28.2.13

O parquinho dos arquitetos em Barcelona

A temporada na Espanha começa a ganhar uma rival a altura. A Itália é fantástica e já estou com pena de ir embora na segunda-feira. Mas antes, e pra não deixar o relato capenga, vamos as últimas dicas catalãs.
Depois de fazer os passeios clássicos - Montjuic, Guell, Barceloneta, Ramblas*- tire um tempinho para conhecer a nova Barcelona.
A minha sugerência, como diriam os amigos espanhóis, é começar o dia com um piquenique nas areias da Barceloneta, antigo bairro pobre elevado ao hype pela praia e pelas reformas pós-olimpíadas, e terminar percorrendo, se possível de bicicleta, a parte mais nova da cidade.
Chegando na praia tem um restaurante de wok, massa oriental com tudo e mais um pouco dentro, moda por aqui. É só comprar, colocar a canga na areia e ser feliz, cruzando a bela vista com a habilidade com os hashis. Outra dica local é trazer a sua bebida - vinho, vinho! - do supermercado, já que o preço da massa é bacana, mas a água e afins não.
Depois procure uma das lojinhas que alugam bicicletas. No inverno é fácil encontrar bikes a 15 euros ao dia - e vale a pena. Se ocupe em percorrer a orla, entre no Macba, museu de arte comtemporânea (tome o cuidado de escolher uma bici com corrente e cadeado, para poder parar com calma), e siga na direção contrária ao hotel W pela imensa ciclovia que beira o mediterrâneo.
A paisagem vai perdendo o ar turístico, mas não desista. Em vinte minutos de pedalada você passa pela Barcelona olímpica, o Pobleneu, completamente diferente do centro histórico e mais convencional, e chega ao "parquinho" dos arquitetos que desenham a cidade atualmente. São prédios diferentes, mas que fazem sentido nesse contexto. Tome um café nos arredores do Fórum para recuperar as energias e volte por dentro do bairro, pela ciclovia da Avenida Diagonal, que começa ali na Rambla de Prim, voltando a praia pelo Passeig de Sant'Joan.
Pronto, agora você conhece uma Barcelona um pouco diferente dos guias turísticos.

*Rambla é a denominação genérica barcelonense de boulevar, aquele calçadão do pedestre. Quando a gente fala em As Ramblas de Barcelona, está se referindo as tradicionais ramblas do centro da cidade, um dos pontos turísticos mais famosos. Caminhe por elas, se encate com as estátuas vivas, as flores, mas não cometa o erro de sentar e comer por lá.
Como qualquer main streem turístico, a ideia geral é tirar o máximo o dinheiro dos desavisados. Em caso de fome desça em direção à praia e busque a Plaza Real, pracinha a duas quadras do Mercado Bocheria, onde é possível comer primeiro prato, segundo, sobremesa e vinho por 10 ou 12 euros em simpáticas mesinhas ao sol com guardanapos de pano e serviço de primeira classe. Recomendo o 15 Nits.

27.2.13

Sobre a neve ou Rosebud

"Prazer, Olga."

Nós, da grande Caxias do Sul, gostamos de dizer que conhecemos o frio, jogar na cara do resto do país que temos o privilégio da neve, raridade nessas terras tupiniquins.
Quanto ao frio, não tenho do que discordar. Ninguém gosta tanto de passar frio quanto os gaúchos.E dá-lhe gostar. Só isso explica viver sem calefação em um lugar em que os termômetros chegam com alguma frequência aos - 5°C e flertam com o zero boa parte do inverno.
Agora neve, amigos, neve a gente nunca viu por lá. No máximo uma chuvinha congelada caindo marota.
Depois de uma semana em Bologna, frente a uma nevasca que deixou a Emília Romagna com cara de Noruega, e a insistência dos flocos brancos de caírem em especial quando eu colocava o pé na rua, cheguei a conclusão de que a neve é linda. Da janela. Pra esquiar. Pra sonhar com natais brancos. Não para viver.
Ao menos no domingo o tempo deu uma trégua e pude fazer check em dois itens da lista "before I died I want to":
- fazer um boneco de neve;
- fazer anjos na neve;
Só faltou coragem e uma calça impermeável pra sair escorregando neve abaixo e gritando Rosebud. Fica para a próxima.

