28.12.13

Fast Food tips Amsterdam-Londres-Paris

Ok, ok, ok. Nosso querido 2013 está indo para o saco e nada desta que vos fala encerrar as crônicas do mochilão. Eu sei, finjo que não, vocês também sabem, talvez nem cheguem a fingir, mas fato é, nunca vou terminá-las. Um jornalista sem prazo é um animal relapso. Mas como é sempre bom ter algo a prometer, esses textos, se nascerem, existirão apenas no famigerado ano que vem.

Para diminuir a culpa cristã de não te-los parido até o presente momento, seguem algumas dicas "fast food" dos destinos que ficaram para trás - Amsterdam, Londres e Paris.

Começando pela sempre nublada, mas adorável capital da Holanda. Uma vez perdido pelos canais de Amsterdam - e você vai se perder -, e com fome, é hora de experimentar uma das iguarias típicas da cidade: a batata-frita. Sim senhores, em Ams é possível comer batata frita no meio da tarde na rua sem ser julgado e ainda pagar de "turista" explorando a cultura local. O que me lembra. É bom não esperar muita coisa da culinária holandesa.
Há lojas específicas de batata frita, servida em cones para comer caminhando enquanto se desvia dos sem fim de bicicletas da cidade e se busca o caminho de volta.

Olha ela aí. Gordurosa e gostosa, servindo de lanchinho das 15h.

Cruzando o canal da mancha chegamos àquela que é e sempre será mesmo não sendo mais e mesmo sendo o clichê dos clichês dizer isso:  a capital do mundo, Londres.
Uma vez aqui eu poderia dar a vocês 552 dicas e ainda seria pouco. E ainda foi pouco ter passado apenas uma semana por lá. Posto isso, aproveite que os britânicos começam a bebedeira cedo e veem virar a madrugada dançando como encerrar a noite às 2h e acorde cedo no domingo para ir ao mercado de flores da Columbia Road.
O mercado é uma graça e pode ser alcançado a uma pequena caminhada da estação de metrô Old Street. Além de admirar as flores - até comprar, quem sabe -, é possível comprar chocolate ou vinho quente e dali seguir andando até a feira que toma toda a Brick Lane, aka rua do Jack Estripador.
Junto com as tendas de artesanatos, brechós e afins - quase um brique -, mais para o fim da rua, há uma feirinha com várias barraquinhas de comida oriental, perfeita para o almoço de domingo. E você ainda paga de turista cool por ter saído da rota tradicional e desbravado East London.

"Eu vejo flores em vocêeee..."

Bye, bye, London é hora do destino quase final: Paris. A viagem encerrou, realmente, em Madri, mas daí foi quase como voltar a uma velha amiga, tamanha a relação que criei com a cidade na semana que passei por lá. Pois bem, Paris é tudo aquilo que dizem e mais um pouco. 
E também é cara. Muito cara. Enquanto na maior parte das cidades que visitei foi possível comer na rua sem estourar o orçamento, em Paris optei por passar a semana de lanche em lanche, com direito apenas a um jantar e um almoço decentes. O que nos levas a nossa última fast food tip: piqueniques!
Poucas coisas são mais parisienses que montar um lanchinho e levá-lo para passear em uma das inúmeras praças e parques da cidade. Recomento o pacote Sena-Pontes. Passe em um mercado, arrume uma garrafa de vinho de fácil abertura, queijo, torradinhas, frutas secas e afins e sente o mais próximo possível do Sena. Depois de morgar ao sol aproveite para matar as calorias do queijo e o álcool do vinho caminhando de ponte em ponte até, quem sabe, a Torre Eiffel, ou a vontade de retornar e descansar. O que vier primeiro.

Um ponto das margens do Sena esnobando beleza.

Ok, ok, ok, acho que agora posso passar a virada tranquila, não? Ano que vem tem mais. Ou não. Ou novas viagens, o que é ainda melhor.


27.12.13

Mais serra gaúcha

Sexta-feira, 7h. Fui dormir relativamente cedo, perto das 0h30, um pouco depois da família.
"Vem tomar café, Paula!", grita o pai ou a mãe ou o ser humano que entrou nos meus sonhos depois de ter aberto a porta do quarto, começado a limpeza da sala e ter feito todos os pequenos ruídos que caracterizam uma casa acordada.
“Tô dormindo!”, grito de volta, com a licença poética de me manifestar ainda dormindo, apesar de já plenamente desperta pelo grito, cereja no bolo no processo de ser acordado, que os pais serranos sabem tão bem infligir aos filhos.
Levanto a contragosto. Chego à mesa do café. Farta, gorda, cercada de rostos felizes com mais um amanhecer – eles ainda por cima são sempre sorridentes a essa hora da manhã, como se zombassem internamente desse desejo vil e pequeno que é dormir até hora que o corpo quiser acordar.
Ensaio um último protesto. “Vocês sabem quão sacana é acordar alguém para tomar café pouco mais de seis horas depois de ela ter ido dormir na SEMANA DE FOLGA da pessoa?”
Silêncio.
“Toma o teu café depois volta a dormir”, contesta a mãe, ignorando por completo meu argumento.

Desisto e sento.

Colônia em chamas

Ainda vou escrever um romance com ares de Juan Rulfo. Vai se chamar A colônia em chamas e se passar nas franjas dessas estradas do interior da serra, cobertas pela poeira cor-de-rosa que toma conta do mundo durante a estiagem no verão.

26.12.13

Para 2014

Daí que o relógio girou e chegamos a mais um 26 de dezembro. Pós ceia e pós comemorações natalinas, o que dizer de um ano que teve até hidroginástica com velhinhos em Budapeste? Que foi, no mínimo, interessante.

Um ano difícil, mas um bom ano. Mas sem a pataquada de ter passado voando, que de janeiro até aqui dava pra ter tido um três réveillons e ainda seria pouco frente a velocidade que o mundo resolveu tomar. Que o digam os dois meses de Europa, a visita do papa, as agora batizadas de jornadas de julho e as pequenezas gerais.

Enquanto 2012 se encerrava calcado na desesperança e cansaço - que termine, apenas, é o que lembro de sentir -, este caro ano ímpar, e ímpar de tantas formas, vai embora com o rastro de uma palavra bonita que costumo usar tão pouco e que merecia ser mais lembrada: gratidão.

Lá pelos idos de fevereiro uma amiga deixou um bilhete na minha mala entre os dias nevados passados na querida Bologna com uma quase mensagem natalina, desejando sorte e um porvir mais aprazível. "A vida é grande."

E não é que é mesmo? Olha os sonhos aí, tomando lugar, as necessidades de alguma estabilidade - ap, emprego e outras pequenezas -, atendidas, o futuro, otimista, piscando a frente. Nada necessariamente fácil, eu não poderia viver só de calmaria, mas ali, desafiador.

Não foi dessa vez que aprendi italiano, apesar de que agora sou capaz de compreende-lo sem problemas e arrisco bem mais que duas, três frases. Também não tirei o meu adesivo de inimiga do ritmo da testa e desbravei o violão nem criei uma rotina de desenho e alimentação saudável, como prometido por aqui. Mas é preciso sobrar algo para prometer cumprir nos próximos 365 dias.

Se ano passado escrevi, "para 2013, peço apenas que seja mais leve", para 2014, esse ano que já me é tão bem vindo, nem me atrevo a pedir nada. Apenas que seja. E que tenhamos o peito e o coração aberto para fazer frente a altura dos desafios que aparecerem.

Deixo vocês com um desejo de um grande recomeço - por mais que entre o dia 31 e o dia 1 não mude muita coisa além um giro de relógio -, e com uma frase do Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas que gosto muito e já apareceu por aqui ao menos uma vez.

"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

23.12.13

“O que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Esses discos todos transformam você numa pessoa melancólica?
As pessoas se preocupam com o fato das crianças brincarem com armas e dos adolescentes assistirem a vídeos violentos; temos medo de que assimilem um certo tipo de culto à violência. Ninguém se preocupa com o fato das crianças ouvirem milhares – literalmente milhares – de canções sobre amores perdidos e rejeições e dor e infelicidade e perda. As pessoas mais infelizes que conheço são as que mais gostam de música pop; e não sei se foi a música pop que causou tal infelicidade, mas sei que elas vêm ouvindo as canções tristes há mais tempo do que vêm vivendo suas vidas infelizes.”

(Alta Fidelidade – Nick Hornby)

17.12.13

Milagrário

Me dei de presente, mais uma vez, um livro por conta do título. Quem resistiria a uma pequena brochura com a lombada azul celeste batizada de “milagrário pessoal”? Aposto que não fui a primeira leitor  que o angolano José Eduardo Agualusa ganhou com essa delicadeza.
Também prevejo pobreza no meu futuro graças a recém descoberta livraria localizada estrategicamente entre o ponto de ônibus e o escritório. Dessas de rede, mas organizada por amantes de livros, sabe? Com vitrines e bancadas que parecem ter saído de dentro da gente, tamanho o carinho da seleção. Mas tergiverso.
Este post é para registrar, além da vontade de imitar o narrador do livro e criar meu próprio milagrário pessoal – caderneta onde se anotam os pequenos e grandes milagres do cotidiano -, algumas frases doce de leite, roubadas da leitura. Dessas que dão vontade de guardar e reler e já valeram dobras ao longo do texto - tenho esse defeito. Todos meus livros acabam com uma ou outra ou muitas páginas com as pontas carinhosamente em triângulos, para lembrar um sei lá o quê, que nem sempre consigo decifrar.
Como a noção de desamparinho  (estou, percebe-se, numa fase de namorada das palavras, amando o português cada dia mais). Explica o narrador, “...desamparinho, na minha opinião uma das mais belas palavras do crioulo cabo-verdiano, dá nome àquela hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas”.
Mais uma dobra, mais um pedaço de doce de leite, que descreve tão bem tantas primeiras vezes que a gente teima em guardar na memória com lugar cativo e iluminação especial. “Uma aventura. A maior da minha vida. Ou não, e eu sinto isso por ter sido a primeira.”
E, por fim, última dobra – me segurei pra não fazer isso com todas as páginas do livro -, um adágio em prol das raias e ideias incompreendidas. “Esperava-se que eu produzisse conjeturas esdrúxulas e perigosas, um pouco como se espera de uma raia que segregue eletricidade e magoe quem a tente agarrar. Perdoa-se às raias, não é assim? Afinal é da natureza delas defenderem-se dos potenciais inimigos com chicotadas elétricas.”

