18.11.08

Como vão as coisas na Bolívia

Seguindo com meu plano maligno de inundá-los com entrevistas. Esse texto saiu há duas segundas-feiras na editoria de Internacional do Jornal do Comércio. No começo fiquei um pouco chateada por algumas questões burocráticas que esfriaram a matéria e não me atrevi a publicá-la aqui, mas depois de conversar com uma amiga passei a olhar ele de outra forma. O que é a saída de um "fascista" e a inversão de um lead quando é possível passar uma versão dissonante da divulgada na maior parte dos meios de comunicação? E viva la revolúcion!

A retomada da auto-estima

Maior parte da população apóia e se vê representada pelo governo de Evo Morales

Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC
3/11/2008

A Bolívia, país de maioria indígena, elegeu pela primeira vez em 2005 um índio presidente: o líder cocaleiro Evo Morales. Desde então, o governo Morales tem suscitado mudanças que deixam de cabelo em pé a oligarquia e contam com o apoio da maior parte da população do país, segundo mais pobre da América Latina.
O jornalista gaúcho Leonardo Wexell Severo acompanha há tempos os acontecimentos no país e presenciou os conflitos que tomaram lugar na região em agosto em função do desejo separatista dos governos de oposição – Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca - e resultaram na morte de dezenas de camponeses. O resultado foi o recém lançado livro Bolívia: nas ruas e nas urnas contra o imperialismo. Pouco antes do governo e da oposição entrarem em acordo sobre a nova constituição, que deverá passar por um referendo no dia 29 de janeiro, Wexell conversou com o Jornal do Comércio sobre a situação no país.


Jornal do Comércio - Quais as principais mudanças desde a entrada de Evo Morales no governo?
Leonardo Wexell - O mais importante é a retomada da auto-estima. Um país majoritariamente indígena que começa a se sentir dono do seu próprio destino. E essa retomada se deu a partir da nacionalização dos hidrocarbonetos. Hoje, com o governo Evo, se inverte a lógica que destinava 82% para as transnacionais e apenas 18% para o seu próprio povo. Esses recursos, que começam a ser injetados na economia, possibilitaram um aumento real do salário mínimo. Possibilitaram garantir as crianças um bônus de 200 bolivianos por ano que serve para material escolar, para roupa. Garantiram também dignidade aos idosos, a partir de uma aposentadoria para todos os maiores de 60 anos. Isso é importante porque na faixa etária dos índios bolivianos muitos morriam sem ter o acesso a esse direito. Tanto a questão da juventude quanto dos idosos remontam a uma prática milenar dos indígenas de garantir apoio aos idosos, na medida em que eles são em parte o presente, e as crianças, uma parte do presente no futuro. A reforma agrária também está sendo acelerada. Nove milhões de hectares já foram distribuídos. O combate ao analfabetismo - ainda esse ano, com a ajuda cubano/venezuelana , a Bolívia vai se tornar o terceiro país livre do analfabetismo. O governo tem centrado o foco da sua intervenção em questões chave para o desenvolvimento do país, não apenas para o momento histórico.

JC - A maior parte da população apóia Evo?
Wexell - No referendo Evo cresceu em todas as regiões do país, ganhando em 95 das 120 províncias. Ele, que foi eleito com quase 54% dos votos, na última eleição teve 67,4%. Na Bolívia os presidentes costumavam ser eleitos por 17% da população. Era uma fragmentação incrível. Hoje os movimentos sociais se aglutinaram em torno da bandeira do Movimento ao Socialismo (MAS), que é um instrumento político das organizações populares, o que nos enche de esperança.

JC - E lá o voto é obrigatório?
Wexell - Um dos avanços da Constituição boliviana é o voto obrigatório. O voto facultativo isola os mais fragilizados dentro do processo democrático. Não apenas o voto é obrigatório, como o serviço militar. Há uma compreensão de que o estado deve gerir os recursos públicos e, como representante do conjunto dos interesses da nação, tem que ser preservado e fortalecido.