22.2.13

Montjuic

Pôr-do-sol no Montjuic

Antes tarde do que mais tarde e aproveitando a neve que cai desgraçadamente em Bologna, tornando sair a rua sem rumo uma missão para os fortes, vamos continuar com um pouquinho mais de inverno espanhol. Todo mundo junto cantando "Barceloooona"...
Se na terça-feira eu chutei o pau da barraca e caminheiro mais que os romeiros em direção a Caravaggio, na quarta acordei com calma e separei o dia pra apreciar os museus e arredores do Montjuic.
O jeito mais fácil de chegar ao monte, um pouco mais longe do centro que a maioria das atrações, é ir de metrô até a Praça de Espanya e subir com calma as escadas rolantes que seguem até o Museu Nacional de Arte da Catalunya. No meu caso, tive a sorte de conseguir um cartão bicicleta emprestada -- as bikes são apenas para os moradores -- e ir toda diva até a praça por alguns dos mais de 200 km de ciclovia de Barcelona.
Antes de sair da praça também é legal dar uma olhada na faixada do shopping Arenas, nada mais do que uma antiga arena de touradas - a Catalunya foi o primeiro estado a abolir o "esporte". Mas também não precisa passar da faixada, único item preservado pelo povo que tornou o lugar um centro comercial. Depois dê um pulo no museu CaixaForum, sempre com alguma exposição bacaninha. Sai de lá com uma fita dessas do sr do Bomfim dizendo "I wish the world was my home", parte da instalação de uma artista brasileira que pesquisou os desejos mais recorrentes. Tá no pulso com os três nózinhos. Numa dessas vai que...
Escada rolante acima, se você ainda estiver no pós almoço vale ainda parar nas escadas em frente ao museu pra apreciar a vista da cidade e a música dos artistas que costumam bater ponto por ali. E é ponto mesmo. Tanto no metrô quanto nas ruas, esses artistas pagam uma taxa à prefeitura pelo direito de se apresentar. Depois, com a digestão devidamente feita, entrar no museu. A dica é aproveitar as exposições temporais, em sua maioria gratuitas.
Seguindo em direção ao topo do monte vale visitar ainda o Museu do Miró - 11 euros o ingresso inteiro pra exposição permanente - e o castelo do Montjuic. Admito que o pôr-do-sol ganhou e e não cheguei ao castelo. O bom é que sobra algo pra fazer quando eu voltar.
Depois é só descer pelo meio do parque, lindo e todo planejado, e tocar pra algum bar comer um tapa e tomar uma canã que ainda é cedo e a noite em Barcelona é longa. Fui primeiro, por conta dos amigos, no El Mundial, no Born, e saí feliz da vida, me descobrindo uma apreciadora de talharins (marisquinhos, não sei como chama à brasileira), mexilhões e beringelas chips, uma incrível combinação de beringela frita, queijo de abra e mel. E, como não poderia deixar de faltar estando em um dos bairros mais boêmios da cidade, terminei a noite desgustando cervejas num dos bares vizinhos.
Meus amigos tiveram inclusive a chance de passar por uma típica experiência catalã ao tomarem um balde de água na cabeça por falarem muito alto enquanto fumavam do lado de fora do bar.
A gente que não fuma pode até perder os babados da hora do cigarro, mas chega sempre sequinha em casa.

21.2.13

Diálogos, versão macarrona skypeana

Eu, direto de Bolonha, Itália, mostrando a janela pela câmera do pc: -- Olha mãe, aqui tá nevando.
Mãe: Ah, to vendo. Que bonito, minha filha. Os telhados todos brancos!
Eu: Ahhh, esses não são os telhados. É o céu.

