27.11.09

Sorte do orkut

If you're never scared or embarrassed or hurt, it means you never take any chances.

24.11.09

Manhê, eu tô no Terra TV

Com vocês, minha primeira matéria boliviana. Não é o bicho, mas é um começo.

23.11.09

Personas, versão sulmatogrossense

No Mato Grosso a coisa não foi tão prolixa assim. Também só passei um dia em Corumbá, uma noite pra ser mais exata. Como entre Sampa e a fronteira são belas 22 horas de bus e o trem só saia no outro dia decidi fazer uma para no Corumbá hostel. Acomodação de luxo pra quem tinha passado uma semana em São Paulo entre um quarto fuleiro no centro da cidade com pagode de baixo da janela todas as madrugadas e um quarto de seis camas compartilhado com mais três chilenos que sabiam tudo, menos falar português e ir dormir as quatro da manhã sem acender a luz, bater a porta e rir. Aqui vai uma nota contra o meu esquecimento dos chilenos. Uns amores. Eu tava no beliche de cima e o Léo não podia ver eu mencionar descer que já estendia a mão pra me ajudar. Eles fizeram tanta festa durante o tempo que estavam lá que o pobre Bóris acabou parando no hospital por desidratação...
Mas voltando ao hostel em Corumbá. Além do lugar ser um luxo - piscina e desayuno - estava completamente vazio! Quando a gente passa muito tempo numa cidade em que tem gente saindo pelos postes é estranho estar numa casa cheia de quartos com camas sem dono. Aproveitei pra dar umas braçadas e redimir um pouco do calor de quase quarenta graus que não tinha amenizado nem com a chuva que fez questão de cair na hora que eu cheguei e bater papo com a dona do lugar, outra coisa querida. Perto dos cinquenta, com o cabelo curto, baixinha, gordinha e com cara de mãezona o negócio dela era novela das sete, que ali passava as oito por causa da diferença de uma hora no fuso e a necessidade de manter esses degenerados do Manuel Carlos longe das criancinhas que ligam a TV antes das nove.

Enquanto charlavamos alegremente chegou o hóspede número dois, um senhor de uns cinqüenta e poucos anos que trabalha no Inep com quem eu divide uma enorme mesa de café da manhã com apenas duas xícaras na manhã seguinte. Ele tinha recém voltados da sua última visita a Amazônia, mais especificamente a Terra do Meio. Longe de fazer parte da saga de Tolkien, é aquela região entre rios extremamente disputada na pontinha do Pará. Te digo uma coisa. Fui sola pra região onde plantam coca e costumavam matar jornalistas aqui na Bolívia, mas não me atreveria a passar por esse pedação da Amazônia sem ao menos um fotógrafo de guarda-espalda. Ele contava que nas duas semanas que passou por lá medindo o desmatamento tiveram apenas dois assassinatos. Dois. Um cabra que mandou matar outro cabra e um marido que matou a mulher. Ambos ficaram sem solução, fim tradicional dos mortos do Faroeste que é bem o que é o norte brasileiro.
Fofocas a parte, ele conferia as imagens dos satélites que controlam o desmatamento na região. Parece que as imagens sozinhas não fornecem a situação real e precisam ser confirmadas em terra. Segundo ele essa história de que o desmatamento no Brasil diminuiu é balela. Ele aumentou e segue aumentando, principalmente no Pará e no Mato Grosso. O senhor disse também que foi por causa disso que a Marina caiu e que ela é um baita embuste. Não só fez vista grossa ao desmatamento como ajudou a desmantelar o sistema que protege a Amazônia. Um exemplo foi a divisão do Ibama e o suposto fortalecimento do Instituto Chico Mendes, que no fim ao invés de melhorar só bagunçou tudo.
Um fotógrafo de natureza que eu conheci em Santa Cruz e que entra nessa lista na parte boliviana confirmou isso e disse ainda que a política do governo tanto dos parques quanto de controle da Amazônia é desastrosa. Manhê, eu quero ir pra Amazônia!
No próximo post, personagens além das fronteiras bolivianas.

