31.1.08

"Para Secretário de Justiça dos EUA, afogamento simulado não é tortura"

"Autoridade diz que prática não pode ser barrada pela proibição à tortura. Michael Mukasey revelou que a CIA 'atualmente' não usa mais essa técnica.

O secretário de Justiça dos Estados Unidos, Michael Mukasey, recusou-se ontem a definir como tortura o "waterboarding", ou asfixia simulada, mas admitiu que se fosse submetido a essa técnica de interrogatório a "sentiria" como tortura."

(Noticiário do G1)


Jura?

30.1.08

Venezuela, ainda

ou resposta à Ju

Já posso até imaginar o que um amigo-leitor-assinante-que-passa-por-aqui-de-vez-enquando vai pensar ao ver esse título: Venezuela de novo, blarg! Ao contrário do que possa parecer, não sou um disco riscado. Só tenho tido um contato com Caracas maior que o habitual... Pois bem, mandei a entrevista com a Marisela para uma amiga, que, pff, tri sem graça, está vivendo a vida em alemão do outro lado do Atlântico, e ela me disse que no fim das contas, ainda não tinha entendido o que era essa tal de revolução bolivariana que tanto aparece por aí.
Pois é, Ju. A tal da revolução bolivariana é mesmo um negócio bizarro. Eu não sei se entendi direito, mas pra mim consiste nesse chutar o balde que o Chávez perpetuou ao entrar no governo. Digamos assim, seria parecido com o que boa parte dos brasileiros esperava que o Lula fizesse em 2000 e lá vai pedrada. Sabe, todas aquelas reformas utópicas e sonhadas desde sempre (agrária, política, educacional e agrária de novo...) que se realizadas mexeriam com a estrutura e o status quo do país. Ele fez. Por isso essa gritaria do pessoal que sempre teve dinheiro (cerca de 30% da população rica, branca e educada em miami), com medo do que pode acontecer e está acontecendo - a tomada de consciência das camadas baixas.
Falando assim me sinto alta defensora do Chávez, mas a verdade é que não sei direito o que pensar da Venezuela. O cara me assusta por ter esse apoio imenso, ser populista e ter origem militar. Aquele não em dezembro foi um baita alívio - fez ele perceber que nem sempre o que ele quiser vai acontecer. Por outro, a população melhorou e o cara fez o que é raro aqui nestas bandas latinas - encarou a elite e ficou do lado dos desfavorecidos, não do doláres. O que é claro, torna ele uma puta ameaça a "democracia" e por aí vai.
S'as todas aquelas coisas que todo mundo concorda que deveriam ser feitas, coisas bobas, tipo acabar com a fome, mas que a maior parte do pessoal acha que já é tarde para consertar? Não digo que lá as coisas lá estão perfeitas, bem longe disso. O negócio é que as pessoas - e por pessoas falo de todo aquele povo que não faz parte dos esclarecidos nem fica em casa tecendo ensaios - perceberam que essas coisas não apenas deviam ser mudadas, elas podiam ser. E pra mim essa é a tal da revolução, a mudança no pensamento. A fé transformada em ação.

29.1.08

Cowabanga




Adivinha quem está de volta. E agora com a participação do excelentíssimo sr. Surfista Prateado, vulgo Natush.

P.S. Fui procurar o desenho no google imagens. Sabe qual era o link para as tartarugas aí encima? Yep babe, cowabanga.wordpress.com.

23.1.08

Funciona assim. Uma hora você escreve sobre a Venezuela outra sobre os EUA, para ficar justo - e justo no texto sobre os yankes consegue aquilo que nem estava mais tentanto: assinar.
A matéria (post abaixo) foi publicada na segunda-feira. Pode não ser nada revolucionário, mas a meu ver é um tema interessante - as tais das prévias norte-americanas. Interessante quando explicado, cansei de ver manchetes de venceu A, venceu B, a vitória de C embananou tudo.
Eu não ia colocar ela aqui com medo de ser chata, mas quer saber? E daí. A informação no jornal pode durar mais que na TV ou no rádio, mas cedo ou tarde todo aquele esforço vira embrulho de peixe ou banheiro de cachorro. E eu quero mais é que o texto seja lido, relido e quem sabe até lembrado. Sem contar que aquele Paula Bianca Bianchi logo abaixo do título ficou tri bem impresso...

