23.6.11

Porque escrever

"- Nós escrevemos e escrevemos, Bia. Ficção, porque é todo um mundo novo, ainda que velho, se me faço entender. Ficção, porque tudo, tudo mesmo, é ficção. Se caiu no papel é ponto de vista, é parcial, é re-criação, digam o que quiserem. Porque é nosso Sol e nós podemos batizá-lo. Porque é nosso filme, nosso final, nosso mocinho, nosso bandido. Nosso bandido. Escrevemos porque sim. Porque não. Porque as palavras vão se juntando-de-carreirinha em nossas cabeças enquanto andamos o cão ou enquanto falamos ao telefone com o moço da teve a cabo, ainda que não queiramos. Porque não há mais nada, ainda que um amigo querido diga que a vida é muito mais que isso. A dele, talvez. Porque há dor lá fora e aqui dentro. E calor. E medo, e rancor, e doçura e risadas. Porque há o que contar todos os dias, Bia, a cada instante, tanto, tanto o que contar. Porque podemos falar da cor dos cílios do amigo que toma café conosco enquanto espera o cinema começar, porque há sim uma forma melhor de descrever o amarelo do vestido da moça no ônibus. Porque há tanta música, tanta sombra, tanta vontade de comer pipoca. Porque os deuses gregos nos assombram, escrevemos, escrevemos. Porque, de um monte de jeitos, a história começou quando fomos capazes de escrever sobre nós mesmos. Porque há confusão, aqui dentro e lá fora, e montes de jeitos legais de usar a mesma vírgula. Porque o que lemos nos encantou, porque o que lemos nos deixou putos da cara, porque o que lemos nos deixou. Escrevemos porque conhecemos sua filhinha mais nova em Campinas, porque choveu, porque fechamos a conta de alguém que morreu lá no banco Itau da avenida. Escrevemos para proteger. Escrevemos para estraçalhar. Para fazer um favor, para encher o saco, escrevemos. Porque hoje é dia três. Porque não entendemos uma palavra do que os outros dizem, porque lemos nas entrelinhas. Escrevemos porque não há ninguém aqui com esse nome. Escrevemos, escrevemos, porque o amor não mais nos habita. Porque o amor faz nossa cabeça girar. Porque somos donos disto e daquilo, escrevemos. Escrevemos sobre o que permanece, sobre o que nunca esteve. Sobre a voz do Dean Martin, Bia, escrevemos porque that’s amore! Escrevemos para descrever, para narrar, para dissertar. Escrevemos para que gostem de nós. Para contar o que vemos enquanto choramos na frente do espelho. Na frente do espelho. Escrevemos, e é isso que chamo de motivo. Porque os dentes doem, porque os tornozelos incham, é por isso que escrevemos. Escrevemos para refresca a memória, para esquecer tudo o que aconteceu e para enterrar o assunto também. Bia, nós escrevemos porque está escuro, porque o sol nasce na avenida Vinte e Três de Maio todos os dias, porque vemos as sombras da rua Palmares antes do dia começar, naquela horinha em que a solidão é maior que mundo, enquanto falamos com o cão e andamos no escuro. Escrevemos. Ficção, porque tudo, tudo mesmo, é ficção."
Fal Azevedo, autora de “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite

Nenhum comentário: