23.11.09

Personas, versão sulmatogrossense

No Mato Grosso a coisa não foi tão prolixa assim. Também só passei um dia em Corumbá, uma noite pra ser mais exata. Como entre Sampa e a fronteira são belas 22 horas de bus e o trem só saia no outro dia decidi fazer uma para no Corumbá hostel. Acomodação de luxo pra quem tinha passado uma semana em São Paulo entre um quarto fuleiro no centro da cidade com pagode de baixo da janela todas as madrugadas e um quarto de seis camas compartilhado com mais três chilenos que sabiam tudo, menos falar português e ir dormir as quatro da manhã sem acender a luz, bater a porta e rir. Aqui vai uma nota contra o meu esquecimento dos chilenos. Uns amores. Eu tava no beliche de cima e o Léo não podia ver eu mencionar descer que já estendia a mão pra me ajudar. Eles fizeram tanta festa durante o tempo que estavam lá que o pobre Bóris acabou parando no hospital por desidratação...
Mas voltando ao hostel em Corumbá. Além do lugar ser um luxo - piscina e desayuno - estava completamente vazio! Quando a gente passa muito tempo numa cidade em que tem gente saindo pelos postes é estranho estar numa casa cheia de quartos com camas sem dono. Aproveitei pra dar umas braçadas e redimir um pouco do calor de quase quarenta graus que não tinha amenizado nem com a chuva que fez questão de cair na hora que eu cheguei e bater papo com a dona do lugar, outra coisa querida. Perto dos cinquenta, com o cabelo curto, baixinha, gordinha e com cara de mãezona o negócio dela era novela das sete, que ali passava as oito por causa da diferença de uma hora no fuso e a necessidade de manter esses degenerados do Manuel Carlos longe das criancinhas que ligam a TV antes das nove.

Enquanto charlavamos alegremente chegou o hóspede número dois, um senhor de uns cinqüenta e poucos anos que trabalha no Inep com quem eu divide uma enorme mesa de café da manhã com apenas duas xícaras na manhã seguinte. Ele tinha recém voltados da sua última visita a Amazônia, mais especificamente a Terra do Meio. Longe de fazer parte da saga de Tolkien, é aquela região entre rios extremamente disputada na pontinha do Pará. Te digo uma coisa. Fui sola pra região onde plantam coca e costumavam matar jornalistas aqui na Bolívia, mas não me atreveria a passar por esse pedação da Amazônia sem ao menos um fotógrafo de guarda-espalda. Ele contava que nas duas semanas que passou por lá medindo o desmatamento tiveram apenas dois assassinatos. Dois. Um cabra que mandou matar outro cabra e um marido que matou a mulher. Ambos ficaram sem solução, fim tradicional dos mortos do Faroeste que é bem o que é o norte brasileiro.
Fofocas a parte, ele conferia as imagens dos satélites que controlam o desmatamento na região. Parece que as imagens sozinhas não fornecem a situação real e precisam ser confirmadas em terra. Segundo ele essa história de que o desmatamento no Brasil diminuiu é balela. Ele aumentou e segue aumentando, principalmente no Pará e no Mato Grosso. O senhor disse também que foi por causa disso que a Marina caiu e que ela é um baita embuste. Não só fez vista grossa ao desmatamento como ajudou a desmantelar o sistema que protege a Amazônia. Um exemplo foi a divisão do Ibama e o suposto fortalecimento do Instituto Chico Mendes, que no fim ao invés de melhorar só bagunçou tudo.
Um fotógrafo de natureza que eu conheci em Santa Cruz e que entra nessa lista na parte boliviana confirmou isso e disse ainda que a política do governo tanto dos parques quanto de controle da Amazônia é desastrosa. Manhê, eu quero ir pra Amazônia!
No próximo post, personagens além das fronteiras bolivianas.

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