* Dessa vez não tem material sobrando, só na parte de Como funciona o processo eleitoral - já que em blogs o espaço é ad-infinitum coloquei todo o bloquinho. Como sabia que o limite era 7 mil caracteres me segurei, tenho muito chão até conseguir ser sucinta e tratar de tudo. Faltou falar de uma penca de candidatos, mas acho que assim já da pra ter uma idéia. Se alguém tiver alguma dúvida é só perguntar, estou razoavelmente inteirada no assunto.

** No original o título ficou como Norte-americanos rumo a superterça porque, pasmem, sobrou muito espaço (o Super Terça tudo junto foi a revisora que fez questã, eu discordo).

*** Não, eu não pretendo colocar todas as matérias que eu fizer aqui - só as primeiras oficiais. ;)

Rumo a Super Terça

Pré-candidatos buscam conquistar os últimos votos antes das primárias do dia 5 de fevereiro

especial, Paula Bianca Bianchi

(Jornal do Comércio, 21/01/2008)

No dia 4 de novembro, os norte-americanos vão às urnas para escolher quem será o substituto do controverso presidente George W. Bush. Após quase oito anos de governo, o republicano deixa ao seu sucessor o envolvimento com a guerra do Iraque, a tensão relacionada ao Irã, o resultado incerto da conferência de Annapolis e uma série de problemas internos, como a pressão para realizar reformas nas áreas da imigração e da saúde pública e o forte risco de recessão econômica.
Além disso, o próximo presidente dos EUA deverá lidar com a imagem internacional negativa do país, impulsionada pelos cinco anos de conflito no Oriente Médio e pela recusa do protocolo de Kyoto. Para Ricardo Seitenfus, consultor da ONU e professor de Direito Internacional da UFSM, a eleição desse ano "está caindo de madura para o partido democrata", tanto pela tradicional alternância entre os partidos, quanto pelo desgaste da atual administração. "Esta eleição está toda preparada para um candidato democrata."
No momento, os pré-candidatos dos dois partidos estão correndo atrás do eleitorado, e nada melhor para angariar recursos e firmar uma candidatura do que ganhar as primárias do dia 5 de fevereiro, mais conhecidas como superterça. Após as prévias de Iowa, New Hampshire, Michigan, Carolina do Sul, Flórida e Nevada é a vez de 20 estados, entre eles pesos pesados como Nova Iorque, Califórnia e New Jersey, elegerem os seus representantes. No complexo sistema eleitoral norte-americano as primárias são quase tão importantes quanto a eleição, pois definem qual candidato tem mais chances de chegar à Casa Branca.
Do lado democrata, a ex-primeira-dama e senadora por Nova Iorque, Hillary Clinton, enfrenta a crescente popularidade do também senador Barack Obama. Conforme Seitenfus, o risco é grande para o partido. "Pela primeira vez há chances de a presidência ser ocupada por um negro ou por uma mulher."
"Hillary representa o continuísmo da administração Clinton", explica o professor, "ela está diante do grande desafio político da vida dela". A senadora conta também com o maior fundo de campanha entre os democratas e com uma experiente equipe de assessores. Além disso, Hillary é de longe a candidata mais conhecida, graças aos oito anos que passou ao lado do marido Bill Clinton na Casa Branca. Ela espera situar-se no centro do espectro político e alega ter mais experiência do que o principal rival, Obama, que rebate argumentando que ter sido primeira-dama não é currículo. Para Seitenfus, "Hillary fez algo estranho para uma democrata ao votar a favor da guerra do Iraque".
Já o lema de Obama é a mudança. Filho de pai queniano e de mãe branca do Kansas ele é dotado de um forte carisma e ganhou destaque na convenção democrata de 2000, graças a um discurso que entusiasmou aos delegados. "Ele tem uma presença muito forte junto à juventude", ressalta o professor. O senador, que votou contra a guerra do Iraque, iniciou oficialmente sua campanha em fevereiro do ano passado dizendo que as tropas norte-americanas precisam se retirar do país até março de 2008. Os críticos reclamam do seu pouco tempo de senado; até a eleição ele terá completado apenas quatro anos de mandato.
Entre os candidatos republicanos os nomes são muitos, mas para o professor Seitenfus o único com alguma chance é o senador John MacCain, "apesar de a sua idade ser um grande empecilho". Herói da guerra do Vietnã, ele é uma figura conhecida em Washington. O republicano foi o responsável por medidas importantes contra a tortura e a favor de maior transparência no financiamento das campanhas. Popular entre os democratas graças à sua rusga com Bush, para quem perdeu as prévias de 2004, ele também defende idéias conservadoras, como a manutenção das tropas no Iraque.
Correndo por fora, o também republicano Rudolph Giuliani, o "prefeito da América" - apelido que ganhou após o 11 de Setembro -, espera o momento certo de entrar na campanha e guarda suas forças para investir nos estados com mais delegados, como a Flórida. A estratégia parece estar funcionando, já que seu nome aparece em alta nas pesquisas nacionais. Ele focou sua plataforma na necessidade de um projeto firme contra o terrorismo. No entanto, a base conservadora do partido o condena por suas posições a favor dos homossexuais e pelo direito ao aborto.
De qualquer forma, se o resultado das últimas prévias - Carolina do Sul e Nevada - não serviu para apontar qual será o candidato de cada partido para as eleições de novembro, ele foi suficiente para confirmar o que os analistas políticos dizem há tempos: essa vai ser uma disputa acirrada. Cabe aguardar, já que até o dia 5 de fevereiro muita coisa pode acontecer.

Como funciona o processo eleitoral

O processo começa com as escolhas dos candidatos que vão concorrer às eleições. Eleitores em cada um dos 50 estados norte-americanos elegem delegados partidários que, na maioria dos casos, prometeram apoiar um determinado candidato. Para escolher os delegados, alguns estados usam uma prévia, ou caucus - um sistema de reuniões políticas -, ao invés de uma primária, que é uma votação por meio de cédula.
Esses delegados participam da convenção nacional do partido, no meio do ano - quanto maior o estado, maior o número de delegados. Via de regra, nesse estágio já se sabe quem ganhou. O candidato com o maior número de delegados será indicado para concorrer à presidência por seu partido e escolhe, geralmente entre os postulantes que perderam, o seu vice de chapa.
Tecnicamente, os eleitores não participam de uma eleição direta do presidente. Eles escolhem representantes que compõem o Colégio Eleitoral e se comprometem em apoiar certo candidato. São eles que elegem o governante. Na maioria dos estados, o vencedor do voto popular leva todos os votos do colégio eleitoral daquele local, mesmo que tenha ganhado por uma margem muito pequena.
Dessa forma, pode acontecer de um candidato acabar com mais votos no Colégio Eleitoral do que seu rival, mas com uma parcela nacional menor do voto popular, caso da primeira eleição de Bush.
Como assim o Heath Ledger morreu? Recém ele tava cantando You are just good to be true com aquele cabelo horrível em Dez coisas que eu odeio em você!

