30.8.10

Até logo, Rio

(cuidado, texto pingando de clichês)

Estou a caminho de Sampa após memoráveis seis meses de Rio de Janeiro. Nesse meio tempo não subi nenhuma favela, comecei a chiar, peguei praia todos os dias ou acabei num baile funk. Tão pouco escrevi as reportagens da minha vida. Mas fiz um bocado de bons amigos, desses pra guardar pra vida, suficientes pra me fazer pensar três vezes antes de abandonar a cidade maravilhosa.
No fim, indo atrás de uma vida nova e aventureira acabei em meio a uma rotina acomodada, com um cobertor de orelha e uma pseudo-família que apesar de não serem o que eu achava que queria eram justo o que eu precisava. Às vezes me sinto um tanto franco-atiradora em relação à vida, indo sempre de acordo com a maré sem construir nada, mas talvez semear amigos seja tão importante quando erguer castelos invisíveis.

E quem é que sabe o que vai acontecer semana que vem?

Sorte pra todos nós, que eu vou seguir me espalhando por aí feliz de ter muitos braços para os quais voltar. Seja em Caxias, Porto Alegre, no Rio ou na Bolívia.

9.8.10

Gaza

"Outro exemplo da informalidade econômica crescente em Gaza é a economia dos túneis, que começou a emergir há muito tempo, como primeira resposta ao bloqueio, e criou uma linha vital de abastecimento para uma população que vivia numa prisão a céu aberto. Segundo economistas locais, cerca de 2/3 da atividade econômica em Gaza é hoje orientada para o contrabando de bens que entram em (mas não saem). Mesmo essa última linha vital de abastecimento pode ser diminuída em breve, se o Egito – com a colaboração de engenheiros do governo dos EUA – concluir as obras de construção de uma muralha de aço, parte dela enterrada até o subsolo, ao longo da fronteira com Gaza, numa tentativa para conter o contrabando e o ir e vir de pessoas. Se a muralha chegar a ser completada, terá cerca de 8 km de comprimento e 15m de profundidade.

Os túneis, que Israel tolera em nome de manter inalteráveis as regras do bloqueio, são também importante fonte de renda para o governo do Hamás e as empresas associadas a ele, o que efetivamente enfraquece as modalidades tradicionais e formais de negócios e qualquer possibilidade de reconstruir um setor viável de comércio e negócios. Desse modo, o bloqueio de Gaza levou a um processo lento mas regular pelo qual se substituiu o setor formal de negócios por outro, quase totalmente marginal e paralelo, um mercado negro, que resiste e rejeita qualquer tipo de registros, regulação ou transparência e que, desgraçadamente, tem o máximo interesse em que as coisas mantenham-se exatamente como estão hoje.

Pelo menos duas novas classes econômicas emergiram em Gaza, fenômeno que teve antecedentes no período de Oslo: uma dessas classes tornou-se extraordinariamente rica, em boa parte por causa da economia de mercado negro dos túneis; a outra é constituída de alguns empregados do setor públicos, pagos (pela Autoridade Palestina na Cisjordânia) para não trabalhar (para o governo do Hamás). Assim, não apenas muitos trabalhadores de Gaza foram forçados a parar de produzir por ação de pressões externas; há hoje, além disso, uma nova categoria de pessoas recompensadas por não produzir – o que não deixa de ser espantosa ilustração-exemplo da realidade cada dia mais distorcida na qual a população de Gaza tem de sobreviver. Tudo isso levou a disparidades econômicas visíveis e monstruosas entre os que têm e os que não têm – como se constata no consumismo pervertido, em restaurantes e shopping-centers, nos quais só pisam os que têm."

3.8.10

"Aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo,vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém."
John Lennon