* Em tempo, Carol Maia me deu outra "palavra africana bonita" de presente semana passada: ubuntu, "eu sou porque nós somos". Lindo esse nosso português, não?

13.12.13

Histórias do 336

Meu novo lar é um kitinete em um prédio que reúne outras 700 moradias de um cômodo só no mui valoroso bairro de Laranjeiras. A princípio, me assustei com os longos corredores verdes em que cada  porta equivale a, ao menos, uma alma - muita gente junta empilhada em um lugar só, temi -, mas conforme os dias passam percebo que mudei, na verdade, para uma pequena cidade de interior.

Por conta de um abridor de vinho tive a chance de conhecer alguns vizinhos. Como a dona Helena, que mora na porta ao lado, por exemplo, e descreve o abridor como "aquele de rosquear e puxar assim, pá (incluir largo movimento com as mãos rosqueando e puxando)". Ao todo, são 40 anos de 336. Vinte no quarto andar e outros 20 no oitavo. O suficiente para criar filhos, netos e, daqui a pouco, bisnetos.

Como não tinha o abridor -"só o de abrir pra cima, plac" -, me pegou pela mão e bateu comigo em outras duas portas. Dona Teresa e dona Lúcia, cada uma de um lado do corredor, assistiam a novela das 21h de porta aberta, proseando e bebericando uma cerveja, o que fazia bem mais sentido que meu humilde vinho de rolha neste dezembro tropical carioca, devo admitir, e ficaram felizes em ajudar.

Abridor em mãos, dona Helena foi comigo até a porta de casa e sorriu satisfeita. "Aqui todo mundo se conhece, pode bater quando precisar", disse, com seu ainda inconfundível sotaque pernambucano, indiferente ao pedido de abridor feito às já 22h e alguma coisa.

Entro no elevador, mais gente, mais histórias. Cruzo com seu Djalma, vindo do sexto andar, sorrindo com o cabelo grisalho desalinhado. Catarinense de Lages, fugiu do frio e há 15 anos vive sua aposentadoria pelas ruas e praias do Rio de Janeiro. No primeiro domingo da casa nova, moradora recente que sou, me embananei com a porta e fui obrigada a tirar uma fechadura na marra - leia-se arrombar a porta de casa -, e ele me ajudou. Imbuído do sentimento que torna todos aqueles que moram do Paraná para baixo compatriotas, pediu da porta e ofereceu os serviços de eletricista e encanador. "Sou especialista."

Nesse dia, em especial, envergava uma camiseta do Grêmio com as listras pretas caprichosamente trocadas por pedaços de pano roxos. "Que é isso, seu Djalma, mistura de Grêmio com Caxias?", fiz troça. "Que nada, retrucou. Foi uma aposta. Achei que trocando o preto, essa 'cor do mal', pelo roxo, o time ia melhorar. Não adiantou", disse. Dei risada, ele balançou a cabeça. "Quem sabe ano que vem."

Outro dia, mesmo elevador. Dona Cleusa, a ascensorista da ala B do prédio, que entre às 18h e a meia noite se ocupa de subir e descer o sem fim de moradores que voltam para casa após mais um dia na cidade além 336, se abana, tentando espantar o calor. Pergunto do prédio, citos os 700 e tantos apartamentos, as tais histórias de lenda urbana contadas por taxistas, ela garante que não tem nada disso e dispara. "É um prédio muito bom. Moro aqui há 31 anos."  Quase 23h, olha ansiosa para o relógio. "Só quero saber de ir para casa, gosto tanto de ficar em casa...". Quem sou eu para duvidar.

9.12.13

Uma história de amor dessas que dão gosto de contar

Neste fim de semana aconteceu no Rio mais uma cerimônia de casamento coletivo gay, um projeto muito bacana organizado pelo programa Rio Sem Preconceito, parte da Secretaria de Direitos Humanos da cidade. Por conta do casório, fui atrás do povo que ia juntar os trapinhos oficialmente e tive a sorte de encontrar um casal que, além de simpático e apaixonado, resume muitas das questões enfrentadas pela comunidade gay hoje.

Negros, pobres e moradores de Belford Roxo, uma das regiões mais violentas da Baixada Fluminense, Márcio e Alexandre estão juntos há 15 anos, sonham em adotar uma menina, mas evitam andar de mãos dadas na rua. Toda a vizinhança foi a festa de casamento, menos a mãe de Alexandre. 

Exemplo desse nosso país em que se dá um passo a frente no caminho da aceitação e dois atrás, numa valsa confusa que tenta unir as pontas de um país que tem um pé no presente e boa parte do corpo amarrada ao passado e ao retrocesso. Nosso Brasilzão de contradições.

Foto do querido Mauro Pimentel.

Em prol dos cliques, segue apenas um trecho.


Juntos há 15 anos, casal participa de casamento gay coletivo no RJ e sonha em adotar menina


(Foto do Mauro Pimentel)

Alexandre Teodoro de Lima, 35 anos, e Marcio Nascimento Cunha, 41, se conheceram por meio de uma amiga há quase 15 anos. “Acho que você vai gostar dele”, disse ela a Márcio. Um com 20 anos, outro com 26, foi quase amor à primeira vista. Não deu seis meses já estavam morando juntos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio.

Márcio, costureiro por vocação e auxiliar de serviços gerais para pagar as contas, já havia sido casado dois anos com um mecânico que morreu. Foi o primeiro namorado de Alexandre, também auxiliar de serviços gerais, que deixou a casa da mãe, evangélica, e até hoje descrente do casal, em prol do relacionamento.
Mais aqui.

8.12.13

Todo jornalista tem um quê de abutre

Trecho do vencedor do Pulitzer, Greg Marinovich, no Clube do Bangue Bangue, ao lembrar a primeira foto que vendeu para uma agência internacional.
"Era a chance de eu deixar a minha marca no mundo do fotojornalismo e, esperava, de abandonar as fileiras dos freelancers perpetuamente sem dinheiro. Pude fazer isso por causa da morte selvagem de um homem."

7.12.13

Palavra encontrada

A-lá-fi-a

Cortesia da Aline Custódio, que entende mais de buscas internéticas que eu.

Significa também "tudo de bom, felicidade".

Palavra perdida

Outro dia ganhei uma palavra de presente. É raro, mas às vezes acontece de nos darem uma delicadeza dessas assim, sem compromisso. Veio de uma moça em um festival de música. Ela queria muito entregar um cd para o povo de uma banda que eu ia entrevistar, ajudei, e ela veio com a palavra. Perguntei o que significava. "Sabe quando aparece "O" caminho em meio da desordem e é o caminho certo? É isso." Alguma coisa do candomblé temperada com muito de África, pelo que lembro. Tão bonita, tão sonora, tão cheia de história. E eu perdi. Ficou anotada entre os 350 bloquinhos que moravam comigo no Humaitá. Nem todos sobreviveram a mudança. Agora fico aqui, “alefa, aleia, como era mesmo?”, na esperança de cruzar com a moça ou a palavra outra vez.

28.11.13

Notas sobre o novo lar

- O dono do apê deve ser daltônico. Em um kitinete de menos de 30 m² ele conseguiu colocar duas paredes vermelhas, uma laranja e uma... verde limão!

- Me assustei ao descobrir que no meu prédio existem mais de 700 apartamentos. É muita portinha, muita alma, muita história no mesmo lugar.

- Entre os serviços oferecidos a esta pequena cidade em forma de edifício estão desde uma academia com entrada direta para o prédio até uma capela.

- Para não dizer que fiquei sem vista, da janela lá do quarto dá para ver o cocoruto do pão de açúcar.

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz: mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena de café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar o
atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga do
café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem café ao balcão.

JÚDICE, N. Matéria do Poema. Lisboa: D. Quixote, 2008

(poema presente no Enem deste ano)

27.11.13

A dor e a beleza da criatividade

Trabalhar com coisas relacionadas à criatividade como escrever envolve com frequência momentos em que parece mais fácil nevar no Rio de Janeiro que ter uma ideia. Foge o texto, foge o lide e, muitas vezes, parece fugir também a sanidade. Por isso a beleza dessa palestra do Ted da Elisabeth Gilbert.
E se a inspiração ou falta dela não for toda culpa nossa? E se pudermos olhar para o processo criativo com mais serenidade? Por que é preciso sempre associa-lo ao sofrimento?

26.11.13

Rua das Laranjeiras, 336

Chove no Rio. O tempo, fora o calor, lembra um dia qualquer de inverno em Porto Alegre. Entro em uma livraria no caminho até a parada de ônibus. Namoro as capas, leio um trecho aqui, outro ali, e começo, sem querer, a presentear novos e velhos amigos mentalmente. "Esse combina com fulano, esse é a cara de ciclano, esse tenho certeza que não sei quem iria adorar." Cruzo com livros para reler, faço uma conta valor-almoço-no-centro-da-cidade x preço-livros-em-geral e acabo me presenteando com um Agualusa, desses que quase cabem no bolso da calça. Tudo para poder escrever na folha de rosto, "Rio de Janeiro, novembro de 2013, meu primeiro apartamento".

25.11.13

Diferenças RJ-RS

Chamo um amigo - gaúcho - para almoçar comigo e outra amiga. Ele pergunta que horas marcamos, digo que dali a pouco,13h, e ele devolve. "Pode ser 13h15?"
Vontade de abraçar.

Diálogos - versão operadora de táxi

Quase meia noite de domingo. Saída da cobertura de um show na Apoteose, onde fica o sambódromo, em uma das pontas do centro do Rio. Frente às milhares de pessoas desesperadas para ir embora que tomam as ruas decido caminhar com alguns colegas até a Lapa e de lá dar um jeito de ir para casa.
Sento no primeiro bar com cadeiras livres que aparece e ligo para a cooperativa de táxi.
- Boa noite, gostaria de um táxi. Estou na Mem de Sá, 175, no Bar das Quengas.
- Bar do que?
- Das Quengas.
- Que o que?
- Que-en-gas.
- Quengas?
- Quengas. Tipo puta, sabe?Tem umas calcinhas e sutiãs pendurados nas janelas. Não tem erro.
Silêncio do outro lado da linha.
- Só aguardar o carro.

24.11.13

Ironia

Revejo as notas do bloquinho do começo do ano, durante os dias ciganos viajando, e, entre uma anotação e outra, a reflexão de que um pouco de estabilidade - emprego, casa, essas coisas -, não fariam mal.
Logo na linha de baixo, a melhor mea culpa.
A gente prega tanto a revolução e acaba sonhando com a propaganda de margarina.

Idiomas particulares

Tenho uma amiga brasileira que se apaixonou por um italiano durante um mestrado no Chile. Hoje os dois moram juntos em Turino e seguem falando, entre si, em espanhol.
Eles não falam o espanhol correto, gramatical - antes de pisar em Santiago nenhum dos dois sabia uma palavra de castelhano -, mas um idioma particular que ampliam a cada dia de convivência.
Falamos por Skype, toca o telefone, ela atende - "estoy hablando con Paula" -, e sei que é ele do outro lado da linha.
É um tanto esquizofrênico, já que ela fala italiano perfeitamente e ele arranha bem o português, e, de certa forma, um atentado a Cervantes.
E é tão bonito.

22.11.13

Closing time

Cheguei ao Rio com duas malas (de mão e sem rodinhas!), meia dúzia de livros e um travesseiro há, agora, quase quatro anos. Começo a fazer as malas para mudar - de bairro, apenas -, e só deus sabes quantas malas e sacolas sairão desse quarto.
Quanto papel, quinquilharia, memória a gente consegue guardar em um endereço?

21.11.13

Uma janela para sentir saudade

(Foto gentilmente roubada do @mauropimentel_)

O samba do criolo doido das buscas que levam ao Palim

É sempre divertido ler o relatório de estatísticas do blog que mostra como vez ou outra aparece alguém perdido por estas bandas internéticas. A melhor parte são as buscas.
Nesta semana da mesma forma que alguém chegou até aqui ao digitar "o que fazer em Roma em cinco dias", busca justíssima, já que lá ganhei vários e memoráveis quilos, devidamente registrados por aqui, outra pessoa deve ter levado um susto ao buscar "bebês mutantes" e ver esse fundo branco com o topo azul bebê.
Outra busca frequente é sopa - mafalda, mafalda sopa, não gosto de sopa mafalda e outras variações. Pois é, amigos, sinto que o Quino não era lá muito fã de comidas liquidas, mas não é por aqui que você vai chegar a algum lugar. Apesar de muito fã da Mafalda, sou bem chegada também em uma sopinha.
À galera que buscou manifestação, caras pintadas e Parque Lage também deve ter ficado um cadinho decepcionada, mas ao menos acertou o expectro da coisa: um samba do criolo doido post sim, post também.

20.11.13

Sobre quilombos e reportagens que valem a pena

Nesse dia da consciência negra, segue uma história que me deu muito prazer de apurar, sobre uma comunidade quilombola que vive há quase cem anos, quem diria, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos metros quadrados mais caros da mui valorosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.


Quilombo sobrevive em meio 

a uma das áreas mais caras do Rio



(fotos e parceria do grande Mauro Pimentel)

O número 250 da rua Sacopã, no bairro Lagoa, uma das regiões mais valorizadas do Rio de Janeiro, contrasta com a opulência dos vizinhos -  um sem fim de condomínios e casas luxuosas. O portão simples, cercado de árvores, dá acesso a um terreno de 18 mil metros quadrados de área verde preservada com vista privilegiada para o Cristo e para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá, sete famílias de descendentes de escravos lutam desde os anos 70 pelo direito de permanecer no local, avaliado em R$ 160 milhões.

Como eu quero cliques, fama e sucesso, deixo só esse trechinho. Mais aqui.

Berlim Bomfim

Aqui em casa, quando abro o pc, é sempre manhã de sol de inverno em Berlim.


Dessas memórias pra sair cantarolando por aí, "Berlim, Bomfim, Berlim, Bomfim"...

19.11.13

Praga em tópicos

(Do bloquinho, no agora longínquo março de 2013)
- Tom chegou a Praga. Toca na voz de uma cantora qualquer - Céu? Bebel Gilberto? - num café em Praga. Estranho ouvir português direto do rádio quando tudo ao redor fala checo ou inglês e a neve ameaça voltar lá fora.
- No topo de uma das colinas de Praga tem um metrônomo, desses de piano mesmo, em tamanho gigante. O monumento em si não lá muito/nada bonito - afinal é um triângulo com uma ponta indo de um lado a outro -, mas a simbologia é bacana. Com o fim do comunismo no país o governo decidiu trocar a estátua de Stálin, que até então observava a cidade em seu lugar, pelo aparelhinho, mostrando que agora a República Checa ditava o seu próprio ritmo.
- Walt Disney deve ter baseado os castelos dos seus desenhos em Praga, só pode. Parte da cidade parece uma casa de bonecas gigantes e as torres das igrejas e prédios apareceram em mais de um conto de fada animado da Disney.
- Um programa bacana e off-turístico da cidade é visitar uma das diversas casas de chá espalhadas pela cidade e aproveitar para espantar o frio de pantufas sentada em almofadas. A Cajovna Ve Vezi, além de ficar em uma torre com vista para a cidade, tem até chimarrão!
- Em Praga, pela primeira vez, usei meus óculos de sol como para-neve. Pior. Funciona.
- Assim como em muitas cidades da Europa é uma boa aproveitar o menu do almoço para comer bem e barato. O Ubalouna, rua Vaclavké Namestí, 20, é bem servido e vale a caminhada. Comi sopa, peixe com batatas, appfestrudell e tomei suco pelo o equivalente a 4 euros (ou 133 coroas)!
- Depois de pagar de turista até na Itália foi aqui, entre o checos, que me senti mais em casa. Ou que ao menos acharam que eu era de casa. Restaurantes após restaurante recebo o menu e as primeiras informações em checo.
- Praga fica na Bavária e a Europa é o paraíso dos fumantes.
- É interessante notar a diferença entre o lugar que a gente chega e o lugar que a gente deixa. De uma hora para outra o que até então era estranho e muitas vezes ameaçador ganha marcas, caminhos preferidos, diminui de tamanho. Passa a deixar saudade.

18.11.13

Ficções

Toma, feliz natal. É um cedê do Djvan. Misturei as músicas. Não gosto quando fica tudo muito certinho, muita música famosa junto.
Sabe que encasquetei com aquela música do dinossauro?

Mas sério, não precisa me levar a pé até em casa. Tu vai perder o ônibus.
Eu sei.

Tem que limpar essas venezianas. Fica muita poeira, faz mal. Se tu quiser eu te ajudo.
Brigada, acho que vou precisar de ajuda, sim.

Desisto, não desisto, desisto.
Oi, como foi o dia? Quer tomar uma cerveja?
Calorão, né? Brigada, mas vou lavar a louça.
Não precisa lavar agora. Termina a cerveja antes.

Não vai embora. Dorme só mais essa noite aí.
Não posso. A gente já viveu tudo o que tinha para viver.

Tem uma bermuda, uma cueca, uma escova de dentes, um chinelo e um desodorante que não são meus aqui em casa.
Ué, como eu ia escovar os dentes e tomar banho?

Quer namorar comigo pelos próximos nove meses?
A gente já não está namorando?

Tu viu que eu deixei as tuas coisas com o porteiro?
Vi. Até a escova de dentes.
Até a escova.
Preciso te entregar as tuas. Tua escova ainda tá aqui.
A escova não precisa.
(O plano é desovar as anotações da viagem as zooropa do caderninho. Portanto não estranhem a falta de ordem cronológica ou os países aleatórios. Sigo pelo Rio nesse doce e quente novembro - mas com a mente viajando, para variar.)

Os sem fim de Bianchis pela Itália


Cartaz anunciando os tipos de vinho branco em um restaurante em Bologna. No começo fotografei toda e qualquer menção ao nome Bianchi como se não houvesse amanhã me sentindo especial e esperta. Até que um garçom em um café chamado, advinha, cortou meus naipes em Florença.
"Ah, moço, é que o nome da minha família é Bianchi. Sou brasileira."
"Sei. Muitos brasileiros que vem aqui dizem isso."
"Ahhh (suspiro de decepção)."
Passado o trauma, me contento em ter um sobrenome que serve como designação para vinhos. Bons vinhos, até onde provei.

17.11.13

Mi Buenos Aires querida

Fui a Buenos Aires com a baby sister no comecinho de outubro, curtir a primavera bombando na cidade e a saudade das terras porteñas que me ataca vez em sempre. A viagem foi uma delícia e teve como mérito, além da boa companhia, a sábia decisão de desencanar do turismo tradicional e apenas flanar sem culpa.

