15.3.11

Pão e flores

Achei o adaptador de cartão de memória da máquina e junto algumas fotos que tirei ano passado. Como perder tempo é um esporte em que sou campeã, aproveitei e atualizei o Flickr.


Pintura na faixa de pedestres de uma rua em Buenos Aires

Florista porteño

Quanto ao pão, deixo com o Flickr.

14.3.11

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

Mas eternamente é palavra muito dura: tem um “t” granítico no meio. Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina – porque assim é o eterno. Felizmente esse sentimento dura pouco porque eu não aguento que demore e se permanecesse levaria ao desvario. Mas a cabeça também estala ao imaginar o contrário: alguma coisa que tivesse começado - pois onde começaria? E que terminasse – mas o que viria depois de terminar? Como vês, é-me impossível aprofundar e apossar-me da vida, ela é aérea, é o meu leve hálito. Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem orgânica que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente. A grande potência da potencialidade. Estas minhas frases balbuciadas são feitas na hora mesma em que estão sendo escritas e crepitam de tão novas e ainda verdes. Elas são o já. Quero a experiência de uma falta de construção. Embora este meu fio condutor – qual? o do mergulho na matéria da palavra? o da paixão? Fio luxurioso, sopro que aquece o decorrer das sílabas. A vida mal e mal me escpa embora me venha a certeza de que a vida é outra e tem um estilo oculto.

Água viva, Clarice Lispector, p. 24 e 25. (Ed. Rocco, 1998).

Gentilmente roubado do blog Contém Citação.

Descoberta musical da semana

Prazer, Adele.


22 anos, vozão de negona dos anos 60 e eu aqui com 23 e um desafino de taquara rachada.

13.3.11

Bye links

Fiz uma limpa nos Vai Firme que vale a pena aí do lado. Dói excluir alguns blogs queridos, mas a verdade é que o P.A fechou as pernas em 2009, a Ju não deve nem mais lembrar do seu Pequena Lagartixa e por mais que eu não queira admitir, o Igor e o grande Natush. Igor Natusch não vão voltar, entre outros blogs amigos que foram e vieram como amores de verão.
Mas se por acaso o ruivo tirar as barbas de molho, a lagartixa ressuscitar e o P.A abrir as pernas novamente, sempre terão seu lugar por essas bandas.

Diálogos mal criados

Lendo o post da Cris sobre o 8 de março, lembrei de uma conversa que tive mês passado. Sabe aquela história, jornalista E bonitinha, como bem pontuou a Pati que já passou por isso many times.

Coleguinha me apresenta outro coleguinha, jornalista famoso.
coleguinha 1 (sendo educado) - Fulano, essa é a Paula, temporária lá no jornal.
coleguinha 2 (cara de olha a loirinha fofinha) - Ahh, ciclano. Contrata ela! Bonita e competente!
eu (cara de não sou um poodle nem lourinha) - Como tu sabe que sou competente?

12.3.11

Vamos fingir que hoje é dia 8 de março

"Feminism is the radical notion that women are people."
Cheris Kramarae
Paula Treichier


Ao invés de esperar por uma rosa e um elogio por tornar o mundo mais colorido, cheiroso e afins gostaria que as leitoras - e os leitores, por que não? - fizessem um exercício e respondessem algumas perguntas.

Pra quem tem irmãos e ainda mora com os pais. Para quem sobra a louça e a limpeza da casa? Quem tem que manter o quarto arrumado? Quem pode levar o namorado/a em casa e sair sem horário? Quem organiza a casa, arruma as crianças e manda todo mundo escovar os dentes?

Pra quem vive com o companheiro/a/marido/esposa/peguete. Com quem ficam as tarefas domésticas? Você lava e a outra pessoa enxuga? Quem faz a comida? A outra pessoa lava a roupa e você as estende? Até que ponto as obrigações são divididas igualitariamente?

Quando você liga a tv e o personagem principal é um homem aquela história é de homenzinho ou é normal?

