16.11.11

Ocupação da Rocinha: nem tão cor-de-rosa assim

Passei a quinta, a sexta, o sábado e o domingo na rotina redação, Rocinha, casa, redação, Rocinha, casa. Véspera da ocupação, todos de olho na favela símbolo do Rio.

Além de gastar sola de sapato e ganhar uma bela dor nas costas, graças ao colete à prova de balas que usei por obrigação apesar de me sentir, como bem definiu um colega, como “alguém com roupa de astronauta em um lugar infectado”, aproveitei para conversar com todos que aceitaram conversar comigo.

Parte não falava, por medo; outra por desprezar da imprensa – quem pode culpá-los? Se eu me lesse dia após dia retratada nos jornais como sub cidadã também não ia ficar lá muito feliz com a idéia de ser entrevistada. As leis são diferentes numa terra não sem leis – o tráfico manda mais do que muito governo -, mas carente de Estado, que por décadas preferiu ignorar o morro.

Após muita insistência consegui conversar com cerca de 20 pessoas, do começo e do fim do morro, que subi depois que o Bope decretou o sucesso da operação no domingo de manhã. Para os moradores o problema não era o possível confronto - que não aconteceu -, mas o depois. Eles não confiam na polícia.

O texto que segue ficou na capa da edição online do jornal no domingo à noite e foi unido às observações de outro colega. que também passou o feriadão acompanhando a ocupação na Rocinha na edição impressa de segunda-feira.

Foi escrito as pressas na décima segunda hora trabalhando em um lap top numa lanchonete lá na comunidade mesmo, pra dar tempo de entrar no jornal. Se fosse escrevê-lo agora, mudaria um bom pedaço.

Ou não. Confesso que tenho orgulho dele. Seu maior mérito foi radiografar aquele domingo, com base nas fontes que mais importavam naquele momento: os moradores.

Após ocupação da Rocinha, moradores dizem temer a polícia

PAULA BIANCHI

"Cadê o enxame que é a Rocinha?", pergunta uma moradora em frente a rua vazia, cortada vez por outra por mototáxis e carros carregados com agentes do Bope. Acostumada a ver a estrada da Gávea "mais cheia do que um formigueiro", ela estranha o silêncio.

A madrugada na comunidade, ocupada pela polícia no domingo, foi tranquila, povoada apenas pelo som constante dos blindados da Marinha e dos helicópteros que sobrevoaram a comunidade durante todo o dia.

Nem um tiro disparado, orgulha-se a polícia. No entanto, o que preocupa os moradores são as próximas noites. "Quando vocês [imprensa] forem embora é que o bicho vai pegar", diz X., que prefere não se identificar.

Ela diz que não vai abrir a casa para a polícia. "Eles têm mandado? Se tiverem eu abro. Até onde eu sei até a polícia precisa seguir a Constituição."

X. afirma ter medo de deixar a casa sozinha quando tiver que trabalhar durante a semana e relata abusos, como uma moradora que levou um tapa na cara por não responder o chamado de um policial na quinta-feira (10).

Para ela as coisas "antes" estavam muito bem. "O Nem pagava o aluguel de quem precisava, dava cesta básica, ajudava as creches. Quero ver o governo fazer isso."

X. conta que toda a quinta-feira chegava um caminhão com caixas fechadas de legumes e frutas vindos direto do Ceasa. Eles eram devidamente empacotados e distribuídos pela associação de moradores, a mando de Nem, para aqueles que se apresentavam como moradores carentes.

Cássia Cristina Silva, 25, e quatro filhos filmaram a casa inteira com o celular por precaução. "Podem entrar, mas tem que deixar tudo no lugar."

Ela dormiu com os filhos no quarto e acordou com o som dos helicópteros. "Eu estava com muito medo, mas não aconteceu nada, graças a Deus. Só as crianças, que estranharam dormir comigo e ficavam o tempo todo perguntando se a polícia ia entrar, se ia bater neles."

Y. também não está muito convencida dos benefícios da ocupação. "O tráfico vai voltar assim que a poeira baixar. O Nem era só um representante, quem manda ainda está aí", afirma. "Você acha que a polícia vai aguentar ganhar R$ 1.000 por mês? Mais um tempo e estão todos corrompidos."