Pela terceira vez na cidade, dei pulinhos quando Bianchi jr, que fazia sua primeira visita, comunicou que tinha zero ganas de conhecer o caminito e afins:

"Eu quero é saber de passear, beber e comer bem", declarou nas nossas primeiras horas em solo hermano.
E assim fizemos. Entre um café e outro os seis dias que fiquei por lá passaram voando e nem bem um mês que voltei já estou com saudade.

Ficamos primeiro na casa de uma amiga no charmoso bairro de Villa Crespo, vizinho ao hype Palermo, e depois na casa de outra amiga, também em Palermo, do que sai a primeira dica: na hora de se hospedar, esqueça o centro. Essa região é cheia de programas legais e um deleite para os olhos, o que torna qualquer caminhadinha um passeio bacanudo. Se você não tiver a sorte de ter amigos na cidade, o melhor é alugar um quarto/ap por sites como o Airbnb. É um privilegio acordar, passar na padaria mais próxima e tomar café com um sem fim de mejas lunas diferentes em casa mesmo. O que me lembra: padarias porteñas, visite, sente, coma, seja feliz.

De diferente, além do flanar, comer, flanar, comer, flanar, que me parece, basicamente, o melhor a fazer na cidade, fomos, por conta da amiga que no recebeu, a uma ilhazinha na foz do tigre. O processo é simples e barato. Pega-se o trem até o final e de lá um barco-ônibus que passa pelas ilhas, quase todas habitadas. Paramos em uma chamada Três bocas, com carinha e trilhas de jardim secreto.

Por que é sempre bom redescobrir um lugar que já mora em nosso coração - e voltar a Buenos Aires uma questão de quando, não de se.
A procrastinação é uma arte. Estou frente ao pc desde às 11h a fim de terminar uma materia. Já tomei dois chás, comi um sanduíche, li um artigo sobre Frances Ha, recomendei o artigo para os amigos, liguei para casa para saber das novidades, abri a geladeira cinco vezes em busca de alimentos que sabidamente não estavam lá, discorri sobre os acontecimentos do fim de semana com os roomies Mauro e Rafa e quedê materia, ein?

13.11.13

Meu pai, meu herói, meu melhor personagem

O pai fez uma cirurgia hoje. Nada grave, nada tão simples. Internação, essas coisas. Ligo para saber se correu tudo bem (uma das agonias de morar a 2 mil km de casa é não poder correr pra casa caso a resposta seja negativa). A mãe diz que sim, que a anestesia foi leve, ele falou o tempo todo, devem voltar pra casa ainda hoje à noite. "Acabou de vir o médico aqui me dizer que ele falou que quer ser avô."

10.11.13

“It reminds me of that old joke- you know, a guy walks into a psychiatrist's office and says, hey doc, my brother's crazy! He thinks he's a chicken. Then the doc says, why don't you turn him in? Then the guy says, I would but I need the eggs. I guess that's how I feel about relationships. They're totally crazy, irrational, and absurd, but we keep going through it because we need the eggs.”


― Woody AllenAnnie Hall

29.10.13

Brusquetas de despedida do apê

O bloguinho tarda, mas não falha, e cá estamos nós de novo com três versões de uma gordelícia praticada aqui em casa na segunda à noite - porque a vida é curta, o fim de semana teve Enem e em breve partirei para uma jornada solo e deixarei de compartilhar as noites de segunda e o apê com a galerinha e suas altas confusões. Estamos falando das suas, das nossas, das amigas e pau para toda a obra...brusquetas! Esse pedacinho de pão com cobertura e nome fresco que alegra os nossos corações.

Atenção para a mãozinha gulosa que não esperou o fim da foto

Estávamos em três - eu, Rafa e Mauro - e achei por bem e por preguiça que três sabores estavam de bom tamanho. Atacamos de brusquetas de salmão, berinjela com abobrinha e cebola ao vinho, devidamente acompanhadas por uma digna garrafa de malbec deixada na casa por uma amiga que visitou o apê em setembro. Percebam a força de vontade acumulada que foi necessária para garantir que ela seria tomada apenas e tão somente em uma ocasião especial.

Dessa vez especial e exclusivamente com fotos, feitas para incentivar o bullyng na Rafa, que fazia o caminho jornal-casa enquanto a comida se encaminhava para os finalmentes.

Para acompanhar a receita a seguir você vai precisar dê:
- 2 baguetes (melhor o pão, melhor o resultado);
- 1 berinjela;
- 1 abobrinha;
- 1 cebola grande;
- 1 pacote de salmão defumado;
- 1 tomate médio;
- 1 pote de creme de ricota - penso que para tornar a coisa toda vegana é só achar uma versão de soja. No mercadinho aqui perto de casa tinha. Cream cheese também deve ficar mará, só encarece um pouco o custo total da receita;
- salsinha;
- cebolinha;
- açúcar;
- sal e pimenta a gosto;
- azeite de oliva;
- gole de vinho, preferencialmente a garrafa que vai acabar na mesa depois;

A base das três brusquetas é a mesma: pedaços de baguete cortados em rodelas/diagonal cobertos com generosas camadas de creme de ricota. Já cada cobertura tem sua bossa específica.

A brusqueta de salmão que, curiosamente, apesar estar uma delícia, ficou em terceiro no gosto do nosso respeitável público, vale o clichê: mais fácil impossível. Fosse dia de feira o salmão seria fresquinho, o que, para os amantes do peixe cru como yo, seria a glória. Sem feira, ataquei de defumado, o que também é uma delícia. Depois de cobrir o pãozinho com o creme de ricota é preciso apenas cortar o salmão em pedaços, colocar uma fatia dobrada por pão, salpicando com cebolinha picada. A casa recomenda gergelim torrado, em falta na hora do preparado receita.

Ó a gostosura marota da brusqueta de salmão

A brusqueta de abobrinha com berinjela, segunda no ranking amiguistico, exige um pouco mais de desenvoltura culinária e etapas, mas fica igualmente irresistível. Você começa cortando a abobrinha e a berinjela em rodelas fininhas, mas não finíssimas, e o tomate em pedaços equivalentes. A abobrinha e a berinjela, depois de temperadas com sal e pimenta, vão para uma frigideira com teflon e um fiozinho de azeite de oliva na base e depois por cima delas. Fritou um lado, vira pro outro e ya está. Depois é só montar cada pãozinho também já com o creme de ricota com um pedaço de berinjela, um pedaço de tomate e um pedaço ou mais de abobrinha. O ponto da abobrinha e da berinjela é aquele do "ai que vontade de comer". Deu vontade de comer e não sobrar para a receita, tá no ponto.

Brusquetas de berinjela com abobrinha. Hmmmm

E por último mas não por último em nossos corações àquelas que foram eleitas as preferidas da casa: as brusquetas de cebola com vinho. Essa de complicado só tem o nome. Cebola picada, colocada para dourar na frigideira em fogo baixo em uma quantidade razoável de azeite de oliva temperada com sal, pimenta e o pulo do gato: uma colher de sopa rasa de açúcar. Lá pelo fim da doração é só colocar um pouquinho de vinho da frigideira e deixar dourar mais um pouco. A montagem é parecida com as outras. Pãozinho com creme de ricota, cebola e um pouquinho de salsinha em cada porção.

Ó como fica bonita a cebola com esse tom roxo do vinho

Quanto ao título do post, pois é. Dentro de muito em breve as aventuras aqui narradas serão postadas direto no meu novo quartel general no mui valoroso bairro de Laranjeiras, também no Rio. Mas com uma cozinha - micro - e uma sala suficientes para dar ensejo a novos "momentos chef". E que venham novas confusões!

11.10.13

Pequeno resumo dos momentos incomuns das últimas duas semanas

- Todos que entravam e saiam do quartel do Bope por volta das 4h a.m de domingo gritando caveeeeeeeeeeeeeeira a plenos pulmões, como nos filmes. Que sonhos recheados de medo não terão esses vizinhos do batalhão, encarapitado no alto de um morro em Laranjeiras, na zona sul do Rio;

- Os olhos absurdamente azuis do Eduardo Campos, dois dias antes da Marina dar uma rasteira em geral anunciando sua entrada no PSB.

- o desconhecido que ao me ver um pouco cega, um pouco desnorteada por conta do gás lacrimogêneo lançado pela polícia, corre em minha direção. "Boa noite, amiga, tudo bom? Você pode colocar isso sobre os seus olhos, por favor, sem esfregar? É vinagre, vai fazer bem."

- As pedras dos manifestantes e as bombas dos policiais voando de um lado para o outro na Cinelândia, em pleno centrão do Rio. Tem um que de fogos de artificio no cair do gás lacrimogêneo.

- O grupo de pessoas que comia churrasquinho e curtia um sambinha a duas quadras da mesma manifestação.

- Os cariocas que caminhavam de volta para casa em uma rua paralela a Cinelândia durante a mesma manifestação, como se nada estranho estivesse acontecendo. (será o carioca, e não o sertanejo, antes de tudo um forte?).

- O taxista do post abaixo, que descubro PM e ao invés da tropa apoia os manifestantes.


Fellow taxista

Fui e voltei da cidade da polícia hoje com um taxista animado e a fim de bater papo, como são tantos desses senhores a frente dos amarelinhos. Me perguntou o que eu achava dos black blocs e começou a explanar que vidros de banco não sofriam, ônibus tinham mais é que ser queimados pras companhias perceberem como tratam mal os usuários, que o governo tratava a população e os manifestantes muito mal, e por aí vai, num discurso bem incomum aos fellows taxistas que costumam me apanhar na mui valorosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Eis que quase no fim da corrida, já com o voucher pronto, ele acrescenta que é PM. Os butiãs do meu bolso estão todos no chão.