Para quem estuda. De todos os livros que você tem que ler por indicação dos professores, quantos são escritos por mulheres? Das palestras e debates que você assiste , quantos são proferidos por mulheres? Quando você pensa na autoridade sobre um assunto quem vem primeiro?

Nas revistas e jornais, os entrevistados são o quê? Quando há uma matéria sobre um homem ela obrigatoriamente envolve a sua vaidade, gosto por maquiagem e como ele se equilibra entre o trabalho, a família e os filhos?

Dos seus heróis na infância, quantos eram homens e quantos eram mulheres?
Quem comanda a empresa em que você trabalha?

Essas questões podem parecer simplistas, mas ajudam a pensar a sociedade em que vivemos: patriarcal e centrada no privilégio branco e heterossexual.


Se dizer feminista atualmente virou um tabu e sinônimo de frigidez, falta de vida social e interesses afetivos tamanha a desconstrução sofrida pelo movimento das últimas décadas. E parte disso se deve a nós mesmas, que reproduzimos com nossos amigos e familiares a criação machista que recebemos - e por feminismo não falo de uma oposição direta ao machismo, que apenas reproduz os seus erros, mas uma reinvindicação de igualdade de caráter libertador para os dois lados.

Se eu não preciso gostar de rosa e andar de saia só por que tem que ser assim, você não precisa ser o grande provedor que só pode falar de futebol, mulher e cerveja. Gêneros são social e biologicamente construídos, numa equação cruel para os dois lados. Todos perdem num mundo com lugares marcados desde o começo em que metade da população é considerada uma minoria.
Não é preciso queimar sutiãs para "entrar na luta". Tomar consciência das condições desiguais e parar de aceitá-las como naturais é um belo primeiro passo.


Pra ajudar nesse nosso exercício de imaginação, seguem alguns vídeos que descobri lá no blog da Lola.

Esse faz uma análise dos últimos 50 anos de Oscar e conclui que apenas quatro películas entre os vencedores de melhor filme têm uma protagonista mulher ou apresentam uma perspectiva feminina:


Já esses fazem parte de uma campanha do governo do Equador contra o machismo. Isso mesmo, do governo.

Esse coloca atitudes machistas como pré-históricas:


E esse mostra como o os papéis de homens e mulheres são construções. A menina vestida de princesa e rosa desde cedo, o menino aprendendo a ser violento e com tudo azul. Quando crescem eles não conseguem perceber isso, mas os dois já foram treinados para os seus papéis. Ela submissa e presa a isso, ele o provedor violento.



Nem todos são engraçadinhos e ligths. Vários falam de estupro e crimes contras as mulheres, colocando a violência como um dos principais legados da nossa sociedade machista. E vamos pensar um pouquinho. Não é?

Para fechar, recomendo dar uma olhada também no teste para saber se você é feminista publicado no blog há um tempo - http://maisumpalimpsesto.blogspot.com/2010/02/muita-gente-tem-medo-de-se-declarar.html

Então? O que vocês responderam?
É hora de sair do armário e assumir o feminismo. Afinal, já dizia Rosa de Luxemburgo, "quem não se movimenta não percebe as amarras que o prendem".

2.3.11

O outro lado do Cristo

Da janela lá do trabalho eu vejo o Cristo, braços abertos, montanhas deslumbrantes e favelas sem fim. É o lado esquerdo do Cristo, contrário a zona sul que, pasmem, tem nove bairros, enquanto a cidade tem 60. Um pedaço perto do mar colocado na lupa que esconde ou tenta esconder todo o resto.
E entender essa cidade? E se mover por essas seis milhões de almas? Devagar a gente aprende, espero.
Tá difícil, amiguinhos. Tá difícil. alguém me vê uma mãe, uma pai, um colo, um carinho, um caminho iluminando e sinalizado que nem pista de avião mais um manual de instruções que explique tudo tim por tim, fazfavor?