22.1.08

Anistia

ou Como escrever escrever 34 vezes em um texto

Deixa eu escrever aqui para ver se consigo cumprir ao menos um dos compromissos que assumi comigo mesma e parar de olhar de forma culpada para a tela do computador do meu quarto. Sa´s ter muita vontade de escrever mas não ter vontade de sentar e escrever? Tem um mundo ululante lá fora, cheio de coisas acontecendo e eu já não consigo parar com calma aqui na frente sem achar que podia/devia estar lá.
Semana passada encontrei um professor que eu respeito muito. Entre vários conselhos repetidos (ele é meio esquecido) e as conversas jornalísticas tradicionais ele disse que eu TINHA que ter um blog e escrever TODO dia. Na hora só fiz uma cara de pois é, nem falei do palim, apontei o blog de uns colegas que fazem um trabalho bacana de análise da mídia e desconversei, "todos tínhamos professor, todos tínhamos".
Meu problema com essa história de escrever todos os dias é justo o escrever, o que me leva a algumas reflexões de Domingo na redenção e a um antigo chacoalhão de outra baita professora. Não escrevo bem (e com isso não quero um "ah, tu escreve bem sim querida"), tenho plena consciência disso e é uma coisa que me angustia. Escrever, jornalismo, jornalismo, escrever - querendo ou não, só uma apuração bem feita não basta. O texto bom chama pra página, garente o leitor até o final e sim, dá aquele orgulho danado.
Para moi, escrever é um parto. Eu fico obcecada, tensa, sonho com os textos e, costumeiramente, não consigo nem ver o resultado depois sem achar ao menos 512 errins. Não consigo escrever qualquer bobagem, nem aqui. Quer dizer, consigo, mas depois eu fico me sentindo mal e com vontade de apagar tudo - dai vem esses hiatos de posts (ou então gosto demais da última colocação e acho que qualquer coisa que vier depois é um insulto).
Tá, e o que isso tem com escrever todos os dias NO blog - fora que fazer jornalismo só pode ser uma ato de masoquismo da minha parte -, reflexões de domingo e blá, blá, blá wiska sachê? Simples. Escrever é prática. É um bocado de inspiração, um tanto de dom e mais uma montanha de suor - e noites mal-dormidas, no meu caso. E como eu vou praticar se o meu excesso de superego não deixa (genial essa do excesso de superego, li em algum lugar desta vasta web que nos rodeia. (Quantas coisas não deixamos de fazer por excesso de superego?))?
A long time ago fui conversar com a tal baita professora sobre essa minha síndrome de escritora de manual de aspirador e ao invés da mão na cabeça, que na época eu queria, ela me disse justo isso: então vai escrever (de uma forma bem menos doce e sutil do que você veio a ler essa frase mentalmente). O Saramago escreve duas páginas de word por dia, TODOS os dias (e o cara treinou pra c%¨&*, já que a obra prima dele saiu só depois dos 50). O Gárcia Marquez passa ao menos cinco horas sentadinho digitando pra quê? Para não enferrujar!
E cá estou, outra vez mais longe do que pretendia e sem um fim decente ou satisfatório. O texto foge, ele não é obediente e não aparece só na hora que precisamos dele (no momento ele se teletransportou para outra dimensão). O que me leva a crer que escrever é, ora, pois, contudo, entretando, apesar dos pesares e dos sofrimetos, prática. Posto que um blog não é uma obra fechada, mas um conjunto de fragmentos supostamente auto-suficientes - como reafirmou a tarde de domingo na redenção - eu deveria poder escrever bobagens e não me sentir mal por elas.
Sendo assim, vou escrever. Tentar. Nem que seja para dar continuidade ao mar de bobagens tradicional, por mais que não saia, como já diz a barrinha lá no topo e o título do finado, nada de muito interessante.

20.1.08

18.1.08

"Isso não é um ensaio geral, senhores, isso é a vida."

Maitena
Recomendo o Jornal do Comércio de Porto Alegre, página 19 (ou 20) do dia 21 de janeiro de 2008 (segunda-feira).
Porque o jornal que você lê hoje é feito das notícias de ontem, às vezes até de ante-ante-ante-ontem.

5.1.08

Para quem não leu a página 20

Esse texto foi publicado originalmente no Jornal do Comércio de Porto Alegre no dia 3 de janeiro de 2008. A versão integral tem cerca de 17 mil caracteres (quem quiser ler me avisa que eu passo por e-mail) e a matéria editada terminou com 7 mil caracteres ou três páginas de word – um assassinato, mas ainda assim muito mais que o normal para um jornal diário. O texto acabou menor devido ao distanciamento do fato (boa parte das perguntas trata do pós-referendo) e da falta de espaço (a editoria de Internacional só tem 2 páginas).
Divagando um pouco, ninguém tem paciência e garra suficientes para mudar o mundo e ir contra o sistema todos os dias - a tal da dead line é tão assassina quanto a falta de espaço. Por isso é legal ter a oportunidade de mostrar uma versão diferente da corrente na mídia tradicional – e publicá-la na tal mídia tradicional - e deixar ao menos uma pulga atrás da orelha dos leitores. Bem, julguem vocês, eu já tinha ficado feliz só de ter conversado com a Marisela.




Nos últimos anos, a Venezuela tem sido assunto recorrente nas manchetes dos jornais. Grande parte dessa notoriedade se deve as posições políticas e econômicas do seu presidente, Hugo Chávez. Eleito em 2002, ele instaurou a chamada Revolução Bolivariana. O projeto, baseado nas idéias do revolucionário Simon Bolívar, causa polêmica e envolve todos os segmentos da sociedade.
Apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, o país, que tem 26 milhões de habitantes e 912.050 km², o equivalente a um nono do Brasil, sofre com a grande desigualdade social. Apenas uma pequena parte da população concentra toda a riqueza nacional.
A jornalista venezuelana Marisela Capriles Vergara, formada pela Faculdade de Comunicação da UFRGS, trabalha na emissora de televisão estatal Telesur (www.telesurtv.net) e há 18 anos acompanha de perto a situação na Venezuela. Ela conversou com o Jornal do Comércio sobre a relação do país com o Brasil, a situação política e o governo do presidente Chávez.


Jornal do Comércio - O jornalista Richard Gott, no livro In the shadow of the liberator: The impact of Hugo Chávez on Venezuela and Latin America, diz que "A Venezuela é um misto, geograficamente, do Brasil com as Ilhas do Caribe". Quais as semelhanças entre o Brasil e a Venezuela?
Marisela Capriles Vergara - Semelhanças têm muitas, principalmente no fato de serem países do mundo "em desenvolvimento", que é um eufemismo utilizado pelos acadêmicos para meter tudo no mesmo saco.
Quer dizer, são parecidos nas contradições, nas diferenças enormes entre um bairro e outro das suas cidades, na pobreza que convive com a riqueza, na cor da pele das pessoas, na música, que é fruto de toda a mistura cultural, até naquele "jeitinho" latino, que é a malandragem, o humor. Inclusive, compartilham o destino de serem terras exóticas, com paisagens de cartão postal, riquezas culinárias, artesanato, enfim.
No entanto, é obvio que existem diferenças imensas entre o Brasil e a Venezuela, diferenças que vêm dadas pela história, pelo fator cultural e pelo simples fato do Brasil ter 9 vezes o tamanho da Venezuela. Apesar disso, os venezuelanos se identificam com o Brasil, adoram sua alegria, respeitam o orgulho que os brasileiros sentem por seu país e adoram o futebol brasileiro, a música brasileira.
Sentem o Brasil como irmão latino americano. Também respeitam o Lula, tanto os "chavistas" como os "não – chavistas", porque ele é visto como sinônimo de moderação e diplomacia eficiente, sem perder o seu norte político e as suas convicções. E isto, a mim, parece-me muito interessante, se pensarmos nas divisões tão grandes no pensamento político dos venezuelanos.

JC - Como é vista a relação com o Brasil e a entrada no Mercosul?
Marisela - Neste ponto acho que não é possível dar uma aproximação "geral" do que pensam os venezuelanos. Isso porque, nas questões políticas, a polarização atual faz com que as pessoas pensem mais com o intestino que com a cabeça. Provavelmente a maioria acha que é um grande negócio, porque acredita na idéia da integração para fortalecer a região, acredita nos mercados regionais e aposta na aliança entre as grandes economias do sul. Eu estou nesse grupo de pessoas. Acho que pode ser uma parceria assaz interessante.
Outra parte (a mais radical) acha que é "frescura" do Chávez, que o país não devia ter saído da Comunidade Andina das Nações (CAN), que é seu "espaço natural", e tem medo que o Brasil, com sua enorme produção de tudo o que é coisa, vá prejudicar a precária indústria venezuelana. A Venezuela produz algumas coisas para exportar –como atum, café e cacau- mas, no geral, só consegue fornecer o consumo nacional e às vezes nem isso. O grupo "contra" diz que o Brasil é "expansionista", "imperialista" e coisas do estilo. Tem medo de o país ser engolido.
Eu acho que, de fato, pode acontecer um efeito negativo com o ingresso massivo de produtos brasileiros, mas acho que não será tão apocalíptico.