9.10.13

status

Atrás de algum tempo de elaboração pra enteder o zeitgeist, espírito dos tempos.

23.9.13

Em tempo

Bianchi Jr chamou a atenção por e-mail para um erro perpetuado há tempos na barra lateral aqui do bloguinho. Um das frases de que mais curto do Eduardo Galeano não é, ora pois, do Galeano.
A confusão se deve a uma entrevista em que o escritor cita a definição de utopia que o diretor de cinema argentino Fernando Birri deu durante uma palestra que os dois fizeram juntos em Cartagena há alguns anos, como a gente vê (e é sempre bom escutar esse uruguaio) no vídeo abaixo.



Engano esclarecido, sigo concordando com Galeano apud Birri:  "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
Valeu pela correção e pelo vídeo, Caro!

Onde está Amarildo e a situação da sua família

Mais uma materia pra avivar a tags impressas (pero online). Fala da situação da família do ajudante de pedreiro Amarildo, desaparecido depois de ser levador por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha no dia 14 de julho. Apesar do texto ser do fim de agosto, a esposa dele, Bete, ainda pergunta "onde está Amarildo?" e sabe-se lá se vai ter alguma resposta.



Com medo da polícia, família de Amarildo vive em casa na Rocinha com 17 pessoas

Com medo da polícia, a mulher do pedreiro Amarildo de Souza, visto pela última vez no dia 14 de julho quando foi levado algemado por PMs da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, passou a morar, no começo de agosto, na casa da cunhada, Maria Eunice Dias Lacerda. 
Lá, Elisabeth Gomes da Silva divide com os seis filhos um quartinho de cerca de 3 m², antes usado como cozinha, anexo à casa de dois quartos, sala e banheiro que abriga ainda outros dez parentes.
Entre filhos, sobrinhos, netos e agregados, numa escala de idade que vai dos seis aos 60, ao todo 17 pessoas vivem no local. "Acha que é fácil fazer comida para 17 pessoas? Vai um botijão de gás a cada 13 dias!", diz Bete, como é chamada pelos amigos.
Nas noites de chuva, todos se amontoam na sala para dormir, por conta das goteiras e dos ratos que passam por cima do cômodo sem forro, que dá para o quintal fechado por tapumes improvisados, onde patos, gansos e uma tartaruga fazem as vezes de bichinhos de estimação. 
Quase sem espaço, os poucos pertences – torradeira, som, televisão e um que outro eletrônico -, ficam empilhados junto às roupas. Apesar de morar no anexo, o banheiro é compartilhado com todos e uma das coisas que Bete mais sente falta da casa antiga. "Aqui não tenho nem banheiro. Se der vontade no meio da noite, tem sair , pegar frio, chuva, e ir lá na casa", diz.
A comida vem de doações de moradores e pessoas de fora da comunidade  – "Um dia um vizinho dá um litro de óleo, outro dia outro vizinho dá um saco de arroz" -, e do ordenado da cunhada, que trabalha como diarista, e da sobrinha Michele, professora de teatro, as únicas com emprego fixo na casa.
"Quando meu marido era vivo, ele ganhava pouco, mas tinha carteira assinada e se esforçava. Um mês dava um chinelo para um filho, outro mês para o outro e assim ia", diz, ao comentar as dificuldades que a família tem passado. Por conta da repercussão do caso e do tempo perdido entre buscas por Amarildo e depoimentos, os filhos e sobrinhos têm tido dificuldade para conseguir trabalho.
A família também se reveza para acompanhar Bete, que não vai à rua sozinha nem para levar os filhos ao colégio. "Outro dia passou um policial da UPP de carro e começou a me xingar de vagabunda, safada, abusada. Se mataram o Amarildo, por que não matar a mulher dele?", questiona. "Estou com medo até de sair para comprar o pão."
Desde o dia em que o pedreiro sumiu, ela e os parentes perguntam pelos corredores da favela "onde está Amarildo", em um grito que extrapolou as proporções da comunidade e do Rio: ganhou as páginas dos jornais internacionais e as mesas de bar e passou a ser palavra de ordem nas manifestações que têm ocorrido toda semana. Para ela, a repercussão não agradou as forças policiais, acostumadas ao silêncio dos moradores. 
"O destino do meu marido é que ele está morto, e foi morto pela polícia", afirma. Segundo ela, tudo que a família quer é um fim para a história. Ela conta que não sabe o que dizer à filha de seis anos, que pergunta pelo pai todos os dias. "Se acharem um ossinho dele que for, a gente quer, para ter a honra de fazer um sepultamento direitinho", diz a cunhada Maria Eunice.
Na última quinta-feira (22), a família e um grupo de manifestantes fecharam mais uma vez a autoestrada Lagoa-Barra, uma das principais vias de acesso à Barra de Tijuca, na zona oeste do Rio, em passeata até a casa do governador Sérgio Cabral (PMDB) e do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, perguntando "onde está Amarildo".
 "Virou uma epidemia", diz Bete, ao citar os locais aonde a busca pelo marido chegou. "Outro dia, minha sobrinha me mostrou no computador que tem gente até na Rússia perguntando pelo Amarildo."

Pequenas alegrias da segunda de manhã

Cumprir listas. Adoro listas. Parte da lista era escrever aqui. Check.

3.9.13

Federico em su balcón

Entrei em uma livraria no centro da cidade pra fazer aquele tradicional passeio entre os livros e alegrar o dia e acabei com um exemplar do último livro do mexicano Carlos Fuentes por conta do título e do primeiro parágrafo, o famoso lide em jornalistês.

"Eu o conheci por acaso. Era uma noite mais que quente, pegajosa, irritante, inquieta. Uma dessas noites que não aliviam o calor do dia, mas o aumentam. Como se o dia acumulasse, hora após hora, sua própria temperatura só para soltá-la, toda junta, ao morrer a tarde, entregá-la, como uma noiva molesta e manchada, à longa noite."

Me lembrou o verão em Porto Alegre, quando as madrugadas se enchem de latidos dos moradores aflitos que levam os cachorros pra passear na esperança de que passar calor na rua pareça menos sufocante do que em casa.

É uma conversa entre Fuentes e Nietzsche, ambos na sacada.

Leremos.

22.8.13

Moro em uma cidade que tem uma rua chamada "Travessa dos Poetas de Calçada".

Precisa dizer mais alguma coisa?

19.8.13

Diálogos maternos - versão Heow de Janeiro

Mãe, em sua primeira visita ao Rio desde que mudei para a província de São Sebastião de mala e cuia no agora longínquo 2010.
“Não consigo nem imaginar tu morando aqui, sozinha, nessa cidade tão grande.”
“Mas mãe, eu já moro aqui faz mais de três anos!”
“Que bom que pelo menos eu não vejo.”

1.8.13

Termine ontem Paula, da Isabel Allende, que li por motivos óbvios - sou dessas que lê alguma coisa porque tem o próprio nome na capa, sim -, e porque uma amiga, encantada com Casa dos Espíritos, que li e gostei há muito tempo, me lembrou da delicadeza do realismo fantástico que essa chilena prática.
No meio do livro, uma descrição me fisgou. A da família italiana "numerosa e sem grandes complicações metafísicas ou intelectuais". Tá aí, é daí que eu venho.
E viva as famílias sem metafísica, só chocolate, como diria o Caeiro.

31.7.13

Tag impressas e o meu banheiro do papa

Tem uma tag aí do lado criando poeira chamada impressas. Um pouco porque faz tempo que não tenho nada impresso, posto que agora sou uma moça que trabalha nas redações online da vida, outra porque a gente vai ficando mais exigente com o tempo e boa parte do material, mesmo ficando bacaninha, não parece digno de nota coisa e tal, tal e coisa.
Mas eis que no meio desse furacão papal - a Jornada Mundial da Juventude e seus dois milhões de peregrinos atacaram o Rio de um jeito que parece até piada falar em "imagina na Copa" depois de semana passada -, se sobressaiu um texto que me deu muita alegria em escrever e, pelo jeito, os leitores também curtiram.
A história é triste, mas tive a chance de falar de gente, os tais personagens no jargão jornalístico, que é justo o que mais gosto e que acho que faz essa profissão valer a pena.
Sem mais delongas, meu baño del papa (o filme, por sinal, também merece muito ser visto).

Homem faz "banheiros do papa" em Guaratiba e perde R$ 10 mil sem Francisco

Aos moldes do filme uruguaio "O Banheiro do Papa" (2007), que conta a história de um contrabandista que gastou todas as suas economias na construção de um banheiro para receber os peregrinos que passariam pelo pequeno vilarejo de Melo, na fronteira do país com o Brasil, por conta da visita do papa João Paulo 2º, o marmoreiro Rodrigo Silva empenhou R$ 10 mil para erguer 12 toaletes ao lado da sua casa, localizada em frente ao Campus Fidei.
  • Divulgação
    Cena do filme "O Banheiro do Papa", no qual rapaz pobre da fronteira entre Brasil e Uruguai vê uma grande oportunidade de negócios quando o papa vai visitar sua cidade: construir banheiros provisórios para serem usados pela massa que acorrerá ao local
O local, antes um manguezal coberto de mato, havia sido escolhido pela organização da Jornada Mundial da Juventude para receber a vigília e a missa de encerramento do evento, que aconteceriam neste sábado (27) e domingo (28), mas foi abandonado por causa da forte chuva que caiu sobre o Rio durante toda a semana, transformando o que deveria ser um local aterrado em um grande lamaçal.
 "E ainda tenho que pagar os pedreiros segunda-feira", lamenta Rodrigo, que como o personagem Beto, do filme dos diretores Enrique Fernandez e Cesar Charlone, viu os lucros da visita papal evaporarem sem deixar vestígios.
A Jornada prometia levar cerca de 2 milhões de pessoas a Guaratiba, bairro pobre e quase rural localizado a cerca de 60 quilômetros do centro, nas franjas da cidade, e chegou a ser comparada pela prefeitura à organização de duas festas de ano novo e um Natal, tamanha a sua grandiosidade.
Ao perceber as possibilidades trazidas pela multidão, o produtor de eventos Juracy Santana investiu ainda mais alto que Rodrigo. Com mais cinco sócios, comprou seis caminhões de refrigerante, água e afins, alugou 16 pontos de venda e contratou quase cem pessoas para trabalharem na força-tarefa que receber toda essa gente exigiria.
Na quinta-feira (25) de manhã, quando o rumor de que a vigília seria transferida para Copacabana tomou força –a possibilidade era ventilada desde o começo da semana devido à chuva, que deu trégua apenas no sábado (27)--, Juracy preferiu não acreditar e orientou que todos seguissem trabalhando. "Ninguém cancela um evento desse porte com menos de 24 horas de antecedência", afirmou.