19.2.13

Do Guell ao Gótic

Mais um pouquinho de Barcelona, antes de entrar de sola nas crônicas italianas. Como diria Jack Estripador, vamos por partes, o segundo dia, no caso.
Comecei minha a terça de manhã em Barcelona cedinho, ainda um pouco desnorteada com a falta de luz do inverno europeu - o dia começa a clarear só aí pelas 7h30, 8h -, e toquei para o Parque Guell.
O Parque fica num ponto bem alto de Barcelona, não muito longe do metrô, e faz parte de um projeto de Gaudí e do seu então patrão, Guell, de construir uma vila longe do centro urbano onde as pessoas pudessem ter uma vida mais ligada a natureza. Também é onde a gente tem a clássica vista da cidade com a varanda curva colorida do Gaudí emoldurando o skyline.
No fim a vila não deu certo, a cidade chegou até ali e o parque permaneceu, apenas com duas casas, uma delas residência do Gaudí. Dei azar e peguei a tal casa fechada - é comum que o povo decida reformar as atrações na baixa temporada -, mas ainda assim pude entender bem o seu projeto.
Todo o parque é curvo, integrado, colorido. Gaudí na veia. E o melhor, entrada é gratuita, o que é raro em Barcelona. Só é legal chegar cedo pra fugir da multidão de turistas costumeira. Mesmo no inverno me incomodei um pouco com o excesso de gente fotografando mais do que olhando e vivendo o lugar e as 10h já me dei por vencida. Imagina no verão.
Dali parti caminhando em direção ao Barrio Gótic. Como Barça é toda em declive, não vi problema nenhum em fazer esses 40 minutos a pé. O bairro é um ótimo lugar pra se perder e preserva até hoje características da Idade Média, que levam muitos diretores a filmarem parte de suas histórias de época por aqui. Entre as atrações "standart" estão a Catedral de Barcelona - que não é a Sagrada Família - e os portôes da antiga cidade romana.
É uma boa procurar um Walking Tour pela região, assim além de ver os prédios históricos a gente sabe ao menos um pouquinho da história de cada um. Fui de mãe Google e fiz em outro dia o Free Tour - sistema em que a gente paga o passeio no fim através de gorjetas, de acordo com o que cada um achou -, do Travel Bar com uma guia francesa-grega e gostei bastante. Mesmo me achando uma turista curiosa muito habilidosa, descobri vários cantinhos que passaram desapercebidos no primeiro passeio.
Alí perto da Catedral também tem um dos muitos mercados da cidade, o Santa Catarina. Menos famoso que o tradicional Mercado da Boqueria,nas ramblas, é uma boa saida pra alimentação com orçamentos apertados. Apesar de eu achar que gastei muito bem cada um dos 10 euros do meu almoço no 15 Nits, na Praça Real, também no Gótic - entrada, prato principal, vinho E sobremesa com direito a guardanapos de pano, lugar agradável a vista da praça. Lágrimas.
Pra encerrar o dia, caminhei um pouco pelo Porto e pelo Born, bairro moderninho ao lado do Gótic onde está o museu do Picasso, conheci a igreja Santa Maria del Mar - turismo de igrejas acaba sendo meio inevitável por aqui -, e fui ao Parque da Ciutatela acompanhar o pôr-do-sol e descansar as pernas. Pernas semidescansadas ainda dei uma voltinha a mais e dei de cara com o Arco do Triunfo catalão, ao lado do parque, e me rendi ao metrô para voltar para casa. Morro acima. Me perdoei.
A noite acabou em carnaval, ou quase, na cidade vizinha de Sitges, onde carros alegóricos simplezinhos com gente muito animada e fantasiada na medida do possivel do inverno espanhol chacoalhavam ao som das piores músicas importadas do Brasil. O lugar fica a 30 minutos de trem e parece ser muito bonito no verão, já que o povoado é todo a beira mar. Em termos de carnaval, bem, depende... Um gaúcho acharia tri legal. Eu, que já vi o carnaval do Rio ao vivo, sai de fininho pouco depois da 1h.
A parte boa de viajar sozinha é que a gente pode ir pra onde quiser sem ninguém dizendo, "Paula, sua doida, para de caminhar e descansa um pouco". A parte ruim de viajar sozinha é que não tem ninguém dizendo, "Paula, sua doida, para de caminhar e descansa um pouco". Sendo assim, por recomendações amigas via e-mail, quarta decidi dormir um pouco mais de manhã, pra aguentar até o fim da viagem.

18.2.13

Sobre as memórias

Agora em Turim/Turino, depois de uma noite de sono e sonhos viajeiros, tenho pra mim que talvez a memória da Espanha que tem mais potencial de perdurar foi o fim de tarde que passei no Montjuic, em Barcelona, sentada nas escadas em frente ao museu de arte da Catalunya, ouvindo com gosto o senhor que tocava violão pra meia dúzia de turistas e desavisados que aproveitam os últimos raios de sol do dia, como se fosse a plateia mais importante do mundo. O sol ia embora ao sol das letras bonitas e tristes de Joaquin Sabina e eu olhava a cidade de cima encantada, querendo congelar o tempo.



"Yo no quiero un amor civilizado,
con recibos y escena del sofá;
yo no quiero que viajes al pasado
y vuelvas del mercado
con ganas de llorar..."




