alguns amigos judeus progressistas, trocou o colégio Piratini, "de elite", pelo Júlio de Castilhos. "Já no primeiro dia de aula, não entrei no colégio. O meu amigo Marcos (Faireman, aquele, criador da revista Versus), estava no telhado do colégio gritando: greve geral! Greve geral! Pensei, greve? É comigo mesmo! E fomos em passeata até o centro." Começava aí a vida de revolucionário.

A religião foi outra grande questão. "Com treze anos como tu vai questionar coisas tão gigantescas?" Passou pelo ritual do Bar Mitzváh porque era uma condição para virar homem. Uma vez homem, decidiu que não acreditava em Deus.

Na época questionar era a palavra de ordem. "Quem questionava era o máximo", lembra. Ele explica que, “um jovem não andar de terno e gravata era um escândalo”. Pílula anticoncepcional, homem na lua, adolescentes de jeans e rock´n'roll. O movimento que culminou em maio de 68 começou muito antes, com esses garotos que decidiram pensar qual afinal era o seu lugar. "Nós fizemos a reviravolta no mundo." Era uma vontade de tudo ao mesmo tempo e agora, uma sensação de que qualquer coisa era possível. "Vontade de entrar na vida", define Jaime.

Em 61, ele também foi às ruas defender o Piratini, Brizola e a Legalidade, ou ao menos tentar. Junto com os amigos do movimento estudantil passava o dia na Praça da Matriz, parte central de uma Porto Alegre sitiada. "Era manifestação para cá, manifestação para lá. Mas nunca pegar em armas, que armas eram coisa para homem e nós éramos crianças", admite.

Entre os colegas ler Marx era fundamental, afinal a revolução podia chegar a qualquer momento. "Eu achava tão, mas tão importante ler Marx que tinha épocas que eu tomava banho só para ler ele." Jaime ri ao lembrar dos amigos e de toda onda feita em torno do filósofo. "Nós líamos, mas líamos com muito charme". Era um ler cheio de si, como se aquilo fosse o bastante para entender o mundo.

O golpe veio quando ele já estava cursando arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas essa parte a gente pula. Não que a história de todos os estudantes que lutaram contra ditadura seja igual, mas a vida é muita e o espaço curto. Quando a coisa apertou na capital gaúcha – ele passou bons dois meses preso no DOPS (Departamento de Ordem e Política Social) porto-alegrense, amador perto do paulista - o moço foi para a cidade maravilhosa. Sessenta e oito chegou, e com ele o AI-5 e os anos de chumbo. No Rio, militou clandestinamente até que tanto a militância política quanto a luta armada não fizeram mais sentido. “Chega uma hora que tu sente que tá perdendo o controle das coisas.”

Com a companheira Miriam e um casal de amigos resolveu ir para o Chile pensar na vida. Cruzou a fronteira pelo Uruguai, quando a coisa lá ainda não estava preta. Foi recebido por um Brizola lendário e eloqüente, que lhes ofereceu um churrasco em seu sítio. "O Brizola falava todo o tempo, e o falar dele era... era quase transcendental. Foi muito bonito estar com ele.”

De Montevidéu para Buenos Aires, de Buenos Aires para Santiago. Toda a viagem de ônibus, pela cordilheira dos Andes. "A ida ao Chile já começou a ser rompedora de vida”, conta. “Tu sai do medo, da clandestinidade. Olha aquelas grandezas que tu não sabe que existem. Naquele momento a natureza me deu um novo sentimento.”

Se a viagem foi como respirar, a chegada foi como um sonho. "Estávamos caminhando na Gran Avenida com as malas na mão, como dois nordestinos, e demos de cara com uma manifestação de trabalhadores. Eu larguei as malas e chorei". Ele chora hoje, só de lembrar. "Imagina, eram trabalhadores! Aquilo que a gente queria para o Brasil!"

Todo mundo estava indo para o Chile na época por causa da eleição do governante de esquerda, Salvador Allende. "O governo Allende era maravilhoso." Com a ajuda de parentes Jaime alugou um apartamento e não demorou a se envolver com grupos de esquerda que militavam no país. “Era incrível como um lugar com dez milhões de habitantes conseguia promover manifestações com um milhão de pessoas”, lembra. Mas, como alegria de exilado dura pouco, veio 1973 e a ditadura por lá também. Presidente morto, milicos no poder, a solução foi, outra vez, sair do país.

Na condição de exilados, eles conseguiram um visto para o México. A viagem, cheia de escalas pela América Central, passou pelo Peru e acabou no Panamá. "O país era governado por militares, mas militares nacionalistas. Eles nos convidaram para ficar e ajudar a ‘construir o Panamá’." Jaime conta que era olhar pela janela para ver uma manifestação. "E lá vai o pessoal. 'Tucundindum , tucudam'. Se manifestando e dançando."

