9.11.08

Barack Obama, presidente

Eu já ia começar com aquela história, Jornal do Comérico, amanhã (hoje, no caso), página x e afins, mas quer saber? Leiam aqui mesmo e pronto (ou não leiam, vocês que sabem). O texto é sobre o hit do momento, Barack Obama. O professor Vizentini tem uma visão bem interessante e esperançosa da situação. Bom, acho que esperançosos estamos todos. Claro que originalmente era 15 mil caracteres e todo aquele blá blá blá, mas dessa vez não vou reclamar da edição. Ser racional vez enquando é interessantes. Mas se por acaso alguém quiser o texto inteiro - e ainda tiver paciência para ler sobre o assunto -, já sabem, emeiemme. Ahh, e eu não tenho nada a ver com esse título com aspas, viu...


"Os EUA precisam de Obama"

10/11/2008
Paula Bianca Bianchi,
especial para o JC



Histórico parece o adjetivo preferido para definir o pleito que elegeu o democrata Barack Obama, 47 anos, o 44º presidente dos Estados Unidos. A eleição do dia 4 de novembro marcou o fim de oito anos de era Bush, governo que figura entre os piores em termos de rejeição interna e externa. Obama, visto com grande expectativa pelo mundo inteiro, recebe um país fragilizado pela crise econômica e insatisfeito com os resultados pífios da luta contra o terrorismo, encabeçada pelos republicanos. Caberá a ele mostrar nos próximos quatros anos se o grito que o levou à Casa Branca, "Yes, we can", e a vontade de mudança demonstrada nas urnas serão suficientes para recolocar os EUA no posto de maior democracia do mundo.
O professor de relações internacionais da Ufrgs Paulo Vizentini, doutor em Relações Internacionais pela London School of Ecomics e ex-assessor da universidade para assuntos exteriores, conversou com exclusividade com o Jornal do Comércio sobre o pleito e adianta: "Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo o que ele tem para trazer".

Jornal do Comércio - Obama representa mesmo uma mudança tão grande?
Vizentini - Ele representa a quebra de uma situação incômoda. Os norte-americanos estavam se sentindo muito inseguros, principalmente porque a opinião pública mundial, depois da guerra do Iraque, se tornou decisivamente contrária às ações do país. E, finalmente, os problemas econômicos chegaram. Oito anos de era Bush levaram a população à saturação.

JC - Quais os reflexos diretos da eleição?
Vizentini - O que mais muda é uma cultura. Há uma sinalização de que a população quer outro tipo de resposta para os seus problemas. Em um plano imediato, Obama tem uma margem de manobra que não é muito grande. O presidente Bush já adiantou o pacote de ajuda aos bancos para que os dois candidatos estivessem comprometidos com isso. O que parece novo é que não só ele tem uma perspectiva de dialogar com outras forças, inclusive adversárias, mas a maioria dos adversários também está lhe dando algum crédito para discutir soluções. Isso se dá devido ao fato de Obama dizer que quer ter um diálogo com Chávez, com o Irã. Bush deixou os EUA em uma posição em que não dá para ficar, mas não dá para sair.

JC - Obama tem capacidade de unir o país?
Vizentini - Certamente vai haver muita resistência se ele tentar realizar mudanças que contrariem interesses dos setores mais estabelecidos, como o militar. Fazem muitos anos que as classes mais altas nos EUA têm pago menos impostos. Mexer nisso vai provocar alguma reação. A questão é que ele vai ter que demonstrar para sociedade que o tamanho da crise exige sacrifícios. São muitas tarefas para um homem só. Os EUA precisam de Obama, mas não sei se estão preparados para tudo que ele tem para trazer.

JC - Ele não seria inexperiente?
Vizentini - Não. Eu fiz uma resenha de um livro que Obama escreveu há dez anos (A Origem dos meus Sonhos, Editora Gente), quando foi o primeiro negro a ser nomeado diretor da Harvard Law Review, revista de Direito de Harvard. Ele contou sua vida e os conceitos que usa; as experiências mostram uma pessoa muito preparada e talentosa. A maneira como o senador Obama enfrentou na campanha esse tipo de possível preconceito mostra bastante jogo de cintura.

JC - O senhor mencionou que os EUA estão em uma situação da qual não podem sair. Como fica a questão das tropas no Oriente Médio?
Vizentini - Eles não podem permanecer infinitamente lá. A guerra é uma guerra de desgaste e, já ficou claro, não poderá ser ganha. Agora, se retirar bruscamente significaria uma mudança desestabilizadora na região. A saída terá que ser pactuada com outros países e com forças internas, no Iraque e no Afeganistão.