JC - O ex-ministro de Defesa, Raul Isaías Baduel, declarou que há "Duas Venezuelas". Pode-se notar uma divisão entre a população?
Marisela - É Claro. É o que falei antes. A polarização é uma verdade, infelizmente.
Quanto o Baduel, ele não é nenhum gênio por ter descoberto a água morna. Ele é um oportunista a mais na parada, à procura de lucrar politicamente com a sua já esperada mudança de bando (o "chavismo" é uma mistura heterogênea de muita coisa, incluídos muitos camaleões). Eu sempre considerei o Baduel um militar de direita disfarçado. O que o uniu ao chavismo foi sua amizade pessoal de muitos anos com o Chávez, não suas coincidências ideológicas. Isso foi circunstancial. E ele não representa todas as forças militares.

JC - O que é a "Revolução bolivariana", a população está ciente do seu significado?
Marisela - Acho que não existe uma população mais ciente desse conceito em todo o planeta Terra. Pensar o contrário é um erro comum, produto da informação tendenciosa da imprensa internacional, que só reflete a visão de que o Chávez é um ditador e que tudo o que acontece na Venezuela é imposto. Esta é uma visão forjada pelos que votaram contra o Chávez e perderam, e depois saíram para dizer ao mundo inteiro que a eleição foi roubada.
São os meios de comunicação, todos da oposição, que fazem a campanha frenética e permanente para derrubar o governo. São eles os que não aceitam opiniões diferentes (sei em carne própria, pois nunca falei de política e me obrigaram a falar, a tomar partido).
Para nós (jornalistas) isto é, honestamente, um saco! A revolução bolivariana, como é vista de fora, parece uma loucura, uma invenção, um anacronismo. Mas não é nada disso. Eu acho, sinceramente, que não tem precedente.
Não é marxismo, nem leninismo, nem castro-comunismo. É uma coisa muito particular, séria e gozada, teimosa e caótica, folclórica e única no mundo, produto do momento histórico do país. É um movimento político heterogêneo, com facções moderadas e outras radicais, uma imensa aliança de pessoas que nunca militaram em nada, muita gente jovem, com políticos de esquerda que nunca tinham tomado o poder e com alguns militares.

JC – Quais os problemas da revolução?
Marisela - O maior ponto "fraco" da revolução (e digo fraco porque é, justamente, o que se questiona) é que surgiu em torno de uma pessoa, que é um líder personalista, um pessoa com um temperamento forte e egocêntrico, um ex-militar.
A crise econômica que viveu a Venezuela na década de 90 não tem justificação nenhuma, foi produto da má administração. Os partidos liderados por dinossauros políticos levaram o país para o brejo e entregaram as riquezas às multinacionais. Foi por isso que o Chávez ganhou tantas eleições e referendos. Eu vi as filas de gente votando no revogatório de 2004, e eram quarteirões de gente descendo do morro e se perdendo longe na avenida, fazendo filas de 6 e 8 horas para votar.