Tudo corria bem até que uns três meses depois da chegada e ainda sem nenhuma definição do papel que eles ocupariam na “reconstrução do país” Jaime abriu o jornal e deu de cara com a manchete: O Panamá não é como o Brasil, o Uruguai e o Chile. No Panamá o fascismo não passará. Pouco tempo depois o presidente Omar Torrijos morreu batendo o avião contra uma montanha. "Na hora pensei ‘ihh, isso eu já conheço. Quero ir embora’”. E foi.

América Latina, até a vista. Ele, a companheira e o filho Henrique, nascido no Chile de Allende - onde a coisa estava tão boa que deu até para engravidar - foram para a Bélgica. Da Bélgica partiram para a Alemanha. E da Alemanha, Jaime seguiu sozinho para a França, onde se formou em urbanismo pela universidade de Paris VIII, sempre pensando em voltar. "Uma coisa é tu viajar, escolher. A outra é o não poder ir para casa. Dói muito".

E cá estava o Brasil, acenando de longe. Médici, Geisel, Figueiredo. Antes que o último ditador resolvesse ser esquecido, chegou a hora de fazer as malas. No fim de 78, Jaime pisou no país novamente, pela primeira vez em dez anos. Apesar de ter chegado antes da anistia, a coisa foi tranqüila. "Estava todo mundo voltando. Ia ter eleições (diretas para prefeito, deputado, senador e indireta para presidente). Pegava mal prender."

E o Brasil... O Brasil era o Brasil. "Eu saia na rua só para ouvir as pessoas falando português." Em Porto Alegre, imbuído do espírito francês de liberdade, igualdade e fraternidade quase apanhou em um grenal. "O Inter tinha ganho e os colorados passavam por cima, enquanto os gremistas ia embora por baixo. O pessoal xingava, jogava copos e eu, acostumado com os europeus, tão comedidos, achava tudo muito estranho. Parei e gritei: ‘Pessoal, pessoal, parem! Ser gremista também é um direito humano!’. Me olharam... ‘Ah é?’ E nessa hora foi bom ter a Brigada por perto.”

Envolver-se com política novamente foi quase inevitável. Foi para Caxias do Sul, onde trabalhou como secretário de planejamento do prefeito Mansueto Serafini (antigo MDB). "Meu currículo era uma maravilha. Imagina, eu era um urbanista recém formado na França". Por exigência do governo o bipartidarismo foi extinto e os partidos políticos pipocaram por todos os lados. "O prefeito perguntava para os secretários. 'Fulano, pra que partido tu vai?' PMDB, PTB, PMDB, PTB... Um escolheu o Partido Comunista. Chegou a minha vez e eu disse: ‘Vou ajudar na fundação do PT’. ‘PT, Jaime? Tu vai te meter justo nisso aí?’”.

E se meteu. Jaime foi o primeiro candidato do partido à prefeitura de Caxias de Sul, em 1982. “Sentei com o pessoal para fazer o planejamento de governo e tive que ouvir, ‘Planejamento? Mas nós não queremos ganhar’” Ele era tido como um liberal dentro do partido, algo mais perto do PT de hoje. “Eles diziam que ‘gerenciar a queda do capitalismo era papel da burguesia’”.

As eleições passaram, Jaime não ganhou. Entre idas e vindas, ele morou ainda em João Pessoa e Brasília, antes de aportar de vez em Porto Alegre. Sobre o presente não parece haver muito o quê dizer, ou que ele queira dizer. Teria feito diferente se soubesse o rumo que as coisas iriam tomar? “A gente se aventura muito”, reflete. “Eu deveria ter me preparado melhor, ter tido mais cuidado com o futuro. Agora é muito importante, para mim, conseguir um emprego com carteira assinada, ter essa segurança”.

Após mais de três horas de conversa estamos os dois cansados, com a cabeça pesada de histórias. Entre o número 20 e o 82 do edifício 1025 da avenida Borges de Medeiros, onde cresceu e vive até hoje, Jaime passou por bem mais que seis andares. Estudante, militante, judeu, ateu, comunista, clandestino, pai, exilado, político, homem com a pasta marrom debaixo do braço. "A verdade é que nessa vida a gente tem que se aventurar", sorri. E ele segue. Militando ainda. Sonhando sempre.

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse tal de Jaime o judeu, na verdade ele é o que todos os judeus são:Nazista!Não tem no mundo Nazista mais perverso e falso do que o Judeus Nazista. Vai pra Israel Canalha!

Anônimo disse...

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