17.2.13

Locomoção à espanhola

Calle Madrileña

ou como se mover em Madri e Barcelona

Pausa para um post funcional. Quem vem do caos brasileño deve se perguntar, "ela me manda flanar por aí, mas como raios eu volto pra casa depois?". Não criemos cânico.
Tanto Madri quanto Barcelona tem uma bela rede metrô que cobre se não toda boa parte da cidade. Junte-se a isso uma grande malha de trem e ônibus.
O legal é comprar um passe de dez viagens de transporte público. Vende em qualquer estação e vale tanto pro metrô quanto pro ônibus. Pergunte também o mapinha da malha de metrô, gratuito.
Em Madri me ofereceram um passe turistico de 35 euros que valia pra passar uma semana andando de metro/bus. Fuja. As duas cidades são altamente caminhaveis, tem distâncias amigaveis e merecem ser exploradas a pé. Dificil gastar tudo isso apenas em transporte.
Em Madri o passe pra dez viagens custa 11 euros - excessão pro metrô até o aeroporto, que tem uma taxa de três euros - e vale tanto pro metrô quanto pro ônibus. Vale a pena. Uma viagem custa entre 1,50 e 2 euros, conforme a distância. Você pode comprar no caixa ou em máquinas que aceitam dinheiro ou cartão, uma boa forma de conseguir trocar dinheiro e o metrô funciona todos os dias até a 1h, o que acaba sendo 1h30, dependendo da estação.
Em Barcelona também vá de passe. As dez viagens saem por 9,80 euros e valem idem pro ônibus. Aqui o metrô funciona até a meia noite de domingo a quinta, até as 2h na sexta e vésperas de feriados e 24h nos sábados.
Mas quem perder o último metrô não precisa se desesperar. Nas duas cidades uma viagem de táxi nas zonas centrais não costuma sair mais do que 10 euros - paguei 9,20 da estação de trem de Sans até a Gracía, o que é bem longinho pro catalães - e há ônibus que funcionam all nigth. Em Madri abusei da sola de sapato e voltei da balada caminando algumas vezes. Em Barcelona tentei o Nit Bus, que sai da Praça Catalunya e custa 1 euro. Também voltei de um bar as 2h com a bicicleta de uma amiga.
Mas sigo na mesma tecla. Faça questão de ter o passe de dez viagens com viagens sobrando quando sair da cidade. O negócio é caminhar.

Barcelona. Nunca te vi, sempre te amei

Casa Batlló

Cheguei em Barcelona na segunda e tive um leve ataque de pânico de viajante. "Socorro, só vou ficar aqui até sábado. Não vou conseguir ver nada!", pensei com o zíper do meu casacão de inverno. A capital catalã - e Barcelona, amigos, é parte da Catalunya, não da Espanha - é o tipo de lugar em que se a gente fica uma semana tem programação pra uma semana, ficar duas, tem programação pra duas e por aí vai.
Após tomar o metrô, com as informações todas em catalão, assim como todos os museus, lojas e menus da cidade - os lugares bonzinhos dão uma canja e colocam também em espanhol e apenas os mais turistões, e olha lá, em inglês -, e deixar minha mochila na casa do amigo que me recebeu respirei melhor e parti pra tática "lugar pra voltar".
Funciona assim. Quando você estiver em lugar muito legal, desses que dá vontade de morar, e bater o desespero de ir embora/não conseguir fazer tudo é só mentalizar que essa é a primeira vez. A gente tem a vida inteira pra voltar. E acaba voltando, don't worry.
Fiquei hospedada no simpático bairro da Gracía. Longe pros moradores da cidade, tremendamente perto pra quem já subiu e desceu as ruas dos labirintos cariocas e paulistanos. A região era uma cidade até 1897, quando um plano de expansão de Barcelona incorporou suas ruas e prédios baixos a malha urbana da capital. Como bons catalães, há um movimento independentista no bairro que luta pela separação da Gracía de Barcelona.
Aproveitei o primeiro dia pra caminhar pelos arredores de casa, conseguir um mapa e conhecer o Passeio de Gracía, a Oscar Freire da cidade, e também algumas das criações mais famosas do Gaudí como a Pedrera e a Casa Batlló, além da "quadra da discórdia", que recebeu esse nome por ter um conjunto de edifícios únicos e quem ninguém foi capaz de dizer qual era o mais bonito.
Recomendo muito esse flanar pela cidade sem a obrigação imediata de ver nada. Barcelona é o lar do modernismo catalão, um movimento arquitetônico de gente kind crazy e feliz que enfeitou a cidade com construções curvas e decoradas, que só existem aqui.
A dica é localize o metrô mais perto da sua casinha/hostel, consiga um mapa - na praça Catalunya tem uma central de informações grandona e também o Cortê Inglês, o maior supermercado/loja de tudo um pouco da Espanha, que oferece uma mapa gratuito bacaninha - e se perca sem medo caminhando pro lado que der vontade. Também funciona em Madri, outra cidade com uma bela malha de metrô.
E, se o cansaço deixar, volte caminhando. Esse processo de reconhecimento a base de sola de sapato é que nos aproxima dos locais e dá aquela sensação boa de reconhecimento, ajuda a aprender como a cidade funciona.
Fico por aqui, já que o post já vai mais longe do que deveria para apenas um dia de viagem. Mas vai dizer que Barcelona não merece o "socorro" lá do começo do texto?

