30.8.11

Doce agosto

Agosto chega ao fim, enfim. E foi bom. Nada de desgosto nem de cachorro louco. Só bastante trabalho, aprendizado e sorriso nos lábios. Quem diria.

A parte mais bacana do jornalismo – e também seu calcanhar de Aquiles, já que não nos aprofundamos em nada -, são as diversas vidas que a gente leva. Esse mês conversei com o Paulo José e acompanhei o sequestro de um ônibus madrugada a dentro; dei um tapinha nas costas do Niemayer e fiz plantão na frente do presídio de Bangu a espera do Cacciola; subi favelas pra fazer turismo e corri atrás de entrevistados em frente a delegacia e por aí vai. Às vezes no mesmo dia.

Para setembro nem ouso esperar nada. Parece que já é primavera há muito tempo.

14.8.11

As tais novidades

Então pessoal, a grande novidade, que me afastou do pc e evitou que as paredes aqui de casa fossem pintadas com canetinha é que... tambores... estou na Folha de São Paulo. Temporiamente, de dedinhos cruzados, mas, incrivelmente, muito contente.
Hoje saiu a minha primeira matéria com M maiúsculo, sobre o tal turismo em favelas do post anterior. Pra completar, o texto foi capa (em grande parte por causa das fotos belíssimas que o Rafael e Paula G. tiraram). Sou tudo menos blasé e passei o dia só sorrisos.
Pra que quem não leu a Folha hoje, acho que a essa hora não faz mais mal divulgar.

Favelas pacificadas atraem turistas no Rio

PAULA BIANCHI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO

A concepção tradicional de favela vem sendo subvertida no Rio. De lugares simples e muitas vezes miseráveis, elas passaram a ponto de encontro de turistas e cariocas descolados que sobem o morro sem preconceito atrás da cidade maravilhosa além do cartão postal.

O morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul, cenário do clipe de “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, hoje está na agenda graças aos eventos realizados quase que semanalmente pela comunidade –sede da primeira UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio.

Um dos mais famosos é o “Pôr do Samba”, que acontece no primeiro sábado do mês.

No dia em que a Folha visitou o local havia alemães e franceses arriscando passos de samba ao lado de cariocas que entraram na favela pela primeira vez e entoavam clássicos de Cartola e Zé Kéti.

Vitor Lira Adão, 30, já levava turistas para passear pelo morro antes da pacificação. Ele é um dos monitores do Rio Top Tour, projeto criado há um ano pelo governo do Estado para incentivar moradores a atuar com turismo.

“Os estrangeiros sempre tiveram curiosidade, mesmo conscientes do perigo de antes”, lembra ele, que diz nunca ter tido problemas graves nos passeios –apesar de, na folga, já ter corrido para se esconder dos tiros.

“Muitos amigos meus morreram aqui, alguns porque trabalhavam para os traficantes e outros, atingidos por balas perdidas”, conta.

BUFÊ E FEIJOADA

Do outro lado da lagoa Rodrigo de Freitas, outras favelas usufruem da nova fase: no Cantagalo, Pavão e Pavãozinho é comum ver turistas que trocam as praias de Ipanema por um passeio.

“Já recebi um grupo de 35 japoneses”, conta Jailton do Santos, 35, dono do bar e restaurante Bela Vista. O local brinda os visitantes com uma vista de Copacabana e um bufê caprichado, com direito a feijoada no sábado e galinha caipira no domingo.

Já no Chapéu Mangueira, no Leme, é Vítor Hugo Medina, 32, que abre um sorriso ao falar dos novos visitantes. Barraqueiro na praia do bairro, ele se tornou ainda guia turístico e dono de albergue.

Medina promove tours pela favela, mostrando os projetos sociais do local e a área de preservação ambiental vizinha. E cresce sem deixar de lado a comunidade, que recebe uma parcela do lucro.

“Comunidade pacificada é febre. O turista que vem aqui e ainda não foi ao Pão de Açúcar e ao Cristo não vai mais. Aqui, ele vê tudo”.


No Alemão, morador espera boom turístico

Teleférico é a principal atração; movimento se concentra durante os finais de semana


