27.7.10

Antes tarde do que mais tarde, a manifestação do dia da mulher da Via Campesina


Em março, alguns dias antes do dia da mulher, acompanhei uma manifestação da Via Campesina pelo centro de Porto Alegre. Mulheres de todo o estado acompanhadas de estudantes e representantes de outros movimentos sociais se reuniram para marchar contra a opressão e mais especificamente contra a aprovação de um projeto que permitia a plantação de arroz transgênico.

Toda a manifestação foi pensada para englobar a idéia da mulher, contemplando o dia 8, e fazer com que a pessoas e o Governo refletissem sobre os males do uso de transgênicos. Enquanto parte delas foi a Esteio protestar em frente a uma fazenda que trabalha com transgênicos outra foi ao Ministério da Agricultura no centro da Capital.



Segundo elas, os químicos presentes nos alimentos trasgênicos podem ser transmitidos pelo leite materno até a quarta geração. Para lembrar isso, cada uma fez um bonequinho de papel machê em forma de caveira, carregado para todos os lados como um bebê. Os nossos bebês no futuro.

Acompanhei esse segundo grupo.

Vestidas com os lenços lilazes da Via e muita coragem elas fizeram um protestos muito bonito que acabou nos jornais como apenas mais uma marcha que atrapalhou o trânsito. Depois de espalhar milho e arroz transgênico no chão do ministério, uma delas leu os motivos do protesto e as reinvidações e todas juntas começaram a cantar e amamentar os "bebês", que elas apelidaram de "filhos do capitalismo".


Munida de uma grande irresponsabilidade jornalística, esqueci de checar a bateria da minha máquina e só consegui capturar uns pedaços da manifestação. Como essa quarta também foi o dia que descobri que viria por Rio (e no sábado eu já havia pousado aqui), acabei esquecendo as fotos, mas não a história. Hoje arrumando meus arquivos as encontrei.

Uma selecionada rápida, deu pra salvar um pouco do material que pode ser visto aqui.

Duas amigas jornalistas estavam lá e escreveram um texto com todo o calor da hora que tentamos mandar pra deus e o mundo, mas que acabou apenas nas nossas caixas postais:

Mulheres da Via Campesina fazem protesto contra os transgênicos e o capital

“Esse é o nosso país, essa é a nossa bandeira. É por amor a essa pátria, Brasil, que a gente segue em fileira, É POR AMOR A ESSA PÁTRIA, BRASIL, QUE A GENTE SEGUE EM FILEIRA.”

Foi sob o sol das duas da tarde da quarta-feira, 3 de março, que cerca de 900 mulheres - agricultoras, operárias e estudantes - entoaram esta canção que sintetiza a razão de sua luta. Se algum jornalista da mídia corporativa quisesse ouvi-las, bastaria segui-las nos 3 km de caminhada, isto seria o bastante para uma REPORTAGEM. Não, não seria necessário realizar inúmeras entrevistas. Bastava ouvir as palavras de ordem e canções entoadas por elas.

“Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança!” “Pátria livre! Venceremos” “Sem feminismo, não há socialismo!” “Na luta do povo... ninguém se cansa!” “A nossa luta é na roça e na cidade, pra construir uma nova sociedade.” “Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer, participando sem medo de ser mulher...”

Para informações mais concretas, bastava ler seu panfleto (sim, além de discursar, cantar e puxar palavras de ordem, elas sabem se comunicar muito bem através da escrita. Deixam a maioria dos jornalistazinhos da mídia corporativa para trás).

“Dados do censo agropecuário mostram que o pequeno agricultor produz cerca de 80% da comida que chega à mesa do brasileiro. É a agricultura camponesa que pode produzir alimentos variados e agroecológicos (sem o uso de venenos), garantindo comida saudável à população.

Por isso, reivindicamos:

· Que os governos federal e estadual priorizem a agricultura camponesa coom subsídios que incentivem a produção e a comercialização de alimentos saudáveis;

· Exigimos que seja revisada a liberação do milho transgênico;

· Que a CTNBio não libere o arroz transgênico. O cultivo não é liberado em nenhum outro país do mundo;

· Fiscalização às empresas para fazerem cumprirem a Lei da Rotulagem (obriga que os produtos que tenham sementes transgênicas em sua composição sejam rotulados), que permite às pessoas escolherem o que querem comer;

· Que seja retirada de votação no Consun (Conselho Universitário) da UFRGS o projeto do Parque Tecnológico. Que o projeto seja discutido e tenha a participação dos estudantes e movimentos sociais;

· Que a legislação de vigilância sanitária seja flexibilizada a fim de facilitar a comercialização dos produtos da agricultura camponesa.

Assinam este panfleto: Via Campesina – MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados) – Intersindical – Levante da Juventude”

A ação direta da Via Campesina, uma articulação formada em sua maior parte por movimentos camponeses, iniciou cedo: às 6h da manhã cerca de 400 mulheres saíram da rodoviária de Porto Alegre em direção a transnacional Solae, em Esteio. A empresa é um dos maiores complexos de processamento de soja transgênica (90% da que temos na mesa) da América Latina. Só isso. Outro grupo menor, de cerca de 50 mulheres, realizou a ação direta na delegacia do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

Nos dois atos, as mulheres amamentaram os “filhos do capitalismo”: pequenas caveiras feitas de papel machê. Uma das representações deste ato é que os agrotóxicos e transgênicos contaminam o leite materno por quatro gerações. Além disso,os transgênicos aumentam o índice de câncer e outras doenças na população.

É necessário esclarecer que os transgênicos implicam o uso de agrotóxico. Obrigatoriamente. Por isso quem circulou no sétimo andar do MAPA viu grãos de milho e arroz (as mais recentes espécies transgênicas liberadas pela CTNBio) e também galões de agrotóxicos esparramados pelo chão.

REPRESSÃO – Direito de ir e vir? Direito à livre manifestação? A criminalização dos movimentos sociais no dia de hoje não foi diferente do que sempre ocorre em manifestações e encontros organizados pela Via Campesina, que sempre são consideradas instauradoras do ódio e da destruição do chamado “Estado de Direito”.

Já em Esteio, a BM cercou as mulheres durante todo o ato. Não satisfeitos, levaram-nas escoltadas até o Parque Harmonia (embora não fosse seu destino). Antes das manifestantes chegarem à Reitoria da UFRGS, estudantes se confrontaram com seguranças a fim de que o portão da universidade pública se mantivesse aberto quando a Via chegasse. Quando isto aconteceu, movimentos camponeses e urbanos ocuparam juntos a Reitoria. Uma comissão de 20 pessoas foi solicitar ao reitor que adiasse a votação do projeto do Parque Tecnológico, que estava programada estrategicamente para a sexta-feira (detalhe número um: este projeto está sendo tocado sem o mínimo debate com a comunidade acadêmica; detalhe número dois: as aulas na UFRGS iniciam na segunda-feira).


Ana Lúcia Mohr e Aline Rodrigues

Não sei a quantas andas essa história do arroz. A última notícia que tive é que o negócio estava mesmo para ser liberado.

Enfim, antes tarde do que mais tarde.

Pra fechar um vídeo com um pedacinho da música que elas cantavam. A bonita aqui conseguiu pegar apenas o pedaço mais sem graça...


video

3 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Cadê o vídeo?

Paula disse...

Ué, aqui tá aparecendo...

Rodrigo Cardia disse...

Engraçado que não aparece mesmo... Nem o player do YouTube, nem nada, depois do fim do texto.