7.11.11

A incompreendida arte de guardar memórias

Herdei do pai o gosto pelo lixo, a tal da memorabília sentimental. Só que enquanto ele guarda de cadeiras quebradas a pneus velho eu, que malemal tenho espaço pros meus livros, me contento guardando papéis.

Tudo vai ser usado/consertado um dia, filosofa ele, e nisso as pilhas de quinquilharias, meticulosamente organizadas, aumentam. Todas guardadas com carinho e cuidado no porão lá de casa, espécie de arca do tesourou imaginária.

Imaginem o sofrimento da mãe -- que joga no outro time, o dos que sentem prazer em ver as coisas indo embora --, obrigada a esconder sacolas de lixo pra ele não descobrir que aquela lanterna aparentemente sem salvação ou calça jeans rasgada encontraram enfim seu destino.

Mas voltemos aos papéis, meus papéis. Pilhas e pilhas que a cada limpeza de gaveta se dividem em sim, não e talvez pra, quem sabe da próxima vez, ir embora. Diz um professor que tive que todo jornalista é um colecionador inveterado de papel. É parte desse ofício que nos faz loucos por ver nossas palavras impressas, com sorte encantando e sujando mãos alheias.

Guardo de tudo, sem muito preconceito. Do panfleto de uma exposição que meu pareceu interessante sabe-se lá porque - hoje mesmo mandei embora o folder com a programação dos 102 anos do Theatro Municipal do Rio, comemorado meses atrás, com um belo anjo barroco na capa - a ingressos de peças, bilhetes, desenhos, materias de jornal.

Estas, inclusive, tem um lugar especial. Uma pasta transparente de plástico, dessas que a gente encontra em qualquer livraria, que começou abrigando toda e qualquer coisa que saísse impressa com meu nome do jornal -- deslumbramento de estudante -- e que hoje guarda apenas textos selecionados, desses que tem mais espaço e amor entre as linhas. A minha versão da arca do tesouro.

Em dias que não sei bem o que quero tenho sonhos malignos de guardar tudo que redigi - online ou não - em uma caixa, fechar, colocar um adesivo escrito "meus dias como jornalista" e começar qualquer outra coisa que não envolva escrever.

E as pilhas de papel crescem, abarrotando gavetas e indo morar em lares improvisados de papelão.

A dificuldade de jogar fora é que muitas vezes esses pedaços de mundo que escolhemos guardar guardam também pedaços da gente.

Um comentário:

Joan"s disse...

Somos parecidas, guardo de tudo, final de semana mesmo fiz uma limpa, mas imagina, fui muita coisa fora, mas muitas tambem deixei pra trás, com aquela peninha de mandar embora........ Guardo muitos papeis de quando estudava, folhas de caderno escritas, que vez ou outra leio , me bate uma saudade dos momentos, dos amigos, cada pedaçinho de papel, cada objeto tem uma história para contar.......

Bjão