11.2.13

Impressões madrilenãs


Depois de seis dias e uma noite em Madri sai de lá com aquela sensação gostosa de ter um lugar para voltar. O que mais me impressionou é o fato de ser uma cidade para se viver, feita para pessoas e, mais importante, em que os moradores aproveitam isso.
As calçadas são largas, as avenidas estão cheias de passeios públicos arborizados e são os carros, não os pedestres, que param na hora de atravessar a rua. O transporte público é ótimo e cobre toda a cidade num sistema que conta com ônibus, trens, metrô e até uma linha circular pra facilitar a vida de quem se perde nessa malha ferroviária - nada que um mapinha distribuídos nas estações não resolva -, mas o legal mesmo é caminhar.
Ainda mais quando a gente vem de uma noção brasileira de metrópole, que faz tudo parecer tão peeeerto. Para vocês terem uma idea Madri tem cerca de 600 km² e 3,2 milhões de habitantes contra os quase 500 km² e 1,5 milhões habitantes de Porto Alegre.
E voltando aos madrileños, ô povo que gosta de rua. Mesmo com o friozão sempre tem alguém passeando pelos parques e pelas calles da cidade, sejam 2h da tarde ou duas da manhã, o que vale tanto para velhinhos quanto para crianças. Já imaginou encontrar a nonna na Augusta jogando conversa fora com as amigas na madrugada? Es Madrid.
Outro ponto marcante do povo espanhol, e em especial dos moradores da capital, é a capaciadade de se divertir. Quem vê as ruas de bares cheias de segunda a segunda nem desconfia que o pais vive uma de suas maiores crises. Nada abala a tradição de salir a tapear - nada mais nada menos do que comer um tapa com um canã (nome local pra ceva) ou vinho ou complete com a bebida que preferir em um lugar, e depois em outro, outro e outro até quando se aguentar (tem até um ganchinho no balcão pro povo colocar os casacos e bolsar, comer de pé e cair fora).
E isso tão pouco significa namorar a pobreza, já que os tapas custam em média 3 euros e muitos deles acompanham a bêbida. Três são mais do que suficientes pra fazer a alegria da noite. Recomendo a o bairro La Latina, nos arredores da Plaza Mayor, cheio de ruazinhas bacanas pra se perder engordando.
As festas também costumam ser de graça - e da-le povo que curte uma festa - e também estão sempre cheias.
Enfim, moraria fácil em Madri.

Gastos primeira semana

Deixei Madri ontem à noite rumo a Barcelona depois de uma grande semana da capital espanhola. No total gastei cerca de 20 euros por dia - as vantagens de ter um teto amigo para dormir - divididos basicamente em comida, museus, transporte público, comida, vinho, chá, comida, vinho.
Suspiros pelos vinhos bons a 3 euros e pelas cavas (espumantes) a 5.
Também ajudou ter optado por tomar café da manhã e jantar em casa na maior parte dos dias, deixando o grosso do turismo gastronômico para a hora do almoço e os eventuais tapas (pedaços de pão com tudo que a gente pode imaginar em cima em pequenas porções).
Com menus - combinações fechadas previamente pela casa de entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa - a 10 euros ou menos por todas as partes, vale muito a pena transformar o jantar num lanche acessório.
Outro achado que ajuda a não se perder nos gastos são os aplicativos de viagem. Como sou nova nesse mundinho - alôu Whats App que vai fazer duas semanas no meu cel - optei pelo Trip Control. Ele pede uma previsão de gastos e a partir dai fica a cargo da pessoa registrar quanto gastou e com o quê que ele vai diminuindo, com um histórico que dá a soma dos gastos e a data e horário da inserção.
Já vi que aqui em Barcelona os dias serão um pouco mais salgados. Só os museus custam o dobro do que o de praxe na capital e até onde eu vi não tem a mamata de entrar de graça depois de certo horário (o museu do Prado é free depois das 18h e o Reina Sofía depois das 19h, por exemplo).
Mas, né, ninguém aqui quer pirar no orçamento e ficar sem cash pra chegar a Londres, tão pouco chegar tão longe e não aproveitar. Esse é só um controle. E que venham mais tapas, vinhos e pores-do-sol além mar.