Com a máquina fotográfica em punho, a aposentada Maria Aurora de Araújo, 70, esperava ansiosa pelo começo do passeio. Portuguesa, sempre que pode ela viaja ao Rio. Dessa vez, além das tradicionais visitas ao Cristo e ao Pão de Açúcar, fez questão de conhecer também o Complexo do Alemão.
Última comunidade do Rio a ser pacificada, o complexo de favelas cresceu em meio a bairros tradicionais da zona norte, como Penha, Ramos e Bonsucesso, até tornar-se um dos maiores do país.
Do alto do recém inaugurado teleférico, enquanto crianças soltavam pipas e donas de casa lavavam roupa, era difícil imaginar as cenas de guerra que os moradores presenciaram durante os anos de domínio do tráfico.
A ocupação pelas forças de segurança veio apenas em novembro, e ainda há soldados patrulhando o bairro.
"A gente tem que conhecer de tudo, o bom e o ruim", refletia Araújo enquanto admirava a sequência de morros com casas de tijolos sem tinta que formam o complexo. "Não tem nada parecido com isso. É muito bonito."
O teleférico é uma das principais obras do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) e xodó da presidente Dilma Rousseff, que esteve na sua inauguração em julho. No total, foram gastos R$ 210 milhões no projeto.
Do bondinho, que passa rente as casas, é possível ver tanto pontos turísticos clássicos, como o Cristo e a igreja da Penha, solitária no topo de seus 382 degraus, quanto o cotidiano dos moradores.
Embora ainda seja cedo para falar em invasão de turistas no Alemão e faltem restaurantes e bares que tornem as estações atrativas, os moradores aguardam ansiosos pelos forasteiros e a movimentação da economia local que isso pode gerar.
"O teleférico só funciona de manhã, mas tem turista que chega de carro. Eles aparecem mais aos sábados e domingos, mas vão começar a vir durante a semana também, quando o teleférico funcionar durante a tarde", prevê Anaílton Oliveira, 39.
Ele é um dos ambulantes que fazem ponto no Adeus, uma das seis estações, enquanto torce para que a primeira palavra associada ao local mude de "tiros" para "turismo".

7.8.11

Samba pra inglês ver

Fui a um samba no morro Santa Marta ontem e dormi com a cabeça em polvorosa pensando na matéria - em tese, sobre turismo nas comunidades.
O Santa Marta foi o primeiro morro do Rio a ser pacificafo, mas antes disso já tinha ficado famoso graças ao livro Abusado, do Caco Barcellos. Além disso, fica a dez minutos a pé da minha casa, o que significa ter outro planeta no quintal. Porque uma favela é outro planeta.
Como ninguém quis me acompanhar, calcei meus tênis e fui solita averiguar se tinha alguma festa por lá (a ideia da materia é dar dicas de programas legais nas comunidades. Lugares em que eu levaria os meus amigos que viessem me visitar).
Na praça em frente ao morro encontrei um pessoal vendendo cachorro quente que disse que não sabia. Quando comentei que ia subir mesmo assim, um dos clientes da barraquinha me olhou e soltou um, "corajosa". Retruquei que o morro era tranquilo e segui. Um pouquinho depois, aparece o cara. Disse que resolveu subir também. Aham. Agora tu tomou coragem, né amiguinho?
Na hora de pegar o bondinho, todas as preocupações foram para o saco. Encontrei um casal de alemães muito simpático e mais alguns estrangeiros. Eles moram em Sampa, mas passam todos os fins de semana no Rio. Se eles estavam ali e não estavam preocupados, porque eu, que falo a língua e ainda estava perto de casa, estaria?
Esperamos mais um pouco e uns 20 minutos depois estavamos na estação quatro, onde acontecia a festa Pôr do Santa. Como o morro é muito inclinado, com a pacificação foi construído um bondinho que leva o povo até o topo. Pra vocês terem uma ideia, a comunidade fica perto do Pão de Açúcar e a inclinação da montanha é semelhante a do Corcovado. Antes (e antes era há três anos), como disse um senhor que mora lá há 50 anos, o jeito era ir de viação canela.
Mais uns minutos caminhando pelo meio da comunidade, que merecia ganhar prêmios de arquitetura por se manter em cima daquela montanha e não desaparecer cada vez que São Pedro decide presentear um Rio com um temporal, chegamos a Praça Michael Jackson, a mesma do clip.



Gente bonita em clima de paquera, uma vista fantástica e cerveja barata. Mas, porém, toda via, ainda um aparthaid. O povo na pista não se misturava com o povo da comunidade. Sabe aquiela história de eles ali e a gente aqui? Curiosa, fui falar com Fumaça,
- O pessoal do morro nunca vai ir num samba que começa às 16h e acaba às 22h. Pra começar a gente nem gosta desse tipod e música.
- Pois é, eu vi que tocou até Nara Leão...
- Nara Leão, Nara Leão. Me pergunta quem é Nara Leão? Eu não sei! Isso não é a nossa cultura.

Ou seja, samba pra inglês ver.

Continua, que o sol lá fora está muito convidativo.

3.8.11

Após dias de choro e ranger de dentes, tá, exagero, após longos dias pensando na vida, largando currículos e engordando no inverno gaúcho, o agora do post anterior pode ser lido como, "é isso aí, tenho um ponto para bater de segunda à sexta!". Ao menos por esse mês. Dedos cruzados que o job parece muito bacana. Novidades em breve.

Vistas

Devo admitir que tenho sorte com vistas. No meu primeiro trabalho no Rio tirava meus intervalos na praia de Botafogo, admirando o pão de açúcar. No segundo, o Cristo ficava me dando tchauzinho da janela da redação. Agora é a baía de Guanabara que me faz companhia, com destaque especial para a as luzes da ponte Rio-Niterói.

P.S. Vamos ignorar a vista do teto das fábricas do Limão e do Tietê da redação do Estadão em Sampa. Se bem que os pôres-do-sol lá eram marcianos de tão vermelhos - um presentinho da aura de poluição que coroa a cidade.