JC - Quais as mudanças mais marcantes no país desde que o presidente Hugo Chávez assumiu?
Marisela - A chegada do Chávez ao poder foi um fenômeno social que marcou o país. A polarização foi um efeito importante, mas não veio na hora. Passaram-se um par de anos antes que a Venezuela começasse a se rachar em duas partes.
Acho que as mudanças importantes aconteceram na parte social, nos ganhos para o país, nas políticas oficiais. A PDVSA não foi privatizada, quando o processo de privatização já estava caminhando e os negócios já estavam praticamente assinados. Acho que isso não é pouca coisa.
O que o Chávez significa para o povo, o povo venezuelano pode contar. São as "missões", um monte de programas sociais nunca vistos na história do país. A melhora de 180 graus no poder aquisitivo, no acesso aos produtos, à educação, à saúde. Isto também é uma verdade inquestionável. A grande maioria do povo está com o bolivarismo porque sente na pele a diferença entre o "antes" e o "agora". Sente no bolso, no prato de comida.
Também é verdade que há um monte de gente que não quer o Chávez, mas não é o povo. É a classe média, que não quer ser povo e que não está nem aí para o social porque suas metas são outras, são ascender socialmente e deixar de ser classe média.
E claro, os ricos, que chamam o presidente de "macaco", "caboclo maldito" e coisas assim. Muita gente odeia o Chávez à morte. Não é loucura quando o presidente ou os ministros denunciam planos golpistas.
Enquanto isso, no cenário internacional, a Venezuela deu um salto significativo: de ser um escuro fornecedor subdesenvolvido tornou-se uma potencia petroleira, um promotor de integração e o sócio estratégico que todos os vizinhos querem ter, digam o que disserem.
Foi o Chávez e suas políticas "Sul-Sul" que resgataram a Opep e ajudaram a recuperar essa aliança, que estava rompida, justo uns anos antes que o barril chegasse aos quase 100 dólares de hoje. Isso também não é pouca coisa.

JC - Como a população vê as mudanças na Constituição?
Marisela - Como eu já disse, a população venezuelana sempre votou a favor das reformas do Chávez. Desta vez, o processo era muito mais complexo e foi atropelado, pisoteado. Não se fizeram as coisas como devia. Eu conversei com muitas pessoas, chavistas, pessoas não-militantes, que preferiram ficar em casa e não votar, para não ir contra o Chávez. Quer dizer, o povo quer o Chávez, mas não quis essa reforma, do jeito como foi apresentada.

JC - A vitória do não muda alguma coisa?
Marisela - É claro. Muda bastante. A democracia sai fortalecida. Apesar da teimosia de alguns em insistir que o resultado foi deturpado, isso deu um respiro à oposição, fragmentada, dividida e desnorteada, e abriu-lhe possibilidades para se reorganizar, para rever seus objetivos além das intentonas golpistas e dos berros histéricos na rua. Agora vão ter que refletir e buscar fazer política de verdade, com seriedade.

2.1.08

Recomendo a página 20 do Jornal do Comércio do dia 03/01/2008 (amanhã). ;)

Feliz ano Novo

Muda realmente alguma coisa do dia 1º para o dia 31?
Eu acho barbára essa história de ano novo. Não pelas simpatias (ih, certo que eu vou passar o ano todo sem dinheiro porque não usei uma calcinha amarela na virada), que até são divertidas ou pela festa (pudim de sorvete e lentilha, não no mesmo prato). Quantas pessoas não pularam com o pé direito as 7 ondas à meia noite e pouquinhos, ou jogaram champagne para trás ou suspiram/ repiraram aliviadas na mesma noite?
Gosto mesmo é do conceito. Tu pega, embala toda aquela vida velha e usada e resolve que as coisas que não deram certo nos últimos doze meses já não valem mais e ganha/ se permite uma nova chance.
Mudar não muda mas muda muito mesmo não mudando, manja?
Nessas épocas me pego pensando na vida e propondo anistias ao meu umbigo. Dois mil e sete foi um ano marcante, de coceira nos pés e mudanças. Também tive a oportunidade de conviver e conhecer pessoas muito bacanas, dessas com que a gente tem muito que aprender . Pensando agora, mudou quase tudo, das coisas bobas, como cafés-da-manhã e cortes de cabelo, às imensas e importantes, que talvez eu só consiga dimensionar direito daqui algum tempo. Só não mudou o essencial, esse é bom perceber que passa no ano sai ano continua ali.
Bem, já escrevi demais para quem sentou aqui apenas para desejar um feliz ano novo, isso significando uma vida velha, uma vida nova ou o diabo a quatro. O importante é que é uma vida. Quanto a 2008, só peço uma coisa; que venha.