31.7.13

Tag impressas e o meu banheiro do papa

Tem uma tag aí do lado criando poeira chamada impressas. Um pouco porque faz tempo que não tenho nada impresso, posto que agora sou uma moça que trabalha nas redações online da vida, outra porque a gente vai ficando mais exigente com o tempo e boa parte do material, mesmo ficando bacaninha, não parece digno de nota coisa e tal, tal e coisa.
Mas eis que no meio desse furacão papal - a Jornada Mundial da Juventude e seus dois milhões de peregrinos atacaram o Rio de um jeito que parece até piada falar em "imagina na Copa" depois de semana passada -, se sobressaiu um texto que me deu muita alegria em escrever e, pelo jeito, os leitores também curtiram.
A história é triste, mas tive a chance de falar de gente, os tais personagens no jargão jornalístico, que é justo o que mais gosto e que acho que faz essa profissão valer a pena.
Sem mais delongas, meu baño del papa (o filme, por sinal, também merece muito ser visto).

Homem faz "banheiros do papa" em Guaratiba e perde R$ 10 mil sem Francisco

Aos moldes do filme uruguaio "O Banheiro do Papa" (2007), que conta a história de um contrabandista que gastou todas as suas economias na construção de um banheiro para receber os peregrinos que passariam pelo pequeno vilarejo de Melo, na fronteira do país com o Brasil, por conta da visita do papa João Paulo 2º, o marmoreiro Rodrigo Silva empenhou R$ 10 mil para erguer 12 toaletes ao lado da sua casa, localizada em frente ao Campus Fidei.
  • Divulgação
    Cena do filme "O Banheiro do Papa", no qual rapaz pobre da fronteira entre Brasil e Uruguai vê uma grande oportunidade de negócios quando o papa vai visitar sua cidade: construir banheiros provisórios para serem usados pela massa que acorrerá ao local
O local, antes um manguezal coberto de mato, havia sido escolhido pela organização da Jornada Mundial da Juventude para receber a vigília e a missa de encerramento do evento, que aconteceriam neste sábado (27) e domingo (28), mas foi abandonado por causa da forte chuva que caiu sobre o Rio durante toda a semana, transformando o que deveria ser um local aterrado em um grande lamaçal.
 "E ainda tenho que pagar os pedreiros segunda-feira", lamenta Rodrigo, que como o personagem Beto, do filme dos diretores Enrique Fernandez e Cesar Charlone, viu os lucros da visita papal evaporarem sem deixar vestígios.
A Jornada prometia levar cerca de 2 milhões de pessoas a Guaratiba, bairro pobre e quase rural localizado a cerca de 60 quilômetros do centro, nas franjas da cidade, e chegou a ser comparada pela prefeitura à organização de duas festas de ano novo e um Natal, tamanha a sua grandiosidade.
Ao perceber as possibilidades trazidas pela multidão, o produtor de eventos Juracy Santana investiu ainda mais alto que Rodrigo. Com mais cinco sócios, comprou seis caminhões de refrigerante, água e afins, alugou 16 pontos de venda e contratou quase cem pessoas para trabalharem na força-tarefa que receber toda essa gente exigiria.
Na quinta-feira (25) de manhã, quando o rumor de que a vigília seria transferida para Copacabana tomou força –a possibilidade era ventilada desde o começo da semana devido à chuva, que deu trégua apenas no sábado (27)--, Juracy preferiu não acreditar e orientou que todos seguissem trabalhando. "Ninguém cancela um evento desse porte com menos de 24 horas de antecedência", afirmou.

O plano era abrir as portas na sexta (26), às 12h. Às 15h de quinta, quando o prefeito Eduardo Paes fez o anúncio oficial do cancelamento em uma coletiva no Centro do Operações, não havia mais o que fazer.
Dona do restaurante Hi Deu Certo, quase ao lado da casa de Rodrigo, Leila Santos de Oliveira tinha 3.000 quentinhas encomendadas. "Quando o pessoal da obra começou a almoçar aqui e comentar que o palco estava cedendo, vi que não tinha mais jeito", disse."Foram R$ 67 mil no lixo", conta. Um dos sócios chegou a vender o carro, um Fiesta, para entrar na empreitada. "Era o tipo de negócio que não tinha como dar errado. Nos prometeram que o mundo estaria com os olhos em Guaratiba, que a visita do papa iria mudar tudo. E agora?"
Sem papa nem peregrinos e com o serviço cancelado, a solução foi doar os 800 frangos congelados que havia comprado para os vizinhos e torcer para tirar parte do prejuízo na venda dos refrigerantes que estocou pensando na multidão com sede. "O chão de todo mundo caiu."

