24.12.08

One missing word sowed the seeds of catastrophe

Segue um artigo de Robert Fisk, corresponde internacional para o Oriente Médio do jornal The Independent, de Londres. A tradução é de Caia Fittipaldi e encontrei ele lá no blog Vi o mundo. Não sei se o tal tu To foi omitido propositacionalmente ou não, mas fiquei com vontade de ver os relatórios da convenção.

Uma palavra apagada: a semente da catástrofe

Robert Fisk, 20/12/2008 tradução de Caia Fittipaldi

Essa semana, eu e minhas manias. Dado que todos estamos rememorando os direitos humanos, pensei nos palestinos, que os têm tão preciosos e poucos, e nos israelenses, que vivem em orgia de direitos humanos.

E Lord Blair, que semana que vem comungará com Deus, bem poderia pensar que até hoje – que vergonha – não visitou a Faixa de Gaza. Mas estou maníaco, mesmo, é com a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, mania já antiga. Essa resolução, vocês lembram, deveria orientar todos os esforços seguintes de paz no Oriente Médio; Oslo deveria ter-se baseado nos termos dessa resolução e todos e quaisquer processos, cúpulas, conferências e mapas dos caminhos.

Foi aprovada em novembro de 1967, depois que Israel ocupou Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Leste, o Sinai e Golan. A resolução 242 declarou "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra" e ordenou "a retirada das forças armadas de Israel, de territórios ocupados no recente conflito".

Leitores que conheçam o problema, tenham paciência com os que logo perceberão do que se trata. Os israelenses dizem que não são obrigados a retirarem-se de todos os territórios – porque a palavra "todos" não está escrita e porque lá se lê "de territórios", não "dos territórios"; falta o artigo definido "os". Por isso, lá estaria escrito que é direito de Israel decidir que pedaços devolve e que pedaços não devolve.

Assim sendo, Israel pode dizer que devolve o Sinai nos termos da 242, mas não devolve Jerusalém Leste e conserva para seus colonos boa parte da Cisjordânia. Golan depende de negociação com a Síria. E Gaza? Bom, a 242 não proíbe que Israel mantenha aprisionados meio milhão de civis porque elegeram o partido errado.

Ninguém, em 1967, supunha que o conflito entre árabes e israelenses ainda estivesse em furiosa progressão, 41 anos depois. E, como lembrou há alguns anos um leitor do Independent, "é evidente que o Conselho de Segurança da ONU não planejou omitir um artigo definido, só para criar um pretexto para que Israel não saísse da Cisjordânia." Pois é. Infelizmente, nosso leitor errou.

Examinando meus arquivos sobre a Resolução 242, encontrei um documento muito elucidativo, assinado por John McHugo, professor visitante do Scottish Centre for International Law, na Universidade de Edinburgh. McHugo escreveu que "advogados pró-Israel têm dito, repetidas vezes, há anos, que "a Resolução 242 exige claramente a retirada "de territórios", não a retirada "de todos os territórios". As palavras foram cuidadosamente, deliberadamente escolhidas, para que só se discutisse a retirada de alguns territórios, nunca a retirada de todos os territórios."

McHugo é, que eu saiba, o único homem que está re-examinando as atas reais dos debates na ONU, sobre a 242 – coisa tristíssima de ler. Nas versões em francês e em espanhol, realmente há o artigo definido. Mas os ingleses – ao que parece, orientados pela mão pesada dos norte-americanos – omitiram o "os" (ing. the). Lord Caradon, nosso homem na ONU, insistiu para que se inserisse a frase que declara "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra", para impedir que Israel se pusesse a escolher os pedaços de terra que lhe interessasse devolver. Os ingleses aceitaram que a Jordânia controlasse a Cisjordânia – a OLP, naquele tempo, era a organização super-terrorista da hora – mas de nada adiantou. Abba Eban, o homem de Israel naquela negociação, fez o diabo para persuadir Caradon a apagar tanto o "os" quanto a parte sobre a "a inadmissibilidade de se adquirirem territórios mediante guerra". Venceu a primeira batalha. Perdeu a segunda.

O grande estadista norte-americano George Ball teria de recontar como, quando os árabes negociavam a resolução 242, no início de novembro de 1967 – no Waldorf Astoria (esses caras sabiam escolher hotel para construir traições políticas!) –, o embaixador dos EUA na ONU, Arthur Goldberg, contou ao Rei Hussein que os EUA não garantiam "que Israel devolverá tudo". Os árabes não confiaram em Goldberg, porque era conhecido por suas posições pró-sionismo, mas Hussein sentiu-se mais seguro, quando o secretário de Estado norte-americano, Dean Rusk, garantiu-lhe, em Washington, que os EUA "desaprovam que Israel mantenha para si a Cisjordânia". Hussein sentiu-se ainda mais seguro quando se encontrou com o Presidente Johnson, que lhe disse que Israel se retiraria "num prazo de seis meses". E sentiu-se ainda mais seguro quando Goldberg lhe disse "Fique sossegado. [Os israelenses] Estão embarcando." Quá-quá-quá.

O que intriga é que várias nações, na ONU, incomodaram-se com a ausência daquele "os". O delegado indiano, por exemplo, chamou atenção para o fato de que a resolução referia-se a "todos os territórios" – repito: todos os territórios – ocupados por Israel..." e a URSS (especialista em ocupar países dos outros) declarou que "entendemos que a decisão refere-se à retirada das forças de Israel de todos, e repetimos, de todos os territórios de Estados árabes ocupados por Israel...". O Presidente Johnson não deu conversa aos sovietes e ostensivamente se recusou a inserir aquele "todos os" na resolução. A Bulgária, como seria de esperar, disse o que disseram os soviéticos. O Brasil manifestou reservas – com muita razão – sobre "a clareza do texto escrito". Os argentinos "prefeririam um texto mais claro". Em outras palavras, muitos viram, a tempo, a tragédia que viria. Mas nada fizemos.

Os norte-americanos já tinham tudo alinhavado e os ingleses deixamos andar. Os árabes não estavam satisfeitos, mas tolamente – e tipicamente – confiaram no que Caradon lhes disse, que a 242 referia-se a "todos os" territórios... mesmo que não se referisse. Israel ainda lutou muito para livrar-se também da "inadmissibilidade", mesmo depois de já ter conseguido extrair o "os".

Santo deus! Assim se semearam as sementes da catástrofe que viria, como veio. Bom, Colin Powell, quando secretário de Estado de George W Bush, recomendou covardemente aos diplomatas dos EUA que dissessem sempre "Cisjordânia disputada", em vez de "Cisjordânia ocupada" – o que foi como açúcar no mamão para Israel, como observa McHugo, porque Israel passou a chamar de "disputados" também os territórios não incluídos na partilha original determinada pela ONU. Além disso, a carta infame de George W a Ariel Sharon, em que diz que Israel poderia, de fato, continuar ocupando grandes áreas da Cisjordânia, foi o arremate, no golpe iniciado por Johnson.

McHugo acrescenta, com ironia, que placas de parque em que se leia "Cães devem ser mantidos em coleiras, em áreas próximas de lagos" valem para "todos" os cães e "todos" os lagos. Atualmente, Israel usa muros para afastar animais perigosos. Como os palestinos.

* "Robert Fisk's World: One missing word sowed the seeds of catastrophe", © The Independent, UK, 20/12/2008, em http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-one-missing-word-sowed-the-seeds-of-catastrophe-1205017.html

Nenhum comentário: