7.4.10

Breve relato da cidade mergulhada no caos

Admito. Não acompanhei a maior enchente da história do Rio de Janeiro como uma verdadeira jornalista, de bloquinho e máquina fotográfica na mão. Fiquei sim vendo tudo passar pela janela do meu apartamento e depois da redação, atualizando o número de mortos que continua crescendo assustadoramente (pra ter uma idéia, as chuvas que caíram desde dezembro no Peru mataram 84 pessoas; o temporal do Rio 145 até agora) garantindo assim que todo o Brasil soubesse direitinho do estrago aqui.

Alagamento no Rio é rotina, estranho é quando fica tudo bem. Cheguei aqui em meio a uma enchente, peguei mais duas no cocoruto e isso tudo em male mal um mês de cidade maravilhosa - que casualmente fechou segunda-feira.

O Rio não sabe chover, nunca soube. A cidade não tem infraestrutura pra escoar a água, não existe coleta seletiva, o lixo se acumula nas ruas e os problemas se acumulam sai governo entra governo. 24h de chuva apenas tacam fogo no barril. E o resultado é triste e cinza.

Na segunda à noite tomei um belo banho de chuva, daquele de espremer o cabelo, por ousar cruzar meia quadra, mas escolada pensei - Rio. Me sequei no jeito que deu, segui trabalhando e na hora de voltar pra casa a chuva continuava, o que também não me pareceu estranho.

Peguei um bus aí pelas 22h e demorei 1h20 pra fazer um percurso de pouco mais de 2km que costumo fazer em 10, 12 minutos e que em momentos mais animados faço tranquila em meia hora a pé. As gurias que moram comigo levaram 3 horas pra chegar e isso porque saíram cedo do job. Teve gente que madrugou na parada - só depois, presa no trânsito e no aguaceiro percebi que dei sorte e peguei um dos últimos ônibus que conseguiram chegar a praia de Botafogo.

Como o bus não tinha jeito de seguir - moro num bairro que é caminho pra tudo, em especial pra Lagoa Rodrigo de Freitas e pro túnel Rebouças, que divide a zona sul da zona norte - desci duas paradas antes, caminhei duas quadras com água ora até a canela ora até o joelho até em casa. Molhada, cansada e sem banho quente que a empresa de gás aqui é privatizada e funciona que é uma beleza (pedimos o gás há apenas duas semanas) tomei um banho de gato e fui direto dormir.

Acordei Às 9h da manhã com uma rua vazia, as gurias na sala como num domingo, uma chuva que continuava caindo e um cenário de tragédia apresentado de minuto em minuto na televisão. O prefeito disse, implorou, mandou ninguém sair de casa pelamordedeus que a cidade era uma piscina e a coisa não estava bonita e podia piorar. E piorou.

Calculei que a rua que eu tinha que pegar pra ir pro trabalho era meio morro abaixo, falei com o povo pra saber se o mar tinha baixado, coloquei uma bermuda e um havaianas e na base do fé em deus que deus é fiel fui pra labuta. No caminho uma cidade fantasma com um que outro maluco enfrentando a vida - ou tendo que enfrentar na marra - esperando o ônibus comigo.

Lama e poças d'agua por todos os lados. Um ônibus puxado por um guincho meio amassado. Galhos de árvores, árvores e os morros nas calçadas e na rua. Um faroeste triste e silencioso, complementado pelas pessoas com olheiras e cara de poucos amigos. Isso que naquela altura a gente só sabia dos 33 mortos divulgados pela TV.

Cheguei bem na redação e do meu sexto andar plus conexão à internet na praia de Botafogo segui assistindo os números e as histórias de salvamentos e da enchente aumentarem. Algumas engraçadas, como os pedalinhos que invadiram a pista, outras tristes demais para lembrar como as famílias que desapareceram debaixo da terra tentando salvar outras famílias.

Dessa vez não tinha nenhuma alma na rua às 22h pra pegar um ônibus e a chuva seguia castigando um Rio fantasma. Peguei um táxi, torci pra água ter baixado e cheguei em casa ainda torcendo, só que praquela água parar.

Já vi chuvas de duas semanas em Caxias, já vi chuvas de duas semanas em Porto. Ninguém fica feliz, mas também quase - e sei que esse quase é cruel -, ninguém morre.

Outro dia disse que o Rio é uma cidade cruel em que a gente consegue perceber bem de quem é que se tira pra outra metade ganhar. E em nenhum momento foi possível perceber isso melhor que agora enquanto digito esse texto tranquila no meu computador tendo no máximo corrido o risco de pegar uma gripe ou va lá, uma leptospirose, enquanto tem uma porrada de gente lá fora correndo risco de perder a vida - fora os que perderam - e tudo que isso significa: a família, os amigos, o lugar que a gente chama de lar.

A chuva pode ser igual para todos, mas a tragédia continua tendo classe social.

*Amanhã quero sair com a máquina e ver se sobrou algo pra registrar, daí coloco aqui. De qualquer forma, as galerias dos sites como o Uol dão uma idéia melhor do que do que passou por aqui eu conseguiria mostra no meu trajetinho burguês

* Feliz dia dos jornalistas pra vocês também.

2 comentários:

Joana disse...

Eta chuva né!!!!! Lembrei de vc quando vi este findi as reportagens.......e vou te dizer uma coisa.....agente reclama de Caxias, mas estamos no paraíso.

Bjocas...

Paula disse...

E subiu pro nordeste o negócio!
Caxias não chega a ser o paraíso, mas pelo menos a gente só morre de frio e com a barriga beem cheinha.
Mulher, bauru perto d Flores sem falta! To com uma vontade de comer aquela coisa gorda...