"Ninguém vai falar nada, denunciar ninguém, por medo dos caras voltarem", afirma, referindo-se aos planfletos lançados de helicóptero pela polícia na manhã da ocupação com informações para os moradores denunciarem criminosos e esconderijos de armas e drogas

Já Z., 45, encara a nova fase com otimismo. "É a primeira vez em 45 anos que vejo essa rua assim, tranquila. Eu descia ela inteira de carrinho de rolimã, jogava bola aí. Tomava banho em uma cachoeira aqui do lado. Hoje meus filhos não têm isso".

Ele conta que prefere levar o filho de 12 anos para passear na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste, por medo. "Quem sabe agora a gente consiga voltar a fazer o lanche em família por aqui. Antes não dava, eles ficavam sentados em cima no balcão dos bares com fuzil na mão."

No entanto, ele também teme a ocupação. A sua casa foi revistada ainda no começo da madrugada de domingo. Os policiais não quebraram nada, mas tentaram levar o seu contracheque, que estava em cima de uma mesa.

"Mostrei o recibo, disse que era o meu salário inteiro. Um outro policial que estava junto que convenceu ele a não levar."

7.11.11

A incompreendida arte de guardar memórias

Herdei do pai o gosto pelo lixo, a tal da memorabília sentimental. Só que enquanto ele guarda de cadeiras quebradas a pneus velho eu, que malemal tenho espaço pros meus livros, me contento guardando papéis.

Tudo vai ser usado/consertado um dia, filosofa ele, e nisso as pilhas de quinquilharias, meticulosamente organizadas, aumentam. Todas guardadas com carinho e cuidado no porão lá de casa, espécie de arca do tesourou imaginária.

Imaginem o sofrimento da mãe -- que joga no outro time, o dos que sentem prazer em ver as coisas indo embora --, obrigada a esconder sacolas de lixo pra ele não descobrir que aquela lanterna aparentemente sem salvação ou calça jeans rasgada encontraram enfim seu destino.

Mas voltemos aos papéis, meus papéis. Pilhas e pilhas que a cada limpeza de gaveta se dividem em sim, não e talvez pra, quem sabe da próxima vez, ir embora. Diz um professor que tive que todo jornalista é um colecionador inveterado de papel. É parte desse ofício que nos faz loucos por ver nossas palavras impressas, com sorte encantando e sujando mãos alheias.

Guardo de tudo, sem muito preconceito. Do panfleto de uma exposição que meu pareceu interessante sabe-se lá porque - hoje mesmo mandei embora o folder com a programação dos 102 anos do Theatro Municipal do Rio, comemorado meses atrás, com um belo anjo barroco na capa - a ingressos de peças, bilhetes, desenhos, materias de jornal.

Estas, inclusive, tem um lugar especial. Uma pasta transparente de plástico, dessas que a gente encontra em qualquer livraria, que começou abrigando toda e qualquer coisa que saísse impressa com meu nome do jornal -- deslumbramento de estudante -- e que hoje guarda apenas textos selecionados, desses que tem mais espaço e amor entre as linhas. A minha versão da arca do tesouro.

Em dias que não sei bem o que quero tenho sonhos malignos de guardar tudo que redigi - online ou não - em uma caixa, fechar, colocar um adesivo escrito "meus dias como jornalista" e começar qualquer outra coisa que não envolva escrever.

E as pilhas de papel crescem, abarrotando gavetas e indo morar em lares improvisados de papelão.

A dificuldade de jogar fora é que muitas vezes esses pedaços de mundo que escolhemos guardar guardam também pedaços da gente.

3.11.11

Um brinde aos sobreviventes

Ontem passei parte do feriado em um divertido e típico almoço em família -- emprestada, que a de core festejou junta no frio caxiense --, com direito a bebês chorando, tios e tias falando alto e cachorros passeando pela casa. Em meio a taças de vinhos e pratos de strogonoff, alguém resumiu a data: esse é um almoço em homenagem aos sobreviventes.

Uns silenciaram, outros não. Cada um com seus botões pensou nos seus. Eu, que apesar de jovem já tenho meus mortos pra zelar, lembrei na hora da vó (agora escrevendo também me vem a cabeça a colorida e irreverente tia Inês. Que esteja dando bicotas vermelhas e polemizando onde estiver).

O tempo passa, mas a saudade não termina. Se nos encontrássemos novamente eu prometo que falaria mais devagar. À mãe e as às tias, que, tenho certeza, lembraram dela também, todo o meu amor.