"Não tinha como dar certo"

O terreno, que ainda guarda quase toda a estrutura montada para a vigília, virou atração no bairro. Várias pessoas param para bater fotos do que restou das construções. Entre a lama e a água que tomaram conta do espaço, destaca-se o palco, com uma enorme cruz no meio, e o sem fim de tendas que iriam abrigar praças de alimentação e igrejas.
Os vizinhos do Campus Fidei, no entanto, já desconfiavam há tempos que a Jornada teria problemas. Há 15 anos no local, o técnico de aquecimento João Medeiros, que tem um pequeno sítio coberto de árvores frutíferas ao lado do terreno, diz que foi acusado de pessimismo pela mulher ao comentar, ainda quando começaram as obras, que não daria certo.
 "Eu sabia, não tinha como. Mataram o manguezal e não escoaram a água. Eu e meus filhos tirávamos caranguejos de balde daí, para aterrar precisava muito mais trabalho", afirma. Ele conta que passou dois anos ouvindo helicópteros e vendo caminhões entrarem e saírem da área na terraplanagem, mas não viu fazerem valas que levassem a água em direção ao córrego que corre perto do terreno.

Os próprios operários, que hoje guardam as instalações do campus e ajudam no deslocamento de parte do equipamento, dizem que não havia como fazer a vigília ali. "Se você caminhar um pouco para frente, a água bate no joelho. E o que não é água é lama. Isso precisava de pelo menos mais um mês de trabalho", afirma uma operária que guardava uma das entradas do Campus e preferiu não se identificar.

18.7.13

Viena antes e um pouco depois do amanhecer



Eu, eu mesma e Viena (com a amiga mala, que me acompanhou toda a viagem)

Passei por Viena a mil, a caminho de Praga, e me arrependi profundamente. Soubesse que a cidade era tão legal tinha ficado mais um tempinho. O que me lembra: de busão a Europa é muito mais barata. Paguei incríveis 15 euros de Buda a Viena, pela Orange Ways (o site é tosco, mas o ônibus é razoável), viagem que, se não me falha a memória, levou menos de seis horas.
Cheguei 20h na rodoviária onde todo mundo, thank God, falava inglês, e parti sem lenço nem documento a cata de um hostel no centro. Ao sair do metrô - o transporte público funciona mega bem e é outro ponto forte da cidade -, dei de cara com uma catedral iluminada por mil fragmentos de cor, o que, descobri depois, era uma forma de celebrar a quaresma. Parti às 13h do dia seguinte rumo a Praga, já com saudade.
Fora toda a memória de Antes do Amanhecer que a cidade evoca - quem não, viu, VEJA, e aproveita que o terceiro filme da trilogia, Antes da Meia-Noite está em cartaz -, e o fato de que, infelizmente, não encontrei nenhum Ethan Hawke no caminho, ficou a lembrança de uma cidade alegre e cosmopolita, vestígio, acho, do antigo reino Austro-Húngaro.

Pra não dizer que não cruzei com o Ethan...

Em tópicos, como mandam as anotações do caderninho:
- Se a Catedral é o coração da cidade, a ópera é a alma. Viena, além de ter acolhido Mozart e Bethoven, é repleta de música por todos os lados;
- Mozart, não se enganem pela produção clássica, era sexo, drogas e rock'n'roll e levava uma vida deverás boêmia para a época, ao menos foi o que disse o meu guia;
- Bethoven se mudou mais de 30 vezes. Parece que os vizinhos não eram tão fãs assim de seus "tã, tã, tãns" ao piano;
- Existe uma cozinha austríaca e uma cozinha apenas vienense, fruto da mistura que ser a capital do império austro-húngaro proporcionou. E vou dizer, parece boa pra caramba. Tem um mercado público que funciona todos os dias em uma avenida - não lembro o nome, mas é bem famosa -, em que é possível beliscar as gordisses mais deliciosas, como damascos recheados com nozes, azeitona entupidas de queijo e por aí vai;


A tal comida vienense

- Mesmo no frio a população da cidade curte a noite e sempre tem gente no calçadão sendo feliz;
- "Its was very nice, I am amuse" era a frase preferida do último imperador. Parece que ele pediu um palácio a um arquiteto, não gostou, expresso isso publicamente, e o cara se matou. Com medo de levar mais uma morte nas costas ele passou a usar o bordão sempre que perguntavaam o que ele achava de alguma coisa;
- Os garçons em Viena, como explicou meu guia, são feito maestros. Não ouse chamá-los, isso é uma ofensa terrível. Eles regem a sinfonia da sua visita e te atendem quando e se quiserem. Quase cariocas;
- É possível pedir um cafézinho e passar a tarde lendo em um café sem ser importunado. Os cafés, inclusive, tem um bom estoque de jornais e revistas. Pena que a maioria é em alemão...