O plano era abrir as portas na sexta (26), às 12h. Às 15h de quinta, quando o prefeito Eduardo Paes fez o anúncio oficial do cancelamento em uma coletiva no Centro do Operações, não havia mais o que fazer.
Dona do restaurante Hi Deu Certo, quase ao lado da casa de Rodrigo, Leila Santos de Oliveira tinha 3.000 quentinhas encomendadas. "Quando o pessoal da obra começou a almoçar aqui e comentar que o palco estava cedendo, vi que não tinha mais jeito", disse."Foram R$ 67 mil no lixo", conta. Um dos sócios chegou a vender o carro, um Fiesta, para entrar na empreitada. "Era o tipo de negócio que não tinha como dar errado. Nos prometeram que o mundo estaria com os olhos em Guaratiba, que a visita do papa iria mudar tudo. E agora?"
Sem papa nem peregrinos e com o serviço cancelado, a solução foi doar os 800 frangos congelados que havia comprado para os vizinhos e torcer para tirar parte do prejuízo na venda dos refrigerantes que estocou pensando na multidão com sede. "O chão de todo mundo caiu."

"Não tinha como dar certo"

O terreno, que ainda guarda quase toda a estrutura montada para a vigília, virou atração no bairro. Várias pessoas param para bater fotos do que restou das construções. Entre a lama e a água que tomaram conta do espaço, destaca-se o palco, com uma enorme cruz no meio, e o sem fim de tendas que iriam abrigar praças de alimentação e igrejas.
Os vizinhos do Campus Fidei, no entanto, já desconfiavam há tempos que a Jornada teria problemas. Há 15 anos no local, o técnico de aquecimento João Medeiros, que tem um pequeno sítio coberto de árvores frutíferas ao lado do terreno, diz que foi acusado de pessimismo pela mulher ao comentar, ainda quando começaram as obras, que não daria certo.
 "Eu sabia, não tinha como. Mataram o manguezal e não escoaram a água. Eu e meus filhos tirávamos caranguejos de balde daí, para aterrar precisava muito mais trabalho", afirma. Ele conta que passou dois anos ouvindo helicópteros e vendo caminhões entrarem e saírem da área na terraplanagem, mas não viu fazerem valas que levassem a água em direção ao córrego que corre perto do terreno.

Os próprios operários, que hoje guardam as instalações do campus e ajudam no deslocamento de parte do equipamento, dizem que não havia como fazer a vigília ali. "Se você caminhar um pouco para frente, a água bate no joelho. E o que não é água é lama. Isso precisava de pelo menos mais um mês de trabalho", afirma uma operária que guardava uma das entradas do Campus e preferiu não se identificar.

18.7.13

Viena antes e um pouco depois do amanhecer



Eu, eu mesma e Viena (com a amiga mala, que me acompanhou toda a viagem)

Passei por Viena a mil, a caminho de Praga, e me arrependi profundamente. Soubesse que a cidade era tão legal tinha ficado mais um tempinho. O que me lembra: de busão a Europa é muito mais barata. Paguei incríveis 15 euros de Buda a Viena, pela Orange Ways (o site é tosco, mas o ônibus é razoável), viagem que, se não me falha a memória, levou menos de seis horas.
Cheguei 20h na rodoviária onde todo mundo, thank God, falava inglês, e parti sem lenço nem documento a cata de um hostel no centro. Ao sair do metrô - o transporte público funciona mega bem e é outro ponto forte da cidade -, dei de cara com uma catedral iluminada por mil fragmentos de cor, o que, descobri depois, era uma forma de celebrar a quaresma. Parti às 13h do dia seguinte rumo a Praga, já com saudade.
Fora toda a memória de Antes do Amanhecer que a cidade evoca - quem não, viu, VEJA, e aproveita que o terceiro filme da trilogia, Antes da Meia-Noite está em cartaz -, e o fato de que, infelizmente, não encontrei nenhum Ethan Hawke no caminho, ficou a lembrança de uma cidade alegre e cosmopolita, vestígio, acho, do antigo reino Austro-Húngaro.

Pra não dizer que não cruzei com o Ethan...

Em tópicos, como mandam as anotações do caderninho:
- Se a Catedral é o coração da cidade, a ópera é a alma. Viena, além de ter acolhido Mozart e Bethoven, é repleta de música por todos os lados;
- Mozart, não se enganem pela produção clássica, era sexo, drogas e rock'n'roll e levava uma vida deverás boêmia para a época, ao menos foi o que disse o meu guia;
- Bethoven se mudou mais de 30 vezes. Parece que os vizinhos não eram tão fãs assim de seus "tã, tã, tãns" ao piano;
- Existe uma cozinha austríaca e uma cozinha apenas vienense, fruto da mistura que ser a capital do império austro-húngaro proporcionou. E vou dizer, parece boa pra caramba. Tem um mercado público que funciona todos os dias em uma avenida - não lembro o nome, mas é bem famosa -, em que é possível beliscar as gordisses mais deliciosas, como damascos recheados com nozes, azeitona entupidas de queijo e por aí vai;


A tal comida vienense

- Mesmo no frio a população da cidade curte a noite e sempre tem gente no calçadão sendo feliz;
- "Its was very nice, I am amuse" era a frase preferida do último imperador. Parece que ele pediu um palácio a um arquiteto, não gostou, expresso isso publicamente, e o cara se matou. Com medo de levar mais uma morte nas costas ele passou a usar o bordão sempre que perguntavaam o que ele achava de alguma coisa;
- Os garçons em Viena, como explicou meu guia, são feito maestros. Não ouse chamá-los, isso é uma ofensa terrível. Eles regem a sinfonia da sua visita e te atendem quando e se quiserem. Quase cariocas;
- É possível pedir um cafézinho e passar a tarde lendo em um café sem ser importunado. Os cafés, inclusive, tem um bom estoque de jornais e revistas. Pena que a maioria é em alemão...

17.7.13

Mais Budapeste

O Danúbio

Ainda sobre Budapeste, essa graciosa e triste cidade as margens do Danúbio. A Hungria tem hoje um sétimo do seu território atual e já foi palco de tantas guerras que o meu guia no walking tour, ao resumir os séculos de opressão, preferiu não se alongar mais pra evitar que o público começasse a chorar.
Tenho pra mim que três dias são suficientes para saracotear pela cidade, que é altamente caminhável, sem peso na consciência. Quatro, caso você caia de amores pelo lugar.
Achei Budapeste linda, mas com um clima meio pesado - serão as guerras, a crise, os vestígios do fim do comunismo? -, e na minha última manhã já esta era louca pra picar a mula.
Ah, e a título informativo - Buda é a parte antiga da cidade, nos montes, onde fica o castelo e as casas antigas imemoriáveis. Peste a parte plana, comercial, do outro lado do Rio. Melhor se hospedar em Peste, onde estão boa parte das atrações, e visitar Buda a pé mesmo.
Das minhas anotações, destacam-se:
- As termas - Fui na que fica no meio de um parque e tem pinta de museu. Tanto os prédios quanto os frequentadores parecem estar la há gerações. Água quente, sauna, massagens (mas tudo de uma forma muito casta), e hidroginástica com velhinhos húngaros. Vale por o biquíni na mochila pra isso.
- Os pubs mucho loucos construídos em casarões semi-destruídos pela guerra - O Szimpla é o mais famoso. Me diverti comendo cenouras orgânicas por lá no meio da madrugada. O bar tinha ainda um pé direito gigante e as paredes cobertas dos objetos mais improváveis. Na salinha em que sentei, para vocês terem uma ideia, a decoração era focada em televisões quebradas.
- O enroladinho de pão doce que eu não lembro o nome, mas é uma delícia e tem em qualquer padaria. A própria feitura é bacana de acompanhar. Tiras de pão (?) são enroladas em um cilindro de madeira, que fica girando como um churrasco numa espécie de forno. Também tem na República Checa, mas lá é menor. Doces húngaros no geral são muito gostosos.
- Os sapatinhos em homenagem aos judeus perto do Parlamento. Foi o país que teve um dos holocaustos mais rápidos e crueis. Milhares foram mortos e atirados ao Danúbio na primeira noite.