JC - Muda alguma coisa na relação com a América Latina?
Vizentini - Os EUA estão muito envolvidos no Oriente Médio, tentando de alguma maneira fazer com que as potências financiem o déficit que eles geraram. Eles não têm dado muita atenção ao continente, inclusive foi isso que permitiu uma proliferação maior de governos críticos ao país. Uma coisa que pode melhorar é se, de alguma maneira, Obama impulsionar a Colômbia a ter um diálogo maior tanto com a Venezuela quanto com o Equador e buscar um outro tipo de solução para problemas de guerrilhas e narcotráfico. Isso vai facilitar bastante as coisas na região, sem que seja preciso ter uma política e um grande envolvimento, porque não há recursos para isso.

JC - Então muda a forma de resolver os conflitos?
Vizentini - Sim. A maior crítica ao governo Bush é a sua intransigência. O governo decidia sozinho, inclusive seus próprios aliados não eram ouvidos. Isso gerou um desconforto imenso.

JC - E a relação com o Brasil, permanece a mesma? Os subsídios...
Vizentini - O Brasil, discretamente, sempre preferiu os republicanos. Eles não são tão protecionistas e só se envolvem diretamente naquilo que lhes diz muito respeito. Há vários fatores. O primeiro deles é que a dependência brasileira dos EUA diminuiu nos últimos sete, oito anos. Tanto é assim que a crise não bateu com tanta força aqui. O etanol é uma questão mais complexa que envolve os subsídios internos norte-americanos para os seus agricultores, o protocolo de Kyoto, que favorece o etanol, mas não o álcool produzido a partir do milho. Há um espaço maior para a negociação. Eu vi do lado das autoridades brasileiras e do Ministério das Relações Exteriores, em particular, uma certa tranqüilidade com relação à eleição. Ganhando Obama, se favorece uma linha que o Brasil desenvolve no plano internacional. Talvez ajude a desbloquear negociações na OMC e em outros lugares.

JC - Há chances de o embargo a Cuba cair?
Vizentini - Há chances de começar um diálogo. Não só temos nos EUA uma nova liderança disposta a conversar, como em Cuba, o irmão de Fidel Castro, Raúl, tem mostrado mais flexibilidade para tratar dos vários problemas do país. Se abre um caminho para a discussão.

JC - Os EUA estão prontos para ter um presidente negro?
Vizentini - A gente vê no meio-oeste, nos estados de fazendeiros, em que a população é quase só branca, aquele racismo atrasado. Agora o próprio John McCain segurou a vaia de seus eleitores e disse que o país precisa se unir. Observando a produção de Hollywood, nós vemos a quantidade de filmes que mostram negros em posição de autoridade. Para que isso? Para ir preparando o ânimo da população. Eu gostaria de lembrar que o Obama não é propriamente um negro norte-americano. Ele é um mestiço. A mãe dele é branca e ele foi criado principalmente pela avó, que é branca. E o seu pai, que também já morreu, era um africano da elite do Quênia. Ele foi ministro, embaixador na Inglaterra. Obama viveu a discriminação pela cor da sua pele, mas não tem aquele ressentimento de quem passou a vida em um gueto, pelo contrário. Obama é um cosmopolita.

JC - Recentemente o ex-secretário de Estado dos EUA Colin Powell disse que alguém se declarar muçulmano no país é quase como dizer que tem antecedentes criminais. As raízes muçulmanas de Barack Hussein Obama influem de alguma forma?
Vizentini - Não. Nós já passamos pelo processo eleitoral, isso foi levantado. A biografia dele mostra um homem na verdade agnóstico. As pessoas já têm uma reação condicionada e é complicado. Mas onde a sociedade norte-americana chegou com essa situação? Em um beco sem saída. A ponto de as pessoas se retirarem dos EUA, não irem mais estudar no país. Houve um cerceamento à liberdade de pensamento nos EUA nos últimos oito anos e as pessoas mais arejadas se sentiam mal. Milhares de norte-americanos deixaram o país. Também é um problema o grande nível de expectativa que existe. Nunca houve nos EUA uma manifestação desse tamanho. O próprio presidente Bush adotou uma postura muito cordial. Ele reconhece, de certa forma, o estrago que deixou.

JC - E uma pessoa só é capaz de corresponder a uma expectativa desse tamanho?
Vizentini - É difícil. Ele não é o super-homem. Obama vai ter que lidar com um país muito complexo e cheio de problemas. Agora, continuar como está, não dá mais.

Um comentário:

Kauê disse...

não li a entrevista inteira, mas é claro que o Obama é o Super-Homem, afinal ele já declarou publicamente que foi enviado de Krypton por seu pai Jor-El

by the way... http://kaue9.blogspot.com