8.2.13

Muita calma nessa hora

Hoje foi o dia da pegadinha. Liguei para a agência do Banco do Brasil em Madri para resolver a história do cartão e descobri que eles só dão informações pessoalmente. Acordei cedo, peguei o metrô até o banco e nada. O endereço de metrô que eles passam na internet está errado.
Pedi ajuda ao jornaleiro, descobri o endereço certo, peguei o metrô novamente e fui ao banco para descobrir, veja só, que o Visa Travel Money via BB não está funcionando para saques em NENHUM lugar da Europa. E que eles inclusivem já tinha avisado ao banco no Brasil sobre isso...
Sai de lá dando pulinhos de raiva e mentalizando o melo do viajante com problemas, "muita calma nessa hora, você ainda vai rir de tudo isso no final da história".
Voltei caminhando pra casa, passei numa padaria e comprei um croissant com queijo brie e tomate e um sanduichinho de salmão por menos de  R$ 9, respirei fundo e encontrei por acaso o lindo prédio da Biblioteca Nacional por acaso no caminho. Ok, dane-se o cartão. Estou em Madri.

Inverno em Madri

Solão no Parque do Retiro

Cheguei em Madri segunda preparada para o caos em forma de frio - ainda mais depois da vida no Rio ter bagunçado o meu termostato serrano -, mas encontrei uma cidade não só muito bem preparada para o inverno, como dona de um clima agradável.
As máximas chegaram perto de zero ao longo da semana, o que assusta quando a gente vê a previsão, mas não se traduz no fim do mundo na hora de por o pé na calle. O segredo é o tempinho seco e sem chuva ou neve. Quem conhece o Rio Grande do Sul sabe bem a diferença entre o frio com sol, sinônimo de comer bergamotas na grama, e os dias úmidos e pegajosos em que a gente quer se esconder.
Com um bom casaco, uma blusinha leve de lã por baixo, uma manta e meia calça para os mais friorentos não há frio que resista. Sai lépida e faceira pelas ruas - porque Madri tem uma malha de metrô gigante, mas é bonita demais pra gente andar por debaixo da terra - tanto de manhã, quando à tarde, à noite e até de madrugada numa boa. E quando o frio começa a pegar é só entrar em algum lugar fechado - tudo tem calefação, até o metrô.
O único porém desse tempo pra quem está acostumado com a umidade tropical brasileña é a secura, que machuca a pele e racha os lápios. Creminho neles e tá tudo certo.
Fora a beleza das árvores sem folhas que enfeitam a cidade e a desculpa permanente pra parar num café e tomar um chocolate quente sem culpa.

P.S. Quem me vê de costas sem o casaco pensa que abracei um ganso. Ele - casaco, não o ganso - é quentinho, mas solta penas que é uma beleza.
P.S.S. Fotos da viagem no Flickr.

7.2.13

Travel money do Banco do Brasil = furada

Escolhi fazer um Visa Travel Money via Banco do Brasil por ser o meu banco e tal e por parecer uma maneira mais segura de carregar meus euros pra cima e pra baixo nesses dois meses. Ledo engano.
Na primeira vez que tentei sacar dinheiro, ainda no aeroporto, o caixa engoliu o cartão pra nunca mais devolver e ainda por cima fingiu que não aconteceu nada!
Depois de meia hora de medo, suor e quase lágrimas a máquina resolveu devolver o bichinho. E o meia hora não é retórico. Deu tempo de ir até o caixa de informações, em outra asa, pedir ajuda - é o Barajas, um dos maiores aeroportos da cidade, lembrem -, e voltar. Encontrei o cartão na boca do caixa por acaso, quando caminhava desolada em direção ao metrô.
E isso aconteceu ainda outras duas vezes, nos caixas de uma agência bancária no centro da cidade. A sorte foi que peguei um atendente gente boa que abriu a máquina e resgatou o cartão. De novo. E olha que o BB garante que o cartão é prefeitamente seguro já que tem senha e tal. Só que não. Ele funciona como um cartão de crédito sem chip normal que qualquer ser humano pode usar caso o local não pergunte pela identidade.
Enfim, diga não ao Visa Travel Money do Banco do Brasil.

Paradoxo do viajante

Quero muito escrever, caminho nas ruas imaginado as histórias que posso contar, mas ao mesmo tempo não quero sentar em casa por nem um minuto a mais do que o necessário. Acho que podemos batizar esse sentimento de paradoxo do viajante.