16.7.13

Diálogos - versão sabedoria fitoterápica materna

Meus pais são meu melhor personagem. Seu Paulo e Dona Marlei renderiam fácil um livro de crônicas. Enquanto esse pseudo projeto não sai do mundo das ideias, segue mais um diálogo materno.
Acordei me sentindo meio mal e fiz como um bom adulto. Liguei pra senhora minha mãe, vulgo Marlei Peteffi Bianchi, que junto com o pai tira férias nas tais águas quentes de Santa Catarina.
"Mãe, que que eu posso tomar?"
"Ah minha, filha. Faz um chá de casca de romã."
"Tô sem casca de romã..."
"Então procura um pé de goiaba e pega umas folhas pra fazer o chá."
"Hum, também não lembro de nenhuma goiabeira na vizinhança."
"E folha de pé de jabuticaba?"
Como faz pra praticar fitoterapia ítalo-serrana-gaúcha na urbe, ein?

15.7.13

Diálogos - versão família de férias nas "águas"*

Domingo à noite. Parte da família reunida em uma cidadezinha qualquer de Santa Catarina que teve a sorte de ter águas que brotam da terra quentinhas, top 5 passeios preferidos dos moradores da Serra Gaúcha. A filha liga pra saber como foi o fim de semana de semi-férias.
- E aí, gatão (vulgo, pai), tudo bom? Aproveitando bastante?
Por pai imaginem um jovem senhor de 63 anos, 1,68 de altura, lépido e faceiro, lutando com um ponteiro da balança que teima em passar os 100 kgs.
- Ah, tudo muito bem minha filha.
Do outro lado da linhas ouvem-se ais e assemelhados
- Só tô todo dolorido.
- Ih, atacou a coluna de novo?
- Não, fui no parque aquático com teus primos e resolvi andar no toboágua.
Ah, a juventude.

Paulo Bianchi, em toda a sua glória, se divertindo "pacas" (um dos seus advérbios preferidos) passando sulfato nas bergamoteiras.


Pequeno dicionários de gringolês:
 "Águas" - entende-se por águas todo e qualquer lugar em que é possível desfrutar de fontes de águas quentes canalizadas em piscinas naturais ou não. Último grito em São Paulo há 15 anos, Caldas Quentes, em Goiás, é hoje o último grito em Caxias do Sul.
"Vou para as águas" - expressão comum aos jovens de mais de 60 anos que se refere ao ato de se deslocar da Serra Gaúcha em direção aos tais locais em que é possível desfrutar de fontes de águas quentes canalizadas em piscinas naturais ou não.

*Post dedicado a Bianchi Jr, que veio, de forma justa e completamente cheia de razão, reclamar do abandono deste espaço pelo qual a gente nutre tanto carinho, mas alimenta vez em quando, quase nunca.

19.6.13

17-06-2013

Me ressinto de tanta produção própria acabar rodando só pelo Facebook, que tem toda essa veia comercial envolvida, e acaba que faço a mesma coisa. Os curtir são sedutores, é um público fácil, a mão. Foi se o tempo de entrar em blogs por conta própria e não através de links compartilhados.
Posto isso, preciso registrar aqui alguma cosia sobre o dia 17 de junho, que já se tornou histórico. Eu estava num voo pinga-pinga, que saiu de Porto Alegre às 18h30, pingou em São Paulo e pousou no Rio às 21h. Me doeu na alma estar lá e não na rua, mas fato é que quando eu desembarquei tudo tinha mudado. Eu já suspeitava quando aí pelas 20h, na conexão, chegou a mensagem de um amigo dizendo "invadiram o Congresso".
Mais de 200 mil pessoas foram às ruas pelos 0,20 centavos, pelo transporte, pelo direito à cidade e outras reivindicações mil. Mas o mais bonito de tudo foi ver essa massa perceber que, olha só, a rua também é lugar de gente, de protesto. Ver esse povo sair do tal Facebook.

(foto do Gustavo Gantois, do Terra)

7.6.13

Lasanha de berinjela da Dé

Desde terça meu humilde lar conta com a presença da grande Débora Gastal, que fica até o fim da outra semana para terminar a pesquisa da dissertação de mestrado dela, sobre a recepção do conteúdo de mídia alternativa. Mas mestrados a parte, ter a senhorita Gastal em casa significa também comer melhor.
O último prato da nossa parceria culinária foi uma bela lasanha de berinjela vegetariana. Mesmo a Dé, que sofre quando não vê um bife no prato, curtiu (inclusive, foi ela que sugeriu a receita, que contava com presunto, mas isso a gente ignorou).
De novo, comemos rápido demais para tirar fotos. E rápido demais também é uma boa forma de definir o processo, que levou pouco mais de meia hora.
Vamos aos fatos:

Lasanha de Berinjela

2 berinjelas médias
2 tomates grandes
meia cebola
alho
queijo mussarela
sal
pimenta

Começamos nossa lasanha ecológica com o molho. Como a Dé é alérgica a conservantes fiz um molho de tomate basicão com os tomates, a cebola e o alho. Esquema de sempre. Refoga a cebola e o alho picadinhos, coloca o tomate, também bem picado, tempera e vai pondo água e mexendo até ficar com cara de molho.
Depois é a vez da berinjela. O truque pra não passar horas olhando o forno com fome é dar um susto nela antes de montar a lasanha. É só cortar a berinjela em rodelas ou na longitudinal, your choice, e jogar por dois, três minutos na água quente, pra dar um "susto".
Berinjela assustada e molho pronto é hora de montar a lasanha e partir pro abraço. Uma camada de molho, uma de berinjela, uma de queijo, uma de molho, uma de berinjela, uma de queijo... terminando com o queijo pra dar aquela cara bonita e borbulhante.
Em forno aquecido a lasanha fica pronta em menos de dez minutos. É só ficar de olho no queijo.

Frescurinha de berinjela

Aqui em casa sobraram umas berinjelas "assustadas" e aproveitei para fazer uma frescurinha. Piquei bem elas e refoguei com cebola e alho por uns cinco minutos, temperei com sal e pimenta e joguei uma bela colher de requeijão. Comemos com torradinhas enquanto a lasanha assava.
Bom apetite!

3.6.13

Guia prático de incentivo à troca de resistências de chuveiros para moças

Ou pequenas grandes vitórias da segunda de manhã

Acordei decidida a agarrar a segunda-feira pelos chifres, fui à padaria, passei numa ferragem no caminho, voltei para casa e troquei a resistência do chuveiro, queimado desde quinta-feira. Isso tudo antes das oito da matina!
Admito que uma das minhas inspirações (além do banho frio no outono carioca) foi o texto Resistência (de chuveiro) é sim questão de gênero, da Gabriela Monteiro, em que ela trata do mito de afazeres femininos e masculinos e de como somos criadas pra acreditar que só um cromossomo Y tem brevê de chegar perto de um chuveiro queimado.
Liberdade, Gabriela! Depois das resistências, ninguém mais nos segura!
Pedi assessoria a um amigo mais escolado nessas coisas via e-mail e ao senhor meu pai, que deram as orientações básicas. E põe básicas nisso! Agora com o doce e morno gostinho de um banho quente, fico me perguntando por que raios não fiz isso antes, quando o primeiro chuveiro queimou (sim, moro numa casa com dois chuveiros. Quando o primeiro queimou a reação geral foi, ok, tomamos banho no outro. Inércia amigos) e estou pronta para sair por aí espalhando as boas novas. Um videozinho que catei no Google também facilitou ao explanar o processo em imagens, que eu vou ficar devendo para vocês.
Vamos aos fatos.

1. Olhe o nome e a voltagem dos seu amigo chuveiro. Aqui em casa lidamos com um Bello Banho Lorenzetti, um dos mais vagabundos da marca, instalado pelo dono do apartamento. Atenção para a voltagem. Apesar da minha casa ser 110v o a instalação do chuveiro é 220v. Diz o porteiro que esquenta mais e gasta menos luz... Em caso de dúvida, tem um chuveiro desenhado no pacotinho da resistência. Confere se é igual ao teu e vai à luta.
2. Além da disposição é bom ter em mãos uma alicate, uma chave de fenda e uma lanterninha. Caso falte a lanterna tem vários aplicativos gratuitos pra smart fone que fazem esse papel.
3. Desligue a luz, desenparafuse os fios que prendem o chuveiro à parede (aqui em casa eles ficam presos a uma caixinha de cerâmica) e tire o chuveiro. Eu tirei com o cano e tudo por falta de habilidade, mas deve ter um jeito mais civilizado de fazer isso.
4. Abra o bojo do chuveiro e observe bem a posição da resistência queimada. Nessa hora o vídeo ajuda. Tire ela com a alicate e coloquei a resistência nova no mesmo lugar, também com a alicate. Pelo que entendo, o trecho mais longo da resistência é o da água quente e o mais curto da morna.
5. Feche o chuveiro, coloque de volta - caso você também tenha arrancado o cano da parede é bom passar uma fita veda rosca na junção antes de colocar de volta -, e deixe correr água com ele ainda desligado. Isso vai "encher o chuveiro"e evitar que ele queime.
6. Ligue a luz, o chuveiro e seja feliz!!!

2.6.13

Buda & Peste

Antes da volta macarrônica e do pc dizer adiós muchachos, a ordem cronológica deveria ter levado este relato até a graciosa capital da Húngria, Budapeste. Ou Buda e Peste, já que se tratam de duas cidades dividas pelas águas do Danúbio.
Sem consultar minhas anotações, lembro de um lugar muito bonito (e friiio), onde a gente se sente menos pobre que no resto da Europa já que a moeda local, o forint húngaro, vale um pouquinho menos de R$ 1, contra os quase R$ 3 do euro.
Mas voltemos a Buda e Peste. Melhor, vamos as fotos, que a noite já vai longe e a vontade de escrever se esvai.

Vista do Danúbio. Bem no fundo tá o parlamento.

A famosa Goulash soup.

Restinho de pôr-do-sol no Danúbio.



                    Mania de estátuas bizarras.                                         Monumento em homenagem aos judeus mortos na Segunda Guerra.