22.11.09

Nunca, nunca deixe de acreditar na mágica



Desde que cheguei na Bolívia tenho vontade de escrever sobre a mágica das coincidências que tem me acompanhado. Tem gente que chama de impulsividade suicida, eu de sorte e instinto. Se não fosse por isso, não teria nem saído de Porto Alegre city. Tenho feito as malas ao sabor do vento e pro lado que eu sinto que é certo ir e tem dado bem certo. Quer dizer, estava. Esses dias em La Paz parecia que a mágica havia partido pra outro lado o que me deixou bastante mal-humorada e desanimada.

Esta manhã jo estava em El Alto, uma cidade grudada em La Paz a merrequentos 4.200 metros de altitude. Procurava uma concentração do MAS que deveria receber o vice-presidente e após ter pego dois ônibus errados devido a informações mal-humoradas e mal passadas - os meus olhos claros tem me atrapalhado muito mais do que ajudado, passo fácil por alemã, americana, qualquer coisa longe da América Latina - caminhava pela calle me sentindo um restinho de gente quando um senhor me olhou e me deu uma rosa. Uma rosa, sabe? No meio do cinza, da poeira alta, dos carros passado, uma rosa vermelha cheirosa. Não quis aceitar, pensei que ele estivesse vendendo. Não estava. Simplesmente largou a rosa comigo, sorriu e seguiu caminhando.

Calma, a rosa não faz parte da mágica. Mas às vezes uma rosa ou um sorriso quando a gente está precisando sabe ser um sinal. No ônibus de volta eu pensava em que matéria poderia fazer, já que a ida a El Alto havia sido fracasso, e lembrei de uma senhora quem eu tinha conversado. Raramente simpática - as mulheres que vendem coisas nas ruas odeiam tanto turistas quanto e talvez principalmente máquinas fotográficas -, ela trabalha todos os dias, da amanhã à noite, vendendo panos na rua e assim sustenta a família. E assim se sustentam milhares de bolivianos. Uma caminhadinha e a gente já percebe isso. As ruas estão carregadas de mulheres em trajes típicos vendendo de tudo um pouco.

Desci do bus em qualquer lugar que fosse La Paz - afinal, "quando a gente não sabe pra onde ir o caminho não importa" - e segui caminhando por uma rua em que eu espera encontrar algum restaurante pra matar o meu desanimo com carboidratos. Estava meditando sobre a enorme quantidade de turistas com turista escrito na testa - pra quem não consegue acompanhar a descrição, imagine uma pessoa com um chapelão, a pele branca um pouco vermelha do sol e uma combinação descombinada de tênis, meias e bermudas-, quando encontrei a tal senhora. Mágica.

Da mesma forma que semana retrasada, quando estava perguntando o endereço do principal jornal de Santa Cruz a recepcionista do hotel buscando desesperada algum lugar por onde começar, acabei encontrando um fotógrado brasileiro, que me apresentou um escritor chileno, que me apresentadou um candidato a deputado boliviano, que me apresentou um dos candidatos a presidente. Da mesma forma que quando estava xingando deus e o mundo pelo taxista ter me dito a direção errada e me levado uma hora adentro do Chaparre, região de tropical onde o que a gente mais vê são bandeiras do MAS e plantas de coca - e por ainda por cima me largar numa beirinha de estrada pra tomar um taxi de volta encontrei um taxista que plantava coca. E que me mostrou a plantação. E por aí vai.

Às vezes são coincidências pequenas - rosas -, às vezes não. Do mesmo jeito que eu estava sentada neste café tentando conectar a internet sem sucesso há uma meia hora atrás. Pedi ajuda a um senhor sentando por perto com um lap top e acabei conseguindo o nome de três professores importantes de uma faculdade daqui pra conversar amanhã e também mais um amigo. Mágica.
Sabe, ela existe. Mesmo quando não acreditamos nela.

