21.10.09

Rumando contra a solitária vanguarda de nós mesmos

Tenho conversado bastante com Ana sobre a dificuldade que é "deixarmos de ser essa solitária vanguarda de nós mesmos" e partir para uma ação coletiva não-utópica de mudança da sociedade. Foi um pouco muito por causa disso que entrei no jornalismo, apesar da Fabico se esforçar em nos tornar seres niilistas, e me dói o vazio de ás vezes não saber nem por onde começar.
Esse ano flertei com o movimento estudantil, de comunicação e diversas outras formas coletivas de organização que me deram esperança e apontaram caminhos. Não caminhos fáceis, muito pelo contrário. Mas esse é um papo que não tenho gás pra explorar aqui, ao menos não enquanto não terminar a joça da mono.
Isso tudo, só pra introduzir esse poema do Thiago de Mello que acordou na minha cabeça essa manhã. Ele me dói tanto e é assim, tão bonito, explicando a parte que esse post prefere deixar pra uma mesa de bar por aí.

Para os que virão


Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

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