21.12.08

Duas da manhã

"Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa a emancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo num incerteza tacteante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encantamento dos bares, não é?, consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terrestre e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas brancas das mortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e inicia uma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorso da aurora, quando a primeira luz oblíqua no revela, com implacabilidade radioscópica, o triste esqueleto da solidão sem remédio. Se nos observarmos bem, aliás, podemos principiar a entrever já o perfil dos nossos ossos, que as vírgulas das olheiras e o acento circunflexo da boca disfarçam de sorrisos melancólicos de que pendem restos murchos de ironia idênticos ao braço inerte de um ferido."

Os Cus de Judas, António Lobo Antunes

* Descobri há pouco esse luso que, dizem às más línguas, deveria ter ganho o nobel no lugar do Saramago, que teria levado o prêmio mais pelo choque de mostrar Jesus adolescente que pelo valor da obra. Fã de Saramago que sou, decidi conhecer o desafeto do mestre. Os parágrafos longos e com dezenas de idéias entrelaçadas lembram bastante o Zé, e, junto com observações anteriores da BBC África, me fizeram teorizar que isso deve ser coisa de português mesmo. Anyway, com vocês um trecho de "os Cús do Judas", a obra mais famosa do Lobo Antunes (escolhi uma parte mais lírica, mas despúes posto um trecho que trata diretamente da guerra de Angola).

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