6.2.13

A entrada nas Zooropa

Parque do Retiro, meu vizinho nesses dias madrilenõs


Saudações madrilenãs!
Dezesseis horas de voo e mais de dez mil quilômetros depois cá estou, lépida e faceira, na capital do Reino da Espanha. Madri é linda e temo ser parada e chamada de pateta na rua já que não consigo parar de sorrir. Por enquanto explorei mais os arredores e a parte história, mas a cidade que me aguarde. Ainda pretendo gastar muita sola de sapato por aqui.
Mas vamos aos fatos: a entrada na europa e os documentos necessários ou apenas psicológicos.
Antes de sair do Brasil preparei uma pastinha anti-deportação. Apesar dos amigos terem dito que agora as coisas estão mais tranquilas - época de crise, quanto mais turistas melhor -, é melhor garantir.
Como não tenho nenhuma reserva em hoteis ou hostels pedi a minha amiga Bruna, que me recebeu por aqui, e ao Dario, namorado de uma amiga que vai me dar abrigo em Torino, que escrevessem cartas convites. Basicamente um documento contendo o endereço deles, número do documento e tal intenção de me receber.
Depois imprimi a passagem de ida e volta pra mostrar que eu até posso sonhar em morar na Europa, mas que não tenho planos imediatos de colocar isso em prática, uma cópia do seguro de viagem e do meu extrato bancário, além do extrato do cartão de Travel Money.
O voo foi lindo, dormi quase o tempo todo - morram de inveja da minha capacidade de fechar os olhinhos e sonhas em absolutamente qualquer lugar - e cheguei primeiro ao aerporto de Amsterdam, para de lá pegar a conexão até a Espanha.
Sai, me espreguicei, escovei os dentes e encarei a imigração. As filas se dividiam e a minha ficou entre um policial branco muito alegre, que fazia piadas com as crianças e famílias, e um policial negro a la bad cop. Advinha quem eu peguei?
Cumprimentei o policial, ele perguntou o que eu pretendia fazer na Europa e quando eu falei viajar por dois meses, começando pela casa de uma amiga, ele fez uma cara séria/assustadora (ok, talvez só entediada, mas eu fiquei nervosa) e perguntou com que dinheiro e quem era essa amiga. Daí dele pastinha. Mostrei o extrato, a passagem, a carta convite... Ia quase mostrar uma foto do pai e da mãe quando ele resolveu que era o bastante e me deixou passar.
Dica: quando isso acontecer, não digam "rá, tu fez isso só para me assustar". Policiais holandeses não tem senso de humor. Já o aeroporto de Barajas em Madri, o terror do terror entre brasileiros, não me fez nem cócegas. Sai do avião pro metrô com uma escala só pra sacar dinheiro, o que também é outra história.

P.S. Pequenos post scriptum sobre preconceito. Na fila de embarque em São Paulo conheci uma guria indo pra Amsterdam mais ou menos da minha idade, claramente bem alimentada e de classe média, com roupas mais caras que as minhas e... negra. Passamos na imigração em filas paralelas. Enquando eu tive que responder duas ou três perguntas, ela chegou a ser revistada. Primeiro mundo, amigos. Nem tão evoluído quanto a propaganda gosta de nos fazer pensar.

2.2.13

A malisse de fechar a mala

Por mais que eu ache sair só com uma mochila nas costas, sem lenço nem documento, uma coisa linda de viver (quem me vê viajar do Rio pra casa acha q vou até a esquina. Pego sempre no máximo umas duas mudas de roupa, um casaquito, a carteira de motorista e nada más), dois meses são dois meses e dois meses no inverno europeu são 60 dias em que a gente não quer passar frio.
Pretendo, e isso vou descobrir se vai der certo ou não ao longo da viagem, sacotear pelas Zoroopa com uma simpática mala de rodinhas de mão e uma mochila pro lap top. Rolou um bullyng lá em casa de que eu não conseguiria, mas meu nome é Paula, sou brasileira e não desisto nunca.
Após olhares de desconfiança maternos (tirei uns dias pra ficar lambendo o pai e a mãe antes de partir) enchi minha malinha com:

- 7 camises de manga longa de usar por baixo;

- 7 calcinhas;
- 7 meias;