22.5.13

Back

Ok, o pc voltou ao normal, eu voltei de viagem e voltei ao trabalho, o que diminuiu consideravelmente a cota de textos por aqui. Guardei no caderninho algumas anotações sobre os destinos que visitei que, se não cobrirem os posts diários, ao menos cumprem a meta pessoal de colocar esses dois meses bancando a europeia por aqui.
No mais, posso dizer que foi tudo lindo e que ficou, além do desejo de viajar mais e sempre, aquela sensação gostosa de que o mundo é grande, mas não tanto. Afinal, o que são 12h de avião pra quem vive a 24h de casa territorialmente?

16.4.13

Realidade é

Perceber que por mais que a gente queira o quarto e as roupas encaixotadas antes da viagem não vão voltar para o lugar sozinhos.

28.3.13

PC problems

Apos anos de companheirismo e carinho mutuo (o lap top eh o novo cachorro), meu pc morreu. Ou ao menos entrou em coma. Sem ele fica dificil manter a meta de posts diarios. Escrever no celular eh possivel, mas bem ruinzinho. Fora essas falhas de acentuacao que me deixam horrorizada. Mas tenham calma, tenho procurado fazer registros no caderninho pra resolver isso assim que voltar ao Brasil. Ate lah, boa sorte e obrigada pelos peixes.

19.3.13

Free Ebooks

Interrompemos a nossa programação normal de viagem pra informar que o site Projeto Gutemberg oferece uma coleção enorme de free e-books!
Viva a teconologia!

O muro

Fui apresentada semana passada a um dos trechos do muro de Berlim. Magrinho e não muito alto o muro não parece tão intimidador.
Lego engano, explica a guia. O muro era horizontal. Antes de cruzá-lo era preciso passar por uma patrulha armada dos dois lados, outro muro mais baixinho, um campo de arame farpado sobre a mira de atiradores e afins. Estimam que ao menos 200 pessoas morreram tentando cruzá-lo. Outras mil e algo conseguiram.
A música Libre, do Nino Bravo, cantor espanhol que eu tão pouco conhecia, mas que todos do tour sabiam cantarolar, foi inspirada em Peter Fechterum guri de 18 anos que morreu sangrando ao tomar um tiro ao tentar pular o muro. Era a Guerra Fria, nenhum lado quis arriscar ajudá-lo.
Hoje o muro é mais uma linha vermelha no mapa com trechos aparecendo aqui e ali. Berlim ocidental era um trecho no meio da RDA, cercada pelo muro. O mais interessante é o East Side Gallery, pedaço em que vários artistas aproveitaram para grafitar.




18.3.13

5 dias em Roma

Estava falando ontem com o povo que está me recebendo aqui em Amsterdam - viva a irmandade entre jornalistas ao redor do mundo! - sobre os diferentes tipos de viagem e viajante. Enquanto tem pessoas que seguem a risca a listinha dos must see, cuidando pra marcar o xizinho do lado de cada um freneticamente, outras, e gosto de pensar que faço parte desse grupo, querem sim ver as atrações principais, mas não se importam de pular uma outra e preferem  flanar e desfrutar a fazer tudo de uma vez.
Pensando nisso, no meu dever virginiano de transmitir as anotações italianas para o pc e, acima de tudo, em como é bom simplesmente caminhar e tomar gellatos por Roma, segue um guia do que fazer em cinco dias na capital dos nossos corações.

Dia 1
O fórum com o coliseu lá no fundo

Ser clichê nem sempre é ruim. Se der, combine o horário de chegada com o horário do free walking tour - olha ele aí de novo -, assim você se localiza um pouquinho e tem uma ideia geral da história e dos principais pontos turísticos. E haja história, amiguinhos. Uma coluna do Pantheon sozinha é mais velha que o Brasil...
Depois do tour, parta para mais um clássico e aproveite para comer uma típica pizza romana* no Baffeto, na Via Del Governo Vecchio, atrás da Piazza Navona. Este é, segundo amigos, um dos únicos lugares em que se pode comer uma boa pizza no centro (muitas usam massa congelada, becks!), além de ter um preço mochila-amigável. A Marguerita, por exemplo, sai a 5 euros.
Depois aproveite que você já está por ali mesmo e entre com o pé direito no mundo dos gelattos tomando um sorvete na Gelateria del Teatro, numa das ruazinhas que sai da Via Coronari, mais especificamente a Via di San Simone, 70. Sorvete pra voltar a ter dé no mundo. Faça a siesta flanando pela cidade.

Dia 2

Audrey in Rome

Mais clichê. Hoje é dia de Coliseu. A entrada é salgada -16 euros -, mas vale também para o Fórum e para o monte Paladino, o que significa que se houver filar em frente ao dito cujo você pode comprar o ticket nesses lugares também e entrar direto, ignorando os outros pobres mortais. O ingresso para o Coliseu vale para dois dias, então se você fizer a pausa para o sorvete e ficar a fim de voltar amanhã, that's ok.
E já que a gente já está na área, eu recomendaria também uma passagem pelo Teatro di Marcello e pela Bocca della Veritá, aquela do filme A princesa e o Plebeu, em que se a gente mentir perde a mão, lembra? Se não, ver o filme antes de ir pra lá não é ma ideia. Ambos estão na rua atrás do Fórum, a Via del Teatro di Marcello.

Dia 3

Sala dos mapas

Sendo católico ou não, o Vaticano, faz parte de Roma e os romanos gostam como ninguém de uma igreja, vide os 522 templos espalhados pela cidade. Dá para ir a pé ou de metrô, parando na estação Ottaviano - San Pietro, da linha A. Aqui a atração se divide entre a Basília de São Pedro e o Museu do Vaticano. Não entrei na Basília - fila demais só para uma igreja, sorry family -, mas me rendi e visitei o museu. Uma vez lá dentro - e outros 16 euros mais pobre -, mandei um postal pro pai e pra mãe da Agência de Correios deles, afinal, é o menor país do mundo! Quando passei por lá o selo era a carinha do ex-papa Ratzinger.
Também é o momento de decidir o quanto de arte sacra você está disposto a encarar até chegar a Capela Sistina. Para um passeio mais ou menos rápido - é difícil passar menos de duas horas por lá -, eu recomendaria a Pinacoteca, o museu Egípcio, os afrescos de Raphael, a sala dos mapas, que é mara, e, é claro, a Capela Sistina. Daí vale ficar um tempinho sentado, escrutinando as paredes, muito mais que o encontro de indicadores entre deus e os homens.
Saindo do Vaticano volte obrigatoriamente a pé pela Ponte Sant'angelo, uma das várias pontes que cruza o Tibre. Se quiser, pode ainda visitar o castelo e me contar depois como foi. Cheia de estátuas ela é meio que um mercado de arte, com gente vendendo pinturas, artistas e afins. Quando passei tinha até um cara batucano super bem num monte de latas com uma plaquinha dizendo "estou economizando pra comprar uma bateria de verdade".

Dia 4
O monte Aventino

Agora que os balangadas principais já foram é hora de aproveitar a cidade sem stress. Vá ao bairro judeu, que fica atrás do Teatro Di Marcello, comer uma alcachofra à judia, e passar pelas ruazinhas do antigo gueto. Depois encontre a Isla Tiburtina no mapa, cruze a ponte para um café ou apenas aproveite para tomar um sol na quase graminha da ilha, que abriga umas principais maternidades da cidade, e siga em direção ao doce bairro de Trestevere. Se perca até encontrar a Catedral de Santa Maria de Trestevere e descanse um pouco nos seus degraus. O bairro, que já sofreu preconceito por ser "além do rio" e abrigar apenas trabalhadores hoje é um ponto cool e merece também uma caminhada à noite.
Cuide o horário e suba o monte Aventino até o jardim de laranjeiras para ver um dos melhores pores-do-sol da cidade, mas antes um detalhe. Um pouco a frente do jardim, na Piazza dei Cavalleri di Malta, onde está a Villa Malta, tem uma grande porta de madeira. Olhando pela fechadura - sim, olhando pela fechadura -, surpresa, a gente vê a cúpula da basília de São Pedro emoldura pelo jardim.

Dia 5

Uma das muitas pontes romanas


Se você estiver em uma pegada de museus, acorde cedinho e vá a Galeria Borghese, numa das pontas da cidade. Tem que ligar pra reservar, mas vale a pena. O acervo deles é muito bacana e vai de pinturas de Raphael a esculturas de mármore antigravidade. A Galeria está no meio da Villa Borguese, o Central Park romano. Mapinha em mãos, aproveite para tomar um sol no parque - ou siga até o Museu Nacional de Arte - e vá caminhando em meio a ele até a Piazza del Popollo. Dá Piazza, marque mentalmente as praças Navona, Spagna, Campo de Fiori e divirta-se caminhando de uma a outra e tomando um expresso aqui, um gelatto acolá, um pôr-do-sol em uma das pontes da cidade. Dizem os guias que o melhor gelatto é o de San Crispino, ali perto da Fontana de Trevi. Já que é assim, passe por lá, pegue o sorvete de merengue, carro chefe da casa, e termine o passeio olhando a fonte que inspirou Fellini e jogue uma moedinha para garantir a volta. Não que precise. Depois de cinco dias em Roma é impossível não querer voltar.

E acabaram os cinco dias. Nem falei de San Lorenzo, no Monte Testacchio. Ah, Roma, já deu saudade...

*Existe uma rivalidade entre a pizza romana e a napolitana.  Enquanto a pizza romana e fininha, fininha, quase uma panqueca, a napolitana orgulha-se de ter uma massa rechonchuda, com bordas de respeito. De qualquer forma, prepare-se. Elas são bem menos queijudas e recheadas que as brasileiras, o que pode causar alguma decepção.