21.11.09

As pessoas do caminho

De toda a viagem até agora, o mais especial tem sido as pessoas que conheci pelo caminho. Ainda em São Paulo parei em um hostel bem bacana e em conta pros preços brasilenos. Gastar em bolivianos deixa a gente meio pão dura. Só de pensar que estava gastando 33 reais por noite por um quarto com seis camas meu bolso já morde. Isso são quase 116 bolivianos, o que vale um hotel se não de luxo bem caprichado por aqui!

De qualquer forma, no hotel começou oficialmente a minha coleção de pessoas bacanas pelo caminho. De cara conheci o Rámon, um brasileiro que trabalha no hostel e é fascinado pela Bolívia. Foi ele que me deu o toque de que em Sampa tem bairros tradicionalmente italianos virando tradicionalmente bolivianos. Caso do Brás e do Bexiga. O pessoal vem pra cá trabalhar em fábricas de costura pra ganhar em reais e em prestígio. O trabalho é semi-escravo mas como um real é o equivalente a 3,50 bolivianos, parece que compensa tamanha é a galera que continua vindo pra cá. No trem até Santa Cruz conheci uma menina que estava indo pra casa pela primeira vez em um ano de Brasil. Eles vem pra cá, ficam em uma espécie de gueto, não aprendem português e tudo que fazem é trabalhar pra remeter dinheiro pra casa. Eu sei, seu sei. Puta matéria. Mas não deu tempo de passar por lá pra checar. Quem sabe na volta...

Depois foi a vez do Nate, vocalista de uma banda australiana que tem aquele inglês meeega charmoso e um jeito de Cobain perdido. Parei pra ouvir um pouquinho do Faker e só pude expressar um BAH. Sabe quando um negócio é tão bom que te pega de surpresa? Também, quem é que espera encontrar um cantor super bom pelo caminho nessa mar de covers e música mais ou menos? Já na Bolívia conversei com um guarda-parque australiano e descobri que a banda do Nate é só a segunda mais escutada do país.

Se fizer alguma diferença pra alguém, o Nate é amigo do carinha do Silverchair - pra mim não faz muita, mas pra guria que trabalha na Onu que eu conheci fazia muito o que nos leva a próxima pessoa. A Carol. Como o mundo é um ovo, nós começamos a conversar e eu descobri que - antes dessa revelação favor lembrar que São Paulo tem 11 milhões de habitantes, o Rio Grande do Sul outros 9 milhões e Brasília, onde a moça mora, mais dois, ok? - é uma das melhores amigas do guri com quem divido apartamento em Porto Alegre city. Sim.

- Estudantes da UFRGS me perseguem. Um dos meus melhores amigos se formou lá. Quem sabe tu conheça. É Endrigo...
- Valadão (rosto de perplexidade²)?
- Isso! Conhece?
- Endrigo Valadão (rosto de perplexidade³)? Ahh, sim... Ele só MORA comigo.

Gostei da conclusão da Carol. "Minha mãe sempre me diz 'não faz merda que eu descubro'. Nesses momentos vejo que ela tem razão." Pra aumentar o grau de sabedoria da mãe da Carol, a caminho de Samaipata consegui tomar um táxi não só com um casal de brasileiros, como com um casal de brasileiros de Caxias do Sul! E um casal de brasileiros de Caxias do Sul de 24 anos, ou seja, nos cruzamos pelas festas do circuitos colégios metidinhos da cidade com certeza! E eles não encontravam nenhum tupiniquim a meses, quiça de Caxias!

Ainda no hostel, também conheci um fotógrafo belga que ahh... Pode por aí na lista com os suecos. Pena que não podia ir comigo pra Bolívia. Não que um peruano que estava por lá também não tivesse tentado convencer ele disso. By the way, esse era mais um caso a parte. Me fugiu o nome da figura, mas acho que a combinação peruano da Opus Dei divorciado de uma gaúcha por si só já diz bastante coisa.

Pra não tornar esse post uma Bíblia, vou fechar só com os paulistas com uma menção honrosa para o irlandês que estava no hostel com a mãe atrás de móveis pro filho fruto de uma one night stand que ia ter com uma também peruana que estava morando em sampa no momento.
E claro, a africana e o gaúcho de barba pintada. São pessoas incríveis hour concours, mas é bom deixar registrado.