- 2 básicas;
- 2 calças de botar por baixo (os gaúchos vão entender);
- 1 calça jeans;
- 1 calça pseudo social de um tecido que amassa, mas não amarrota;
- 2 meias-calça;
- 1 casaco de moletom tri quentinho;
- 1 vestidinho de lã;
- 1 tênis pau-pra-toda-obra-bom-de-correr-caminhar-passar-o-dia;
- 1 All Star;
- 1 par de havaianas;
- 1 camisa bonita que não amassa;
- 2 camisetas de algodão pra barrar o frio - truque de Bianchi Jr que jura de pé junto que zero grau nenhum é pário pra combinação camiseta de usar por baixo + camiseta algodão + básica + casação.
- 1 boiná;
- 1 toalha de banho fininha;
- 1 mega casacão de frio que vira um rolinho e serve de travesseiro;
- 1 pijama;
- 1 manta azul cheguei para ficar;
- 1 lenço verde fiquei e tô gostando;

Olhando assim parece um montão, mas tudo ficou bem enxutinho.A mãe segue achando pouca coisa, eu sigo achando que dava pra diminuir. Ficamos no meio termo. E o sete não é cabalístico, mas um número suficiente pra usar uma semana e lavar. Porque ser chique, benhê, é poder carregar a mala da gente sem problemas, repetir roupa e ainda conhecer as lavanderias públicas das cidades que a gente visita.

1.2.13

Quase lá - gastos pré viagem

Tá chegando perto a hora da viagem.. Apesar de me assustar com o nível de organização de alguns amigos que a meses de por o pé na estrada já tem tudo programado enquando eu nem sequer tenho certeza pra onde vou depois que pisar em Madri, resolvi colocar a virginiana pra fora nessa finalera.
Fiz um Excel pros gastos, uma lista com o que levar de docs e outras picuinhas e ando namorando a minha mala pronta desde ontem - uma revolução, pra quem é acostumada a fechar o zíper sempre aos 46 do segundo tempo.
Passar dois meses fora requer algum dinheiro em caixa - menos do que se imagina, mais do que eu gostaria de gastar, por isso a planilha. Melhor tabular os gastos e evitar o temido momento de humilhação pública que é ter que ligar pra casa dizendo que faltou din din e pedir um crédito familiar.
Por enquanto já me desfiz de R$ 7 mil e uns quebrados. Pra quem se assustou, eu explico: esses gastos já incluem uma fatia em euros que serão usados na viagem. O plano é não passar dos R$ 10 mil, já que terei alguns arregos, como hospedagem na casa de amigos na Espanha e na Itália e a possibilidade de surfar sofás via Couchsurfing, mas esse já outro post.
Gastei U$ 209 num seguro de viagem, requisito obrigatório para a entrada em alguns países europeus. Depois de pesquisar, me assustar com os preços e pedir ajuda aos universitários optei pela World Nomads, uma empresa dinamarquesa especializada em seguro de mochileiros.
Além de ter o nome mais legal - World Nomads, all my love pra quem teve essa ideia - é dos poucos seguros que cobre esportes radicais. Não que eu seja "a esportista", mas é bom saber que eu posso esquiar e cair tranquila, por exemplo. Eles também são nórdicos, o que dá aquele arzinho de confiabilidade, e tem um dos melhores custo-benefício. Pra vocês terem uma ideia tenho U$ 2,500 de reembolso de bagagem e  uma cobertura de U$ 500 mil pra emergências médicas. Não pretendo usar, mas é bom saber que ela existe.
Outros R$ 2 mil foram pra passagem, da empresa holandesa KLM. O ruim é ter que fazer escala em Amsterdam, o que aumenta em 5h a viagem. O bom é fugir da imigração no aeroporto de Barajas, em Madri, um dos locais mais anti-brasilenõs da europa.
E, o que aparentemente quebra a banca, os R$ 5100 já transformados em 1800 euros no cartão Visa Travel Money. Confesso que sambei um pouco no câmbio - cada eurinho saiu a 2,82 somando todos os gastos pra fazer o tal cartão no Banco do Brasil contra os 2,70 e pouquinhos praticados pelas casas de câmbio -, mas acho mais seguro levar esse cartão que tudo na guaiaca. Fora que ele tem zero taxas pra gastos no débito e cobra apenas 2,50 euros e 0,0038% de IOF a cada saque contra os 12 reais e SEIS% de IOF dos saques direto da minha querida conta e dos gastos feitos no cartão de crédito. Eis as vatangens de estourar o seu limite comprando a passagem... Nem querendo posso pagar os 6% do IOF.
Hoje devo trocar uns 200 euros pra garantir o metrô, táxi e primeiros gastos no velho continente. Quase lá, amigos, quase lá.