17.7.13

Mais Budapeste

O Danúbio

Ainda sobre Budapeste, essa graciosa e triste cidade as margens do Danúbio. A Hungria tem hoje um sétimo do seu território atual e já foi palco de tantas guerras que o meu guia no walking tour, ao resumir os séculos de opressão, preferiu não se alongar mais pra evitar que o público começasse a chorar.
Tenho pra mim que três dias são suficientes para saracotear pela cidade, que é altamente caminhável, sem peso na consciência. Quatro, caso você caia de amores pelo lugar.
Achei Budapeste linda, mas com um clima meio pesado - serão as guerras, a crise, os vestígios do fim do comunismo? -, e na minha última manhã já esta era louca pra picar a mula.
Ah, e a título informativo - Buda é a parte antiga da cidade, nos montes, onde fica o castelo e as casas antigas imemoriáveis. Peste a parte plana, comercial, do outro lado do Rio. Melhor se hospedar em Peste, onde estão boa parte das atrações, e visitar Buda a pé mesmo.
Das minhas anotações, destacam-se:
- As termas - Fui na que fica no meio de um parque e tem pinta de museu. Tanto os prédios quanto os frequentadores parecem estar la há gerações. Água quente, sauna, massagens (mas tudo de uma forma muito casta), e hidroginástica com velhinhos húngaros. Vale por o biquíni na mochila pra isso.
- Os pubs mucho loucos construídos em casarões semi-destruídos pela guerra - O Szimpla é o mais famoso. Me diverti comendo cenouras orgânicas por lá no meio da madrugada. O bar tinha ainda um pé direito gigante e as paredes cobertas dos objetos mais improváveis. Na salinha em que sentei, para vocês terem uma ideia, a decoração era focada em televisões quebradas.
- O enroladinho de pão doce que eu não lembro o nome, mas é uma delícia e tem em qualquer padaria. A própria feitura é bacana de acompanhar. Tiras de pão (?) são enroladas em um cilindro de madeira, que fica girando como um churrasco numa espécie de forno. Também tem na República Checa, mas lá é menor. Doces húngaros no geral são muito gostosos.
- Os sapatinhos em homenagem aos judeus perto do Parlamento. Foi o país que teve um dos holocaustos mais rápidos e crueis. Milhares foram mortos e atirados ao Danúbio na primeira noite.

16.7.13

Diálogos - versão sabedoria fitoterápica materna

Meus pais são meu melhor personagem. Seu Paulo e Dona Marlei renderiam fácil um livro de crônicas. Enquanto esse pseudo projeto não sai do mundo das ideias, segue mais um diálogo materno.
Acordei me sentindo meio mal e fiz como um bom adulto. Liguei pra senhora minha mãe, vulgo Marlei Peteffi Bianchi, que junto com o pai tira férias nas tais águas quentes de Santa Catarina.
"Mãe, que que eu posso tomar?"
"Ah minha, filha. Faz um chá de casca de romã."
"Tô sem casca de romã..."
"Então procura um pé de goiaba e pega umas folhas pra fazer o chá."
"Hum, também não lembro de nenhuma goiabeira na vizinhança."
"E folha de pé de jabuticaba?"
Como faz pra praticar fitoterapia ítalo-serrana-gaúcha na urbe, ein?

15.7.13

Diálogos - versão família de férias nas "águas"*

Domingo à noite. Parte da família reunida em uma cidadezinha qualquer de Santa Catarina que teve a sorte de ter águas que brotam da terra quentinhas, top 5 passeios preferidos dos moradores da Serra Gaúcha. A filha liga pra saber como foi o fim de semana de semi-férias.
- E aí, gatão (vulgo, pai), tudo bom? Aproveitando bastante?
Por pai imaginem um jovem senhor de 63 anos, 1,68 de altura, lépido e faceiro, lutando com um ponteiro da balança que teima em passar os 100 kgs.
- Ah, tudo muito bem minha filha.
Do outro lado da linhas ouvem-se ais e assemelhados
- Só tô todo dolorido.
- Ih, atacou a coluna de novo?
- Não, fui no parque aquático com teus primos e resolvi andar no toboágua.
Ah, a juventude.

Paulo Bianchi, em toda a sua glória, se divertindo "pacas" (um dos seus advérbios preferidos) passando sulfato nas bergamoteiras.


Pequeno dicionários de gringolês:
 "Águas" - entende-se por águas todo e qualquer lugar em que é possível desfrutar de fontes de águas quentes canalizadas em piscinas naturais ou não. Último grito em São Paulo há 15 anos, Caldas Quentes, em Goiás, é hoje o último grito em Caxias do Sul.
"Vou para as águas" - expressão comum aos jovens de mais de 60 anos que se refere ao ato de se deslocar da Serra Gaúcha em direção aos tais locais em que é possível desfrutar de fontes de águas quentes canalizadas em piscinas naturais ou não.

*Post dedicado a Bianchi Jr, que veio, de forma justa e completamente cheia de razão, reclamar do abandono deste espaço pelo qual a gente nutre tanto carinho, mas alimenta vez em quando, quase nunca.