Próximo post, Mato Grosso do Sul.

A chica, a coca e o Lapo


Estamos eu, o lapo, uma garrafinha de coca yanque e o estômago cheio de salchipapas (uma iguária vendida pelas calles que tem a genialidade de misturar salsicha picada com batata frita e pimenta. Altamente não-recomendada para viajantes - como as comidas vendidas nas ruas bolivianas em geral - mas por isso mesmo tremendamente desejável) prestes a ir onde nenhuma Paula Bianca foi antes. Escrever decentemente sobre a situação boliviana.
Desejem-me sorte. E confiança. Costumava ter galões dela, mas ultimamente não sei onde larguei eles.

P.S. Acabo de receber um mail da Dé dizendo que os pais dela estão preocupados comigo aqui. Agora temos quatro pais preocupado, mais três tias e alguns amigos. Só um bolivianos doido pra me fazer alguma coisa com tanta energia protetiva brasilena atrás de mim.

P.S.S. Eu vi uma plantação de coca, vocês não. Na na na na.

P.S.S.S. Eu queria fazer uma lista só das pessoas que eu conheci. Uma ex-hippie suiça de 60 e poucos anos, um fotógrafo brasileiro que mora numa casa de barro no meio da chapada dos guimarães, um ladrão colombiano que me pagou um almoço... Quer saber, vou fazer. Afinal, só tenho tudo o que vivi na Bolívia até agora pra descrever.

P.S.S.S.S Com todo o etnocentrismo do mundo e excluindo as saudades piegas - descobri que sou uma companhia muito boa e a sensação de estar só e nunca estar sozinha cresce cada vez mais - tudo que eu queria encontrar por aqui era uma padaria. Uminha que fosse. Não que falte pão. Tem por todas as esquinas. Duro e com cara de ontem. Falta pãaaao, sabe? Tá, talvez só os filhos de padeiros me entendam...

By the way, essa foto aí em cima és Bolívia.
"Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."

GGM

Bolívia cá estamos

Cheguei na Bolívia no dia 6 de novembro, após um tempinho em Sampa city tentando conseguir financiamento. Corri o país de trem, ônibus e táxi o que são experiências únicas se tratando de Bolívia - para ter uma idéia não só qualquer pessoa pode ter um táxi (só basta um adesivo no painel - o que me lembra, já peguei um táxi com 11 pessoas por aqui) como os ônibus param em qualquer lugar a qualquer momento e estão todos se lixando para coisas como sinaleiras e faixas de pedestres (imaginem o Douglas atravessando a rua, agora imaginem que todos são o Douglas atravessando a rua).
Cheguei há pouco em La Paz que é como estar em outro país dentro do mesmo país. A Bolívia é assim. Vários países dentro de outros países que às vezes nem se quer falam a mesma língua mas que buscam desesperadamente um futuro comum.
Como eu ia dizendo, entre Santa Cruz e La Paz há quase só diferenças. A primeira teve colonização jesuítica, uma relação pacífica com os espanhois e está numa parte quente e tropical do país - além de extremamente rica, diga-se de passagem. A segunda sofreu com a escravidão, a exploração e graças aos seus mais de 3,500 metros de altitude e frio constante pode ser chamada do Tibet da América do Sul.
Enquanto em Santa Cruz as pessoas no geral tem barriguinhas salientes e rostos redondos que lembram a ascendência guarani, em La Paz a maior parte da população é baixa e com as costas largas, fruto da adeptação milenar do corpo dos indígenas locais ao pouco oxigênio. São cambas e collas e essa divisão se reflete não só na forma como falam e se portam, mas na maneira como sentem o país.
E essa diferença de sentimento que move as eleições do dia 6. Exagerando um pouco, não deixa de ser a velha luta dos que nunca tiveram nada contra os que sempre tiveram tudo e cabe ao povo boliviano o papel de fiel da balança.