JC - Quem estimulou os conflitos que tiveram lugar há pouco tempo entre a população?
Wexell - A violência em Pando, por exemplo, que levou a morte de 16 camponeses e tem dezenas de desaparecidos, foi feita anteriormente queimando casas de lideranças populares que combatiam o governo fascista do Leopoldo Fernandes. Ele era uma figura execrável, um vendilhão conhecido. Quando viu que os camponeses iam fazer uma manifestação, e como os indígenas tinham um carisma popular muito grande e dialogavam com a sociedade, agiu. Só que o tiro saiu pela culatra. Fernandes pensou que matando os camponeses iria fazer com que o governo tivesse uma reação descontrolada, capaz de abrir espaço para uma sensibilização da comunidade internacional. Foi justamente o contrário. Tanto a população quanto os governos da zona Sul condenaram o que aconteceu. A prática desses grupos, particularmente quando ocuparam e destruíram as repartições públicas para se insurgir contra o resultado das urnas, que foi claro, provocou uma ojeriza. Eles ficaram vinculados com o atraso.

JC - Quais os pontos de desacordo da Constituição?
Wexell - A Constituição vai ter um referendo delimitório que limita em cinco ou em dez mil hectares o número de terras para a reforma agrária e estabelece o controle social sobre as propriedades públicas. O estado passa a ser visto não mais como uma autarquia em função dos interesses da elite, mas como algo a ser democratizado para garantir em plenitude os serviços básicos para o conjunto da população. A Constituição proíbe a privatização da água, da energia elétrica e das riquezas do país. Veda qualquer novo governo que enquanto política de estado dilapide o patrimônio público. Para reverter os extensos anos de miséria e de injustiça é preciso na Bolívia de um estado forte e com recursos suficientes para fazer frente às demandas.

JC - E como é a relação do governo com o narcotráfico?
Wexell - Porrada. O narcotráfico é vinculado ao governo norte-americano. Isso da Colômbia, a Venezuela e a Bolívia. A droga serve como um anestesiante da luta social. Da mesma forma, ele tem sido utilizado como força paramilitar pela direita para perseguir os movimentos sociais. A coca é um produto fundamental para enfrentar a altitude. Ajuda na circulação sanguínea e tem uma vinculação como o mate para nós gaúchos ou como o café para os paulistas. Agora o subproduto, a forma como é veiculada é um outro problema, e um grave problema da sociedade norte-americana, que tendo 4,5% da população mundial, consome 45% da cocaína do mundo.

JC - Há um ministro específico para movimentos sociais no governo do Evo?
Wexell - O ministro Sacha Llorenti trabalha com os movimentos sociais. Todos os ministérios lidam com essa lógica, mas esse em particular se reúne todos os dias, o dia todo com eles, para que os movimentos saiam da fase do protesto para a fase da proposta. A partir de agora eles também governam e começam a trabalhar com a realidade e as dificuldades que tem uma administração. Carência de recursos, hierarquia, resolução de problemas... Isso é algo que oxigena o governo e ao mesmo tempo dá uma nova forma de ação para os movimentos sociais.

JC - Há uma discriminação história da população indígena?
Wexell - Contra a população indígena. Os indígenas se concentram historicamente no altiplano, por isso as vitórias tão arrasadoras do Evo na região. Ele ganhou em todas as províncias de La Paz. Onde os indígenas são minoria (40%) as forças racistas fazem um discurso anti-índigena no sentido de garantir espaço e gerar preconceito. Cerca de 60, 65% da população da Bolívia é indígena e essa população vê o governo como o seu governo, de afirmação. Já a direita faz cada vez mais o discurso de que o Evo quer transformar o país em uma grande aldeia, trazer o atraso e efetivamente não é o que está ocorrendo. A justiça social está vindo para todos. Em Santa Cruz, que é um estado em que o governo de direita se mantém, houve um grande investimento. É a província que concentra a maior parte dos recursos de construção de rodovias, por exemplo, para o investimento em indústrias. Porque é uma realidade diferenciada que o governo nacional vê e investe, não no sentido de cavar um abismo social, mas de potencializar as demandas daquele estado.

JC - E em Santa Cruz, o Evo tem alguma apoio?
Wexell - Cresceu. Ele tem cerca de 40% dos votos e individualmente o MAS é o partido que tem mais força em Santa Cruz. A direita, que é maioria, em uma relação de 49 para 51, para vencer tem que juntar ao menos uns 15 partidos.

* Essa é a versão sem os tradicionais cortes para encaixar na página e com o fascista, off course. No original essa última questão também não entrou por questões de espaço e o lead foi invertido.

Um comentário:

natusch disse...

Excelente, Paula. Ótima entrevista, mesmo ;)